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Remorso

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Existem na face da Terra,

Histórias de arrepiar.

Eu vou lhe contar uma,

Que fará você chorar.

 

Contam que há muitos anos,

Lá pelas bandas do Ceará,

Um casal arrebenta os peitos,

Pro filho poder estudar.

 

Mandam o moço para a cidade grande,

Pra ciência cultivar,

Mas não sabe o pobre casal

A tristeza que vai comprar.

 

No começo até que foi bem

Estava dando pra se ajeitar,

Trabalhavam noite e dia

E o dinheiro podiam mandar.

 

Os anos foram passando,

A saúde a se acabar, mas

Uma coisa tinham na mente,

Ver o filho se  formar.

 

Mas um dia chegou à notícia,

Bronzina pede pro Berto olhar,

Começou a ler, pra sua velha,

Mas não conseguiu terminar.

 

A emoção dominou a casa

E o casal se pôs a chorar,

Olhavam as panelas vazias,

Mas o sonho a se realizar.

 

Mais do que depressa correram,

Correram pra se arrumar,

Vestiram os trapinhos que tinham,

Mas nos pés, nada puderam calçar.

 

Começa, então, outra luta,

Na estrada o casal a marchar,

Era grande a caminhada,

Mas com fé chegariam lá.

 

Enfrentaram muito sol e poeira,

Sede, fome, cansaço e calor,

Os pés formigavam e sangravam,

Mas a alegria era maior que a dor.

 

Finalmente era noite do dia vinte

Perguntando conseguiram encontrar,

O local bonito da formatura,

Pro filho doutor poderem abraçar.

 

Mas quando chegaram à  festa,

O mundo começou a desabar,...

O porteiro olha para os dois e diz:

-Por favor, queiram se retirar!

 

O velho se pôs de joelhos,

Pedindo ao homem, pra poder chamar,

Dr. Noé da Rosa Cunha,

Já que não, podiam entrar.

 

O filho, por coincidência naquela hora,

Entre amigos, orgulhoso, passa por lá,

Cruza o olhar com o dos pais que lhe acenam,

Despista e finge quieto pra ninguém notar.

 

Jamais imaginaram que um dia,

Por decepção igual fossem passar,

Agora, tristonhos e abatidos,

Começaram então a voltar.

 

Fracos de fome e com tanta angústia,

O velho vê, o seu filho se afastar,

Abraça calado sua velha ao peito,

E, começa, então, a chorar.

 

O desgosto da tragédia,

Acabou por mutilar,

Bronzina sofreu um colapso,

Pela dor do desprezar.

 

E a noite vai se adentrando

E os olhos começam a inchar,

Tão grande era a mágoa,

Que não vê a noite acabar.

 

Surge a manhã de domingo,

O povo começa a reparar,

Pergunta o que a velha tem,

Que não pode nem se arredar.

 

O velho soluçando e sem força,

Braços magros, quase sem poder falar,

Diz que sua velha está morta,

Mas não pode a carregar...

 

Comovidos com tal cena,

Param um carro, dando sinal,

Pedem ao moço, que faça uma caridade,

Levando os dois para o hospital.

 

 

Mas, à vida tem  surpresas,

Exatamente ao cruzar o sinal,

Um carro violentamente bate,

É Noé da Rosa Cunha, filho do casal.

 

Chega à ambulância e os levam,

Todos os três pro mesmo lugar,

Logo, onde fez residência, o doutor

Que desmaiados foram chegar.

 

Logo, logo, os amigos do médico

Pediam a todos para ajudar procurar

Os pais do doutor, pra doar um rim,

Para o colega poderem salvar.

 

Como não sabiam o endereço,

E nem puderam imaginar,

Tomaram aquele velho por cobaia,

Qualquer rim serve, pra poder remediar.

 

Pela fraqueza e paixão,

O velho começa a agonizar,

Apressam o processo da morte,

Para os rins poderem tirar.

 

E assim feita, foi à cirurgia

E o colega conseguiram salvar,

Puseram os velhos pais na geladeira,

Para depois poderem os estudar.

 

Recuperado e salvo, foi ver

De quem foram os rins doados,

Não acreditou no que estava vendo,

Ao ver o pai com a mãe, congelados.

 

Sentiu a presença piedosa de Deus,

Sentiu, também, a consciência clamar,

O velho pai, que ele havia desprezado,

Sacrificado foi, pra sua vida poder salvar.

 

Caiu de joelhos e sofrendo em remorso,

Junto ao pranto começou a se lembrar,

Do que tinha feito naquela noite, àqueles,

Que lhe deram a vida, e o conseguiram formar.

 

Chamando os dois pelos nomes

Fazendo os colegas se arrepiarem,

Enterra os dedos nos próprios olhos,

Fazendo, a consciência  vingar.

 

Gritando alucinado pela última vez,

Num histerismo anormal e profundo:

Os olhos que desconheceram meus velhos,

Jamais voltarão a ver, as belezas do mundo...

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Comentários

  • Prezado Confrade

    Antonio Antunes Almeida

    Linda e profunda estória que até poderia ser real no mundo em que vivemos;

    Abraços poéticos

    Armando A. C. Garcia

    SP 09-04-2016

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