Posts de Maria Fernanda Reis Esteves (249)

Lenga lenga

Lá fora o velho queixa-se
do arrendado no tutano dos ossos
O jovem dispensa o trabalho
ganhou uma tendinite no aniversário
O vizinho que anda na casa dos trinta
tapa os ouvidos, trabalha por turnos
 A reforma do velho está torta
sofre de escoliose avançada 
O rapaz ensaia a batida
a bateria está desafinada
O vizinho dorme de olhos abertos
já está anestesiado
O velho atrasa a hora da morte
O cangalheiro cobra caro
O moço continua empalhado
o pai paga, o filho aproveita
O vizinho perde o emprego
hipoteca a casa, vende o carro
Esta é a vida no meu bairro
Só que o velho morreu
O rapaz cresceu 
 e não tem trabalho
o pai tem o tutano arrendado
e eu vou dar o poema por acabado

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Desnortes

Influências, sei que não sofro
Desnortes, tenho muitos...
Perfeição, nem sequer busco
Fragilidades, tento disfarçar

Ansiedade, já vou controlando
Já me brindo com a aceitação
Da minha pequenez sem pedestal
O Hoje é um dia que não dispenso
Amanhã, um tempo a conquistar

A morte, já nem sequer a temo
Se tenho dias em que me apago
Redimo-me de erros passados
E purifico-me na vil consciência
da minha esquizófrénica pantomina

Sou eu onde a terra se perde
E o céu se pode adivinhar
Na ânsia de ser parte do universo
Alma que em flor é toda entrega
Ósculo breve sob a custódia do luar     

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Um punhado de vento

 



Guardado no pensamento 
Sempre que sopra a favor 
Componho versos de amor 

Se soprar a contratempo 
Ensaio um breve lamento 
Se o vento me fustigar 
E o não consiga acalmar 
Deixo-o seguir o seu rumo 
Nada mais me prende a ele 

Se o retenho a força é dele 
Fico cativa à mercê 
Se o libertar fico eu livre 
Para arbitrar o meu destino 
Escolher a minha condição 

Vai-te vento, faz-te ao largo! 
Devolve-me a acalmia 

Já minha alma bramia 
Ao rugir dos teus encantos 
E o mastro desavisado 
Avança no mar salgado 
Ao sabor do teu comando 
 
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É tudo tão previsível

 

 


Desprezo tudo o que penso
Há em mim incoerências
Um mundo de contra-sensos
Uma loucura emergente

Eu fujo dos pensamentos
São açoites que me infligem
Sentires que me atormentam

Há gente que analiso
Todo um ensaio que faço
Um tédio que me irrita
Falta de adrenalina
Vivo à beira do abismo
E é tudo tão previsível!
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Há uma génese

Há uma génese, um começo

um mar bravio, que professo
um caudal onde transbordo
a foz onde desagua
o rio dos meus sentimentos
gaivota livre e desperta
maresia que inalo
um vento que adivinho
e escurece a minha pele
deixa-lhe o sal entranhado

Há uma estrela divina
um astro rei de calor
uma fonte de energia
um sorriso encantador
toda a luz que me alumia
clorofila em sol maior
a vida em seu esplendor

Há gotas que regam esperanças
que juntam forças e correm
livremente para o mar
é vida que se renova
esta chuva que me afaga
e faz a semente brotar

3º prémio no Concurso de Poesia "O Sol, o mar e a chuva" das Edições Ag
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Despertam rios nos meus olhos

 

Toca o clarim da vida…
Ao longe debanda a passarada
Já a aurora se insurge
Nos céus, um sol de alvoradas

Há vozes feitas de cânticos
No ar, um latir safado
Há lírios nos meus encantos
Crianças às gargalhadas

Despertam rios nos teus olhos
Azuis, de água marejada
É benta feita de luz
Remanso da minha alma
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Cad@stro

Livre é o universo

Cada astro no seu espaço
Constelações de almas
Estrelas que brilham no firmamento
Não há nuvens que ofusquem a minha fé
E eu feliz no baloiço da paz
Observo o céu daqui de baixo
Sinto-lhe a vibração
Anjos ecoam hinos harmoniosos
É a vida noutra dimensão
Não sei se me fascina
tão pouco se é o meu limite
Mas pelo sim pelo não
Quando chegar lá em cima
Prefiro não levar cad@stro
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Robot (woman)

 

É feito de espasmos o riso que me assola e me povoa a mente. Fico absorta e nesta ausência de sentir, hiberno no limbo dos inadaptados. E canto, canto, com a voz vazia, um peito em brasa.
Só para sustentar o que já foi dito, já não falo sozinha, isso eu fazia quando não tinha coragem de dizer o que me vai na alma.
Sei que não sou bicho, maugrado me quererem a todo o custo domesticar. Lamento, mas não vai dar. E começa a ladainha...
já ouvi este som tantas vezes, água mole em pedra dura, podem crer que, em mim não fura. Sou de mim o original, não sou molde em papel vegetal, dava jeito, temos pena, mas não dá.
Se há coisas que não se dizem, se há sorrisos que devemos rasgar a quem nos quer, literalmente, lixar, se a verdade é conforme e consoante, doravante, doravante, lá, lá, lá…
Prefiro ficar num canto a ver a hipocrisia passar…Lá,lá,lá…
Talvez, um dia, quem sabe… Eu, na minha senilidade, esqueça a verdade e quem me deu o ser e me passou os valores e acene a outras vontades e me transforme num robot (woman)…
Até lá…lá, lá,lá!!!
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Cegueira da alma

Já se fez noite
Sei disso pelo cheiro da maré
O mar, nunca o vi
mas sei como ele é!
Conheço o seu azul
é sal que sinto na pele

O sol que nos aquece
posso olhá-lo de frente
os seus raios não me ferem

O céu é onde me leva
a fé que tenho em Deus
Pena que muitos homens
sofram dessa cegueira!

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Não me queiras tirar de letra

Sou um ser imprevisível
um cartel de incoerências
Nâo queiras interpretar
os sinais nas entrelinhas
Só vês cravos onde há espinhas
já arderam os fusíveis
de quem me quiz entender

Sou de mim tão inconstante
tipo caixa de surpresas
Visto às vezes de arrogâncias
nem eu sei do que sou capaz
Já me rendi ao desatino
de ser um quebra-cabeças

Queres um conselho?
Não te armes em espertinho!
Não me queiras tirar de letra!

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Reminiscências

 

Há um pulsar a contratempo na reminiscência do marulhar
Abrupta a onda das memórias enaltecidas em rebentação
De cada vez que o homem se embrenha no lodo da desilusão
Há um paradigma, padrão dos descobrimentos, um imenso mar

Tamanha é a simbologia desta força, um remar contra a inércia
Um oceano de aventuras, o desbravar de novos horizontes
Novas culturas, suas gentes, seus idiomas, suas fontes
Tudo o que um olhar cativo seduz, implora e denuncia

Faz-se a montante o devir ecuménico de um fado
A esperança por dobrar, morte em forma de naufrágio
Em terra o choro, cumpriu-se o sonho imaculado

Corre a jusante o refluxo de outras eras, outras glórias
Naus de uma história, Nação dilecta, heróis do mar
Caravelas, a marca de um povo coroado de vitórias
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Hoje deu-me para assobiar...

 

Não é uma questão de compostura
Há valores que me incutem com defeito
Mulher que assobia é olhada com despeito
Pior um pouco se a dita já for madura...

Há um sibilar, um silvo agudo, um desvario
uma porta que se abre à liberdade
Coisas de impulso, um capricho ou veleidade
é só um som, nada mais que um assobio

Eu também canto quando o sol me acaricia
ensaio um trinado, um hino à alegria
Largo o soneto, já não quero terminá-lo

Que culpa eu tenho, se hoje me deu para assobiar?
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Nesta redoma

 


Repudio a minha intransigência
Abomino toda a minha petulância
Julgo-me aquilo que jamais consigo ser
o que me falta é só um pouco de humildade

Nesta redoma onde eu mesma me coloco
sob a insígnia de um falso pedestal
há um tapete que me escorrega dos pés
uma eminente queda de imunidade

O inverosímil sempre é desmascarado
dura o compasso da sua efemeridade

Arte pela Escrita III (Escritartes/Editora Mosaico de palavras)
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