Posts de Maria Fernanda Reis Esteves (91)

Poetisa e Escritora

Lenga lenga

Lá fora o velho queixa-se
do arrendado no tutano dos ossos
O jovem dispensa o trabalho
ganhou uma tendinite no aniversário
O vizinho que anda na casa dos trinta
tapa os ouvidos, trabalha por turnos
 A reforma do velho está torta
sofre de escoliose avançada 
O rapaz ensaia a batida
a bateria está desafinada
O vizinho dorme de olhos abertos
já está anestesiado
O velho atrasa a hora da morte
O cangalheiro cobra caro
O moço continua empalhado
o pai paga, o filho aproveita
O vizinho perde o emprego
hipoteca a casa, vende o carro
Esta é a vida no meu bairro
Só que o velho morreu
O rapaz cresceu 
 e não tem trabalho
o pai tem o tutano arrendado
e eu vou dar o poema por acabado

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Poetisa e Escritora

Desnortes

Influências, sei que não sofro
Desnortes, tenho muitos...
Perfeição, nem sequer busco
Fragilidades, tento disfarçar

Ansiedade, já vou controlando
Já me brindo com a aceitação
Da minha pequenez sem pedestal
O Hoje é um dia que não dispenso
Amanhã, um tempo a conquistar

A morte, já nem sequer a temo
Se tenho dias em que me apago
Redimo-me de erros passados
E purifico-me na vil consciência
da minha esquizófrénica pantomina

Sou eu onde a terra se perde
E o céu se pode adivinhar
Na ânsia de ser parte do universo
Alma que em flor é toda entrega
Ósculo breve sob a custódia do luar     

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Poetisa e Escritora

Dar tempo ao tempo



Faz tempo

que eu não parava para pensar

Pensar

é uma perda de tempo

e eu não me interessa desperdiçá-lo

 

Tenho pena do tempo

vive num corre...corre

Para onde será que pensa que vai?

 

Lá estou eu a querer pensar outra vez

Mania de pôr os neurónios a trabalhar

Assim dessa maneira

não tarda nada vão-se gastar

 

Ah, já sei!

Vou dar férias ao pensamento

e depois vou repousar

 

Mas, se dormir...vou sonhar

Sonhasr implica usar a mente

Estou condenada! encurralada!

Pior é que já estou danada!

 

Faz tempo que não me dou sossego

Irra!

Que é demais o meu tormento!

 

Porque me lamento?

Porque já estou a rimar

E eu que nem queria pensar

que tenho de dar tempo ao tempo

para ele por mim não passar...

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Poetisa e Escritora

Um punhado de vento

 



Guardado no pensamento 
Sempre que sopra a favor 
Componho versos de amor 

Se soprar a contratempo 
Ensaio um breve lamento 
Se o vento me fustigar 
E o não consiga acalmar 
Deixo-o seguir o seu rumo 
Nada mais me prende a ele 

Se o retenho a força é dele 
Fico cativa à mercê 
Se o libertar fico eu livre 
Para arbitrar o meu destino 
Escolher a minha condição 

Vai-te vento, faz-te ao largo! 
Devolve-me a acalmia 

Já minha alma bramia 
Ao rugir dos teus encantos 
E o mastro desavisado 
Avança no mar salgado 
Ao sabor do teu comando 
 
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Poetisa e Escritora

Há uma génese

Há uma génese, um começo

um mar bravio, que professo
um caudal onde transbordo
a foz onde desagua
o rio dos meus sentimentos
gaivota livre e desperta
maresia que inalo
um vento que adivinho
e escurece a minha pele
deixa-lhe o sal entranhado

Há uma estrela divina
um astro rei de calor
uma fonte de energia
um sorriso encantador
toda a luz que me alumia
clorofila em sol maior
a vida em seu esplendor

Há gotas que regam esperanças
que juntam forças e correm
livremente para o mar
é vida que se renova
esta chuva que me afaga
e faz a semente brotar

3º prémio no Concurso de Poesia "O Sol, o mar e a chuva" das Edições Ag
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Poetisa e Escritora

Cad@stro

Livre é o universo

Cada astro no seu espaço
Constelações de almas
Estrelas que brilham no firmamento
Não há nuvens que ofusquem a minha fé
E eu feliz no baloiço da paz
Observo o céu daqui de baixo
Sinto-lhe a vibração
Anjos ecoam hinos harmoniosos
É a vida noutra dimensão
Não sei se me fascina
tão pouco se é o meu limite
Mas pelo sim pelo não
Quando chegar lá em cima
Prefiro não levar cad@stro
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Poetisa e Escritora

Robot (woman)

 

É feito de espasmos o riso que me assola e me povoa a mente. Fico absorta e nesta ausência de sentir, hiberno no limbo dos inadaptados. E canto, canto, com a voz vazia, um peito em brasa.
Só para sustentar o que já foi dito, já não falo sozinha, isso eu fazia quando não tinha coragem de dizer o que me vai na alma.
Sei que não sou bicho, maugrado me quererem a todo o custo domesticar. Lamento, mas não vai dar. E começa a ladainha...
já ouvi este som tantas vezes, água mole em pedra dura, podem crer que, em mim não fura. Sou de mim o original, não sou molde em papel vegetal, dava jeito, temos pena, mas não dá.
Se há coisas que não se dizem, se há sorrisos que devemos rasgar a quem nos quer, literalmente, lixar, se a verdade é conforme e consoante, doravante, doravante, lá, lá, lá…
Prefiro ficar num canto a ver a hipocrisia passar…Lá,lá,lá…
Talvez, um dia, quem sabe… Eu, na minha senilidade, esqueça a verdade e quem me deu o ser e me passou os valores e acene a outras vontades e me transforme num robot (woman)…
Até lá…lá, lá,lá!!!
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Poetisa e Escritora

Não me queiras tirar de letra

Sou um ser imprevisível
um cartel de incoerências
Nâo queiras interpretar
os sinais nas entrelinhas
Só vês cravos onde há espinhas
já arderam os fusíveis
de quem me quiz entender

Sou de mim tão inconstante
tipo caixa de surpresas
Visto às vezes de arrogâncias
nem eu sei do que sou capaz
Já me rendi ao desatino
de ser um quebra-cabeças

Queres um conselho?
Não te armes em espertinho!
Não me queiras tirar de letra!

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Poetisa e Escritora

Reminiscências

 

Há um pulsar a contratempo na reminiscência do marulhar
Abrupta a onda das memórias enaltecidas em rebentação
De cada vez que o homem se embrenha no lodo da desilusão
Há um paradigma, padrão dos descobrimentos, um imenso mar

Tamanha é a simbologia desta força, um remar contra a inércia
Um oceano de aventuras, o desbravar de novos horizontes
Novas culturas, suas gentes, seus idiomas, suas fontes
Tudo o que um olhar cativo seduz, implora e denuncia

Faz-se a montante o devir ecuménico de um fado
A esperança por dobrar, morte em forma de naufrágio
Em terra o choro, cumpriu-se o sonho imaculado

Corre a jusante o refluxo de outras eras, outras glórias
Naus de uma história, Nação dilecta, heróis do mar
Caravelas, a marca de um povo coroado de vitórias
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Poetisa e Escritora

Hoje deu-me para assobiar...

 

Não é uma questão de compostura
Há valores que me incutem com defeito
Mulher que assobia é olhada com despeito
Pior um pouco se a dita já for madura...

Há um sibilar, um silvo agudo, um desvario
uma porta que se abre à liberdade
Coisas de impulso, um capricho ou veleidade
é só um som, nada mais que um assobio

Eu também canto quando o sol me acaricia
ensaio um trinado, um hino à alegria
Largo o soneto, já não quero terminá-lo

Que culpa eu tenho, se hoje me deu para assobiar?
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Poetisa e Escritora

Nesta redoma

 


Repudio a minha intransigência
Abomino toda a minha petulância
Julgo-me aquilo que jamais consigo ser
o que me falta é só um pouco de humildade

Nesta redoma onde eu mesma me coloco
sob a insígnia de um falso pedestal
há um tapete que me escorrega dos pés
uma eminente queda de imunidade

O inverosímil sempre é desmascarado
dura o compasso da sua efemeridade

Arte pela Escrita III (Escritartes/Editora Mosaico de palavras)
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Poetisa e Escritora

Coisas de criança

Que as crianças são lindas, ninguém tem dúvida. Que são anjos pode ser questionável. 
A mãe sempre dizia à bebé:
- Quem é a menina mais linda, quem é?
Joana cantava para Sara, sempre a mesma canção:  "Sara é a nossa menina. Sara bebé é linda de encantar!"
Passados dois anos desta cantilena diária,  em casa de amigos, estava uma menina de 1 ano. Joana comentou com o marido que a menina era linda, quando Sara, vermelha de indignação, apontou o dedo à mãe e acusou-a: 
- Ai ela é que é linda? Já não cantas mais para mim!  Enganaram-me estes anos todos!


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Poetisa e Escritora

Não há mais volta a dar

 

Cheguei desavisada
Crédula, envergonhada
Humilde, não!
Dentro de mim
Um mar de direitos
O papel que me cabe
Só eu sei…
Trago-o no peito
Não há mais jeito
Há todo um ensaio que faço
E já não sinto embaraço
Se são rosas o que trago
No regaço da fantasia
Não é milagre o que faço
Que culpa eu tenho
Se minh´ alma é poesia?
Assim sendo, para acabar
Já não há mais volta a dar!

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Poetisa e Escritora

Advento

 

Antecipo-me à morte anunciada
Num advento omisso de natais
É só o reflexo da minha fé cansada
De blasfémias de tantos carnavais

É farto o perú de tantos recheios
Na consoada rica e enfeitada
Lá fora uns olhos comem cheiros
que exalam da chaminé dos telhados

E há muita fome enquanto reza a missa
E o galo canta as 24 badaladas
O olhar triste da freira clarissa
A contrastar com a igreja engalanada

Não há menino num berço de palha
Mas há meus senhores...
Muita pobreza envergonhada!

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Poetisa e Escritora

A um passo

 

Estive a um passo de te dizer
da neve nos teus cabelos
do crochet nos teus novelos
da falta que tu me fazes
dos afectos que perdi
das vezes que me ralhavas
dos assuntos de família
da forma como me amavas

Estive a um passo de te abraçar
como se o mundo fosse acabar
e o tempo fosse a eternidade

De tudo estive a um tempo
de me despedir de ti 
Mas restou só a saudade
e a falta de identidade

Hoje já não sei se choro
sei que estás sempre ao meu lado!

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