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A Responsabilidade do escritor no mundo atual

 

Todos os movimentos que levaram a grandes transformações sociais e políticas tiveram origem em grandes pensadores. Devemos as grandes mudanças da nossa história, assim como novas formas de pensamento - a muitos dramaturgos, filósofos, historiadores, poetas e escritores.

O mundo está atravessando a maior crise de toda a história conhecida, mas fora algumas exceções - muitos escritores continuam enterrados na mesmice, no vulgar e na repetição

Ninguém pode mudar o mundo com a mesma forma de pensar que o criou, já dizia Einstein. Então, se tanto queremos mudanças, por qual razão continuamos caminhando na via da repetição e da mesmice?

- Será que vivemos em tempos envelhecidos?

- Será que a imaginação se transformou em estátua de sal?

- Será que os sentidos entraram em buracos negros?

***

Para provocar mudanças o escritor tem de informar-se, aprender cada vez mais e pesquisar.

Temos de sair da mente coletiva para passar a usar a mente individual. Temos de procurar a ponta do fio que nos poderá transformar em pensadores de acordo com os novos tempos.

Isso, por que na era do espaço e dos grandes acontecimentos e descobertas científicas - não podemos continuar a ter as mesmas pequenas e apagadas       -  ambições e crenças de nossos avós e bisavós.

     Os sonhos também têm de mudar. Tudo tem de ser diferente.

A luta do nosso presidente, Professor Mário Lopes Carbajal, é fundamentalmente a conscientização do mundo para a realidade da fome, da ignorância e da miséria, males que afligem a maior parte da Humanidade. A meu ver, cada um de nós deve participar desse mesmo ideal. Temos uma grande arma em nossas mãos – Somos escritores.

Porém, não é apenas apresentando dados estatísticos que conseguiremos ir a algum lado. Temos de criar e inventar outros conceitos e formas de pensar que elevem a consciência da Humanidade. Se quisermos mudança - temos de entender que em primeiro lugar temos de fazê-lo nós mesmos.

A maior pergunta dos tempos modernos não é sobre o que vai acontecer com a economia.  Mas o que vai acontecer com a Humanidade.                      Haverá outro horizonte?

Será que nós, os escritores, temos o dever de mostrar que para lá destas grades e deste cubo que tanto nos cega e prende - existe algo mais? Claro que sim.

É nossa obrigação dizer que além do que está no mapa há outros horizontes e um número infinito de caminhos.

Para isso temos de dar largas à nossa imaginação, sermos arrebatados por um grande entusiasmo e inventar o nosso próprio universo. Machado de Assis fez isso, dentro da linha de Cervantes. E nós? Por que não criar um novo universo dentro da linha da ciência? O astrofísico e poeta Jeff Hester defende a teoria de que poesia é ciência e esta é poesia.

Eis um de seus poemas científicos:

Um elefante

Como entrou no meu pijama

Nunca irei saber

 

***

 

As minhas paixões sempre foram arqueologia e física. Nem sou arqueóloga nem astrofísica, mas uma grande parte dos livros, revistas e artigos que leio estão embebidos no conhecimento dessas duas ciências. Cada um tem seus dons, virtudes e inclinações, devemos procurar qual a ciência que nos toca a alma e escrever de acordo com o que vamos aprendendo. Mas sempre dentro do caminho que leva a novos horizontes.

Contra o que muitos pensavam e ainda pensam - a Ilíada e a Odisseia não são poemas épicos de ficção, mas de história. No mínimo – seriam poemas que há 2.800 anos teriam sido precursores do Realismo Fantástico.

Esses livros contêm descrições históricas - a prova está na descoberta de Tróia – que foram repassadas para a posteridade na mais sublime forma literária, a poesia.

Vocês podem perguntar: para que nos servem livros tão antigos?  Porque o que aconteceu entre essa época e o nosso tempo nos fez esquecer alguma coisa muito importante: a História das nossas raízes. E, PARA QUE HAJA FUTURO – HOJE – temos de mergulhar nessa característica fundamental que nos diferencia do robô: acreditar que o maior direito humano é saber quem é.

Não poderemos saber para onde vamos - sem saber de onde vimos. Qual é a nossa identidade? No caminho da descoberta deparamo-nos com encruzilhadas maravilhosas e misteriosas, mas também cheias de espinhos e incongruências. Todavia, descobrir quem somos é onde o trabalho do escritor se torna absolutamente necessário enquanto a alma é permeada por um prazer desconhecido.

É a vontade de aprender que nos leva a pesquisar - e o resultado é um desejo incontido em transmitir o que aprendemos.

Devia ter sido por isso que Platão nos falou de Atlântida e Hesíodo dos deuses e heróis. Na Teogonia ele diz: “Primeiro teve origem o Caos, em seguida a Terra e o Amor que é o criador de toda a vida”.

Atualmente, com raríssimas exceções, o amor é apenas exaltado de uma forma sentimental e piegas ou na forma incondicional. Hesíodo nos falava do amor criador. Esse que nos transforma organicamente! - É por isso que a filosofia grega continua sendo o padrão ou raiz da civilização ocidental.

Olhando um passado mais recente, sabemos que as grandes mudanças assim como a descoberta do mundo interior do ser humano, sempre estiveram intimamente ligadas a novas filosofias. Por isso, a importância da literatura.

Nenhum movimento que revolucione antigos parâmetros e pragmatismos pode sobreviver sem a força de novas formas de pensar refletidas em poderosos movimentos literários.

Mas todos sabemos que muitos escritores não declaram as suas mais intrínsecas ideias, aquilo que sentem e pensam – desde que seja algo novo ou incomum - por medo. Simplesmente por medo.

Deixemo-nos disso!! Estamos no século XXI. Mas o tempo deixa de ter sentido se não formos nós a transformá-lo no que ontem era o tão desejado futuro.

Todos temos sede de mudanças. Mas como se pode mudar se temos medo daquilo que os outros pensam? Sem audácia ainda estaríamos na Idade da Pedra. Como mudar se continuamos a idolatrar a mesmice?

Qualquer escritor que se preze já leu Ésquilo, dramaturgo que viveu no apogeu da cultura helênica. Ésquilo foi o pai da tragédia, onde ele teve a coragem de falar dos Mistérios e da origem da Humanidade. Mesmo sabendo que sua vida corria perigo, revelou um grande segredo: que o ser humano era descendente dos deuses

e, com o passar dos milênios, os deuses viriam a reconhecer os humanos como seus descendentes e herdeiros. (Não são só os Maias que falam do retorno dos deuses...)

Esse retorno aconteceria no momento em que certa percentagem da Humanidade atingisse o Verdadeiro Poder Criativo e descobrisse a sua verdadeira identidade. Finalmente, tantos séculos mais tarde, no nosso tempo, cientistas e escritores dedicam suas vidas à procura dessa verdade silenciosa que parece ter sido propositadamente escondida, para não sabermos quem realmente somos; e com isso - fáceis de manipular.

***

Agora os convido a fazer uma pequena viagem com escritores que não são de língua portuguesa, e que muito influenciaram a história mundial. A meu ver, em literatura não deve haver fronteiras. Isso é um limite que só nos leva a ilhas desertas. Como sabemos, o escritor, além de influenciar o seu tempo, também influencia escritores que lhe sejam contemporâneos ou de gerações futuras.

Karl Marx é talvez o mais conhecido reformador, assim como o mais popular. Mas vou falar de outros escritores: o francês Gustave Flaubert foi um dos mestres do Realismo, movimento estético do Romantismo europeu, tendo também sido influenciado pelas - teorias científicas da época, a Revolução Industrial e a filosofia de Auguste Comte - sobretudo a filosofia positiva ou Positivismo.

Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances, tais como Madame de Bovary. No livro Viagens ao Oriente, Flaubert nos faz sentir que viajamos com ele. Sentimos os cheiros, sentimos o movimento do trem e também sentimos a ânsia que o autor tem em aprender constantemente.

Flaubert e outros escritores, como Auguste Comte, representam a evolução do primeiro estágio do romantismo. - O conhecimento positivo de Comte buscava “ver para prever, a fim de prover”, ou seja, conhecer a realidade para prever o resultado das ações humanas e assim melhorar a realidade. Dessa forma, a previsão científica caracteriza o pensamento positivo.

Depois vem Émile Zola, criador e também o mais expressivo representante da escola literária Naturalista. Foi influenciado pelo Darwinismo, Evolucionismo e Determinismo Científico, além do socialismo.

Sua obra máxima, Germinal, elevou a estética e a descrição naturalistas a um novo patamar de realismo e crueza. O romance é minucioso ao descrever as condições de vida sub-humanas de uma comunidade de mineiros. Para compor Germinal, o autor passou dois meses trabalhando como mineiro na extração de carvão. Viveu com os mineiros, comeu e bebeu nas mesmas tavernas. Sentiu na carne o problema do calor e a umidade da mina; o trabalho insano que era necessário para escavar o carvão e empurrar os vagonetes; a promiscuidade das moradias; o baixo salário; a fome e os grandes problemas respiratórios que levavam à morte prematura. Atualmente, muitos jornalistas e até atores de cinema submetem-se a experiências idênticas.

Já no século XX, o inglês Thomas S. Eliot, que recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948, escreveu poesias hoje conhecidas no mundo inteiro através da peça de teatro Cats, assim como da canção de abertura Memories. Foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário. Four Quarters, quatro longos poemas, estão associados aos elementos da filosofia grega e também fundados em seus conhecimentos nas áreas de misticismo e filosofia. Aí ele especula sobre a natureza do tempo e sua influência nos seres humanos. O que nessa época era misticismo hoje é pura ciência.

Quando Eliot viveu em Paris era amigo de Charles Baudelaire, cuja obra prima é o livro Les Fleurs Du Mal. Reconhecido internacionalmente como o fundador da poesia moderna e precursor do simbolismo. Sua obra muito influenciou as artes plásticas.

No movimento feminino temos: Virginia Woolf, uma das mais proeminentes figuras do modernismo, pioneira na procura ou resgate do princípio feminino e no estudo sobre as entranhas do ser humano. Margaret Sanger escreveu Um plano para a paz, considerado por religiosos e puritanos “um livro maldito”. Simone de Beauvoir, com seu livro O Segundo Sexo, faz uma profunda análise sobre o papel da mulher na sociedade. A antropóloga Margaret Mead e suas pesquisas sobre sociedades primitivas em ilhas do Pacífico, como Samoa e Papua, também foi muito criticada. O livro Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas, converteu-se na principal pedra angular do movimento da libertação feminina, desde que assegurou que as mulheres eram quem dominavam as tribos. Margaret foi extremamente criticada, mas hoje é estudada em muitas universidades do mundo. Por último, Nancy Friday, que abertamente cria livros interativos e totalmente desinibidos sobre a sexualidade feminina e masculina. No livro My mother myself, Nancy mostra como o amor pode triunfar sobre o ressentimento.

Essas mulheres mudaram o mundo para sempre.

Enquanto isso, no momento presente, o mundo inteiro fecha os olhos ao que se passa com as mulheres do Afeganistão, pois segundo os fundamentalistas – a mulher não deve frequentar escolas. Desobedecer pode ser condenação à morte.

Por muitas horas eu poderia ficar aqui falando de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XVIII, e da sua influência no pensamento de escritores, compositores, psicanalistas, pintores, poetas e filósofos, ou de suas ideias sobre os direitos dos animais ou sobre a antropologia do egoísmo, determinismo etc.

Sua influência vai desde o compositor Richard Wagner, passando por Tolstoi, Zola, Marcel Proust, Conrad, Jorge Luís Borges, Machado de Assis, Thomas Eliot, Bernard Shaw, Friedrich Nietzsche até Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. Freud disse que se nunca tivesse lido Schopenhauer, nunca teria pensado em psicanálise. Isto é um exemplo típico da influência da literatura na ciência, assim como o impulso que eleva a mente a outro nível.

No fim do século XVIII, Thomas Paine, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, muito influenciou a Revolução Francesa com o livro - Os Direitos do Homem, um guia das ideias Iluministas.

Referindo-se à necessidade que sentiu em escrever o livro A Idade da Razão, Paine afirma: “...tornou-se extremamente necessária uma obra desta natureza, a fim de que, das ruínas gerais da superstição, dos falsos sistemas de governo e da falsa teologia, não percamos de vista a moralidade e a humanidade”. Por essas ideias Thomas Paine foi ridicularizado por políticos e religiosos, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, mas o livro não deixou de ser um bestseller.

Por outro lado, no século XIX, Lord Edward Bulwer-Lytton, autor dos livros A raça Futura e Os Últimos dias de Pompeia, entre muitos outros, dá início à chamada ficção científica, expondo fatos muito difíceis de serem assimilados ou admitidos, tanto nesse tempo como hoje. Na realidade Lord Lytton é o pai do Realismo Fantástico, já que, infelizmente, tudo o que sai do normal ou da mesmice - do vulgar e do comum - passa a ser rotulado de oculto, fantasia ou ficção.

Os escritores dos dias de hoje que escrevem sobre arqueologia, antropologia e física, com o fim de desvendar enigmas históricos que digam respeito aos primórdios da raça humana, como, por exemplo, David Wilcock, Graham Hancock e Erich Von Daniken, só porque causam polêmica com suas descrições e interpretações científicas, as quais se chocam com crenças seculares, não são considerados como deveriam por instituições governamentais e religiosas. No entanto, tudo o que escrevem são bestsellers.

Hoje, através de escritores como esses e da arqueologia, paleontologia e antropologia as pedras falam e contam histórias mais misteriosas do que livros – nos contam verdades absolutas que escritores atuais procuram perfurar, pois sabem que representam os Mistérios de Dionísio, Homero, Ésquilo, Platão e muitos outros.

A Responsabilidade do escritor no mundo atual

Nós, todos os aqui presentes - temos uma grande responsabilidade.

Temos de escrever livros de Verdade.

O Evolucionismo e o Determinismo Científico, assim como o socialismo influenciaram a literatura mundial dos séculos XIX e XX.

Depois da primeira guerra mundial houve outro tipo de literatura, baseada no medo de uma segunda Guerra, como a magnífica peça de teatro - La Guerre de Troie n’aura pas lieu – A Guerra de Tróia não terá lugar - de Jean Giraudoux, onde ele diz: “O privilégio dos generais é ver as guerras do alto de um terraço”.

E hoje?  Vejamos um pouco do nosso mundo:

  • Conflitos entre famílias. Entre igrejas. Entre partidos. Onde o valor humano é esquecido.
  • A repugnante corrupção num planeta tão rico e lindo, mas apesar disso tão miserável.
  • Cientistas e escritores serem silenciados. Alguns mortos.

                                  NOS DIAS DE HOJE

  • A triste realidade são governos - sejam eles quais forem – para os quais cada cidadão não passa de um dado estatístico.

Onde está a nossa Humanidade? Como poderemos mudar? O que poderemos fazer? Como poderemos resgatar a dignidade humana do tempo dos heróis gregos?

Tal como nos anos 30, onde o medo de uma segunda guerra assolava os corações tão massacrados pela Primeira Guerra Mundial, hoje tememos um conflito que não só pode dizimar uma grande parte da Humanidade, mas ter como consequência chagas - que só depois de várias gerações poderão ser esquecidas. Isso só acontece porque os povos têm medo de se impor. Mas somos nós que construímos o nosso futuro.

Nós escritores temos de escrever sem medo, porque o medo nos reduz à insignificância que nos dizem que somos, para que nunca saibamos a nossa verdadeira capacidade. Eu sei do que estou falando. Na carne - muitas vezes já senti os efeitos da minha audácia.

É por essas razões que nos dias de hoje se torna inaceitável escrever apenas sobre passarinhos, cortinas ao vento e folhas de outono. Todos os escritores do passado e do presente já escreveram sobre tudo isso de mil e uma maneiras. Por outro lado, muitos ainda escrevem dentro do teor dogmático, onde suas ideias contêm dedos em riste, e deixam o sabor amargo de ideias sem liberdade.

O escritor de hoje deve ter outro tipo de responsabilidade. Como ninguém pode dar o que não tem, o escritor deve ler muito, aprender muito e debruçar-se sobre o problema mundial ou local que mais o toque e com o qual mais se identifique.

Quando estamos abertos - os assuntos a tratar veem na nossa direção. Mas não podemos incorrer no erro da ideia absoluta. Devemos mostrar fatos e expor perguntas pertinentes. Devemos suscitar polêmica. Só assim o escritor leva o leitor - a pensar. Mas para isso é necessário escrever sem medo – sem medo do que os outros pensem ou se vamos ser excomungados pelo avô, pela igreja, pelos amigos.

Nós escritores não mais podemos ser fúteis e vazios. O tempo em que vivemos não o permite. Por mês na Somália morrem de fome 750,000 mulheres e crianças. Na Somália não há índice de longevidade, porque o índice de descaso se sobrepõe.

Por outro lado, o sofrimento individual, não pode ser descrito como algo sem cura. As cavernas da alma têm muitas sombras, mas não é exaltando essas sombras que ajudamos o ser humano. Temos de entrar nessas grutas com uma lanterna na mão esquerda, uma vassoura na mão direita e livros pendurados nas orelhas. Para obter resultados teremos de fazê-lo em nós mesmos. Temos de entrar em nossas próprias minas de carvão, e só depois poderemos melhorar a realidade.

Cada um de nós é uma célula da Humanidade. A Humanidade precisa de nós. Nem todos têm o nosso privilégio de poder escrever e de ter prazer em pensar.

? Vamos jogar fora o nosso dom e o nosso tempo de vida com coisas que só alimentam o comum e o vulgar? Creio que é imperativo ir além dos sentidos e alimentar ideais que nos ultrapassem.

Não podemos continuar na mente coletiva. Nem podemos continuar na mesmice.

No mundo de hoje vimo-nos obrigados a abrir janelas e desbravar novos horizontes, mesmo que no lado de lá haja um mundo desconhecido que nos faça tremer. Porém, existe um antídoto – A criação de um sonho ainda não sonhado. Acreditem. A mente humana não tem limites.

Penso que teremos de ter a audácia de ser escritores de verdade e como Thomas Paine sermos porta vozes de outra dimensão de pensamento. E, repito, sem medo daquilo que os outros possam pensar. O escritor não pode se preocupar com essas coisas. Se assim o fizer não é escritor, mas copiador de fórmulas obsoletas e sem valia, mesmo que no passado tenham sido válidas.

Escrevamos as nossas “Quimeras”, como diria o grande escritor francês, Jean-Jacques Rousseau sobre o seu livro Emílio – obra que tanto marcou a nova maneira de educar uma criança. Para Rousseau, o jovem deve, na sua infância, dispor de total liberdade física e durante o seu crescimento deverá descobrir e conquistar a liberdade interior.

 

Nós escritores desta época de transição, também temos de procurar a nossa liberdade.

Uma ideia nova vale mais do que um milhão de ideias antigas, por muito úteis que tenham sido no passado.

Sejamos audaciosos, inovadores e felizes quando escrevemos. Deixemos a mesmice e o passivismo no passado - e as borboletas nas florestas.

Escrever com liberdade é o maior prazer. E quando o escritor é feliz ao escrever, o leitor só tem a ganhar.

Como ironicamente dizia José Saramago,

“Não procures trabalho: escreve”.

 

 De: Rosa DeSouza

1 de junho, 2012

Academia de Letras do Brasil

Assembleia Legislativa, Florianópolis, SC

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Adeus

Não te disse adeus naquele dia.
Comigo ficaste, não resolvida.
Estando para lá do mar e das montanhas
e ainda aquecendo estas entranhas.

Partiste refletindo fantasmas na lágrima.
Manjar que repudiava e satisfeita engolia.
O último amor/paixão.
Vida rica do que essa alma jamais entenderia.

O tremor deu lugar ao sol.
O céu voltou a ser azul.
O que podia... foi bom não ter sido.
Me transmutei em plenitude.

O grão de mostarda atravessa a galáxia.
Sou sol e luz para quem me ama.
Te esqueço sem lembrança.
Te amarei em outro mundo.

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A Árvore

Quando queimaram uma árvore com quase 4.000 anos chorei e escrevi como se fora uma árvore-mulher

Queimaram...
tinha quatro milênios.
Petrificada teria sido salva.

Árvore cheia de vida,
ardendo por águas desinibidas...
Apenas enrugada fremia.

O granizo evaporou
Demência foi virtude
Cio fluindo de um amor sem raiz.

Árvore morrendo de pé.
Seiva consumida e não bebida
Cria um mar sem maré.

Árvore queimada, carvão de caldeira.
Nas labaredas ainda grita te amo
meu mar, meu vento, girassol sem vida.

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Brisa

O corpo quente,

queimado sente...

 

Pela brisa da noite afagado,

clamado, envolvido, consente.

Em voluptuoso abandono

o deseja,

Se sacode.

 

Serás tu vento,

o que faz fremer

o corpo suavizado

que uso sem prazer?

Que pões lágrimas nestes olhos

que olham sem ver?

 

Vento doce, brisa quente,

que me alerta,

continua tua desinibida busca,

de mil mãos em descoberta,

iguais a essas da lembrança,

que anunciam as da esperança.

 

Mas vento...

esta carne não arrefeces,

nem o sangue acalmas;

não vibro, nem tremo.

Não tens lábios,

não posso descobrir

ou acariciar

as marcas de teus passos.

Não me podes dizer

os obeliscos

que serpenteias;

nem as florestas que aumentas,

nem as ondas que cavas

em orgânicos abismos;

nem quais os cumes

cósmicos e pacíficos,

onde tudo começa.

 

Brisa...

lembrança e prelúdio.

Não mais saudade do passado

que fechou comportas,

mas do futuro a descobrir.

 

Em tuas mil vozes

és, afinal

como o meu dormir,

trazendo tigres vorazes

que me comem sem dó

e que anseio o rugir.

 

Mas vento...

és pó… ilusão,

não me atravessas

noutra dimensão

de almas acesas.

Só tens desejo,

não podendo entender

este meu ensejo.

Meu fogo jamais poderás apagar,

sou chama feita de mar.

Washington DC / Verão 1982

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Ladrão

Para onde irão os ecos?
Ventos acariciam que prados?
Qual o girassol da fulgência?

Magnetismo que Terra atravessas?
Que cristal tilinta essa voz?
Que contornos as águas consomem?

Para qual bailarina o violão?
Que cello a vareta tange?
Que alma o bardo toca?

Quem arrepia a visão?
A que freme a solidão?
A que foto sorri o ladrão?

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Au-delà

No meu batel
corto ondas de areia
bebendo lágrimas de lua cheia.

Asas curtas
de gigantes adormecidos,
criam raízes

Despertei rindo.
O universo paralelo
era o revés do seu abrigo.

Un don de voyance qui pèse...
falando de mundos incógnitos

e desejados,
onde ele não está nem acredita,
mas ainda creio que merece...

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Shiva Termina a Dança

O nada ecoa

Em dimensões desertas

Outro universo renasce.

 

Gases minérios perfumam estrelas

Galáxias voam a seus pés.

Ínfimos deuses entre cometas.

 

Ferros em brasa marcam os tempos...

Grutas de demônios e ninfas

Trafegam certezas e ódios.

 

O tempo escorre na beira do céu

O azul grão de mostarda supera ruína.

Na agonia, a Deusa canta mudança.

 

Novos sonhos de outros mundos

a roda param.

De pés para cima a Terra em ânsia...

 

Morrem mentirosos deuses

dos homens espelhos.

Mágicas esperanças fluem sementes.

 

Novos impulsos permeiam gentes.

A alma desabrocha livre

A Deusa Amor transforma e persiste.

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Mentindo...

Vestida de pedras
vomitando flores
a letra ressurge
do pântano das dores.

Mãos prazenteiras
com olhos de aço
crepitam em fogueiras
sem alma ou regaço

Consumando a vida
nasce a morte
de amor desprovida
lançando medo e... sorte

Ilusão sem mente
traição sem punhal
ela lhe mente
sem lhe querer mal.

A letra esconde,
mostra e desdenha
despedaça e sente
de vácuo já prenha

A letra linha, a página cheia,
todos os livros desta colmeia...
Luas e sóis sem chão ou ar
me comem por dentro
sem o teu olhar...

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IRREALIDADES...

No imaginário
existe alguém.
Procura janelas,
folhas coloridas,
Relicários.

Lenda do ontem nunca vivido.
Sem lembranças,
Sem sabores adocicados;
sombra do invisível.

No imaginário
o ar criou uma imagem.
Arrogante, poeta, mágica.
Lábios quentes
que ao penetrá-la
encontraram o vazio,
um rio sem água.
Uma vida sem magia,
trapézio sem luz.

No imaginário,
onde tudo se reduz,
o real canibal de sonhos...
esmerado artificie,
ainda desenha rios e horizontes.

No imaginário,
jardins de plantas tropicais,
navegam desígnios,
cumprindo com Leis.
Mas todos os portais,
do amor ou da aberração
são feitos de luz...

No imaginário,
a treva existe,
mas só lá.
De tanto amar sou demente...
A luz a tudo resiste.
O real és tu.
A chama eterna...
escondida para todo o sempre.

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Tudo nas nossas pequenas mãos...

Tudo nas nossas pequenas mãos...

Os acontecimentos da atualidade são globais e os que se encolhem por baixo da coberta da zona de conforto, ficando inertes ao que se passa ao seu redor, prevaricam tanto quanto os que nos querem controlar. Há uns dez anos poucos sabiam e muitos dos que sabiam nem acreditavam no poder da Nova Ordem Mundial, a qual sempre foi orquestrada por grandes banqueiros e homens sem escrúpulos do mundo financeiro.

Hoje eles já não funcionam de uma maneira oculta, mas às claras. Os chemtrails e a Haarp já são do conhecimento público. (Quem não sabe o que é, procure no google) O objetivo é a redução da população mundial, pois está chegando no ponto sem retorno, onde o controle de massas torna-se cada vez mais difícil, principalmente porque a mulher ao ficar independente e autosuficiente já não segue cegamente a vontade do pai, marido, filho, irmão ou cunhado... Antigamente controlar metade da população era suficiente, pois a outra era obrigada a seguir a vontade do chefe da tribo ou da família. Hoje não.
Nunca se perguntaram porque neste momento acontece um genocídio - 750.000 pessoas morrendo de fome na Sumália, e ninguém faz nada por isso, enquanto a mídia parece ter adormecido? Alguém que esteja lendo esta carta já orou por esses seres humanos que sentem e amam igual a cada um de nós?
Claro que não, porque talvez só agora tivessem tido conhecimento de tal horror. Todos falam dos heróis da guerra do Irak e do Afganistão, mas no mesmo espaço de tempo morreram muito mais pessoas nas favelas do Rio de Janeiro - mais de um milhão... Essas mortes silenciosas são parte da estatística para a redução da Humanidade.
Nós, artistas, filósofos, pensadores ou escritores temos um grande dever. Temos de ser os arautos do anti-fatalismo. Temos de instruir sem doutrinar os que nos rodeiam, mas com isso temos também a obrigação de ensinar o Segredo dos Segredos - o Poder Interno de cada um. A Força Indestrutível em cada um de nós, mas que nos foi escondida quando nos doutrinaram dentro do dogma em que não passamos de pecadores, desde a nascença, não podendo ir além de simples joguetes entre deuses e demônios.
Todos somos protótipos divinos e todos fazemos parte de uma Fonte de Convergência Universal. Então temos de acreditar no que somos e no que podemos fazer. Com nossos pensamentos, orações ou qualquer forma que nos leve ao encontro com o nosso Eu superior, participar na cadeia dos que todos os dias lutam mentalmente contra esse poder. A mente humana é mais forte do que toda a ganância de poder, porque nela o átomo divino se aloja esperando o nosso despertar. Estejamos bem informados. Porém, que nossos pensamentos não se deixem subjugar ao medo, mas sim lutar contra vontades anti-humanas. A minha assinatura inclui uma frase de W. Clement Stone, "Tudo aquilo que a mente humana pode conceber e acreditar, também pode conseguir". Temos de criar um mundo novo simplesmente usando a mente. Isso é agir. Einstein dizia “O mundo é um lugar perigoso, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim devido àqueles que observam e deixam o mal acontecer” Pensemos noutro nível de consciência.

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Limites


 

O amor se expande
na imensidão das asas.
A águia vê, assombra e existe.

O amor cintila
no reflexo do cristal.
O diamante tilinta triste.

O amor imenso
na crista da duna.
Grão de areia sem conta persiste.

Amor sem fronteira,
amor sem rota.
Amor que ama e não brota.

Amor infinito,
o mundo sonhando,
num grão de mustarda hibernando...

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Matiz


 

Tanta forma, vibração e dor
aguentam as variações do amor...

Amo tanto em tantos matizes...
me revejo, me arrumo, me deslumbro,
me apunhá-lo, me grito, me perfuro...

Tudo tudo
tão profundo e tão sincero,
tão esquecida de mim, do que sou e do que quero...

Saiba mais…

Tive uma ideia brilhante....

À administração e todos os demais:

Seria maravilhoso organizar um encontro do PEAP. Assim num lugar tranquilo, bonito e acessível. Por exemplo, três dias em Florianópolis. No norte da ilha.

Que acham? Marcariamos com bastante antecedência e, claro, fora da temporada, a qual termina depois do carnaval. Eu, que por algum acaso até moro por aí, convidaria alguns escritores para dar palestras. Em algum lado histórico poderiamos encontrar com outros poetas, como da academia de letras da qual sou membro. Uma noite marcaria um jantar e sarau na minha casa, em outra um concerto com o Mário Motta, cantor de fado e pianista portugues renomado no mundo inteiro e meu amigo... e por ai fora. Que acham? Digam logo para eu dar início àquela DIETA.... 

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Elemento

Queria ser pássaro
vesti-me de penas.
Queria ser água
enchi-me de lágrima.
Queria ser terra
fui mal germinada.
Queria ser fogo
fui fulminada.
Queria ser livre,
amei.
Veio o vento
blew me away...

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I had to share...

Why sleep if I cannot remember?

Why close my eyes if I can't fly?

Or to have senses if feelings are numb?

It must be a reason to hope and try.

 

That night during sleep I was awaken.

I flew over valleys of ever changing flowers,

I went to realities of forbidden worlds.

Voices whispered secret thresholds.

 

Changing horizons I was in awe

I had feelings totally new.

When I returned I wasn't the same.

 

I had to tell you, you had to know.

My heart is too small to keep it there.

The things I learned I had to share.

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ROUBARAM UM PÓLO AO AMOR


Ao amor um pólo foi roubado,

por ganância, medo, malícia

e escondido com muita perícia!

 

Povos - nalguns a mulher

apenas tinha de agradar

sem nada mais para dar.

Noutros, a gueixa vivendo à parte,

deveria recitar poesia,

saber filosofia e arte.

 

O yang se enganava

julgando que aumentava

enquanto em espírito

o yin diminuía.

O ocidente jazia

quando a sensualidade

na fogueira se queimava,

e no Oriente apedrejava,

enquanto na escola...

só o homem aprendia.

 

Um pólo ao amor se roubou.

O homem viver fingia,

denegrindo sexo

até em filosofia.

No humano elemento

a natureza se matou;

Adão continuou

incompleto.

 

Darwin afirmou

a mulher não ter alma.

Por isso amor

tem sido dor,

apenas poeta,

canção

boêmia.

Mulher era ressalva

de pouca duração,

camélia,

suspiro,

insatisfação.

 

Mas o que cai no chão

é o estrume do que começa.

Como a prostituta do templo

depois de ter sido deusa,

não poderia morrer,

porque é a própria natureza.

 

Enquanto a folha cai

a árvore aumenta

em contínuo crescer.

 

O titã está moribundo.

Eva quer viver;

Sem pólo a terra não é mundo

e a História só sofrer.

 

Um dia... o gênio da maldade

perguntou:

Para quê dividir o que o pai ganhou?

 

A mulher deixou de ter herança.

Deusas enterradas na lembrança.

 

O novo dogma castigava com dor

enquanto o útero enchia de tumor.

 

Ao amor o ódio foi polarizado,

mas o oposto do amor é medo.

O falo poderoso foi louvado,

torres de igreja foram crescendo.

 

Mas nem toda a mulher rendeu homenagem

ao enjeitado direito de suas filhas.

Devido a algumas impensável coragem

posso hoje escrever estas linhas.

 

do livro

A Beleza da Espera

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