Posts de Maria Fernanda Reis Esteves (83)

Poetisa e Escritora

Robot (woman)

 

É feito de espasmos o riso que me assola e me povoa a mente. Fico absorta e nesta ausência de sentir, hiberno no limbo dos inadaptados. E canto, canto, com a voz vazia, um peito em brasa.
Só para sustentar o que já foi dito, já não falo sozinha, isso eu fazia quando não tinha coragem de dizer o que me vai na alma.
Sei que não sou bicho, maugrado me quererem a todo o custo domesticar. Lamento, mas não vai dar. E começa a ladainha...
já ouvi este som tantas vezes, água mole em pedra dura, podem crer que, em mim não fura. Sou de mim o original, não sou molde em papel vegetal, dava jeito, temos pena, mas não dá.
Se há coisas que não se dizem, se há sorrisos que devemos rasgar a quem nos quer, literalmente, lixar, se a verdade é conforme e consoante, doravante, doravante, lá, lá, lá…
Prefiro ficar num canto a ver a hipocrisia passar…Lá,lá,lá…
Talvez, um dia, quem sabe… Eu, na minha senilidade, esqueça a verdade e quem me deu o ser e me passou os valores e acene a outras vontades e me transforme num robot (woman)…
Até lá…lá, lá,lá!!!
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Poetisa e Escritora

Não me queiras tirar de letra

Sou um ser imprevisível
um cartel de incoerências
Nâo queiras interpretar
os sinais nas entrelinhas
Só vês cravos onde há espinhas
já arderam os fusíveis
de quem me quiz entender

Sou de mim tão inconstante
tipo caixa de surpresas
Visto às vezes de arrogâncias
nem eu sei do que sou capaz
Já me rendi ao desatino
de ser um quebra-cabeças

Queres um conselho?
Não te armes em espertinho!
Não me queiras tirar de letra!

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Poetisa e Escritora

Reminiscências

 

Há um pulsar a contratempo na reminiscência do marulhar
Abrupta a onda das memórias enaltecidas em rebentação
De cada vez que o homem se embrenha no lodo da desilusão
Há um paradigma, padrão dos descobrimentos, um imenso mar

Tamanha é a simbologia desta força, um remar contra a inércia
Um oceano de aventuras, o desbravar de novos horizontes
Novas culturas, suas gentes, seus idiomas, suas fontes
Tudo o que um olhar cativo seduz, implora e denuncia

Faz-se a montante o devir ecuménico de um fado
A esperança por dobrar, morte em forma de naufrágio
Em terra o choro, cumpriu-se o sonho imaculado

Corre a jusante o refluxo de outras eras, outras glórias
Naus de uma história, Nação dilecta, heróis do mar
Caravelas, a marca de um povo coroado de vitórias
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Poetisa e Escritora

Hoje deu-me para assobiar...

 

Não é uma questão de compostura
Há valores que me incutem com defeito
Mulher que assobia é olhada com despeito
Pior um pouco se a dita já for madura...

Há um sibilar, um silvo agudo, um desvario
uma porta que se abre à liberdade
Coisas de impulso, um capricho ou veleidade
é só um som, nada mais que um assobio

Eu também canto quando o sol me acaricia
ensaio um trinado, um hino à alegria
Largo o soneto, já não quero terminá-lo

Que culpa eu tenho, se hoje me deu para assobiar?
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Poetisa e Escritora

Nesta redoma

 


Repudio a minha intransigência
Abomino toda a minha petulância
Julgo-me aquilo que jamais consigo ser
o que me falta é só um pouco de humildade

Nesta redoma onde eu mesma me coloco
sob a insígnia de um falso pedestal
há um tapete que me escorrega dos pés
uma eminente queda de imunidade

O inverosímil sempre é desmascarado
dura o compasso da sua efemeridade

Arte pela Escrita III (Escritartes/Editora Mosaico de palavras)
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Poetisa e Escritora

Coisas de criança

Que as crianças são lindas, ninguém tem dúvida. Que são anjos pode ser questionável. 
A mãe sempre dizia à bebé:
- Quem é a menina mais linda, quem é?
Joana cantava para Sara, sempre a mesma canção:  "Sara é a nossa menina. Sara bebé é linda de encantar!"
Passados dois anos desta cantilena diária,  em casa de amigos, estava uma menina de 1 ano. Joana comentou com o marido que a menina era linda, quando Sara, vermelha de indignação, apontou o dedo à mãe e acusou-a: 
- Ai ela é que é linda? Já não cantas mais para mim!  Enganaram-me estes anos todos!


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Poetisa e Escritora

Não há mais volta a dar

 

Cheguei desavisada
Crédula, envergonhada
Humilde, não!
Dentro de mim
Um mar de direitos
O papel que me cabe
Só eu sei…
Trago-o no peito
Não há mais jeito
Há todo um ensaio que faço
E já não sinto embaraço
Se são rosas o que trago
No regaço da fantasia
Não é milagre o que faço
Que culpa eu tenho
Se minh´ alma é poesia?
Assim sendo, para acabar
Já não há mais volta a dar!

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Poetisa e Escritora

Advento

 

Antecipo-me à morte anunciada
Num advento omisso de natais
É só o reflexo da minha fé cansada
De blasfémias de tantos carnavais

É farto o perú de tantos recheios
Na consoada rica e enfeitada
Lá fora uns olhos comem cheiros
que exalam da chaminé dos telhados

E há muita fome enquanto reza a missa
E o galo canta as 24 badaladas
O olhar triste da freira clarissa
A contrastar com a igreja engalanada

Não há menino num berço de palha
Mas há meus senhores...
Muita pobreza envergonhada!

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Poetisa e Escritora

A um passo

 

Estive a um passo de te dizer
da neve nos teus cabelos
do crochet nos teus novelos
da falta que tu me fazes
dos afectos que perdi
das vezes que me ralhavas
dos assuntos de família
da forma como me amavas

Estive a um passo de te abraçar
como se o mundo fosse acabar
e o tempo fosse a eternidade

De tudo estive a um tempo
de me despedir de ti 
Mas restou só a saudade
e a falta de identidade

Hoje já não sei se choro
sei que estás sempre ao meu lado!

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Poetisa e Escritora

Vai um chá, ou um café?

 

Sirvam-se do meu café!
Eu contento-me com as borras
O fumo desta chaminé
cheira sempre a coisas boas

Gosto do cheiro a rapé
De tabaco da ralé
Nunca fumei um charuto
Nem o cachimbo da paz

Quem quiser tomar um chá
Vá apanhar um limão!
De ervas até percebo
Mas de infusões é que não

O fruto com que me aqueço
Nas noites de solidão
É verde-amarelado
Tem um cheiro perfumado
Mas está caído no chão

Vai um chá ou um café?

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Poetisa e Escritora

Hoje estou de mau humor

 

Acordei impertinente
Não me apetece ver gente 
Tudo me faz confusão
Tão pouco me dou valor
Hoje, estou de mau humor!

Sei que é contra-producente
Dizer mal de toda a gente
Para quem me subestima
Solto a língua viperina
Eu tenho fobia a répteis
Mas, ainda, hei-de morrer
Vítima do próprio veneno

Tenham cuidado comigo!
Que, hoje, estou de mau humor
É melhor que se desvie
E faça que nem me viu
E jamais me chame amor!

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Poetisa e Escritora

É a vida a chamar-me lá fora

 

Fez-se noite
Para o asfalto é igual ao dia
O escuro caiu sobre a estrada
Confunde-se o breu com a madrugada
À imagem da minha alma angustiada

Fez-se tarde
Sente-se o cheiro a fruta madura
O odor adivinha-se no ar
Gosto a néctar de romã
Perdoem-me o pecado da gula

Fez-se dia
Amanheci púdica e indelével
Solta como o raiar da aurora
Despontam flores em tons de rosa
É a natureza no seu explendor
É a vida a chamar-me lá fora
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Poetisa e Escritora

Adentro o mar

 

Há um mar que adentra em mim

Uma traineira de esperança
Um cardume em céu estrelado
Uma gaivota ansiosa
Toda uma faina sem fim

Uma cidade orgulhosa
Um Vitória que é só nosso
Há um laranjal da baía
Uma península de Tróia
Golfinhos prenhes de paz
Um Moscatel que demarca
Uma mata natural
Um canto lírico, uma estátua
Um poeta numa praça
Uma Setúbal, um brasão
Mil razões para eu te amar
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Poetisa e Escritora

Uma qualquer roupagem

 

Já tive pétalas de peixe
E guelra de fina flor
Tive bigodes de pássaro
Asas de nobre felino
Cauda de borboleta
Escamas de cão de água
E olhar de girassol

Já libertei bolhas d’água
Fui essência do amor
Em Janeiro subi o telhado
Voei em sonhos rasantes
Travesti-me de mil cores
Ladrei em sons rastejantes
Fui semente em campo d’oiro

Já fui homem, já fui bicho
Fui mulher, como se quer
Minha alma é qualquer coisa
Não se nega a quase nada
É tudo o que Deus quiser
Seja qual for a roupagem
Estou para o que der e vier
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Poetisa e Escritora

OLhos de barro

 

Há flores que definham cedo
Outras já nasceram murchas
Assim não sentem a morte
Quando expiram já estão secas
Tinham as folhas caducas

Não são regadas em vida
Falta-lhes hidratação
São flores sem clorofila
Não libertam oxigénio
São cactos cheios de picos
No oásis do deserto

Que não murchem os meus olhos
De tanta lágrima vertida
Têm engelhas de barro
Por uma gota de orvalho
Dava eu a minha vida
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Poetisa e Escritora

Por linhas tortas

 

Trago um punhado de sal
Para afastar o mau olhado
O cabelo desgrenhado
Um aspecto desleixado
Cheiro a colónia banal

Mas, nada disso me importa
No fundo faço batota
Sou gente que ninguém nota
Passo assim despercebida
A alma está bem escondida

Protejo-a dos males do mundo
Levo a vida como quero
Escrevo-a por linhas tortas
numa bola de cristal
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Poetisa e Escritora

Imbróglio

 

 

Se arrependimento queimasse…
Já estaria em câmara ardente
Embora da morte me desembarace
Nunca vou aprender a ser gente

O seguro tem perna curta…
E às vezes sai lesionado
A mentira não chega a velha
Não vai ao fim do reinado

Quem tem medo compra um gato…
Arrependo-me de ter cão
É um imbróglio danado
Até já nem eu me entendo
No meio desta confusão
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