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POLÍTICA

Mentira !


Me tira e mente.
Displicente, mente.
Displicentemente.

Cumula, ativa e mente.
Cumulativamente.


Só mente.
Somente mente.
Sorrateira, mente.
Mente que mente.
Sorrateiramente.

Simplesmente !

                                                   Paolo Lim

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EXERCÍCIO

Rimas cheias com "ão",
sabores à canção,
metem medo nas crianças,
fazem forte a oração.
 

Servem ao amor, ao coração,
imitam o bicho papão,
adjetivam provérbios de Salomão
e explodem bolinhas de sabão.

Essas nuvens nuvulosas
trazendo chuvas dadivosas,
pintassilgos e curiós,
parolas que desatam nós,
traidoras e traíras,
chulés e ziquiziras,
me fazem inocente
me obrigam ser coerente,
escrever poemas malucos,
espremer da vida os sucos,
rever a Maria Fumaça
que passava lá na praça, 
lembranças do mundo afora,
mais bonito que agora:

- Flagrantes da vizinha
caminhando no quarto de calcinha;
Latido do Bozó
como um samba duma nota só;
Causos e meu casulo
de quando tinha medo de escuro,
brincava na beira da praia,
dava pernadas, rabos de arraia.

Mas voltemos ao rimado com "ão" -
É o bão, é o bão, é o bão ! -
que nos inspira ser profetas,
prever, ler a mão,
aumentativo de tudo
e está na palavra "não":
- Soa amplo, 
tem impacto de trovão.

Vem, me tira desta confusão
de falar sobre as rimas com "ão"...

                                                                             Paolo Lim

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CÉU DA BOCA

Os escombros do céu da boca -
espaço mítico do prazer profano -
impedem-no o discurso insano
e a profecia populista louca...

Suas palavras incompreensíveis,
tornam-se balbucios inaudíveis,
carregados pelo hálito fétido,
tipico dos alcoólatras morféticos.

Dentro da escavação imunda,
agoniza uma língua podre,
cacos de dentes que a cova afunda
à espera da terra sobre...

                                                                                 Paolo Lim

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A MORTE

A morte é pequena,
grande é a cena,
o Céu que acena,
a dor e a pena...

A morte é um passo
que abre espaço,
espreme o bagaço
do nosso cansaço.

A morte é passagem,
não o fim da viagem,
nem tampouco triagem
como acena a imagem.

A morte assusta,
parece injusta,
saudades que custa
à quem não a busca.

                                                              Paolo Lim

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LIQUEFAÇÃO

Seu corpo liquefeito no mar de minhas imagens
escorria entre meus dedos ávidos por solidez.
Seu sorriso-deboche zombava de meus desejos
azulados pelas corredeiras quentes e luxuriantes,
como ternuras oferecidas pelo inusitado estado.
Bom sentir-me inundado por sua substância.

Tentei beija-la e quase me afoguei.
Bebi seus lábios e parte de sua língua.
Descendo a medula o friozinho do prazer
fervia o tesão nas ondulações das nádegas,
enrijecendo o pênis que buscava ávido a penetração
profunda e liquidada. 

Mesmo submersos, meus pelos eriçavam,
endureciam e, rígidos, resistiam as torrentes...

Seus olhos azuis - redemoinhos profundos -
brilhavam um esplendor de corais magníficos.
Calafrios marejavam minhas pernas
boiando no vazio pleno.

Envolto em suor acordei em terra firme.

                                                                                            Paolo Lim

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MEMÓRIAS

Seios rotundos -
mangas chupadas -,
velhas memórias
mordidas, arranhadas,
atiçam vontades apagadas,
rapsódias desafinadas
num pos coitum de madrugada...

O céu continua ali -
após a cortina de chita,
ruída, poluída,
companheira da desdita -
inteiramente nú,
pleno de estrelas excitadas
acentuando o vazio das horas
daquela seca senhora...

O tempo amassa,
o universo testemunha,
a beleza passa
como ninguém supunha,
transformando em farsa
o que se repunha.

                                                         Paolo Lim

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PALAVRAS

 

Palavras não andam soltas,
nem são apenas ruídos no ar.
São pensamentos expressos,
sonoros e postos à vibrar.

Palavras são físicas
                                                                                    como feixes de luz a brilhar.                                                                                     Amargas ou doces,
se fazem escutar.

Associação de conceitos,
sentimentos devocionais,
opiniões, ideias, ideais,
ruídos sentimentais.

Matam a sede,
descarregam.
Palavras sossegam,
excitam, reverberam.

Palavras sentenciam,
acusam, prenunciam.
Palavras cobram,
xingam, oram.

                                                Paolo Lim

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SOLIDÃO

O silêncio que fala, arquivado no céu da boca.
Dentes cerrados que rangem.
Tarde igual de céu opaco, horizonte próximo,
mesmice do ócio.
Um cesto de pães dormidos, ligeiramente comidos
por dentes apodrecidos, careados, frágeis, doloridos.
Azedo cheiro de azeitonas velhas, restos nas panelas,
poidas cortinas nas janelas.
Decadência exposta sem prudência.
A sujeira dos nascimentos e da inocência.
Migração de cores,
suaves exposições de maus odores,
poeiras acumuladas nas prateleiras,
espedaçar das boas maneiras.
Fim do lógico, os ilícitos.
Escolhas de novos inícios.
Caótico armistício
duma vida em particípio.

                                                                                                   Paolo Lim

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TOLICE

Fiz um poema que ficou famoso.
Ouvi críticas, elogios e palavras da boca do povo.
Sorri das interpretações que o fizeram novo.
Descobri o quanto o poeta é tolo :
- Pensa que é seu o que reinventam todo.

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AUDIÇÃO

 Seus ouvidos, pier de palavras e sons naturais,
selecionam audições preferenciadas
espedaçando sentenças
morfologicamente erradas. 

Surdez seletiva sobre o dia a dia,
palavras sujas, desfocadas, rebeldias
sonâmbulas, assassinato dos verbos,
sons guturais, hieróglifos cegos.

                                                                          Paolo Lim

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COMPARAÇÃO

Como um doce que se estraga sem consumo,
um anel que acompanha o dedo ao túmulo,
um agrado não percebido,
uma saudade do que se tinha esquecido,
vontades sem explicações,
contrariedades aos borbotões,
resfriado liquefeito,
tosses, dor no peito...

Comparações com um amor desfeito.

                                                                                              Paolo Lim

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OCASO

 

Dissipado, entregue às baratas,
sem sabor, sem cheiro, sem nada.
Impecável em sua miséria,
motivo de pilhérias...

Humano pleno quando moço:
- Bonito, forte, provocador de alvoroço
ao passar entre as barracas
da Praia do Arpoador cujas ressacas
lhes serviam para expôr
suas piruetas nas águas.

Foi artista com alguma fama,
amante pleno, bom de cama -
até na PUC estudou - ,
mas não soube lidar com a grana
e a sociedade sacana,
simplesmente o massacrou.

Hoje velho depauperado, 
ainda anda empinado,
mesmo se admitindo acabado,
entre as barracas que outrora
lhe proporcionaram fama e glória,
na Praia do Arpoador.

                                                                        Paolo Lim

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SUBMERSA

Molhada.
Liquefeita na imagem sonhada dentre areias encharcadas.
Onírica pausa na dor mergulhada.
Envolta aos arrepios da pele acariciada...

Escorrida.
Borrifada por um mar de sensações
que umedece a alma lavada
por ondas de desmedidas emoções.

Submersa.
Afogada pelas correntes lânguidas do prazer -
torrentes que a arrastam ao léu -
sem alternâncias ou mais querer.

                                                                                Paolo Lim

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EMBATE

No despudor duma aurora de amantes,
a intimidade em linguagem chula
ecoando com o ranger da cama
em meio ao tesão que acumula.

Corpos suados,
misturados, penetrados,
oscilantes na coreografia caótica
rogando serem machucados...

O amor é uma luta corporal ?

                                                                           Paolo Lim

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AMIGO II

Próximo ou distante,
desengonçado ou elegante,
quieto ou falante,
poeta ou sambista,
pobre ou capitalista,
filósofo ou niilista,
a prazo ou à vista,
quimérico ou intimista,
com ou sem razão,
lhe dou minha amizade
e, de quebra, meu coração.

                                                                          Paolo Lim

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