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BORORO VIVE! (coroa de sonetos)

Bororo, com pariko (cocar) e viseira.
Esplendor plumário de um chefe clânico ao
realizar os funerais dos seus parentes.


BOE-BORORO VIVE
(Coroa de Sonetos)


Escrito em homenagem a KADAGARE BORORO, que morreu, aos 94 anos (supostos), no dia 25 de junho de 2.009, às margens do Rio São Lourenço, na aldeia KOROGUEDO PARU onde nasceu e viveu; e onde eu o conheci, nos idos de 1974. Da metade Echerai e do clã dos Baadogeba Chebijëuge (os construtores de aldeias), foi um grande "xamã das almas", tido pelos Bororo como o maior líder espiritual desde os tempos que contra eles foram feitas as últimas chacinas, em fins dos anos 80 do século XIX. Ainda estão sendo feitos, enquanto escrevo, os ritos funerários: AROE J'ARO. Que fique aqui registrado meu profundo lamento nesta Coroa de Sonetos.

I

Renasce para a vida do amanhã

rememorando os cânticos sagrados,

mantidos no poder de cada clã,

segredos, pelos mestres, repassados.

Lições de vida ensinam-se às crianças,

em pleno rito fúnebre, se ensina

que a morte traz, em si, vida, esperanças,

o renascer do povo, que aglutina.

A dura morte tem poder, clemência,

fazendo reviver regras diversas,

para cerzir a dor, que está sangrando.

A morte assim provoca a convergência

dos membros de aldeias tão dispersas,

Bororo, de tão longe, vai chegando.

II

Bororo, de tão longe vai chegando

trazendo, cada clã, os seus segredos,

lindas plumárias sempre combinando

com seus grafismos, cânticos, enredos.

Diversas são as fontes de seus mitos,

que, na memória trazem bem guardados,

cantados, com prazer, em belos ritos,

que são, em cada morte, praticados.

Com zelo, vão levando seus cocares,

colares, conchas, brincos, braceletes,

penas de arara e, p’ra dormir, esteiras.

Bororo vem chegando de seus lares,

os corpos encobertos por enfeites,

trazendo seus cocares e viseiras.



III

Trazendo seus cocares e viseiras,

relembram d’outros tempos soberanos,

sem mortes por chacinas, sem bandeiras,

sem marcas do poder dos lusitanos;

na vastidão dos campos e cerrados

- outrora chão liberto, como o povo –

pescavam pelos rios e alagados,

a coletar sementes do renovo;

mas conheceram ímpios bandeirantes,

a vil chacina, a força desigual,

o sangue de seu povo derramando;

as lágrimas rolando em seus semblantes,

marcados por tristeza sepulcral,

plangentes, seus parentes vão saudando. 



IV

Plangentes, seus parentes vão saudando,

pensando em seus xamãs que já morreram,

nos grandes chefes mortos vão pensando,

rememorando tudo que perderam;

em meio a tanta soja e tanto gado,

nas terras ancestrais, que foram suas,

repensam seu viver discriminado,

saudosos de outros tempos, d’outras luas.

Seu importante líder, ora morto,

não cantará, jamais, seu canto forte,

portando sobre os olhos as viseiras.

No São Lourenço, chegam lá no porto

trazidos pela dor e pela morte,

e vão se acomodando pelas beiras.



V

E vão se acomodando pelas beiras,

com seus parentes clânicos primeiros,

nas casas, todas feitas com esteiras,

lugar que se reúnem os parceiros...

No pátio arredondado todos choram

um pranto tão cortante, comovido,

e aos deuses e ancestrais, enfim, imploram,

a alma encaminhar, como é devido.

O corpo jaz no pátio sepultado

- local central onde se passa a vida –

seguindo antigas regras da cultura.

Não longe, pelo fogo, iluminado,

seu lar e sua última guarida,

na aldeia, no seu centro, a sepultura.



VI

Na aldeia, no seu centro, a sepultura,

regada todo o dia e noite afora

e, como manda a regra da cultura,

não deve trabalhar quem tanto chora.

Parentes choram e sangram a imensa dor,

e assim se passam muitas noites, dias,

mandando pelos ares, seu clamor,

os seus penares, suas agonias.

E para as almas vão caçar, pescar,

(mulheres ficam em casa, a lamentar

a morte de seu líder, tão amado)..

Reparam com o rito a perda, o dano:

é tempo bem marcado, não profano,

um chefe, em cova rasa, sepultado.


VII

Um chefe, em cova rasa, sepultado,

promove a convergência dessa gente,

por vivos é, por lei, representado,

fazendo-se, no rito, assim presente.

Passados tantos dias, tantas luas,

exuma-se o seu corpo, putrefato,

dos ossos se retiram as carnes suas,

com ritos consagrando cada ato.

Parentes cortam e sangram sua tez

e o sangue escorre farto e tão ligeiro

tingindo os ossos limpos, sua alvura.

E todos choram com tanta altivez,

e, do urucu, se sente o doce cheiro:

seus bens incinerados, nessa altura.



VIII

Seus bens incinerados, nessa altura,

o crânio é bem pintado, com cuidado,

segundo as regras de sua cultura,

com distintivo clânico adornado.

Os grandes chefes cantam sem parar,

seguindo cada passo desse rito,

conforme as leis ocupam seu lugar

no espaço consagrado do baíto!

E no silêncio pleno, tem-se o pranto,

que corta longe a mata e o coração...

Tudo se faz com jeito refinado!

Ninguém levanta a voz, sorri, portanto,

a alma mergulhada na emoção...

Parentes vão cantando, lado a lado!



IX

Parentes vão cantando, lado a lado!

e cada face expressa tanta agrura,

os ossos já no cesto consagrado,

com seus adornos próprios da cultura.

E são tão belos, fortes os seus cantos

com tantas vozes, tons e semitons,

que invadem  matas, casas, mil recantos,

pois longe, muito longe, vão os sons!

Tanta altivez presente em cada qual!

E, como mandam as regras do passado,

tudo se faz de modo tão perfeito!

Para Bororo não tem nada igual

à beleza do rito executado!

Lamentos são cantados, com respeito!


X

Lamentos são cantados, com respeito!

Bororo vive e nasce em cada morte,

enfrenta a rude sorte, de seu jeito

e rompe o espaço com seu pranto forte!

Então um novo  enterro é feito, enfim,

distante dos viventes, que lamentam,

e chega o rito ao consagrado fim,

enquanto os Bóe-Bororo, tristes cantam!

Nas faces ficam marcas e sinais

da perda que esgarçou o seu viver,

cerzido pelos ritos tantas vezes!

E cantam, cantam seus doridos ais,

a recompor a vida e cada ser...

Os ossos são pintados, após meses!


XI

Os ossos são pintados, após meses,

quem representa o morto é que faz isso,

com gestos respeitosos e corteses,

prestando, aos enlutados, tal serviço,

O crânio também é, para tal fim,

com plumas coloridas adornado,

catarse coletiva tem-se, enfim:

da morte eles renascem, lado a lado.

No funeral refaz-se a própria vida,

tão prenhe de sentidos, de emoção...

Bororo vive! A morte não é vã!

Em cada gesto a dor é refletida,

cortando o mais gelado coração,

ao som de belos cânticos do clã.




XII

Ao som de belos cânticos do clã,

emitem tanta força e tanta luz.

Bororo vive! A morte não é vã,

porque ela, sempre, à vida reconduz.

Relembram, em cada morte, cantos, mitos,

a origem, seu passado, seu presente,

praticam seus costumes, danças, ritos,

guardados na memória, em cada mente.

A morte, velha escola, muito ensina

sobre importantes regras da cultura,

que todos obedecem, com respeito.

Sentindo dor que fere e que calcina

exumam, enfim, o corpo, com tristura,

então um novo  enterro segue o feito.



XIII

Então um novo  enterro segue o feito...

Quem representa o morto vai à caça,

- um animal felino, se no jeito -

onça pintada, por demais escassa.

Para vingar a morte, que crucia,

e  libertar, do luto, seus parentes,

para trazer a paz ao dia-a-dia,

saudar os seus finados ascendentes

Cerzir o socius, todo estilhaçado,

cantar, dançar, rezar, velar as almas,

lidando com a morte vários meses...

Urdir o tempo todo já passado,

trazer de novo as tardes belas, calmas!

Bororo assim revive, várias vezes!



XIV

Bororo assim revive várias vezes!

É grande sua força, imenso o lume,

cantando muitas noites, dias, meses,

tanto esplendor que seu viver resume!

E muito lhe extorquiu, também, o “branco”:

a paz, as terras, rios! Muito mais!

Mas não venceu a força de seu pranto...

A sua voz?! Não vão calar jamais!

Tiraram muitas vidas, chacinaram,

em tempos não distantes, sem pudor,

(matar Bororo foi um louco afã).

Por cada morte sempre assim choraram,

Mas ao chorar o povo, a morte e a dor,

Renasce para a vida do amanhã!



XV

Bororo, de tão longe, vai chegando,

trazendo seus cocares e viseiras,

plangentes, seus parentes vão saudando,

e vão se acomodando pelas beiras;

Na aldeia, no seu centro, a sepultura,

um chefe, em cova rasa, sepultado,

seus bens incinerados, nessa altura,

parentes vão cantando, lado a lado.

Lamentos são cantados, com respeito,

os ossos são pintados, após meses,

ao som de belos cânticos do clã.

Então um novo  enterro segue o feito,

Bororo assim revive, várias vezes,

renasce para a vida do amanhã.




O tema é muito vasto! Para se saber mais sobre o funeral do povo Bororo, que se autodenomina Boe, vide:

http://www.terrabrasileira.net/indigena/ritos/bororo/funeral.html

MAPA: NAOMI ONGA


clã
-grupo ou categoria de pessoas que traçam a mesma descendência, ou pelo lado do pai, ou pelo só da mãe, sem que se reconheçam todos os elos genealógicos, até o ancestral comum. No caso Bororo, esse cálculo é feito apenas pela linha materna, o que resulta em uma sociedade dividida em duas metades que trocam mulheres entre si, por casamento.

xamã - líder espiritual, vulgarmente conhecidos por pajé, termo de origem Tupi.
noa - barro branco, o tabatinga, usado nas pinturas corporais
mano - grandes cilindros feitos de caeté (mano), planta que viça nos brejos, com os quais se faz uma corrida ritual no funeral.São dois manos, cada um representa uma das metades, sendo que uma delas representa o morto.
bapo - um instrumeito musical, feito de cabaça (chocalho)
Aróe Maiwu - "alma nova", o representante do morto.
baíto - a aldeia Bororo é redonda, tendo ao centro o "baíto", conhecida por "casa dos homens", que nela que nela se reúnem para conversar, tomar decisões e por ocasião de ritos de diversas ordens.
Boe - autodenominação desse povo; Bororo é um etnônimo, dado pelos colonizadores
força - no sentido que os Bororo lhe dão, ou seja, raka, a força vital, representada pela cor vermelha. Ao contrário do preto é também força, mas força destrutiva que transforma degenerando
pariko - belos cocares feitos de penas de arara vermelha ou azul, conforme a metade, usado apenas pelos "maiorais", os grande chefes clânicos.



Sobre a Coroa de Sonetoa, escreveu Paulo Camelo, deste Recanto:

<"O soneto é a forma mais bela de poema. Sua forma fixa, em 14 versos, com métrica e ritmo, ultrapassou os séculos e hoje, apesar e mesmo contra alguns adversários que não lhe dão o valor por não terem o conhecimento necessário, continua sendo o poema-maior.

Seus 14 versos compõem um poema estanque, e dizem tudo que se propõem dizer, na poesia, na forma, no conteúdo.

Ultrapassar esta forma foi o desafio de vários poetas, sem que com isso fossem de encontro a seus princípios. Assim nasceu a coroa de sonetos.

Por não ter como ultrapassar sua forma, foram utilizados seus versos para que se criassem novos sonetos, com forma, conteúdo, tema ligados ao soneto de que foram originados.
Nasceria a coroa de sonetos. E ela nasceu com apenas 7 sonetos, feita por Afonso Felix de Souza, em tradução de soneto de John Donne, utilizados como prólogo aos "Holly Sonnets". E foi assim que foi colocado o verbete na "Encyclopedia of Poetry and Poetics": um conjunto de sete sonetos, apenas, entrelaçados, onde o último verso de um soneto é o primeiro do soneto seguinte, sendo o último verso do sétimo o primeiro verso do primeiro soneto.
Mas assim sendo vista, a coroa estava incompleta. Geir Campos, em sua Coroa de sonetos, utilizou-se de 14 sonetos, a partir dos versos de um outro soneto. Sua coroa de sonetos, assim denominada, não fechou-se, ou seja, o último verso do último soneto não era o primeiro verso do primeiro soneto. Mas foi já a evolução. (Alguns sonetistas ainda hoje utilizam esta forma.)
Edmir Domingues, a respeito, disse: "Na verdadeira coroa de sonetos há catorze sonetos interligados, onde o verso que fecha o primeiro começa o segundo, o que fecha o segundo começa o terceiro, e assim por diante, sendo o último verso do décimo quarto soneto o primeiro verso do primeiro soneto. E o décimo quinto soneto é a coroa, a coroa verdadeira, porque é composta dos catorze versos que começaram e terminaram os outros, sendo o primeiro verso da coroa o que terminou o primeiro soneto da série e o fecho o verso que a começou."
Por ser de difícil confecção, poucos poetas (sonetistas) se aventuraram nesse desafio.
A definição de Edmir Domingues é perfeita, podendo dela ser mudada apenas a posição dos versos utilizados na coroa. Enquanto ele preconiza que o último verso do soneto-base (ou coroa, como ele o denominou) seja o primeiro verso do primeiro soneto, há coroas de sonetos que iniciam com o primeiro verso do soneto-base e terminam com o mesmo verso, compondo o último verso do décimo quarto soneto, assim fechando a coroa (que também se fecha como preconizou Edmir Domingues, não ficando aberta como na coroa de Geir Campos e de outros seguidores).

Embora a coroa de sonetos gire em torno de um único tema, cada soneto (estanque, como deve ser um legítimo soneto), não se distanciando do tema, tem o seu próprio subtema."
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Comentários

  • Agradeço a tod@s que leram e comentaram esta Coroa de Sonetos! Se é trabalhosa para fazer, exige paciência por parte de quem lê. Meus carinhos, Edir

  • PRATA BABPEAPAZ

    Parabéns! Fantástico e maravilhoso. Tenho 3 pessoas de minha família que viveram muitos anos entre os bororos e muito me contaram sobre os mesmos. Tenho algumas fotos e artesanatos deles.

    Na certa que voltarei aqui para ler-te com mais calma e tempo.

    Para mim este teu trabalho é encantador do ponto de vista literário e também antropológico. Beijossssssssssss.

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Desta vez, releio com mais consciência. Li matéria sobre a cerimonia de sepultamento de Maria Bororó, mulher de José Kadagare (Kadagare Bororo). É impressionante! Os atos e correspondentes significados extasiam o sentimento de quem admira a pesquisa. Tenho certeza de que voltarei aqui.

     

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Não conhecia a coroa de sonetos.Achei uma excelente montagem e um grande desafio para qualquer poeta.

    Desenvolveste muito bem o tema,sem perda de ritmo,com alicerces nos versos,fortes e seguros.Parabéns pela grandiosa obra.

    Bjsss

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Acordo e a primeira coisa que faço é reler tua obra. Que técnica admirável! Ainda, encantada. Beijossssssssss

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Fantástica preciosidade! Quiçá, a mais engenhosa obra publicada, até o momento, na PEAPAZ - uma Coroa de Sonetos. Estou encantada, com o que acabo de ler! Poucos sonetistas chegaram a tal proeza. Aliás, um sonho meu. Quem sabe? Muito obrigada, mesmo! Parabéns, pelo excelente trabalho!

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