Posts de Maria Julia Guerra (9)

Será que sou? ...

Será que sou...?
Maju Guerra

Será que sou das águas doces
Ou será que sou um ser do mar?
Será que sou um ser de águas tranquilas
Ou será que passo desenvolta pelas procelas do mar?
Será que sou verde elfo a zelar pelos bosques
Ou será que sou capaz de me soltar e de voar?
Será que sou uma ninfa ou vaidosa sereia
Ou será que sou um centauro livre a cavalgar?
Será que nado apenas na superfície das águas
Ou será que me permito nas profundezas mergulhar?
Será que quando cai uma forte tormenta
Receosa me recolho na primeira caverna que encontrar
Ou será que desinibida passeio pelos campos
Sem medo algum das águas que caem a me molhar?
São tantas as contradições que em mim mesma encontro
Que não sei ao certo como me definir sem errar.
Certeza tenho de que sou um ser cheio de nuances,
De inúmeras faces, em busca de sem medos as encarar.

 

Maria Julia Guerra.

Licença: Creative Commons.

Salvador, em 2003.

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O equívoco da Selminha

O equívoco da Selminha
Maju Guerra


Selminha encontrou-se com a Lígia, eram amigas de longa data. Não se viam há um tempo, o encontro foi caloroso. Resolveram sentar-se em um banco da praia, enquanto tomavam um sorvete, para colocar as novidades em dia. No meio da conversa, a Selminha perguntou:
- Como vai seu o seu irmão? Continua um gato?
Lígia respondeu:
- Continua um gato, pode ter certeza, mas um gato triste. Você se lembra da Bia? Pois a Bia terminou o namoro, ele está arrasado.
E a Selminha:
- Por que ela fez isso? Namoravam há tanto tempo...
Lígia explicou:
- Ela ficou cansada do Nando, ele estava abusando da coca.
A desligada da Selminha retrucou:
- Nossa!!! Sempre soube que a Bia era fanática por barriga tanquinho, mas terminar com alguém só porque ele toma muita coca-cola é um pouco demais.
A Lígia riu e respondeu:
- Selminha, relôoou, planeta Terra chamando. Não foi por causa da coca-cola, foi por causa da outra coca, a branquinha, lembra qual é?
Selminha, sem perder a linha, aterrou e disse:
- Tô lembrando. Bem, aí eu concordo com a Bia, com a branquinha tudo fica difícil.
 

Maria Julia Guerra.
Licença: Creative Commons.

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Do amor

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Do amor
Maju Guerra


Hoje, com semblante e alma tristonhas,
Me peguei pensando em voz baixa
Sobre o que se ouve vida afora,
Começa na infância,
Palavras e histórias sobre o amor.
Não entendi do amor, hoje percebo,
Não sei bem se soube amar como deve ser.
Descobri que ele se afasta de quem o teme,
O amor não tolera desconfianças.
Amor é sentimento misterioso, caprichoso,
Alça voos e voos em torno de nós,
Desafiador e inconsequente,
Conhece bem o seu poder.
O amor não nos mostra suas mil faces,
Rindo ou sofrendo, quem quiser que as descubra,
Ele costuma nos dar apenas duas escolhas,
Não lhe aprazem os meios-termos.
Vi e revivi cenas coloridas e desbotadas da minha vida.
Apesar de tudo, teimosa que sou,
Pretensiosa, até pode ser,
Ainda espero conhecer e desfrutar do amor,
Felicidade é coisa que não se deve abrir mão tão fácil.
Espero e aguardo, quem sabe o amor me encontre,
Goste de mim e se desnude à minha frente?
Quem sabe eu faça a escolha que o agrade,
E livre dos medos, prefira a renúncia sem olhar pra trás?
Véus de doze cores se abrindo
A me mostrar que tudo ainda pode ser.


Maria Julia Guerra.
Licença: Creative Commons.

Imagem: Google.
Salvador, janeiro de 2010.

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Pétalas de um Girassol

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Pétalas de um Girassol
Maju Guerra


Na noite que ele partiu
O vento cortante rodopiava
Inclemente batia na porta
Anunciando a chuva gélida.

Na noite que ele partiu
Palavras levou na bagagem
Esqueceu em cima da mesa
O livro de capa amarela.

Do livro eu me desfiz
Desfolhei cada página
Pétalas de um girassol
Arrancadas pelo vendaval.

Quando sopra o sudoeste
Ouvidos e vidraças cobertas
Tudo ignoro a não ser o medo
De que ele jamais apareça.


Maria Julia Guerra.
Licença: Creative Commons.

Imagem: Google.

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O Juramento

O Juramento
Maju Guerra

Outro dia, depois de anos, resolvi fazer um passeio de trem, passeio curto, a bem da verdade. À minha frente estavam sentadas duas mulheres, uma já na casa dos cinquenta anos, a outra com pouco mais de vinte anos. Como falavam alto, foi impossível não escutar a conversa. Descobri que eram mãe e filha vindas de algum hospital. Lá pelas tantas, a filha comentou:
- Mainha, você viu que médico simpático? Gostei, ele nos tratou muito bem. Só fiquei cismada com o que ele disse depois que agradecemos.
E a mãe:
- O que foi que ele disse?
- “Não precisa agradecer, eu cumpro o juramento de Sócrates”. Ele falou Sócrates, não foi? Quem será esse Sócrates?
A mãe assentiu e respondeu:
- Deu vontade de perguntar, mas me encabulei. Também fiquei cismada com o homem do juramento. Me veio na cabeça que seu pai falava muito de um jogador de futebol por nome Sócrates. Ele disse que o homem deixou de jogar e virou médico. Só pode ser isso, ele fez um juramento que está valendo pra todos os médicos tratarem as pessoas bem. Vou até comentar o assunto com o seu pai.
Tudo esclarecido, a filha concordou. Elas mudaram de conversa.
Quanta criatividade, pensei. Na hora me deu vontade de rir e de desfazer o equívoco. Na dúvida, fiquei quieta.
Ri depois que elas saltaram do trem. Não por julgamento, mas pelo inusitado e divertido diálogo. Pus-me a matutar, engano de fácil compreensão: Juramento de Hipócrates com Juramento de Sócrates. Realmente, o ouvido está mais familiarizado com Sócrates do que com Hipócrates, o grego pai da Medicina que vivera antes de Cristo. Conheci mais de um Sócrates, mas nenhum Hipócrates, creio que por uma questão de sonoridade mesmo. Como ambos foram gregos famosos, um filósofo e um médico, estava tudo no lugar, geograficamente falando. A criatividade humana com certeza é admirável.


Maria Julia Guerra.
Licença: Creative Commons.
O "causo" é verídico.

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Promessa cumprida

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Promessa cumprida
Maju Guerra


Mulher ciumenta, ele sabia que precisava viver sempre atento. Na noite anterior, por um descuido, havia chegado tarde. Ela cheirou sua camisa, depois que ele a despiu. Ela cheirou de novo, o encarou de forma desconcertante, não teceu comentários. Ele se espantou. De qualquer sorte, uma discussão a menos era uma dádiva. Na manhã seguinte, saiu para trabalhar no horário de sempre. Ao voltar à noitinha, nenhum sinal da mulher e dos filhos. Em cima da mesa, um papel com o nome e o telefone de um advogado. Pela primeira vez, assustou-se de fato com a casa vazia...


Maria Julia Guerra.
Licença: Creative Commons.

Imagem: Google.

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Saudades...

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Saudades...

Maju Guerra

 

A tarde se vai, silenciosa e melancólica. A saudade adentra inclemente pela casa, chega à alma. Sem me dar conta, choro, as lágrimas escorrem, molham a minha blusa. Fecho os olhos, ouço os risos da minha avó, minha mãe cantando “Saudade, torrente de paixão, emoção diferente...”, música antiga, a preferida do meu pai. Sinto o cheiro de bolo de aipim mal saído do forno. Tudo volta de supetão, o cheiro do manacá, o papagaio engraçado falando bem alto, a minha gata cinzenta no colo, o verde e rosa da manga-rosa, o aconchego do fogão à lenha fervendo a água do café, lá fora o pé de cajá-manga. Meu peito aperta e dói, o coração se contrai. Criança eu sou, criança ainda sem saber da dor, do desamor, da desesperança, do desespero por amor. Do futuro, despreocupada, coisa tão distante, não dava pra saber nem ao certo se até existia mesmo.
Choro sentida. Eu era querida e protegida, aceita apenas por ser eu mesma, a menina de grandes olhos negros, a menina tão desejada. Não era julgada e nem avaliada, era amada, e o amor é generoso, não julga e nem disputa. Morava em um castelo de torres altas, cheio de cavalheiros a me guardar, me vestia de princesa com os vestidos de baile da minha mãe, o chapéu de flores da avó era a coroa, meu cavalo alazão era o galho da goiabeira. Tempo, velho eremita, tempo que passou tão rápido sem me avisar que não haveria volta, sem perguntar se eu queria tanta coisa dolorosa, se eu queria tantas perdas, sem me contar que a ilusão não costuma ser boa companheira. Tempo que me deixou descobrir, tão sozinha, segredos sombrios, que me deixou pensar que comigo seria diferente. Não poderia imaginar que um dia me sentiria tão sem amor e desvalida pelas várias voltas da vida. Queixumes e lamentos, entro no quarto e me deito, me enrolo na colcha de retalhos, herança da tia mais velha. Só mulheres queridas surgem nesses momentos pra me acolher, só uma mulher para compreender outra mulher. Quem sabe eu tenha um pouco de paz e de contentamento se conseguir sonhar? Quem sabe o príncipe encantado venha-me salvar?


Maria Julia Guerra.
Imagem: Google.
Mar, Pierre-Auguste Renoir.

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Por que...?

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Por que...?

Maju Guerra


Pelas frestas da janela,

O vento frio me despertou.

Manhã de inverno, as rosas mortas,

Pétalas murchas caídas na terra

Seca do jardim.

Por que me acordaste tão cedo?

Queria renascer com a brisa morna,

Com o sopro da primavera,

Rosas rubras, pétalas vivas,

Crescendo por toda a terra

Úmida do jardim.



Maria Julia Guerra. Por que...? (Poema).

Imagem: Google.

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O bacalhau do Ataíde

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O bacalhau do Ataíde

Maju Guerra

 

Ele já entrou em casa perguntando:

- Mulher, cadê o embrulho que deixei atrás da estante?

Ela respondeu:

- Um embrulhado em papel azul?

Ele disse:

- Esse mesmo.

- Joguei fora, estava no lugar errado.

- Mulher, eu não acredito!!?!! Você jogou fora o bacalhau norueguês dos bons que o Ataíde pediu pra eu guardar. Era pra ser a surpresa do jantar de aniversário da D. Santinha!

- E eu com isso? Você não me avisou, está lembrado? Posso garantir que dos bons ele não era, nem cheirar ele cheirava, daí eu ter jogado fora. Além do mais, não devo nada pro rei da Noruega.

- E o que eu falo pro Ataíde?

- Fala a verdade, ora, ora. O bacalhau era uma droga, norueguês não era mesmo, devia ser chinês, como tudo mais. Eu fiz foi um favor pro Ataíde, ele ia passar vergonha, pode escrever.

O marido não disse mais nada. Quando ela virava dona da verdade, era melhor se fingir de surdo. No dia seguinte, resolveria o caso do bacalhau do Ataíde.

Maria Julia Guerra. O bacalhau do Ataíde. "Causo".

Licença: Creative Commons.

Imagem: Google. 

Stockphoto, Angry woman discussing with

her frustrated partner.

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