Posts de José Aurélio Medeiros da Luz (8)

Apenas com um tiro de balestra

Apenas com um tiro de balestra

 — J. A. Medeiros da Luz

 

Eis que a seta da besta alveja a besta,

Após riscar — a 70 metros por segundo —

O fino ar montês.

E, distando muito,  a ocidente, de Alcácer-Quibir,

O agigantado líder, inebriado,

Mostrando seus molares no esgar,

Vê-se poderosíssimo, ao perceber

O lacrimal de sangue, que percorre

Toda a ilharga da vítima,

A arfejar sobre a areia alvinitente

Daquele condado ímpar,

Onde as rãs crocitam e,

Do alto das frondes rutilantes,

As águias coaxam — rodeadas

De nuvens de moscas de olhos azuis, azuis.

 

Ouro Preto, 15 de janeiro de 2020.

Saiba mais…

Elegia algo dissonante

Elegia algo dissonante

J. A. Medeiros da Luz

 

— a Antônio Coelho da Silva

 

Justo a meio curso da bulha do viver,

Amigo, tu partiste, no dealbar do século, súbito.

Assim, no revérbero ofuscante do cerrado,

Às onze horas, irrompem três salvas de tiros de festim,

E hirto corneteiro negro,

Na elegância militar do porte e trajando

Seu uniforme de gala faiscante,

Insufla as dolentes notas de adeus a seu major.

Vinte segundos de silêncio e de novo,

Em triunfo, mil cigarras trilam e retinem,

Enquanto libélulas esvoaçam sob o sol de verão.

 

Ao lado do profissionalismo dos coveiros,

Tua menina desenha com lágrimas, no vidro do caixão,

O seu amor transfeito em coração...

 

A alma dos teus, no desamparo,

De que teu pobre irmão se mostra

A mais inequívoca, dolorosa, tradução,

Deslembrando-se sermos todos transientes,

Quando de tua lenta descida, por cordas e polias,

Em demanda daquele inescapável

Embarcadouro da nave de Caronte.

 

E naquele mesmo dia,

Em minha solitária jornada de retorno

(O trabalho nos convoca, a vida nos conclama!),

Qual sutil aceno desde o excelso céu,

Pela vidraça do ônibus,

Ao crepúsculo do Planalto Central,

Vi um raro arco-íris duplo reluzir.

Lindo como um poema de Cecília,

À qual tanto amavas e tanto

Recitavas em nossas tertúlias juvenis.

 

Pois é, caro amigo meu:

Por causa de tua ida extemporânea,

Nunca mais vi o pôr-do-sol com os mesmos olhos.

Ouro Preto, 28 de outubro de 2019.

Do livro: Vielas Enoitecidas, 2019. Jornada Lúcida Editora. 

Saiba mais…

Bucólica, embora esconsa

Bucólica, embora esconsa

J. A. Medeiros da Luz

"Litterarum radices amarae, fructus dulces" —– Cícero

 

Qual pastor da Arcádia — aquela que existia

Só na mente de uns tontos versejantes —

Canto, insistindo em insuflar ao vento

Estes meus versos anecoicos,

Que os líquens dos paredões do promontório

Absorvem em silente anonimato.

 

E dulcíssimos haviam de ser os frutos

Que da árvore de amarga raiz

— com seus mil trabalhos, a literatura —

Iríamos colher, nos asseverava,

Mui professoral, o velho Cícero,

Lá daquelas barrancas pedregosas

E sangrentas do grão império do Lácio...

 

O sol eis que se inclina no horizonte;

No entanto, a rude flauta insiste

Em imitar as aves canoras, que, por agora,

Já se retiram, naquele ir-se abrigando

No aconchego de seus ninhos,

Imersos nos recônditos da espessura.

 

Se correto enfim Cícero não estava,

Que se combata sempre o bom combate,

Pois que há que cantar, mesmo

Na tentativa algo vã de afugentar

A penumbra que, justo agorinha,

Lá vem alçando as sobrancelhas,

Pachorrentamente, pachorrentamente,

Por detrás das colinas do levante,

Deixando-nos ainda uns minutos

Para — conforme rezam os regulamentos —

Fruirmos os nossos derradeiros desejos do dia.

 

Ouro Preto, 7 de setembro de 2019.

Do livro: Vielas Enoitecidas, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Saiba mais…

Repto

Repto

 J. A. Medeiros da Luz

 

Disseram-me: — basta

De escrever tolices, de aí ficar

A suspirar em versos.

Coisas que — sem nexo —

Só se dizem quando se nos foge

O cogitar correto,

Naqueles longos e fuscos e desfinitos

Corredores de hospital de loucos!

 

Disseram-me: — basta

Ó seu grande tonto,

A remirar o colorido basto

Dumas borboletas a lamber camélias;

Basta de forçar, não raro,

A prosódia casta em prol do metro.

Ou, ir ao contrário daquele batráquio

— Exímio parnasiano, cururu embora —

Do senhor Bandeira, o qual assaz soía

Deglutir hiatos, fecundar o charco

Com sonantes versos (já de oiro e jade),

Plenos a valer e de

Mil cavalgamentos e de

Rutilantes cesuras e de rimas raras!

 

Disseram-me cruamente: — basta!

Vá cuidar da vida, fazer coisa útil;

Vá ganhar dinheiro, vá ver se consegue

— Lá no pasto vasto —

Plantar um roçado e enchê-lo ao menos

De talos de palmo, de mudinhas mil

De amoreiras, de pés de mandioca!

— Basta: vá plantar batatas;

Chega de tolices, vá ganhar a vida

E (num paroxismo) investir na bolsa.

 

Vá, deixe o miocárdio trabalhar com gosto,

Agregando ao mundo muitas vezes mais

Que ficar assim a palpitar solene

Isso de mil afetos e de mais amores...

 

Disseram-me, mesmo: — basta!

E quem não mo disse assim francamente

Pensou lá com os seus botões da alma:

— Meu chapa, meu tolinho: basta!

 

Ouro Preto, 17 de maio de 2019.

Do livro: Vielas Enoitecidas, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Saiba mais…

Da quietação das vagas

Da quietação das vagas

J. A. Medeiros da Luz

  

Eis que um retalho do sol de outono

Lambe o tampo de minha escrivaninha.

Na vidraça fronteira,

Feita translúcida pela sua multitude

De minúsculas pirâmides de vidro,

Balouçam bailarinas flexuosas,

Dançando insinuações com os seus ventres,

Sombras ainda esverdeadas da folhagem lá fora,

Sensualmente tocada da brisa rítmica da estação.

 

Deflagradas por mágica desarvorada,

Num instante pululam

— Quais espantadiços girinos na poça límpida da vida — 

Lembranças de mil e uma noites

Arábicas nos trópicos

Daquela juventude,

Que lá vemos hoje pelo retrovisor

De nosso calhambeque...

 

Doce estação de despedidas, estação de colheitas,

Estação de arrumação dos trecos!

Cada instante seu, hoje, é fruído

Como o largo intervalo de um suspiro,

Como o preguiçoso desformatar de nuvens,

Boiando no azul cerúleo do infinito.

E a plenitude — a suficiência! — deste instante

Faz dispensável o desejar de novos dias,

Pois os girinos já cresceram e deram frutos:

Música perdida em ecos pelo charco

E — por seu turno, conforme a lei das coisas —

Outros mil girinos a sonhar.

  

Ouro Preto, 22 de abril de 2019.

Do livro: Vielas Enoitecidas, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Saiba mais…

Dos mitos: singelo poema lusófono

Dos mitos

 J. A. Medeiros da Luz

  

Já sei: eis que irei me exilar

Nas caatingas espinhentas do cangaço,

Na mui remota floresta de Sherwood,

Nesta noite de alto índice ceraúnico;          

Nos grotões dos chapadões, onde jagunços

Esperam — entre tragos de pitu e prosa leve —

A poeira baixar...

 

Esconder-me-ei na quiçaça, no maqui,

A esquadrinhar os horizontes das veredas,

Atalaia em noite de cinco estrelas — quando muito! —

À espera de futuros dias;

 

Pois que os donos do mundo,

Usurpadores de nossos devaneios

(Farsescos Napoleões de manicômio)

Reclamam para si

Mil salamaleques, mil mesuras

À sua brutal estultice,

Já tão aquinhoada com aquelas costumeiras

Lambidelas de ego, sempre vindas

Dos espertalhões de sempre.

 

Sim, nesta nigérrima invernada,

Me acoitarei

Nos mocambos de arredios quilombolas,

Nas moitas mais ermas das coxilhas,

Nos varadouros enoitecidos dos igapós,

Nos barrancos perdidos das gerais,

Nas penumbrosas bocainas dos tupis,

Desopilando a alma com estoicismo,

Entre escaramuças de cutelo,

Mas ruminando o bom dizer

Daquele doce Nazareno — até

O certo retornar da alvorada,

Alvorada que (não nos assevera Homero?)

Possuía lindos, lindos dedos cor-de-rosa.

 

Ouro Preto, janeiro de 2019.

Do livro: Vielas Enoitecidas, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

Saiba mais…