Posts de Paolo Lim (473)

BRONZE BABPEAPAZ

EXERCÍCIO

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Rimas cheias com "ão",
sabores à canção,
metem medo nas crianças,
fazem forte a oração.

Servem ao amor, ao coração,
imitam o bicho papão,
adjetivam provérbios de Salomão
e explodem bolinhas de sabão.

Essas nuvens nuvulosas
trazendo chuvas dadivosas,
pintassilgos e curiós,
parolas que desatam nós,
traidoras e traíras,
chulés e ziquiziras,
me fazem inocente
me obrigam ser coerente,
escrever poemas malucos,
espremer da vida os sucos,
rever a Maria Fumaça
que passava lá na praça, 
lembranças do mundo afora,
mais bonito que agora:

- Flagrantes da vizinha
caminhando no quarto de calcinha;
Latido do Bozó
como um samba duma nota só;
Causos e meu casulo
de quando tinha medo de escuro,
brincava na beira da praia,
dava pernadas, rabos de arraia.

Mas voltemos ao rimado com "ão" -
É o bão, é o bão, é o bão ! -
que nos inspira ser profetas,
prever, ler a mão,
aumentativo de tudo
e está na palavra "não":
- Soa amplo, 
tem impacto de trovão.

Vem, me tira desta confusão
de falar sobre as rimas com "ão"...

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GOSTO ÁCIDO

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Não quero o tédio da manhã igual.
Quero vida, emoções comovidas,
esperanças até o final.
Abandono lembranças,bagaços de poemas,
insatisfações acumuladas, 
a pia quebrada,
e o gosto ácido das madrugadas.

Sou mero viajante vital,
meio missa e carnaval.
Não quero a dúvida que transborda,
o medo do grito que acorda,
a privada entupida,
passagem só de ida,
neuroses escondidas.

Quero um dia complicado,
encarar o trânsito engarrafado,
me livrar, sair do outro lado,
inteiro ou machucado,
não importa o resultado.
O chuveiro tá gelado,
o cano furado.

Quero encontrar novas trilhas,
observar as cercanias,
me fartar de novidades,
experimentar dificuldades,
rir das adversidades,
quebrar o velho liquidificador,
remendar o cobertor,
ser pleno de contradições,
inventar orações
e pagar as prestações.

Eu quero...

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RETRATOS

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Pós graduado,
mestrado,
sabido,
desempregado...

Muito vivo,
propinado,
dissimulado,
evadido...

Extra-rico,
milionário,
listado,
escondido...

Vive de bico,
abandonado,
suspeito,
mendigo.

Muito jovem,
prendado, 
inteligente,
bandido.

Povo alegre,
batalhador,
desesperançado,
iludido.

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VAZIO III

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O silêncio grita
no cenário imóvel
como uma película
que expõe o óbvio
em cena ridícula
de amor e ódio.

Meus olhos opacos
penetram à fumaça,
atravessam o tráfego,
identificam a massa
num momento trêfego
que se misturam raças,
expressões e falácias.

Vazios e de graça.

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PASSAREI

PASSAREI

Não vi, nem vou.

Vêm e vão.

Tic e tac.

Bão, bá, lá, lão.

Perpendicular do coração.

Espeto do senhor Capitão.

Sub Céu matizado,

sangue das lembranças

incorpora saudades,

frágeis esperanças,

ecos do passado.

Não vi, nem vou.

Fico e passarei

como o sorriso moreno,

do adeus o aceno

e a brincadeira

inventei.

Paolo Lim.

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RESISTÊNCIA

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Sibilando o sonho,
civilmente me ponho
examinando o ponto,
vírgulas do espanto,
desequilibrando.

Identifico plágios,
denuncio ágios.
xingo banqueiros,
atuais bucaneiros
da população acuada,
lesada, explorada
pela administração
cooptada, enferrujada,
despreparada.

Obro protestos,
não admito restos
para o povo que paga,
se esforça, rala,
e ao final se cala.

Alimento fogueiras,
faço clareiras,
acentuo meus esforços,
mergulho nesses poços
me encharco d' água turva,
mobilizo a turba.

Resistir é meu desejo,
contra ordens de despejo,
encarar o "Teje preso"
e a eclosão do medo.

O povo é frágil,
o inimigo é ágil.
O considera manipulável.

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ESPERNEIO

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Crio e creio,
finjo, leio.
esperneio.

Ecos ocos,
tossidos, roucos.
Interpenetram,
querem saber,
questionam,
não sei responder...

Novos atos,
desacatos,
pugilato,
vai entender ?

- É um modelo.
Simples pesadelo.
- Pode ser...

Arrepios,
calafrios,
nasce o medo
tarde ou cedo.
Governa
o seu querer.

Buracos negros,
sepulcrais segredos
espatifados,
militarmente ordenados,
arquivados,
silentes,
contundentes,
transtornados.

Hoje é dia de folia.
Nada a temer...

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FACES

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Minhas fases são faces
que antes nunca tivera.
As assumo sem make-up,
boto fé e jogo a vera.

Ora bonito e folgado,
ora triste, meio apertado...
Mas não tergiverso no bailado:
- Mostro o que há prá ser mostrado.

Não acredito que a coerência
possa servir à felicidade.
Por isso mudo de máscaras
que são faces de minhas fases.

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POEMINHA

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Confesso que já fui lírico,
fiz canções e serenatas...
Para muitos um poeta empírico,
para outros autor de poesias baratas.

A vida nos faz exigências,
impõe destinos e rotas cegas;
Precisamos de condescendências
para cumprir, passarmos por elas.

Sigo escrevendo meus exigidos versos
em cumprimento as suas vontades.
Recebo críticas e comentários diversos
e assim vou cumprindo minhas finalidades.

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MINHAS IDÉIAS

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Minhas idéias sonâmbulas,
mais ativas, insones,
acondicionadas como em campânulas
em meu cérebro que as consomem,
fiando fino fio 
que tecerá meu destino,
versam sobre dores e desafios,
tal qual quando menino
pensava em aviões e navios,
para escapar dos temores,
dos castigos dos professores
e das broncas dos meus tios.

Minhas idéias acordadas,
perfiladas, de mãos dadas,
se parecem embaralhadas,
confusas, irrealizadas,
mas portam o frescor das madrugadas
pelos grilos embaladas, 
ora tristes, ora animadas,
profundas e acabrunhadas.

Minhas idéias despertas,
ousam tomar como certas,
belezas duma vida liberta.

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AQUELE MENINO

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Os olhos daquele menino,
tão belos de se olhar,
não podem acompanhar seu destino
ver a cor do céu
ou admirar o mar...

Mas leva a vida sorrindo,
jamais se pôs a reclamar,
diz que sentir é tão lindo,
tão precioso,
que é como enxergar.

E lá vai aquele menino,
sozinho em seu caminhar...
Sorrindo à todos que passam,
admirando o cantar dos pássaros
tentando nos ensinar
sentir, tocar, amar.

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QUESTIONAL (NÃO SEI QUE Nº)

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Voz do mar. Da cachoeira em fúria.
O comerciante de água benta na cúria.
Dedos esguios dos bambus clamam
no solar ruído que os ventos cantam,
moldando a terra sob chuva que despenca
jorros d'água sobre a pobre e tenra avenca.

Desdenhar o mundo não é nada fácil -
É como um cego em seu mundo tátil. -,
em tudo a natureza enxerida se mete
e faz a parte que lhe compete :
- O bem e o mal que se repetem
no vagar eterno das ruínas.
Tudo é viagem, cumprimento de sinas,
imbecis gargalhadas da multidão de iguais
em meio putas que a satisfaz.

E a vida é tão pouca. Choca em meus dentes
arranhando, salivando repentes,
roendo noites, autorizando açoites
num feroz combate. Fecha a porta e bate,
encara o vento, fura o agora,
modifica humores, rumina, joga fora.

Alheio ao mundo, vivendo ao léu,
na beira da estrada, exposto ao céu,
segue o cão sem roupas ou malas,
sem sonhos de atravessa-la.

Será exemplo ? Tem história ?
Será que sofre pela vida simplória ?

Ah... Essas questões !

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