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CONSIDERAÇÕES SOBRE O NATAL E OS EVANGELHOS

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O Natal se aproxima. A humanidade atual, ferozmente capitalista, se regozija com a data. Em nenhuma outra se vende tanto. Porém, abstraindo o lado pragmático e utilitarista com que é comemorada, pode-se perceber notável mudança nas relações entre pessoas: a inclinação para ofertar, doar. Não apenas presentes, bens materiais. Mais valioso que isso o presente da presença, do abraço, da palavra esquecida no cotidiano, do incentivo, da disposição para ajudar, levantar, encaminhar. Tornamo-nos mais gregários, afetuosos, amorosos mesmo. Mais humanos, enfim. E por isso ou só por isso, vale o Natal.


Segundo estudos acadêmicos, o Evangelho mais antigo, o de Marcos, foi escrito cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, por volta do ano 70. Os de Mateus e Lucas entre 80 e 90, o de João, último dos canônicos, entre 90 e 100. Os três primeiros que compartilham uma visão humana de Jesus, são chamados sinópticos. O de João nos mostra Jesus não como “filho de Deus” ou “messias”, mas como o próprio Deus. Elevou o galardão espiritual de Jesus e passou a moldar e por consequência limitar o dogma cristão da fé.


Nos primeiros anos do cristianismo aconteceram intensas disputas entre líderes e seus grupos dogmáticos, cada qual defendendo sua verdade a respeito de Jesus. Em 325, o imperador Constantino, recém-convertido ao cristianismo, visando estabelecer aliança com os líderes da nova religião, convocou um concílio internacional na cidade de Nicéia, no litoral da Turquia. Pois foi esse concílio que veio estabelecer as bases para o cânone do Novo Testamento com a inclusão dos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João e a exclusão de inúmeros outros textos que foram considerados “hereges”.


Porém, em 1945, textos contendo relatos, rituais e diálogos atribuídos a Jesus e seus discípulos foram descobertos em um esconderijo perto de Nag Hammadi, no alto Egito. Alguns têm o nome de Evangelho de Tomé e estudos acadêmicos comprovam que foram escritos no século I, mais ou menos na mesma época em que foi escrito o Evangelho de João. Há historiadores que acreditam que aquilo que João escreveu foi para refutar o que Tomé ensinava. E qual é a divergência básica entre os dois?


Em essência João afirma que Jesus não é apenas um servo de Deus, mas o próprio Deus, revelado em forma humana. Que somente Jesus oferece acesso a Deus, que é preciso crer em Jesus, seguir Jesus, obedecer a Jesus e reconhecer só a ele. Declara o Jesus de João: “morrereis em vossos pecados se não crerdes que eu sou ele”. E ainda: “Eu sou a luz do mundo” e “quem não me segue andará em trevas”. O Jesus de João é uma luz exterior, que brilha lá fora sobre a qual devemos firmar a vista e caminhar segundo nos direciona. Talvez com algum laivo de autoritarismo.


Por outro lado, O Jesus de Tomé é uma luz que brilha em tudo que vemos e tocamos. Assim fala Jesus, segundo Tomé: “Eu sou a luz que está sobre todas as coisas. Eu sou o todo. De mim surgiu o todo e a mim o todo se estende. Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai uma pedra e me encontrareis lá.” Diz mais: “O reino está dentro de vós e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, sereis conhecidos e compreendereis que sois vós os filhos do Pai vivo. Mas se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza.” Orienta ainda o Jesus de Tomé a que os discípulos busquem a luz oculta em cada pessoa: “Há luz no interior do homem de luz, e ilumina o universo inteiro. Se ela não brilha há escuridão.” Ainda mais: “aquele que busca, que continue buscando até encontrar. Quando encontrar, ele se perturbará. Ao se perturbar, ficará maravilhado.”

E para finalizar este resumo sobre o Evangelho de Tomé: “Pois quem não conheceu a si mesmo não conhece nada, mas quem se conheceu veio a conhecer simultaneamente a profundidade de todas as coisas.”
O Jesus de Tomé é uma luz que brilha no universo todo e por consequência dentro de cada ser humano e podemos alcançá-la pela inspiração, intuição. Seria aquela voz que se faz ouvir no mais recôndito da alma nos direcionando para a atitude correta, para o caminho do bem.


Estaria o mundo um tanto bárbaro daqueles primórdios do cristianismo preparado para o Evangelho de Tomé, ou não teria caído como uma luva o de João, mais assertivo e objetivo? Não estaria o mundo atual preparado para receber as luzes de Tomé no exato momento em que findava a segunda guerra mundial e o seu Evangelho foi descoberto?
Para terminar, lembro que a palavra grega para “fé” é usada da mesma forma como “crença”, mas devemos lembrar que fé geralmente inclui a crença, mas é muito mais que isso: é a confiança total que adquirimos e que permite nos comprometer com aquilo que acreditamos.


Minha fé está já forjada: busco o autoconhecimento e encontrar no âmago do meu ser a divindade que está presente em todo o universo. Disse o Jesus de Tomé: “procura que encontrarás”.

GONÇALVES, N. C; PEAPAZ; 04/12/2013

IMAGEM: GOOGLE

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Comentários

  • PRATA BABPEAPAZ

    Nilson,texto oportuno e reflexivo ....Obrigada por esse momento de paz..abraço

  • Parabéns amigo! Belíssimo e oportuno texto.
    Gosto muito do convite feito por Jesus:Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei...
    Aprender com Ele é maravilhoso !
    Abraços .
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