Posts de Patrizia Gardona (43)

DIAMANTE BABPEAPAZ

Despedida

 

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranqüilo

:quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens

.E como o conheces? - me perguntarão.-

Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação...

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.

 

Cecília Meireles

fonte:https://www.pensador.com/textos_de_cecilia_meireles/

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DIAMANTE BABPEAPAZ

Mulheres que amam de menos...

Eu quero dar meu depoimento.

Creio ter um problema.

Se mulheres que amam demais são aquelas que sufocam seus parceiros, que não confiam neles, que investigam cada passo que eles dão e que não conseguem pensar em mais nada a não ser em fantasiosas traições, então eu preciso admitir: sou uma mulher que ama de menos

.Eu nunca abri a caixa de mensagens do celular do meu marido.

Eu nunca abri um papel que estivesse em sua carteira.

Eu nunca fico irritada se uma colega de trabalho telefona pra ele.

Eu não escuto a conversa dele na extensão.

Eu não controlo o tanque de gasolina do carro dele para saber se ele andou muito ou pouco.

Eu não me importo quando ele acha outra mulher bonita, desde que ela seja realmente bonita.

Se não for, é porque ele tem mau gosto

Eu não me sinto insegura se ele não me faz declarações de amor a toda hora.

Eu não azucrino a vida dele.

Segundo o que tenho visto por aí, meu diagnóstico é lamentável: eu o amo pouco.

Será?

Obsessão e descontrole são doenças sérias e merecem respeito e tratamento, mas batizar isso de "amar demais" é uma romantização e um desserviço às mulheres e aos homens.

Fica implícito que amar tem medida, que amar tem limite, quando na verdade amar nunca é demais.

O que existe são mulheres e homens que têm baixa auto-estima, que tem níveis exagerados de insegurança e que não sabem a diferença entre amor e possessão.

E tem aqueles que são apenas ciumentos e desconfiados, tornando-se chatos demais.

Mas se todo mundo concorda que uma patologia pode ser batizada de "amor demais", então eu vou fundar As Mulheres que Amam De Menos, porque, pelo visto, quem é calma, quem não invade a privacidade do outro e quem confia na pessoa que escolheu pra viver também está doente.

Martha Medeiros

Fonte: https://www.pensador.com/textos_de_amor_martha_medeiros/

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DIAMANTE BABPEAPAZ

As mulheres sempre foram descriminada culturalmente pela superioridade masculina, onde era vista como objeto do lar e que sempre sofreu diversas formas de violência.

Com o passar dos anos, as mulheres conquistaram seu espaço na sociedade, espaço esse que era exclusivo do gênero masculino, e assim ganhando proteções.

O Brasil, que faz parte de tratados internacionais, foi pressionado pela OEA a melhorar sua legislação, e com muita luta foi promulga a lei 11.340 de 7 de agosto de 2006 que dá tratamento especial aos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher num esforço para combater essa prática.

PALAVRAS CHAVE: VIOLÊNCIA, MULHER, FAMILIAR, COMBATE.

INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher é fruto de uma evolução histórica, muitas vezes praticada por alguém do seu âmbito familiar, sendo um trágico quadro atual que vincula na sociedade devido à falta de informação e a conceitos socioculturais ainda enraizados.

Atualmente nossa sociedade ainda é machista, ainda carrega a concepção de que o homem é superior a mulher e assim muitas mulheres aceitando. É nesse momento que a violência ocorre, violência essas oriundas de relações afetivas – maridos/ex-maridos, companheiros/ex-companheiros, namorados/ex-namorados.

Vivemos em uma época em que as mulheres já tiveram bastantes conquistas, entre elas seus direitos, tendo por fim ganhado proteções em garantia do seu gênero, proteções essas oriundas de grandes batalhas para o combate e erradicação da violência contra a mulher, dentre esse artigo abordaremos a lei Maria da penha como forma de erradicação da violência contra a mulher e as políticas públicas de combate a violência contra a mulher.

1. Uma abordagem sobre a categoria gênero
Segundo Faria e Nobre (1997, p.9-10), as meninas e os meninos desde crianças aprendem a ser mulher e homem. Através da educação recebida em casa no seio da família, percebe-se que há uma educação diferenciada para as duas categorias do sexo. O enxoval das crianças geralmente, já vem determinando a cor segundo o sexo dela; se for menino a cor é preferencialmente azul, e se for menina a cor é rosa. Os brinquedos que recebem também são caracterizados segundo o sexo. Os carrinhos, a bola, as bolinhas de gude são brinquedos para meninos, enquanto que, as bonecas, o fogãozinho, e a casinha são brinquedos de meninas.

Antigamente as mulheres eram consideradas inferiores aos homens submetendo-se as ordens e humilhação que a cultura lhe continha, vistas apenas como mulheres do lar, a qual servia apenas para a manutenção da prole e do lar, a partir do século XIX através do sistema capitalista, houve o acarretamento de muitas mudanças na sociedade, com a revolução industrial as mulheres saíram de seus lares e passaram a ir trabalhar em fabricas, momento esse inovador para as mulheres, estas que detinham apenas o poder de ser subordinada a seu marido, apenas trabalhando em casa, cuidando dos filhos e dos serviços de casa. Saindo do “locus” que até então era permitido e reservado (espaço privado) e migrando para o espaço público, mostrando aos homens que não são inferiores, que podem fazer as mesmas coisas que eles, iniciando assim a trajetória do movimento feminista.

Hoje a mulher ainda vive em condições desfavoráveis a ela, onde ainda empenha papel de submissão ao homem, mesmo já tendo adquirido bastantes direitos a mulher ainda é vista como propriedade do homem com quem convive, seja ele seu esposo ou namorado.

Com a Revolução Francesa, considerada a grande revolução burguesa, surge o feminismo. E uma das primeiras manifestações feministas aconteceu na França Revolucionária, liderada por mulheres francesas que exigiram da Assembléia Constituinte o estabelecimento da igualdade dos direitos entre os sexos, inclusive a liberdade de trabalho. Esse movimento feminista veio representar para as mulheres uma tentativa importante de ruptura com a história de submissão a que foram e são ainda impostas (SARDENBERG & COSTA, 1994).

2. Violência
Em nosso país, segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada cinco mulheres (20%) já sofreu algum tipo de violência física, sexual ou outro abuso praticado por um homem (OMS). A violência contra as mulheres faz parte de uma sequência crescente de episódios, incluindo mortes por homicídios, suicídios ou a grande presença da ideação suicida, além de doenças sexualmente transmissíveis, doenças cardiovasculares e dores crônicas (SCHRAIBER et al, 2007).

A Convenção de Belém do Pará (1994), define:

[...] a violência contra a mulher constitui uma violação aos direitos humanos e às liberdades fundamentais e limita total ou parcialmente à mulher o reconhecimento, gozo e exercício de tais direitos e liberdades [...] violência contra a mulher é qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado.

A violência é um ato de brutalidade, abuso, constrangimento, desrespeito, discriminação, impedimento, imposição, invasão, ofensa, proibição, sevícia, agressão física, psíquica, moral ou patrimonial contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela ofensa e intimidação pelo medo e terror. Segundo o dicionário Aurélio violência seria ato violento, qualidade de violento ou até mesmo ato de violentar. Do ponto de vista pragmático pode-se afirmar que a violência consiste em ações de indivíduos, grupos, classes, nações que ocasionam a morte de outros seres humanos ou que afetam sua integridade moral, física, mental ou espiritual. Em assim sendo, é mais interessante falar de violências, pois se trata de uma realidade plural, diferenciada, cujas especificidades necessitam ser conhecidas.

A violência pode ocorrer de maneira escondida, mas mesmo em suas formas leves ela se baseia na dominação de um gênero sobre outro. Violência Doméstica, segundo alguns autores, é o resultado de agressão física ao companheiro ou companheira. Qualquer mulher pode ser vítima de violência doméstica, não importando a classe social, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião. Na lei Maria da Penha, caracteriza-se o gênero, onde esta lei aplica-se apenas a mulher, violência essa oriunda das agressões físicas, psicológicas, patrimoniais, sexuais e sociais.

3. TIPOS DE VIOLÊNCIA
A violência contra a mulher é um tipo de violência que acontece geralmente no âmbito privado ou doméstico. É praticada nas relações interpessoais onde agressores estabelecem relações de afetividade com a vítima. Particularmente, os agressores se configuram como maridos, ex-maridos, companheiros, ex-companheiros, namorados, ex-namorados que usam da violência como uma forma de exercer o poder sobre a mulher. Mesmo que esse tipo de violência venha a ser praticada no âmbito privado ela deve ser tratada com um caráter político e público.

A violência contra a mulher se expressa de várias formas, podemos citar a: violências físicas, psicológicas, patrimoniais, sexuais e sociais.

A violência física é caracterizada por lesões corporais causadas por tapas, chutes, arremessos de objetos e por qualquer outra forma que possa deixar marcas no corpo físico da vítima. Nesse tipo de violência pode ocorrer lesões graves e deixá-la incapacitada de realizar tarefas habituais por toda sua vida podendo leva-la a morte.

A violência patrimonial acontece quando são destruídos objetos pessoais, tais como papéis ou documentos e roupas, tudo motivado por ciúme e com forma de dominação, destruindo também sua auto-estima e sua identidade.

A violência sexual ocorre quando a mulher é obrigada a ter relações sexuais a força com alguém, que pode ser seu marido, companheiro, namorado ou mesmo alguém desconhecido. Esse tipo de violência pode ocorrer de várias formas: através do estupro, abuso sexual, este, praticado especialmente contra crianças e adolescentes, assédio sexual que é a perseguição constrangedora da vítima por alguém que se aproveita de sua condição hierarquicamente superior; e atentado violento ao pudor.

A violência social é caracterizada pelo preconceito e discriminação e ocorre quando as mulheres são impedidas de trabalhar fora de casa, quando seu trabalho, seja doméstico, ou outro tipo de trabalho está sendo desvalorizado. Esse tipo de violência também abrange o fato de mulheres receberem um salário inferior ao dos homens, mesmo estando realizando as mesmas funções. A situação se complexifica quando as mulheres são negras, pois chegam a ganhar a metade do que ganham as mulheres brancas. Também se caracteriza como violência social o preconceito sofrido em seu local de trabalho por serem mulheres, indo mais além, quando sofrem preconceito por serem mulheres e negras. A violência social também se expressa nas músicas, que cada vez mais desvalorizam as mulheres, nos ditados populares e nos programas de televisão e na mercantilização do corpo das mulheres expresso na mídia.

Por fim, a violência psicológica é caracterizada por xingamentos, ameaças e humilhações. Tem como objetivo dominar a mulher de forma a destruir sua autoestima. Segundo Queiroz, (2005, p.3) “essa violência perpassa todas as outras formas, seja física, sexual, patrimonial ou social”, e deixa “marcas na alma” além da física, que são difíceis de serem tratadas, detectadas e levam um longo tempo para serem curadas ou desaparecem.

Segundo Teles e Melo (2002, p.65) para combater e prevenir a violência contra a mulher é preciso que o Estado possa cumprir com sua obrigação que está prevista na Constituição Federal de 1988 que cria mecanismos de combate à violência no âmbito das relações familiares. É preciso também que o Estado passe a investir em políticas públicas de segurança, saúde, educação, Assistência Social, habitação etc. Além da importância do Estado somar à sua legislação interna as normas penais, civis, administrativas e outras que sejam necessárias, que estão previstas na Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a mulher (1979), na Declaração de Beijing (1995) que colocam a mulher como foco principal de proteção e na Convenção de Belém do Pará (1994) que conceitua a violência contra a mulher.

Leis de proteção a mulher.
Diante desse quadro no mês de agosto do ano de 2006 as mulheres ganharam direitos e proteção, no devido ano foi sancionada, pelo Presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva a Lei Maria da Penha, na qual há aumento no rigor das punições às agressões contra a mulher, quando ocorridas no ambiente doméstico ou familiar.

Esta lei surgiu com o objetivo de criar mecanismo para coibir a violência doméstica e familiar contra mulher, nos termos do § do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. (BRASIL, 2006)

A Lei 11.340/2006 é fruto de um Projeto de Lei amplamente discutido na Câmara dos Deputados, com uma grande mobilização a Câmara dos Deputados realizou inúmeras audiências públicas com vários setores da sociedade, a fim de oferecer ao País uma Lei que protegesse a mulher das agressões, no âmbito familiar, e acabasse com a impunidade. O Congresso aprovou o novo diploma legal, que foi batizado de Lei Maria da Penha, em homenagem à farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que em 1983 recebeu um tiro do marido, enquanto dormia. Da agressão resultou a perda dos movimentos das pernas e viver numa cadeira de rodas tornando-se paraplégica, atentou contra a vida da mulher, por eletrocussão.

Maria da Penha buscou ajuda e saiu de casa juntamente com as filhas, em um périplo em busca de justiça, Maria da Penha conseguiu ver o marido punido 19 anos depois com uma condenação de 10 anos de prisão, ficando preso por dois anos em regime fechado, assim esta mulher tornando a símbolo da luta e emprestando o seu nome a lei.

A Lei é uma grande conquista que possibilita que agressores sejam presos em flagrante ou tenham a sua prisão preventiva decretada, não podendo cumpri-las com penas alternativas de direito, tendo o tempo máximo de detenção passando de um para três anos. A Lei também prevê o afastamento do agressor do domicílio e a proibição de se aproximar da mulher e filhos. É o fim da impunidade.

Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, que muito significativamente recebeu o nome da Lei Maria da Penha, homenagem à mulher que fez do combate à violência de que foi vítima uma razão para viver e para lutar pela dignidade humana e pela justiça social. Não basta, porém, redigir leis: é preciso divulgá-las para que cheguem ao conhecimento do público e se transformem, assim, em instrumentos de cidadania a que todos têm direito.

No Brasil do século XXi, a violência ainda atinge dois milhões de mulheres por ano. Uma brasileira a cada 15 segundos sofre com o terror doméstico. A todos cumpre mudar essa situação, que afronta não só o Estado, mas compromete o sentimento de justiça e dignidade do país. A Lei Maria da Penha é, efetivamente, um apoio na luta por um Brasil melhor, mais digno e mais justo para as nossas mulheres. A Lei Maria da Penha determinou que a prática de violência doméstica contra as mulheres leve o agressor a ser processado criminalmente, independentemente de autorização da agredida.

Contudo, a efetivação desta lei e da sua aplicação ainda tem muitos passos a seguir. Isso se dará por meio do trabalho articulado entre as diversas áreas dos três poderes -executivo, legislativo e judiciário- em suas três esferas de atuação.

Com muitas inovações, a começar pelo processo democrático na formulação do texto da lei, ela trouxe um olhar inovador, principalmente para a situação peculiar da vítima. Ao reconhecer a situação de fragilidade e de extremo perigo em que a vítima de violência doméstica e familiar se encontra, o Estado toma para si a responsabilidade de prevenir a violência, proteger as mulheres agredidas, ajudar na reconstrução da vida da mulher e punir os agressores.

Na prevenção à violência, a Lei nº 11.340/2006 prevê políticas públicas integradas entre os órgãos responsáveis.

A primeira articulação citada na lei é a integração operacional do Poder Judiciário, do Ministério Público e Defensoria Pública com as áreas de segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação.

Na proteção à mulher, a lei prevê as medidas protetivas de urgência, que devem ser solicitadas na delegacia de polícia ou ao próprio juiz, que tem o prazo de 48 horas para analisar a concessão da proteção requerida.

A Lei Maria da Penha também protege as mulheres ao estabelecer que a vítima não pode entregar a intimação ou notificação ao agressor, ao tornar obrigatória a assistência jurídica à vítima e ao prever a possibilidade de prisão em flagrante e preventiva.

No que se refere à punição do agressor, a Lei Maria da Penha mudou a realidade processual dos crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher. Ao proibir a aplicação da Lei nº 9.099/95, impossibilitou a punição dos agressores com penas pecuniárias (multa e cesta básica) e a aplicação dos institutos despenalizadores nela previstos, como a suspensão condicional do processo e a transação penal.

A partir da Lei Maria da Penha, os crimes cometidos contra as mulheres devem ser julgados nos juizados/varas especializadas de violência doméstica e familiar contra as mulheres, com competência civil e criminal, equipados com equipe multidisciplinar composta por psicólogos e assistentes sociais treinados para um atendimento totalizante, especializado e humanizado.

Ainda na temática de punição do agressor, a lei cria mecanismos específicos de responsabilização e educação dos agressores, com possibilidade de o juiz decretar o comparecimento obrigatório do autor da agressão condenado criminalmente.

Como conseqüência da referida lei, passa a existir um sistema de políticas públicas direcionado às mulheres. Isto somente é possível devido à união de esforços de diversos órgãos da administração pública federal e estadual, do poder judiciário e legislativo, dos ministérios públicos estaduais e defensorias públicas. Todos eles articulados entre si comprovam que a violência doméstica, como fenômeno multidimensional que é, requer soluções igualmente complexas.

A Central de Atendimento à Mulher é um serviço do Governo Federal que auxilia e orienta as mulheres vítimas de violência por meio do número de utilidade pública 180. As ligações podem ser feitas gratuitamente de qualquer parte do território nacional. O Ligue 180 foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres em 2005.

Desde novembro de 2011, a central passou a atender, sempre gratuitamente, brasileiras que vivem na Espanha, Portugal e Itália. O objetivo do 180 Internacional é possibilitar à brasileira que esteja sofrendo violência no exterior que ela possa ser atendida pela central no Brasil e receba informações sobre seus direitos e sobre o auxílio prestado pelos consulados brasileiros e os serviços fornecidos por esses países para um atendimento mais integral.

4. Políticas Públicas de prevenção e combate a violência contra a mulher
Entende-se que políticas públicas sejam aquelas que são frutos da intervenção do Estado, ou seja, uma resposta do Estado frente à Questão Social – no caso em referência violência contra a mulher - que abrange grande parcela da população atingindo assim, todas as classes sociais. É importante perceber que a implementação de políticas públicas é direito da população e dever do Estado.

Em relação à questão da violência contra a mulher, o movimento feminista, tem conseguido avanços em relação às políticas públicas de combate à violência contra a mulher.

A criação das Delegacias Especializadas no Atendimento a Mulher (DEAM’s), Juizados Especiais Criminais (JECRIM’s), esses últimos com a lei 9.099/95 e alguns outros previstos na Lei nº 11.460/2006, (casas-abrigo, centros de referência, defensorias públicas, promoção de estudos e pesquisas relevantes com a perspectiva de gênero e serviços de saúde).

Em 1985 foi criada a primeira Delegacia de Defesa da Mulher em São Paulo que melhorou o atendimento as mulheres que buscavam justiça. Pois antes as mulheres que recorriam às delegacias sentiam-se ameaçadas ou eram vítimas de incompreensão, machismo e até mesmo de violência institucional e sexual. (MASSUNO, apud BLAY, 2003).

O serviço nas Delegacias de Defesa da Mulher era e é prestado por mulheres, mas isto não bastava, pois muitas destas profissionais tinham sido socializadas numa cultura machista e agiam de acordo com tais padrões. Foi necessário muito treinamento e conscientização para formar profissionais, mulheres e homens, que entendessem que meninas e mulheres tinham o direito de não aceitar a violência cometida por pais, padrastos, maridos companheiros e outros. (BLAY, 2003, p.91-92).

5. APLICAÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA
A luz dos dispositivos da referida Lei, destaca-se que é uma lei de gênero, de aplicação exclusiva a mulheres vítima de violência doméstica e familiar. Ela não foi criada para ser aplicada contra qualquer homem, mais apenas aos que praticam as agressões no contexto descrito por ela, de igual modo não foi estabelecida para beneficiar todas as mulheres, somente aquelas que se encontram em situação de vulnerabilidade. Salienta-se ainda que as mulheres agressoras de homens, se submetem a legislação do Código Penal e demais Leis pertinentes. Em determinadas situações a Lei Maria da Penha será aplicada em desfavor das mulheres agressoras, desde que a vítima também seja mulher. As hipóteses de aplicação passam a partir de agora serem destacadas:

Art. 5.º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:

I- No âmbito de unidade doméstica, compreendida como o espaço de convivência permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;
Conforme o pensamento doutrinário, este inciso refere-se ao convívio diário, permanente, diuturno, ainda que por tempo determinado, dando como exemplos estudantes que convivem juntos num mesmo hotel, que juntos dividem as despesas deste local, na hipótese de uma estudante vir a ser agredida por um integrante deste grupo, incidiria a aplicação da Lei. A empregada doméstica também está inclusa neste inciso, tese rejeitada por parte da doutrina, considerando que este ambiente doméstico para a empregada doméstica seria um ambiente de trabalho, um vínculo laborativo. Mas outra parte doutrinária entende cabível, podendo a incidência da Lei recair contra a agressão praticada pela patroa quanto pelo patrão.

II- No âmbito da família, compreendendo como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;
Para a doutrina incluem-se: esposa, companheira, pois a união estável nos termos do art. 226. § 3º da Cer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I- No âmbito de unidade doméstica, compreendida como o espaço de convivência permanente deF é considera entidade familiar, a avó, filha, neta, irmã, sobrinha. Por afinidade: sogra, cunhada. Por vontade expressa: há críticas pela amplitude do termo, podendo adentrar ao rol, a filha de criação, a mãe de criação, a empregada doméstica que por exemplo serve a família a gerações, dentre outras. Há doutrina intensifica a crítica a este inciso em relação a briga entre irmãos sob a alegação de que irmãos brigam desde os primórdios da humanidade, e que a Lei ao ser criada não estaria pensando nessa relação. O Superior Tribunal de Justiça entende perfeitamente cabível sua admissibilidade, podendo ser constada sua posição no HC 184.990/RS de 12/06/2012. Aplica-se ainda este inciso na hipótese de brigas entre irmãs, filha agredir mãe, dentre outras.

III-Em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independente de coabitação.
Coabitação significa morar no mesmo teto. A interpretação majoritária da doutrina e dos Tribunais Superiores é no sentido de aplica-se a: ex-esposa, ex-compannheira, ex-namorada, ex-noiva, a namorada, a amante, a concubina a noiva, etc. Excluindo: “a amizade colorida”, “a ficante”, a prostituta, esta última porque a relação não é de afeto, mas de cunho negocial, exceto se essa relação tornasse em um relacionamento afetivo.

O Superior Tribunal de Justiça já se manifestou em relação a “ficar”, classificando como relacionamento esporádico e não habitual, não sendo acobertada pela mencionada Lei. Em relação ao namoro para ser aplicada a Lei, é necessário um relacionamento estável, que haja uma notoriedade desse namoro, se apresentem aos amigos como tal. O Superior Tribunal de Justiça tem o entendimento de que não é qualquer relaciomento que chama a Lei Maria da Penha. Ex-relacionamentos já totalmente superados, curados, como no dito popular “onde as chagas não estejam mais abertas” como exemplo a agressão de uma mulher por um homem que já está um quarto, quinto casamento depois dela, não chama a Lei Maria da Penha, sob pena de se eternizar as relações. Agora o Ex-relacionamento onde ainda haja o inconformismo, perseguições, chantagens, ou seja “as feridas ainda não cicatrizaram”, é perfeitamente cabível a aplicação desta Lei. Chama-se atenção à agressão a mãe do (as) filho (as) do agressor, mesmo terminada esta relação há muitos anos, à agressão não é feita nessa situação a “ex”, mas a mãe de seu (s) filho (as), neste caso aplica-se o art. 5º, II da citada Lei (MARCOS PAULO. IOBCONCURSOS 2014).

Parágrafo único: As relações pessoais anunciadas neste artigo independem de orientação sexual.
As hipóteses descritas para este parágrafo único são para as relações homoafetivas do sexo feminino, aplicando-se a Lei as agressões que decorram desta relação. Prescreve a doutrina que a Lei Maria da Penha não se aplica ao transexual, mesmo que já submetido a cirurgia e feito a alteração no registro civil, pois biologicamente é do sexo masculino, e a Lei Maria da Penha é exclusiva do sexo feminino independentemente da idade.

A lei reúne dispositivos penais restritivos de direitos, devendo-se falar em legalidade estrita e devido processo legal. Normas restritivas de direitos devem ser aplicadas restritivamente, pois trata-se da liberdade do indivíduo, já os dispositivos cíveis poderão ser usados. No caso de violência doméstica a um transexual, aplica-se os artigos pertinentes do Código Penal (MARCOS PAULO. IOBCONCURSOS 2014).

O Art. 6.º A violência doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos direitos humanos.

Até a criação da Lei Maria da Penha, a violência contra a mulher era tratada como infração penal de menor potencial ofensivo, nos termos da Lei 9.099/95. Com a nova Lei passa a ser concebida como uma violação a direitos humanos, nos termos do artigo 6.º acima transcrito (FLÁVIA PIOVESAN. 2014).

6- A GRANDE MUDANÇA DA LEI
A lei Maria da Penha é responsável pela diminuição de violência praticada em nosso país, mesmo existindo uma forma de coibir a violência, em nosso país há registro de que muitos casos não chegaram até a justiça, devido as agredidas desistirem de levar adiante o processo contra o agressor, a retirada da queixa já era proibida, mas era necessária a representação, ficando vários processos parados por a não vontade de representar da vítima, e devido o caso se tratar de ação penal pública condicionada.

A procuradoria Geral da República, ingressou com uma Ação de Inconstitucionalidade com o objetivo de mudar a ação de condicionada para incondicionada, o qual foi julgada procedente pelo Supremo Tribunal Federal.

Significando que a ação não precisa da declaração da vítima em processa seu agressor. Não apenas a vítima, como qualquer pessoa, pode comunicar a agressão a polícia, podendo também o MInistério Público apresentar denúncia contra o agressor mesmo contra a vontade da vítima, Essas alterações abrangem apenas as lesões corporais, não se aplicando aos casos de ameaças, injuria e calunia.

Essas alterações beneficiaram tanto a mulher, que não se sentem mais culpada, tendo até receio de representa-lo, bem como as investigações policiais, que de nada adiantava seus esforços em buscas de diligencias para momento posterior a vítima desistisse da ação.

CONCLUSÃO

Pelo que foi exposto, a violência contra mulher é antes de tudo um fenômeno social e do cotidiano inerente ao ser humano. A criação de leis não irá por si mudar esse fator, mas contribuirá para punição daqueles que desrespeitam o ordenamento jurídico, as vítimas poderão por meio delas buscar o amparo e resposta judicial.

A mulher desde os primórdios da humanidade foi tratada com desigualdade diante dos homens ser inferior, desigual, frágil, dentre outros termos, fato esse ainda vigente em algumas partes do mundo considerando-a como cidadão de segunda classe.

As categorias de gênero e de grande importância para se entender a história de opressão vivenciada pelas mulheres. Com a categoria gênero pode-se relacionar as diferenças sociais, históricas e culturais entre homens e mulheres.

No Brasil a violência contra as mulheres tem raízes patriarcais. Ademais a violência contra as mulheres não é somente um fenômeno das classes menos abastadas, está em todos os meios sociais. As que padecem os flagelos maiores são as que estão nas classes menos favorecidas, devido as circunstâncias que se encontram, fatores como: prole numerosa, falta de estudo, desemprego, o homem é provedor do sustendo integral da família, pressão dos familiares, além de outros fatores, influenciam no rompimento desta relação e denúncia da violência vivida.

Atualmente existem serviços de atendimento à mulher em situação de violência a exemplo das delegacias especializadas, casas-abrigos, centros de referência entre outros que estão previstos na Lei 11.360/2006. Porém precisa-se que haja um maior interesse do Estado em melhorar os serviços oferecidos, tanto aumentando o número de delegacias e casas-abrigos, por exemplo, como a infra-estrutura dessas instituições que envolverão tanto a estrutura física como a capacitação de profissionais que trabalham na área. Isso acontecerá por intermédio da ação do movimento feminista para implementação de políticas públicas e com o rompimento com a lógica patriarcal de gênero.

Mulheres merecem respeito e dignidade são trabalhadoras, mães, esposas, companheiras, donas de casa, e tantas outras funções que na vida moderna acumulam, não merecem ser tratadas com brutalidade, ignorância, violência ou opressão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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TAVARES, Rebeca. O alto preço da violência de gênero. Disponível em: < http//:www.compromissoeatitude.org.br/alguns-numeros-sobre-aviolencia-contra-as-mulheres-no-mundo/>;; acesso dia 24/07/2014.

SAFFIOTI, Heleieth Iara B. Contribuições feminista para o estudo da violência de gênero. IN: MORAES, Maria Ligia Quartim de. (Org.) Desdobramentos do feminismo. Nº 16 / 2001.

________ Gênero e patriarcado: violência contra mulheres. IN: A mulher nos espaços públicos e privados. São Paulo: fundação Perseu Abramo, 2002.

PASINATO, Wânia. Delegacias de Defesa da Mulher e Juizados Especiais Criminais: mulheres, violência e acesso à justiça. Preparado para apresentação o XXVIII Encontro da Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais – ANPOCS. Caxambu, Minas Gerais, 26 a 28 de outubro de 2004.

LEI MARIA DA PENHA- SECRETARIA DE POLITICAS PARA MULHERES-BRASILIA-2012.

Fonte: https://erikacrcavalcante.jusbrasil.com.br/artigos/251026383/violencia-contra-mulher

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O direito à vida e a violência contra os idosos


O direito à vida e a violência contra os idosos

No Brasil, houve uma grande redução da taxa de mortalidade dos idosos, neste sentido aumentou consideravelmente o índice de violência a estes. Estima-se que a população do Brasil possui quase 25 milhões de indivíduos acima de 60 anos.

Estes idosos estão sofrendo violência, sendo acarretados com abuso e maus e maus tratos físicos, pressão psicológica, abuso sexual e financeiro, abandono e falta de assistência. O principal agressor advém do seio familiar, indivíduos que dependem financeiramente dos idosos ou até mesmo aqueles que são remunerados para prestar-lhes serviços assistenciais.

Diante deste cenário de violência e paralelamente com os movimentos sociais, surge a Política Nacional do idoso, de 1994. Reafirmando esta preocupação com os idosos, exsurge o Estatuto do idoso em 2003, protegendo de maneira especial os indivíduos com idade igual ou superior que 60 anos de idade. Apesar da existência de leis favoráveis aos idosos, estes ainda encontram dificuldade para buscarem seus direitos, sejam essas dificuldades físicas ou meramente burocráticas, desta forma preferem silenciar-se e tornar-se cúmplice da violência, do que sofrer locomovendo-se atrás de soluções demoradas e constrangedoras.

O presente artigo divide-se em 4 (quatro) partes, sendo elas: 2) o conceito de idoso no Brasil 3) a Política Nacional do Idoso que irá abordar em seu contexto desde a sua aprovação até a adaptação ao estatuto; 4) o Estatuto do Idoso, trazendo em subseções os objetivos e os direitos fundamentais; 5) o Direito à Vida, expondo pontos relevantes sobre a importância da vida e as demais leis para sua proteção e especificamente em prol do idoso e, por fim, a violência contra o idoso, o descaso, desrespeito e punições.

CONCEITO DE IDOSO NO BRASIL

O conceito de idoso pode ser definido em diversas vertentes, seja ela cronológica, física, social, biológica, cultural, entre outras. Nesta retidão, o mais utilizado é o cronológico, ou seja, aquele que leva em consideração o tempo, a data.

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), através da resolução 39/125, o conceito de idoso irá divergir de acordo com o país, seja ele desenvolvido ou em desenvolvimento. No primeiro, os idosos são aqueles com 65 anos ou mais, enquanto nos países em desenvolvimento, são aqueles com idade igual ou superior a 60 anos. Neste sentido e não obstante, no Brasil, país em desenvolvimento, a lei 10.141 (Estatuto do Idoso) em sentido estrito, os definem como pessoas com mais de 60 anos.

O termo idoso geralmente faz alusão aos aspectos de fragilidade, ausência de saúde, impotência e perda de memória. No entanto, esta questão deplorável socialmente, está sendo desmistificada ao longo dos anos, visto que com os auxílios e avanços tecnológicos, aliado aos padrões sociais de beleza, preservação da saúde e diminuição da taxa de mortalidade, o idoso tem buscado esforços para preservar mais sua saúde, aqui abrangidas pela física e psíquica.

POLÍTICA NACIONAL DO IDOSO

Em 4 de janeiro de 1994, foi aprovada a Lei nº 8.842, estabelecendo normas de proteção ao idoso. A referida lei tem como finalidade, conforme expressa em seu art. 1.º:"assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação afetiva na sociedade". Entrementes, estes direitos são desrespeitados cotidianamente, bem como é facilmente percebido a exclusão social para com os idosos, tratando-os como improdutíveis e, consequentemente, um peso para a sociedade.

A lei apresentou pontos positivos, relacionados aos progressos direcionados às pessoas com mais de 60 anos de idade, fornecendo alternativas de assistência ao idoso, como: educação, previdência social, justiça, trabalho, habitação, cultura, dentre outros meios para sua proteção e melhoria nas condições de vida.

Contudo, o legislador em observância à realidade do nosso país não economizou em prolatar leis mais severas para obtenção da proteção do idoso, tanto no âmbito federal quanto no municipal, pois a violência contra estes e a negligência vinha se agravando. Mediante essa situação, em 2003, essa lei foi ajustada conforme as necessidades apresentadas, surgindo assim, o Estatuto do Idoso.

ESTATUTO DO IDOSO

Em 2003, foi promulgada a Lei nº 10.741, estabelecendo direitos para os idosos. Este fato ocorreu em detrimento do desrespeito dos cidadãos para com os idosos, visto que intensificava cotidianamente o descaso com estes, principalmente no que tange aos maus tratos.

Conforme leciona Frange (2004, p. 8):

"O Estatuto do Idoso representa um exercício de cidadania no resgate da dignidade da pessoa humana, que transforma em crime, maus tratos contra os indivíduos que compõem a terceira idade, levando a pena de até 12 anos de prisão bem como proíbe a discriminação nos planos de saúde e assegura o fornecimento de medicamentos. Além desses aspectos que o Estatuto estabelece, pode-se citar também, o fornecimento de um salário mínimo aos idosos com mais de 65 anos, sendo este membro de uma família carente, e por fim a garantia da prioridade do idoso no que se refere a compra em programas habitacionais.”(FRANGE, 2004, pág. 8, contemplado na Bioética).

Percebe-se, claramente, que o Estatuto do Idoso trousse um arcabouço de garantias e direitos aos idosos. Neste sentido, também leciona Gugliotti (2008, p. 79) que:"o Estatuto do Idoso tem como objetivo proporcionar a uma parcela específica da população um tratamento condizente com sua condição especial, conferindo as ferramentas necessárias para a construção, pelo idoso, de sua identidade cidadã, com a consequente conquista de sua autonomia."Desta forma, o Estatuto do Idoso traz de volta a harmonia e inclusão social do idoso, fornecendo-lhe prerrogativas para conquista de sua própria identidade.

Porém, com várias garantias em nossa legislação pátria, insta salientar que grande parte da nossa sociedade ainda continua desrespeitando o idoso. Deixam-se olvidar que, noutro momento todos estarão nas mesmas condições, com idade avançada e requerendo do Estado garantias que já existem, mas que não são efetivadas.

O Estatuto do Idoso exsurge estabelecendo como meta a inclusão social, fornecendo condições de vida sobre uma nova ótica, trazendo diversos benefícios aos idosos. Entrementes, caso o Estado não efetive maior fiscalização no cumprimento destas normas, punindo quem as desrespeitem, à referida norma perderá força, prejudicando àqueles que mais necessitam de um tratamento especial e diferencial.

DIREITO À VIDA DO IDOSO

Segundo Roberto (2002, p. 1)" a vida é o bem fundamental do ser humano, pois sem a vida, não há que se falar em outros direitos, nem mesmo os de personalidade. "Nesta ótica, para o direito brasileiro, a vida é o bem que precisa de maior resguardo, devendo ser preservado e elevado ao patamar máximo do protecionismo estatal. Não obstante, o art. 5.º da Constituição Federal de 1988, intitulado dos direitos e garantias fundamentais, expressa claramente como direito fundamental a inviolabilidade do direito à vida.

Nesta retidão, leciona Diniz (2009)

“Têm-se que, o direito à vida é o mais fundamental e inviolável de todos os direitos, sendo este assegurado pelo Estado por dois contextos: 1) o direito que se tem de permanecer vivo, ou seja, ninguém pode tirar a vida de outra pessoa, fato que quando ocorre, é considerado crime tipificado no art. 121 do Código Penal; 2) dignidade enquanto se vive, a ser citado como exemplo a inclusão social e igualdade entre indivíduos.”

Nesta ótica, o direito à vida assume um papel importante dentro da legislação pátria. Entrementes, no que refere-se aos idosos, sendo estes considerados pessoas com 60 anos de idade ou mais, o direito à vida também é colocado como fundamental entre os vários direitos do Estatuto do Idoso.

O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), em seu art. 8.º assevera que:"o envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito social, nos termos desta Lei e da legislação vigente.”Paralelamente, ciente de que o Estado deve agir sempre com base na supremacia do interesse público e indisponibilidade do interesse público, à referida lei demonstra o papel essencial que o Estado deve ter com os idosos. Não obstante, o art. 9.º da lei 10.741/2003, aduz: "é obrigação do Estado, garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade.”

Apesar das dificuldades encontradas, foram implantadas novas políticas sociais públicas, como a criação de atividades para os idosos, com instalação de academias populares e parques, porém, apesar da implantação destes serviços, ainda é quantidade insuficiente para atender a demanda.

Pode-se dizer que os direitos fundamentais são indivisíveis, assim o direito à vida está aliado com o direito à liberdade, respeito e dignidade. O Estado possui a obrigação de promover a igualdade entre indivíduos, assegurando-os: a) o direito de ir, vir e estar em qualquer local, o direito a expressão de opinião, crença e/ou religião, participação na vida política, em comunidade e familiar, a busca por diversão, lazer, auxílio e orientação; b) o respeito preservando a integridade física, moral ou psíquica do idoso; c) a proteção, por parte não só da justiça, das leis e do Estado, mas sim de todos os indivíduos para com o idoso, livrando-o de qualquer situação de constrangimento ou agressão, garantindo assim a sua dignidade.

Dos crimes contra o idoso

A realidade do Brasil com relação ao idoso é lastimável, vez que corriqueiramente o idoso tem seu direito desrespeitado, tendo sua dignidade ferida. A violência também aumentou consideravelmente, estando presente em todas regiões e muitos se omitem em denunciar aqueles praticam tais crimes contra os idosos.

Não obstante, o artigo 4.º, da lei 10.741/03, dispõe em sua redação:

"nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei."

No entanto, é costumeiro o desrespeito aos direitos dos idosos e a violência contra os mesmos. Isto é facilmente percebido na sociedade e constantemente trazido à tona pela mídia, inclusive por jornais online. Diariamente, os portais de notícia evidenciam a violência contra os idosos e, apesar de toda legislação protecional existente, os maus tratos e desrespeito ainda continuam ocorrendo.

É lamentável que exista uma norma protetora aos idosos e que, o Estado como garantidor destes direitos, ainda não tenha obtido êxito em proteger ou, ao menos, diminuir estes índices alarmantes de desrespeito e maus tratos aos idosos, seja através de punições ou maiores fiscalizações. Deve-se ter uma maior proteção ao idoso, garantindo-lhes o mínimo de dignidade enquanto pessoa, princípio máximo do estado democrático de direito.

Estatísticas mostram que a população idosa vem aumentando e, em decorrência deste fator, a preocupação para com estes deve ser duplicada, pois segundo Oliveira (2009) apud Guimarães (2004),

“A velhice é ainda motivo de controvérsias quanto à natureza e dinâmica de seu processo, apesar de ser um fenômeno comum a todos os seres vivos, porém o aumento da expectativa de vida e o consequente crescimento do número de idosos revelam dois fatos aparentemente antagônicos: o de aumentar a duração da vida da população e, de outro, o de trazer à tona os múltiplos problemas médicos, sociais e econômicos, que, com frequência, se acham interligados, particularmente em indivíduos da terceira idade." (OLIVEIRA, 2009 apud GUIMARÂES, 2004)

Destarte, deve-se ter outros olhares para as pessoas de 3.ª idade, os idosos, e buscar sempre a efetivação das políticas públicas já implantadas. O Estatuto do Idoso traz em seu arcabouço diversos artigos que visam à proteção da pessoa com mais de 60 anos de idade, trazendo-lhes diversos benefícios. A exemplo do art. 118 e seguintes, ao qual estabelece atendimento preferencial em órgãos públicos e privados prestadores de serviço à população, fornecimento gratuito de medicamentos, entre outros. Ademais, para garantir estes e outros direitos previstos, o próprio Estatuto do Idoso, em seu art. 95 e seguintes, previsto no capítulo II, intitulado “Dos Crimes em Espécie”, trouxe diversas punições àqueles que ferirem o dispositivo legal.

Entretanto, apesar da legislação em vigor trazer diversos benefícios para os idosos e sanções para aqueles que ferirem o dispositivo legal, não têm-se efetivado o objetivo para qual a lei foi criada, para proteger aqueles que necessitam de tratamento especial, os idosos. Ao contrário disto, ver-se cotidianamente o desrespeito e maus tratos aumentando consideravelmente no país.

Destarte, insta registrar que os maus tratos contra os idoso é crime, conforme previsão do Art. 4.º do Estatuto do Idoso, ao qual expressa que: “nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei.” Desta forma, é preciso combater os indivíduos que aproveitam-se de condições físicas e psíquicas superiores para agredir os idosos que, na maioria das vezes, são considerados vulneráveis. Paralelamente a estes acontecimentos, percebe-se que a falta de denúncia e o medo que o idoso sente em denunciar, gera impunidade dos criminosos, assim, apesar da lei estar em vigor, é pouco usufruída.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base no exposto, depreende-se portanto que, a violência e maus tratos contra o idoso é evidente e que aumenta proporcionalmente à medida que a população de mais idade permanece em constante crescimento, e que para isso surgiram leis juntamente com suas devidas punições para os crimes cometidos.

Porém, pôde-se compreender que, embora haja leis visando a proteção aos idosos e que o Estado também possui consigo um papel primordial de garantidor destes direitos acima de tudo, o que precisa-se de fato é a conscientização dos indivíduos no que se refere aos cuidados com os mais velhos, e caso venham a presenciar maus tratos contra os mesmos, denunciar tais atos.

O Brasil precisa de uma sociedade participativa, contribuindo para diminuição das desigualdades e discriminações sociais, proporcionando aos nossos idosos um bem-estar, haja vista que, os idosos hoje são a sabedoria, ensinamento e experiência do ontem, que se estende ao amanhã.

REFERÊNCIAS

DINIZ, M. H. Direito à vida. 2009 Disponível em: http://abadireitoconstitucional.blogspot.com / Acesso em: 27 de outubro de 2014

DORETTO, F. O. B.; GUGLIOTTI, K. B. Legislação Civil Especial.Série Leituras Jurídicas. 2008. Ed. Atlas. FRANGE, P. O Estatuto do Idoso comentado por Paulo Frange. 2004, pág.112.

OLIVEIRA, M. Linhas Jurídica Disponível em: http://linhasjuridicas.wordpress.com/artigos/maus-tratos-contra-idososaluz-da-lei-10-74103-estatut... Acesso em: 27 de outubro de 2014

Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FDireitos Humanos%2FDesafio-as-varias-formas-de-violencia-contra-os-idosos%2F5%2F31485 / Acesso em: 27 de outubro de 2014.

ROBERTO, L. M. P. O Direito à vida. 2002. 16p.

Fonte: https://deyvsonhumberto.jusbrasil.com.br/artigos/297030703/o-direito-a-vida-e-a-violencia-contra-os-idosos

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Se existe saudade - Letícia Thompson

A saudade é esse passarinho que vem de leve e pousa no nosso coração trazendo lembranças, como um colibri que beija a flor e traz beleza.

E ela nem escolhe hora ou lugar, só aparece assim, invadindo inteiramente esse espaço que consideramos reservado às pessoas ou ocasiões especiais.

Mas se existe saudade, é porque existem sementinhas de ternura plantadas em nós; pedacinhos de coisas boas, que talvez nem tenham ficado muito tempo, mas o suficiente para deixar um rastro, um sabor, uma marca, um perfume.

Outro dia, falando sobre a saudade que sinto da minha família virtual, ouvi, com surpresa, alguém dizer que não é possível sentir saudade de pessoas que nunca vimos.

E como não?

Que nome dar então a essa falta, esse vazio nostálgico, dolorido e bom que invade a alma e toma conta do momento?

Essa viagem que fazemos sem malas e documentos e que nos leva e nos trás, cheios de amor e de não sei o quê?

A saudade é uma prova, um certificado, carimbado e assinado embaixo de que não estamos inteiramente sós e nem vazios.

As pessoas vêm e vão e ficam assim se prolongando em nós, existindo pela eternidade do nosso caminho.

E amanhã ou depois, quando tudo o que sobrar em nós forem pedaços do passado, teremos esse coração rico em histórias que nos farão rir sozinhos e nos sentir vivos.

São essas as peças que os verdadeiros amigos pregam ao nosso coração.

Caímos nessa armadilha e ainda nos divertimos.Aprendemos assim que sentir saudade é respirar o amor que plantaram em nós.

É viver depois repletos desse amor para a vida toda.

 

Letícia Thompson

Fonte: http://www.leticiathompson.net/Se_existe_saudade_LT.html

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Lua a cadelinha do Tibete

 

Esta história foi inspirada pelo sacrifício e coragem dos que lutam para ser livres.

Não é invulgar no Tibete os pais mandarem os filhos pelos trilhos das montanhas, na esperança de que estes encontrem refúgio no Nepal.

Durante o inverno, quando esses desfiladeiros não são severamente vigiados, o frio agreste é considerado uma ameaça bem menor do que permanecer em casa.

Muitas dessas crianças conseguiram chegar ao Nepal, muitas voltaram para trás, e muitas mais, pura e simplesmente, desapareceram.

Lua, a cadela desta história, é uma terrier tibetana.

A raça é muito antiga e tem um passado interessante.

Diz-se que os cães eram inicialmente mantidos como companheiros nos mosteiros isolados que existem no que viria a ser chamado “O Vale Perdido do Tibete”.

Como eram edificados nas profundezas das montanhas do Himalaia, o percurso de entrada e saída desses mosteiros era muito difícil.

Os cães eram inteligentes, leais, e tinham um sentido de orientação infalível.

Também se dizia que traziam sorte.

Tal como Lua, aprenderam de cor as passagens secretas para entrar e sair das montanhas.

Nunca eram vendidos, porque fazer isso seria “vender a sua própria boa sorte.”

Os cães eram, no entanto, oferecidos como presentes a pessoas que se tinha em alta estima.

Uma destas ofertas foi eventualmente trazida para Inglaterra e tornou-se o fundador da raça dos terriers tibetanos, tal como agora os conhecemos.

Com a sua capa dupla de lã e pelo, e largas patas com “sapatos de neve”, os cães eram perfeitamente adequados à vida difícil que tinham de levar.

Eram chamados “os homenzinhos” pelos Tibetanos e, como membros da família, esperava-se que cumprissem a sua parte nas tarefas.

Assim, tornaram-se guardadores de rebanhos e cães de guarda.

Agora, já não têm outras caraterísticas do terrier além do seu tamanho e, devido à sua natureza calma e segura, bem como à sua grande inteligência, são animais de estimação muito queridos das famílias com quem partilham as vidas.

Lua, a Cadelinha do Tibete é uma história acerca da bravura e da força espiritual.

É também uma história sobre a família, o espírito de sacrifício, e todas as coisas maravilhosas que o amor pode fazer surgir.

Muitas vezes é necessária uma grande coragem para ir em busca das coisas que são importantes para nós, ainda que tenhamos a sorte de ter na nossa vida a dádiva inestimável da liberdade. Mas há muitas pessoas no mundo que nunca irão conhecer esta dádiva.

Todos nós merecemos o direito de exprimir o que pensamos, de ler os livros que pretendemos ler, de praticar a nossa religião, e de viver sem sentir medo.

Estas são coisas que todos os pais desejam para os seus filhos.

Como escritora e educadora, as minhas esperanças para vós — para todas as crianças — são exatamente as mesmas.

Uma manhã bem cedo, o sol elevou-se sobre o topo das montanhas do Tibete.

Uma luminosidade pálida espalhava-se por todo o vale e tingia de rosa suave as paredes de um antigo mosteiro.

Os monges que ali viviam estavam a pé há muitas horas, cantando e orando.

Depois, partiriam para os seus afazeres, e os sons que enchiam as manhãs atarefadas flutuariam através do fino ar da montanha.

Tenzin saiu para varrer as escadas.

Um pequeno cãozito seguiu-o.

Havia outros cães no mosteiro, mas esta fêmea, Lua, tinha elegido o jovem monge como seu dono.

Ora o seguia pelos corredores sombrios, ora ficava ao lado dele, imóvel como um leãozinho de pedra, quando ele fechava os olhos em oração.

À noite, quando Tenzin se instalava na sua cama estreita,

Lua enroscava-se em volta dos seus pés.Ali, no mosteiro, a vida era vivida em paz.

Como todos os cães do mosteiro, Lua passeava pelas encostas das montanhas. Devido ao seu pelo espesso, o vento e o frio não a incomodavam.

Os seus pés largos e chatos ajudavam-na a caminhar com segurança sobre o solo invernoso.

Tenzin costumava vê-la a subir cada vez mais alto até que, finalmente, desaparecia para além da montanha.

Mas o monge não se preocupava, porque a cadelinha conhecia os trilhos da montanha melhor do que qualquer outro cão.

E o tempo ia passando, tranquilo e calmo.

Um dia, ao fim da tarde, quando Tenzin estava sentado a meditar perto da porta do mosteiro, ouviu um som. Lua também ouviu.

A cadelinha levantou a cabeça e ficou a olhar para a escuridão.

Muito devagar, duas crianças saíram do meio da neblina.

Tenzin já antes tinha visto crianças assim, embora poucas fossem tão jovens.

Tentavam atravessar para o Nepal, na esperança de serem livres.

Caminhavam apressadas em plena noite, para poder escapar aos soldados que guardavam as fronteiras.

 Já chegámos? — perguntou a menina, que se agarrava firmemente à mão do rapazinho.

— Já estamos no Nepal?— Não. Ainda não — respondeu Tenzin, sem coragem para lhes dizer que a viagem ainda iria ser longa e perigosa.

Depois de Lua ter cheirado as pernas deles, deixou-os entrar.

Os monges levaram as crianças até perto do fogo.

Foi servida sopa quente e a menina falou devagar enquanto comia.

A mãe deles tinha-os mandado partir já há muitos dias.

“Vocês têm que atravessar as montanhas e deixar o Tibete,” tinha ela dito.

“Depois serão livres.”Vestira-os com camadas de camisolas e calçara meias grossas nos seus pés.

Sabia que os filhos teriam que partir no inverno, quando os desfiladeiros não eram tão cuidadosamente vigiados, mas temia que eles se perdessem para sempre no meio das tempestades impiedosas e das neves profundas.

— Tu vens também, mãe? — perguntou o filho.— Claro que vou — respondeu ela, calmamente.

A mãe não conseguira encarar os olhos tristes da filha.

— Até eu partir, eis o que vocês têm de fazer — disse, desenrolando uma peça de tecido.

— Uma bandeira de orações — exclamou o rapaz, que adorava ouvir o adejar das bandeiras ao sabor do vento.

— Tens de manter isto junto ao coração — disse a mãe, dobrando a bandeira e aconchegando-a junto à pele do filho.

— Quando chegarem ao Nepal, amarrem-na a um templo e deixem-na flutuar ao vento.

As orações que vou enviar convosco vão elevar-se aos céus e voltar para mim.

Nessa altura, saberei que estão a salvo.

As crianças pareciam ter caminhado durante uma eternidade, seguindo as estradas pedregosas que serpenteavam através das montanhas.

Finalmente, tinham chegado ao mosteiro.

Tenzin abanou a cabeça enquanto os observava, cabeceando cheios de sono sobre as taças de sopa.

Embora tivessem viajado de muito longe, iriam provavelmente ficar por ali. “Vão mandá-los regressar”, sussurrou para si próprio.

Durante toda a noite, Tenzin ficou acordado, a pensar no que deveria fazer. Antes do amanhecer, levantou-se e orou com os outros monges.

Depois, dirigiu-se para as portas do mosteiro, seguido por Lua e pelas crianças.

— Os guardas não vos vão deixar passar — disse-lhes. — Não podem ir pela estrada da montanha.— Mas só conhecemos esse caminho — disse-lhe a rapariga.— A Lua conhece outros — respondeu Tenzin.

Ajoelhou-se para afastar o longo pelo dos olhos da cadelinha e pediu:

— Leva-os. Mostra-lhes o caminho.Lua olhou para a cara de Tenzin por momentos e depois saiu em direção às montanhas.

A menina ia agarrada à mão do irmão e o rapaz ia agarrado à cadelinha.

Tenzin observou-os durante longos momentos.

Mesmo antes das três figuras desaparecerem para além das montanhas, teve a certeza de que viu a pequena cabecinha de Lua voltar-se para olhar para trás, para ele.

Depois, desapareceram.

Todos os dias Tenzin espiava as encostas das montanhas, mas não via Lua.

Orava e voltava para os seus estudos.

À noite, dormia sozinho, sentindo uma dor no coração, no lugar onde em tempos só a paz tinha existido.

Os dias tornaram-se semanas.

O verão passou a outono e, quando o inverno chegou, o mosteiro ficou como que enclausurado pela neve.

Numa manhã fria de primavera, Tenzin pôs-se a caminhar em direção aos raios do sol. Pingentes de gelo soltavam-se dos beirais do mosteiro e manchas de terra molhada brilhavam na encosta da montanha.

Então, uma das manchas moveu-se e um latido soou!

Uma pequena forma desceu lentamente a ladeira.

Tenzin correu ao encontro de Lua. Pegou nela e transportou-a para o mosteiro.

Os monges deram mostras de regozijo, enquanto acariciavam e mimavam Lua.

O seu pelo estava sujo e emaranhado, e as almofadinhas das suas patas estavam feridas.

Quando Tenzin lhe fez festas nas orelhas e no pescoço, apercebeu-se de algo.

Por baixo do longo pelo do cão estava um rolo de tecido.

Tenzin desatou-o e agitou-o.“A bandeira das orações,” murmurou, surpreendido.

Com Lua e os monges a segui-lo, Tenzin saiu do mosteiro e, com cuidado, prendeu a bandeira a uma corda, para que pudesse flutuar ao vento.

Mais tarde, nessa noite, Tenzin estava deitado na cama.

Lua estava enroscada aos seus pés, imóvel, mas sempre em guarda.

De repente, levantou a cabeça, ouvindo qualquer coisa que só os cães conseguiriam ouvir.

Era um som tão doce como as risadas distantes de crianças felizes, um som tão suave como o sorriso de uma mãe.

O som desvaneceu-se como fumo na escuridão.Lua, a cadelinha, baixou a cabeça e fechou os olhos.

E, de novo envoltos em paz, ela e Tenzin adormeceram.

Maxine TrottierLittle dog MoonToronto, Stoddart Kids, 2000(Tradução e adaptação)

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Lua, a cadelinha do Tibete

Esta história foi inspirada pelo sacrifício e coragem dos que lutam para ser livres.

Não é invulgar no Tibete os pais mandarem os filhos pelos trilhos das montanhas, na esperança de que estes encontrem refúgio no Nepal.

Durante o inverno, quando esses desfiladeiros não são severamente vigiados, o frio agreste é considerado uma ameaça bem menor do que permanecer em casa.

Muitas dessas crianças conseguiram chegar ao Nepal, muitas voltaram para trás, e muitas mais, pura e simplesmente, desapareceram.

Lua, a cadela desta história, é uma terrier tibetana.

A raça é muito antiga e tem um passado interessante.

Diz-se que os cães eram inicialmente mantidos como companheiros nos mosteiros isolados que existem no que viria a ser chamado “O Vale Perdido do Tibete”.

Como eram edificados nas profundezas das montanhas do Himalaia, o percurso de entrada e saída desses mosteiros era muito difícil.

Os cães eram inteligentes, leais, e tinham um sentido de orientação infalível.

Também se dizia que traziam sorte.

Tal como Lua, aprenderam de cor as passagens secretas para entrar e sair das montanhas.

Nunca eram vendidos, porque fazer isso seria “vender a sua própria boa sorte.”

Os cães eram, no entanto, oferecidos como presentes a pessoas que se tinha em alta estima.

Uma destas ofertas foi eventualmente trazida para Inglaterra e tornou-se o fundador da raça dos terriers tibetanos, tal como agora os conhecemos.

Com a sua capa dupla de lã e pelo, e largas patas com “sapatos de neve”, os cães eram perfeitamente adequados à vida difícil que tinham de levar.

Eram chamados “os homenzinhos” pelos Tibetanos e, como membros da família, esperava-se que cumprissem a sua parte nas tarefas.

Assim, tornaram-se guardadores de rebanhos e cães de guarda.

Agora, já não têm outras caraterísticas do terrier além do seu tamanho e, devido à sua natureza calma e segura, bem como à sua grande inteligência, são animais de estimação muito queridos das famílias com quem partilham as vidas.

Lua, a Cadelinha do Tibete é uma história acerca da bravura e da força espiritual.

É também uma história sobre a família, o espírito de sacrifício, e todas as coisas maravilhosas que o amor pode fazer surgir.

Muitas vezes é necessária uma grande coragem para ir em busca das coisas que são importantes para nós, ainda que tenhamos a sorte de ter na nossa vida a dádiva inestimável da liberdade. Mas há muitas pessoas no mundo que nunca irão conhecer esta dádiva.

Todos nós merecemos o direito de exprimir o que pensamos, de ler os livros que pretendemos ler, de praticar a nossa religião, e de viver sem sentir medo.

Estas são coisas que todos os pais desejam para os seus filhos.

Como escritora e educadora, as minhas esperanças para vós — para todas as crianças — são exatamente as mesmas.

Uma manhã bem cedo, o sol elevou-se sobre o topo das montanhas do Tibete.

Uma luminosidade pálida espalhava-se por todo o vale e tingia de rosa suave as paredes de um antigo mosteiro.

Os monges que ali viviam estavam a pé há muitas horas, cantando e orando.

Depois, partiriam para os seus afazeres, e os sons que enchiam as manhãs atarefadas flutuariam através do fino ar da montanha.

Tenzin saiu para varrer as escadas.

Um pequeno cãozito seguiu-o.

Havia outros cães no mosteiro, mas esta fêmea, Lua, tinha elegido o jovem monge como seu dono.

Ora o seguia pelos corredores sombrios, ora ficava ao lado dele, imóvel como um leãozinho de pedra, quando ele fechava os olhos em oração.

À noite, quando Tenzin se instalava na sua cama estreita,

Lua enroscava-se em volta dos seus pés.Ali, no mosteiro, a vida era vivida em paz.

Como todos os cães do mosteiro, Lua passeava pelas encostas das montanhas. Devido ao seu pelo espesso, o vento e o frio não a incomodavam.

Os seus pés largos e chatos ajudavam-na a caminhar com segurança sobre o solo invernoso.

Tenzin costumava vê-la a subir cada vez mais alto até que, finalmente, desaparecia para além da montanha.

Mas o monge não se preocupava, porque a cadelinha conhecia os trilhos da montanha melhor do que qualquer outro cão.

E o tempo ia passando, tranquilo e calmo.

Um dia, ao fim da tarde, quando Tenzin estava sentado a meditar perto da porta do mosteiro, ouviu um som. Lua também ouviu.

A cadelinha levantou a cabeça e ficou a olhar para a escuridão.

Muito devagar, duas crianças saíram do meio da neblina.

Tenzin já antes tinha visto crianças assim, embora poucas fossem tão jovens.

Tentavam atravessar para o Nepal, na esperança de serem livres.

Caminhavam apressadas em plena noite, para poder escapar aos soldados que guardavam as fronteiras.

 Já chegámos? — perguntou a menina, que se agarrava firmemente à mão do rapazinho.

— Já estamos no Nepal?— Não. Ainda não — respondeu Tenzin, sem coragem para lhes dizer que a viagem ainda iria ser longa e perigosa.

Depois de Lua ter cheirado as pernas deles, deixou-os entrar.

Os monges levaram as crianças até perto do fogo.

Foi servida sopa quente e a menina falou devagar enquanto comia.

A mãe deles tinha-os mandado partir já há muitos dias.

“Vocês têm que atravessar as montanhas e deixar o Tibete,” tinha ela dito.

“Depois serão livres.”Vestira-os com camadas de camisolas e calçara meias grossas nos seus pés.

Sabia que os filhos teriam que partir no inverno, quando os desfiladeiros não eram tão cuidadosamente vigiados, mas temia que eles se perdessem para sempre no meio das tempestades impiedosas e das neves profundas.

— Tu vens também, mãe? — perguntou o filho.— Claro que vou — respondeu ela, calmamente.

A mãe não conseguira encarar os olhos tristes da filha.

— Até eu partir, eis o que vocês têm de fazer — disse, desenrolando uma peça de tecido.

— Uma bandeira de orações — exclamou o rapaz, que adorava ouvir o adejar das bandeiras ao sabor do vento.

— Tens de manter isto junto ao coração — disse a mãe, dobrando a bandeira e aconchegando-a junto à pele do filho.

— Quando chegarem ao Nepal, amarrem-na a um templo e deixem-na flutuar ao vento.

As orações que vou enviar convosco vão elevar-se aos céus e voltar para mim.

Nessa altura, saberei que estão a salvo.

As crianças pareciam ter caminhado durante uma eternidade, seguindo as estradas pedregosas que serpenteavam através das montanhas.

Finalmente, tinham chegado ao mosteiro.

Tenzin abanou a cabeça enquanto os observava, cabeceando cheios de sono sobre as taças de sopa.

Embora tivessem viajado de muito longe, iriam provavelmente ficar por ali. “Vão mandá-los regressar”, sussurrou para si próprio.

Durante toda a noite, Tenzin ficou acordado, a pensar no que deveria fazer. Antes do amanhecer, levantou-se e orou com os outros monges.

Depois, dirigiu-se para as portas do mosteiro, seguido por Lua e pelas crianças.

— Os guardas não vos vão deixar passar — disse-lhes. — Não podem ir pela estrada da montanha.— Mas só conhecemos esse caminho — disse-lhe a rapariga.— A Lua conhece outros — respondeu Tenzin.

Ajoelhou-se para afastar o longo pelo dos olhos da cadelinha e pediu:

— Leva-os. Mostra-lhes o caminho.Lua olhou para a cara de Tenzin por momentos e depois saiu em direção às montanhas.

A menina ia agarrada à mão do irmão e o rapaz ia agarrado à cadelinha.

Tenzin observou-os durante longos momentos.

Mesmo antes das três figuras desaparecerem para além das montanhas, teve a certeza de que viu a pequena cabecinha de Lua voltar-se para olhar para trás, para ele.

Depois, desapareceram.

Todos os dias Tenzin espiava as encostas das montanhas, mas não via Lua.

Orava e voltava para os seus estudos.

À noite, dormia sozinho, sentindo uma dor no coração, no lugar onde em tempos só a paz tinha existido.

Os dias tornaram-se semanas.

O verão passou a outono e, quando o inverno chegou, o mosteiro ficou como que enclausurado pela neve.

Numa manhã fria de primavera, Tenzin pôs-se a caminhar em direção aos raios do sol. Pingentes de gelo soltavam-se dos beirais do mosteiro e manchas de terra molhada brilhavam na encosta da montanha.

Então, uma das manchas moveu-se e um latido soou!

Uma pequena forma desceu lentamente a ladeira.

Tenzin correu ao encontro de Lua. Pegou nela e transportou-a para o mosteiro.

Os monges deram mostras de regozijo, enquanto acariciavam e mimavam Lua.

O seu pelo estava sujo e emaranhado, e as almofadinhas das suas patas estavam feridas.

Quando Tenzin lhe fez festas nas orelhas e no pescoço, apercebeu-se de algo.

Por baixo do longo pelo do cão estava um rolo de tecido.

Tenzin desatou-o e agitou-o.“A bandeira das orações,” murmurou, surpreendido.

Com Lua e os monges a segui-lo, Tenzin saiu do mosteiro e, com cuidado, prendeu a bandeira a uma corda, para que pudesse flutuar ao vento.

Mais tarde, nessa noite, Tenzin estava deitado na cama.

Lua estava enroscada aos seus pés, imóvel, mas sempre em guarda.

De repente, levantou a cabeça, ouvindo qualquer coisa que só os cães conseguiriam ouvir.

Era um som tão doce como as risadas distantes de crianças felizes, um som tão suave como o sorriso de uma mãe.

O som desvaneceu-se como fumo na escuridão.Lua, a cadelinha, baixou a cabeça e fechou os olhos.

E, de novo envoltos em paz, ela e Tenzin adormeceram.

Maxine TrottierLittle dog MoonToronto, Stoddart Kids, 2000(Tradução e adaptação)

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Das Vantagens de Ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas.

Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde:

"Estou fazendo. Estou pensando.

"Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem.

Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.

O bobo nunca parece ter tido vez.

No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente.

Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco.

Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.

Resultado: não funciona.

Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo.

Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

O esperto vence com úlcera no estômago.

O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera.

É uma das tristezas que o bobo não prevê.

César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?

"Bobo não reclama.

Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil.

Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros.

Em compensação os bobos ganham a vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie.

Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil).

Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo.

Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.

É que só o bobo é capaz de excesso de amor.

E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector

 

Fonte: https://www.pensador.com/frase/NjY4MTUz/

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Renata Tebaldi

Renata Tebaldi

Tebaldi nasceu como Renata Ersilia Clotilde Tebaldi em 1º de fevereiro de 1922, em Pesaro.[3] Ela era a filha de um violoncelista, Teobaldo Tebaldi,[4] e Giuseppina Barbieri, uma enfermeira.[5] Sofreu de poliomielite, mas conseguiu curar-se completamente. Ela foi criada, durante a maior parte do tempo, em Langhirano, próximo a Parma, pela sua mãe, já que o seu pai não era exactamente um esposo exemplar e um pai admirável. Ainda muito cedo, interessou-se pelo canto, e precisou mentir sua idade, ainda de dezasseis anos, para entrar no Conservatório Arrigo Boito, que só permitia alunas acima dos dezoito anos. Em 1940, Tebaldi voltou a Pesaro para estudar com a renomada soprano da Escola Verista Carmen Melis.

Em 1944, Tebaldi debutou em Rovigo como Elena, em Mefistofele, de Arrigo Boito. Em 1945, ela debutou em dois dos seus maiores papéis: Mimì, de La Bohème, e Desdêmona, de Otello. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o Teatro alla Scala foi reaberto, e ela foi convidada por Arturo Toscanini para cantar no concerto de abertura a preghiera (pregação) de Mosè in Egitto, de Gioacchino Rossini, e o Te Deum, de Giuseppe Verdi. A reputação de Renata Tebaldi cresceu rapidamente, e logo ela se tornou a maior promessa do canto na Itália. Foi nessa ocasião que surgiu o famoso apelido La Voce d'Angelo (a voz de anjo), pelo qual Tebaldi se tornou conhecida até hoje.

Após esse debute no La Scala, Tebaldi passou a cantar Mimì, Desdêmona, Maddalena (de Andrea Chénier), Aida, Tosca e Violetta (de La Traviata), além de alguns papéis wagnerianos (em italiano): Elsa, de Lohengrin, Eva, de Os Mestres Cantores de Nuremberg e Elisabeth, de Tannhäuser. Entre 1951 e 1952, Tebaldi também resgastou algumas óperas do Bel Canto, embora ela não fosse ficar muito associada a esse repertório futuramente: O Sítio de Corinto e Guillaume Tell, ambas de Rossini; Olimpia e Fernand Cortez, de Spontini.

Em 1950, Tebaldi viajou com a companhia do La Scala para cantar no Festival de Edimburgo e no famoso Covent Garden, em Londres, e impressionou as platéias com sua Desdêmona e sua interpretação no Requiem de Giuseppe Verdi. No mesmo ano, Tebaldi teve grande sucesso com seu debute norte-americano em San Francisco, onde cantou Desdêmona e Aida. A partir de então, sua fama internacional alastrou-se rapidamente, e ela se tornou uma das maiores divas da nova geração.

Os anos de estrelato
O apogeu da carreira de Tebaldi se deu nos anos 1950 e 60. Nesse período, não só ela ficou famosa pelo seu timbre único e pela sua maestria nos papéis verdianos e veristas, como ficou conhecida pela rivalidade existente entre ela e Callas. Esta irrompeu, em 1951, durante a temporada do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e continuou por longos anos, até terminar definitivamente em 1968, quando Callas e Tebaldi se abraçaram após uma performance da diva italiana na ópera Adriana Lecouvreur.

Durante seu período de estrelato, Tebaldi reinou em papéis como Leonora (La Forza del Destino), Cio-Cio-San (Madama Butterfly), Adriana Lecouvreur, Tosca, La Wally, Manon Lescaut e Maddalena (Andrea Chénier). Em janeiro de 1955, ela fez seu debute no Metropolitan Opera, de Nova York, como Desdêmona, e desde então se tornou uma das mais ouvidas e amadas sopranos do teatro.

Em 1963, Renata Tebaldi enfrentou um período de crise vocal, e parou durante um tempo para descansar e reeducar novamente sua voz. Voltando em 1964, Tebaldi apareceu com uma voz mais segura e de grande beleza, embora tenha adquirido um relativo peso, que antes não existia e os seus agudos tenham adquirido uma qualidade relativamente estridente. No entanto, continuou a cantar, com maestria total, muitos de seus papéis anteriores. Devido às suas novas condições vocais, ela pôde adicionar ao seu repertório o dramático papel de La Gioconda, da ópera homônima de Amilcare Ponchielli, com o qual obteve o maior sucesso da temporada de abertura do novo prédio do Metropolitan Opera House. Nessa nova fase da carreira, Tebaldi praticamente abandonou a Europa e passou a apresentar-se basicamente na América do Norte.

Anos pós-estrelato
Renata Tebaldi fez sua última aparição no Metropolitan Opera em 1972, como Desdêmona, ao lado do tenor James MacCracken. Em 1973, ela saiu definitivamente dos palcos, mas continuou cantando até o dia 23 de maio de 1976, quando se despediu do La Scala para sempre. Após o fim da carreira, Tebaldi auxiliou vários cantores jovens, como a norte-americana Aprile Millo, mas se recusou a trabalhar oficialmente como professora de canto. Durante as últimas décadas de sua vida, viveu entre Milão e San Marino e continuou a receber e a responder com carinho cartas e telefonemas de seus fãs.

Tebaldi recebeu vários prêmios durante sua vida e morreu em 19 de dezembro de 2004.

Características vocais
Renata Tebaldi possuía uma belíssima voz de soprano lírico-spinto, uma das mais volumosas vozes dos últimos tempos - generosa no registro médio, e grave e curta, mas possante, no registro agudo. Apesar da amplidão da voz, sempre a moldava com extrema sensibilidade e técnica. Os maiores trunfos do canto da soprano italiana estavam no legato, na respiração e no fraseado. Com essas grandes qualidades, Tebaldi conseguia imprimir grande expressividade às suas personagens, embora, no palco, nem sempre fosse a mais intensa das artistas quanto aos gestos e às expressões faciais. Sua arte era extremamente refinada e vinda diretamente das escolas de canto mais antigas, das quais ela foi uma das últimas representantes. Seu legado foi particularmente importante nas óperas de Giacomo Puccini e Giuseppe Verdi.

https://youtu.be/1woH96ROG-c

Referências
Cramer, Alfred W. (2009). Musicians and composers of the 20th century (em inglês). [S.l.]: Salem Press. p. 1483. ISBN 978-1-58765-517-3. Consultado em 19 de dezembro de 2013.
Anthony Tommasini (20 de dezembro de 2004). «Renata Tebaldi, 82, Soprano With 'Voice of an Angel,' Dies» (em inglês). NYTimes. Consultado em 19 de dezembro de 2012.
Casanova, Carlamaria (1981). Renata Tebaldi: la voce d'angelo (em inglês). [S.l.]: Electa. p. 13. Consultado em 19 de dezembro de 2013.
Current Biography Yearbook (em inglês). [S.l.]: H. W. Wilson Company. 1956. p. 599. Consultado em 19 de dezembro de 2013.
Seroff, Victor Ilyitch (1970). Current Biography Yearbook (em inglês). [S.l.]: Books for Libraries Press. p. 13. ISBN 978-0-8369-8048-6

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Maria Callas

Maria Callas

Por Ana Lucia Santana
A diva da música lírica, Maria Callas, batizada como Cecilia Sofia Anna Maria Kalogeropoulou, nasceu no seio de uma família grega, na cidade de Nova Iorque, no dia 2 de dezembro de 1923. Sua vida pessoal controvertida a popularizou, mas não mais que o estímulo ao desenvolvimento de uma nova forma de interpretar as criações operísticas.

Sua voz tinha um timbre único e emblemático, que a transformou na maior soprano da história do estilo lírico e na mais famosa intérprete operística do século XX. Além disso, ela protagonizou várias óperas já legadas ao esquecimento. Seus estudos neste campo tiveram um início promissor, com Elvira de Hidalgo, no Conservatório de Atenas, ao retornar com a mãe para a Grécia, por motivos econômicos.

No dia 21 de janeiro de 1941 ela estreia profissionalmente como Beatrice, na ópera Bocaccio, no Palas Cinema, em Atenas, com a Companhia de Teatro Lírico, ao lado da qual ela também se apresentará em Tosca, Tiefland, Cavalleria Rusticana, Fidelio e Der Bettelstudent, nos quatro anos seguintes.

Seu ‘debut’ na Itália ocorreu em 1947, na cidade de Verona, quando ela interpretou Gioconda, sob a direção do maestro Tullio Sefarin, que a partir de então se tornou seu mestre na música. Seu sucesso se espalhou por todo o país e ela subiu aos palcos do famoso teatro La Scala de Milão.

No ano de 1949 Callas contraiu matrimônio com Giovanni Battista Menegghini; esta união duraria apenas dez anos. Intensamente geniosa, ela encontrava em sua vida íntima a mesma dramaticidade que revelava nos palcos, ao interpretar suas inúmeras heroínas. Não era fácil para maestros e companheiros de trabalho atuarem ao seu lado, pois ela constantemente entrava em conflito com seus colegas, sempre por conta de seus ideais artísticos.

Depois de se separar de seu marido, mais velho que ela, Maria viveu uma forte paixão ao lado do grego Aristoteles Onassis, famoso por sua vasta fortuna, junto a quem não encontrou a felicidade, e sim uma repercussão sensacionalista na mídia. Em 1958, ao deixar o palco no meio da apresentação do espetáculo Norma, na Ópera de Roma, após se sentir mal, ela foi intensamente criticada pelos veículos jornalísticos da Itália, que a acusaram de arquitetar essa estratégia para atingir o presidente italiano, Giovanni Gronchi.

Seu espetáculo no Covent Garden, em 1952, marcou seu ingresso na Inglaterra. Logo depois ela realizou uma turnê por diversos recantos norte-americanos. Na década de 50 ela interpretou as performances femininas mais significativas da história da ópera, mas também atuou em papéis menores.

Callas manteve uma relação de amor e ódio com os administradores dos principais teatros em que atuou. No La Scalla de Roma ela entrou em conflito com Antonio Ghiringhelli, que a proibiu de subir ao seu palco, o que ela só voltou a fazer em 1960, com o espetáculo Poliuto, de Donizetti. Rudolf Bing a exonerou do Metropolitan, após algumas divergências entre ambos.

A última etapa de sua existência ela passou encerrada em sua residência, na capital francesa. Sua voz já não tinha o mesmo vigor. Apesar disso, participou de diversos concertos, em ‘master classes’ na célebre Julliard School de Nova Iorque, entre 1971 e 1972, e realizou incontáveis gravações. Callas faleceu em Paris, vítima de um infarto, aos 53 anos. Seu legado inclui diversas composições, entre elas algumas óperas integrais, das quais várias foram gravadas ao vivo.

https://youtu.be/1iwGIBewHPM

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Callas
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u323.jhtm
http://www.callas.it/english/cronologia.html

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DIAMANTE BABPEAPAZ

Esta palavra AMOR...

Ousadia pronunciá-la, sobretudo quando somos os primeiros a afirmar 'Não sou a pessoa mais indicada para falar dele neste momento...

 Não sou, sei-o.

Do amor verdadeiro, despojado de tudo, intenso e brutal, que com beijos se torna profícuo, triunfal, capaz de transportar montanhas e despertar cidades adormecidas.

É através desse amor que se desfazem laços, se voltam páginas e se viram costas.

Abrem-se novas esperanças, esfarrapam-se vidas, trocam-se destinos, tecem-se sonhos, linha por linha, numa construção nem sempre pacífica, mas, paciente, demorada, que envolve e progride entre risos e lágrimas emoldurando uma história feita de instantes, feita de imagens tantas e tantas vezes, na essência, desfocadas.

É através desse amor, tão comum e tão singular, que o sol dá lustro ao dia e a lua enfeita o seu espaço no céu, o acordar é mais leve, o adormecer mais sentido, os nossos passos elevam-nos e as palavras rodopiam, loucas, numa eterna ânsia de recomeço.

Subtil quando chega, destemido e poderoso, denuncia-se no olhar inundado de brilho, entrega-se em duelos, fulmina em cada demanda e redime-se no perdão.

Etéreo. Diáfano. Sensível.

Numa renda fina que se desfaz ao toque.

Chega, em espelho.

Esse amor reflectido baila no ar, numa verdade líquida e transfigurada porque é nosso, só nosso.

Ele repousa em cada segundo que deixamos por aí ao som do ar, ao toque da areia fina, a fluir sem sentido, sem rumo, num acaso encantado.

Esse amor tão verdade, dádiva tão profunda e só, que desajeitadamente misturamos com tudo.Chamam-lhe ternura, chamam-lhe cumplicidade, chamam-lhe amizade, chama-lhe sexo.

Dá por todos esses nomes, camuflado, a nosso gosto lá está, a confundir e a baralhar,a fazer batota e a esgueirar-se, escondendo-se disfarçado.

Mascarado de prazer, mascarado de dor, mascarado de paixão, mascarado de nada e, tanto faz, o amor sabe o que é.

A correr veloz, surpreendendo-nos com a pressa ou, em câmara lenta, no reviver continuado de todos os takes.

Não importa o nome, a categoria.

Quando chega reconhecemo-lo na alegria, na intimidade, na serenidade, na euforia.

Sussurra e grita na nossa alma, dura e perdura nas nossas mãos, profetiza...

O amor impõe-se.

Não há dia nem noite que o apague, não há maré que o arraste, nem rochedo que o arrase.

Forte como o vento, vulnerável como as nuvens, simples, tão simples que não há também palavra que o dite e já tantas correram o mundo e já todos doutrinaram sobre ele.

Mas, nenhuma palavra é tão pouco, ou tão tanto, que lhe baste.

A linguagem do amor... esse poder inabalável que transfigura e regenera, ameaça e corrompe, reconcilia e comove......e até acreditamos nele. Até acreditamos.

Ni*

 

Fonte: http://momentusmomentus.blogspot.com/

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