Blog 2 (PEAPAZ)

Saudades...

3541769446?profile=original

Saudades...

Maju Guerra

 

A tarde se vai, silenciosa e melancólica. A saudade adentra inclemente pela casa, chega à alma. Sem me dar conta, choro, as lágrimas escorrem, molham a minha blusa. Fecho os olhos, ouço os risos da minha avó, minha mãe cantando “Saudade, torrente de paixão, emoção diferente...”, música antiga, a preferida do meu pai. Sinto o cheiro de bolo de aipim mal saído do forno. Tudo volta de supetão, o cheiro do manacá, o papagaio engraçado falando bem alto, a minha gata cinzenta no colo, o verde e rosa da manga-rosa, o aconchego do fogão à lenha fervendo a água do café, lá fora o pé de cajá-manga. Meu peito aperta e dói, o coração se contrai. Criança eu sou, criança ainda sem saber da dor, do desamor, da desesperança, do desespero por amor. Do futuro, despreocupada, coisa tão distante, não dava pra saber nem ao certo se até existia mesmo.
Choro sentida. Eu era querida e protegida, aceita apenas por ser eu mesma, a menina de grandes olhos negros, a menina tão desejada. Não era julgada e nem avaliada, era amada, e o amor é generoso, não julga e nem disputa. Morava em um castelo de torres altas, cheio de cavalheiros a me guardar, me vestia de princesa com os vestidos de baile da minha mãe, o chapéu de flores da avó era a coroa, meu cavalo alazão era o galho da goiabeira. Tempo, velho eremita, tempo que passou tão rápido sem me avisar que não haveria volta, sem perguntar se eu queria tanta coisa dolorosa, se eu queria tantas perdas, sem me contar que a ilusão não costuma ser boa companheira. Tempo que me deixou descobrir, tão sozinha, segredos sombrios, que me deixou pensar que comigo seria diferente. Não poderia imaginar que um dia me sentiria tão sem amor e desvalida pelas várias voltas da vida. Queixumes e lamentos, entro no quarto e me deito, me enrolo na colcha de retalhos, herança da tia mais velha. Só mulheres queridas surgem nesses momentos pra me acolher, só uma mulher para compreender outra mulher. Quem sabe eu tenha um pouco de paz e de contentamento se conseguir sonhar? Quem sabe o príncipe encantado venha-me salvar?


Maria Julia Guerra.
Imagem: Google.
Mar, Pierre-Auguste Renoir.

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Belas Artes Belas.

Join Belas Artes Belas

Comentários

  • PRATA BABPEAPAZ

    Querida Maria Julia!

    Belo texto poético, que traz na recordação tantas lembranças felizes. Todos temos saudades em nossas vidas, mas  é feliz aquele que lembra das coisas e pessoas que amamos. Se temos saudades é porque o que vivemos foi bom. E, ficou guardado em nosso coração para sempre!

    Beijossssss     Arlete.

  • PRATA BABPEAPAZ

    Belo texto poético, querida MAJU! E, por falar em saudades, que saudades de você!

    Grande beijo!

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Texto poético tão bem escrito, que desperta em meu peito uma saudade longínqua...

    Beijossssssssss

This reply was deleted.