Posts de Paolo Lim (473)

QUESTIONAL (NÃO SEI QUE NÚMERO)

Voz do mar. Da cachoeira em fúria.
O comerciante de água benta na cúria.
Dedos esguios dos bambus clamam
no solar ruído que os ventos cantam,
moldando a terra sob chuva que despenca
jorros d'água sobre a pobre e tenra avenca.
 

Desdenhar o mundo não é nada fácil -
É como um cego em seu mundo tátil. -,
em tudo a natureza enxerida se mete
e faz a parte que lhe compete :
- O bem e o mal que se repetem
no vagar eterno das ruínas.
Tudo é viagem, cumprimento de sinas,
imbecis gargalhadas da multidão de iguais
em meio putas que a satisfaz.

E a vida é tão pouca. Choca em meus dentes
arranhando, salivando repentes,
roendo noites, autorizando açoites
num feroz combate. Fecha a porta e bate,
encara o vento, fura o agora,
modifica humores, rumina, joga fora.

Alheio ao mundo, vivendo ao léu,
na beira da estrada, exposto ao céu,
segue o cão sem roupas ou malas,
sem sonhos de atravessa-la.

Será exemplo ? Tem história ?
Será que sofre pela vida simplória ? 

Ah... Essas questões !

                                                                       Paolo Lim

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AQUELE MENINO

Os olhos daquele menino,
tão belos de se olhar,
não podem acompanhar seu destino
ver a cor do céu
ou admirar o mar...

Mas leva a vida sorrindo,
jamais se pôs a reclamar,
diz que sentir é tão lindo,
tão precioso,
que é como enxergar.

E lá vai aquele menino,
sozinho em seu caminhar...
Sorrindo à todos que passam,
admirando o cantar dos pássaros
tentando nos ensinar
sentir, tocar, amar.

                                                   Paolo Lim

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MINHAS IDEIAS

Minhas idéias sonâmbulas,
mais ativas, insones,
acondicionadas como em campânulas
em meu cérebro que as consomem,
fiando fino fio 
que tecerá meu destino,
versam sobre dores e desafios,
tal qual quando menino
pensava em aviões e navios,
para escapar dos temores,
dos castigos dos professores
e das broncas dos meus tios.

Minhas idéias acordadas,
perfiladas, de mãos dadas,
se parecem embaralhadas,
confusas, irrealizadas,
portam o frescor das madrugadas
pelos grilos embaladas, 
ora tristes, ora animadas,
profundas e acabrunhadas.

Minhas idéias despertas,
ousam tomar como certas,
belezas duma vida liberta.

                                                                                Paolo Lim

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POEMINHA

Confesso que já fui lírico,
fiz canções e serenatas...
Para muitos um poeta empírico,
para outros autor de poesias baratas.

A vida nos faz exigências,
impõe destinos e rotas cegas;
Precisamos de condescendências
para cumprir, passarmos por elas.

Sigo escrevendo meus exigidos versos
em cumprimento as suas vontades.
Recebo críticas e comentários diversos
e assim vou cumprindo minhas finalidades.

 

                                                                                               Paolo Lim

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FACES

Minhas fases são faces
que antes nunca tivera.
As assumo sem make-up,
boto fé e jogo a vera.

Ora bonito e folgado,
ora triste, meio apertado...
Mas não tergiverso no bailado:
- Mostro o que há prá ser mostrado.

Não acredito que a coerência
possa servir à felicidade.
Por isso mudo de máscaras
que são faces de minhas fases.

                                                                  Paolo Lim

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RESOLVIDO... (Conto)

Macio e liso como um animal, o mar oferecia relâmpagos longínquos e silenciosos naquela noite dos primeiros frios. O ruído de seus passos parecia-lhe familiar. Obtivera o que buscara e sentia-se indiferente. Sua exigência de felicidade continuava intacta como as árvores do pequeno bosque que acabara de atravessar. Tudo diante dela seguia pulsando vida, sem novidades, vivendo. O mais profundo lhe era razoável. Não carregava remorsos em seu embornal psíquico. Consciente, mas alheia, era melhor. Admitia a beleza da tragédia que proporcionaria vida à nova vida e a paixão morfética calara. Não deixava e nem deixara rastros. O pequeno esgar aflitivo manifesto no momento do tiro, ainda lhe doía nos lábios atacados por uma mordida de seus dentes pontiagudos. Tudo que havia à sua frente era conhecido e estranhamente claro na solidão da noite que lhe devolvia a face do mundo e o sal duma existência inexplorada. Ele quis. Lhe era melhor. E ela o atendera. Todos nos suicidamos. A morte programada está inserida nos cromossomos. Escrevem-se leis que tentam evita-la, inutilmente. Súbita lufada de vento mais frio, obrigou-a parar. Estava, de novo, à beira mar. Este, como todos os caminhos que sempre escolhera, a traziam para perto do mar. Das surpresas do mar, das profilaxias do mar. Os primeiros claros da manhã já toldavam o negror do céu quando abriu a janela de seu apartamento. O cheiro do dia penetrou-lhe às narinas, familiar. Fez um chá na panela suja que não teve saco de limpar, deixada sobre o fogão há dias. Ao tirar os sapatos reparou sua mão executora da sentença, procurando vestígios. Sorriu. Não haviam. Os cremara juntamente com a luva logo após o ato. Marcas incriminatórias do passado não diziam respeito as possíveis investigações. Dores ausentes, arrependimentos nenhum. Apenas fortes recordações do olhar de despedida, afixado nos segundos séculos do som abafado pelo silenciador que Roberto comprara havia mais de um mês e só recebera na véspera. Mônica ergueu a cabeça e exercitou-a em círculos com a mão na nuca. Lembrou parte dos últimos versos que ele balbuciou um pouco antes da execução com voz cancerosa, terminal e um olhar brilhante de certeza e agradecimento. Murmurou uma velha canção italiana – “Sapore di sale, sapore di mare”... – e sem olhar-se no espelho, arrumou os cabelos agradecendo aos céus por ter tido um grande amor infeliz, na vida. Precisava dormir para ser acordada pela realidade burocrática que a esperava quando o corpo fosse encontrado. A luminosidade tornara-se por demais intensa para seus olhos insones. Dirigiu-se ao patamar de entrada do prédio e, de pé nos degraus, inspirou o ar puro que encheu seus pulmões como anestésico para o dia em que agora ia mergulhar. De relance observou o apagar duma das últimas estrelas que, já fraquinha, insistia em brilhar entre os telhados da rua. Pairava sobre ela uma suavidade amarga. Cumprira o pacto. Mesmo sem ter chovido, o chão úmido exibia algumas poças com arco-íris. Como num lapso de razão e realidade, lembrou que amanhã teria que comparecer e responder questionamentos durante a apresentação final de sua tese na universidade. Preocupou-se. Passava das três da tarde daquele mesmo dia quando a campainha soou nervosa como era previsto e vizinhos acompanhados de policiais soturnos, lhe deram a notícia: - “Temos o doloroso dever de lhe comunicar que seu noivo Roberto, ao que tudo indica, cometeu suicídio”!   

                                                                                                                                                             Paolo Lim 

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ESPERNEIO

Crio e creio,
finjo, leio.
esperneio.

Ecos ocos,
tossidos, roucos.
Interpenetram,
querem saber,
questionam,
não sei responder... 

Novos atos,
desacatos,
pugilato,
vai entender ? 

- É um modelo.
Simples pesadelo.
- Pode ser...

Arrepios,
calafrios,
nasce o medo
tarde ou cedo.
Governa
o seu querer.

Buracos negros,
sepulcrais segredos
espatifados,
militarmente ordenados,
arquivados,
silentes,
contundentes,
transtornados.

Hoje é dia de folia.
Nada a temer...

                                                                  Paolo Lim

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RESISTÊNCIA

Sibilando o sonho,
civilmente me ponho
examinando o ponto,
vírgulas do espanto,
desequilibrando.

Identifico plágios,
denuncio ágios.
xingo banqueiros,
atuais bucaneiros
da população acuada,
lesada, explorada
pela administração
cooptada, enferrujada,
despreparada.

Obro protestos,
não admito restos
para o povo que paga,
se esforça, rala,
e ao final se cala. 

Alimento fogueiras,
faço clareiras,
acentuo meus esforços,
mergulho nesses poços
me encharco d' água turva,
mobilizo a turba. 

Resistir é meu desejo,
contra ordens de despejo,
encarar o "Teje preso"
e a eclosão do medo. 

O povo é frágil,
o inimigo é ágil.
O considera manipulável.

                                                                             Paolo Lim

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TEMPIFICANDO

Temporizando o testemunho
de memórias temporais,
tampo o tempo
em minhas têmporas.

Tempo atual, tempestivo.
Tambores do tempo,
tocantes, temidos,
temporizados estampidos,
tenramente feridos.

Tempos dos inimigos.

                                                                        Paolo Lim

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PASSAREI

  Não vi, nem vou. 

Vêm e vão.

Tic e tac.

Bão, bá, lá, lão.

Perpendicular do coração.

Espeto do senhor Capitão. 

Sub Céu matizado,

sangue das lembranças

incorpora saudades,

frágeis esperanças,

ecos do passado.

Não vi, nem vou.

Fico e passarei

como o sorriso moreno,

do adeus o aceno

e a brincadeira que criei.

                                                                  Paolo Lim

 

                                  

 

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VAZIO

O que me escapa,
me foge
e me retorna
vazio.

Velhas sensações
revivendo o passado
e a natureza no cio.

Falo realmente -
palavras coisas -
só me restará o enfastio ?

                                                                               Paolo Lim

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VAZIO II

Imagem e matéria.
Unha e carne.
Principal artéria,
lavagem, enxague,
visão periférica
antes que a luz se apague,
a tristeza levite,
a morte decifre
e a vida acabe.

                                                                Paolo Lim

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VAZIO III

O silêncio grita
no cenário imóvel
como uma película
que expõe o óbvio
em cena ridícula
de amor e ódio.

Meus olhos opacos
penetram à fumaça,
atravessam o tráfego,
identificam a massa
num momento trêfego
que se misturam raças,
expressões e falácias.

Vazios e de graça.

                                                   Paolo Lim

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ARCAICO

 

Putrefação tipificada. Petrificada.
Tédios parindo tédios melancólicos.
Porções de pus envelopadas,
agarradas aos órgãos envenenados
dum corpo moribundo,
fétido, imundo,
duma sociedade dita organizada.

Mistérios ministeriais aparelhados.
Cotas cromatizadas,estigmatizadas,
pintadas de preto - preconceito,
afrontando o direito,
a moral e o respeito,
sem educação, sem nada,
efeito eleitoreiro,
tá na cara.

- Segura a segurança epilética !
A polícia prende, a justiça solta.
Juízes e sentenças patéticas -
Bandidos lhes garantem escolta.
Carnificina. Rajadas. Blindados
transladando cocaína.
Doações no Caixa dois como paga.
Bacanais à beira das piscinas.
Povo devidamente enganado,
rende propinas.
Socialistas arcaicos,
práticas cretinas.

                                                         Paolo Lim

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RETRATOS

Pós graduado,
mestrado,
sabido,
desempregado...

Muito vivo,
propinado,
dissimulado,
evadido...

Extra-rico,
milionário,
listado,
escondido...

Vive de bico,
abandonado,
suspeito,
mendigo.

Muito jovem,
prendado, 
inteligente,
bandido.

Povo alegre,
batalhador,
desesperançado,
iludido.

                                            Paolo Lim

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EMBOLADA

EMBOLADA

Canto popular,                                                                                                                                                                                            medular, plural,                                                                                                                                                                                          lamentos d'álma,                                                                                                                                                                                          dores da vida,                                                                                                                                                                                            confessional,                                                                                                                                                                                              ritimado,                                                                                                                                                                                                    dialogado,                                                                                                                                                                                                    professoral.                        Paolo Lim

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GOSTO ÁCIDO

Não quero o tédio da manhã igual.
Quero vida, emoções comovidas,
esperanças até o final.
Abandono lembranças,bagaços de poemas,
insatisfações acumuladas, 
a pia quebrada,
e o gosto ácido das madrugadas.

Sou mero viajante vital,
meio missa e carnaval.
Não quero a dúvida que transborda,
o medo do grito que acorda,
a privada entupida,
passagem só de ida,
neuroses escondidas.

Quero um dia complicado,
encarar o trânsito engarrafado,
me livrar, sair do outro lado,
inteiro ou machucado,
não importa o resultado.
O chuveiro tá gelado,
o cano furado.

Quero encontrar novas trilhas,
observar as cercanias,
me fartar de novidades,
experimentar dificuldades,
rir das adversidades,
quebrar o velho liquidificador,
remendar o cobertor,
ser pleno de contradições,
inventar orações
e pagar as prestações. 

Eu quero...

                                                                      Paolo Lim

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