Posts de José A T Gouveia (10)

Sob o Candeeiro.

Debaixo deste candeeiro público, escrevo.

Escrevo, descansado, ideias e sentimentos

Que me apaixonaram, nesta poesia…

Nela esqueço-me de mim e inscrevo,

Na lista dos vates, a alma despida.

As palavras e as frases são alimentos

Que sustentam, todo um mundo de magia,

Onde, nem uma vírgula se encontra perdida.

O que não me atrevo a desenhar, ou pintar

Surge-me, pela tinta que vou gastando,

Quando uma esferográfica não se detém.

Não sei se sou eu, que pareço aqui estar,

Enquanto as palavras se vão encaixando;

Só sei que é de mim, que elas partem.

O candeeiro reflecte a sua luz clara,

Para o papel, que suporto nas pernas

E rabisco cada letra, deste parto nascida,

Como uma criança, que a vida achara.

Toda a palavra é assim conseguida.

  Joantago

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O doce, esforço dos animais.

 Tanto labor tem uma abelha

Captando o néctar de flor em flor…!

Como é admirável uma formiga,

Incansável, na labuta constante…!

Quantos exemplos de empreendimento,

Nos animais, que não descansam…!

Quem não tem pausas é o pastor,

Que num ano inteiro, com o seu gado

Percorre distâncias e trata do seu sustento.

Na renda, gasta-se uma velha,

Enquanto, “dá à língua” com a amiga.

A vida que passa num instante

Gasta-se na dor em que se cansam,

Porque a estima é outro fado:

Do lazer á indolência vai um passo

E porquê modificar o feitio de um madraço?

A formiga e a abelha são, invulgares

E o mel continuará adocicado…!

 

Joantago

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Silêncio!

Silêncio!

As palavras que brotam da Alma,
Sem cor, sem imagem, incendeiam
O coração mais frio e opaco,
Mas não o alimentam de pena....
A música, que me chega calma
Tem notas que me medeiam
O compasso do espírito fraco,
Tornando-me a nostalgia pequena.

Silêncio!
A voz estranha que oiço, a cantar,
Inunda-me o ser, de significado,
E quantos punhais podem matar
O meu destino, se ele está traçado?
Ninguém chegará ao meu interior
Se eu não permitir esse desejo,
Ainda que num intento, se for
Para receber um simples beijo.

Joantago

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O Inferno.

O Inferno foi criado para os “maus”,
Para os criminosos, para os desumanos
E para os que ficaram às portas do Céu,...
Sem permissão para entrarem, sem vez,
Pela lotação esgotada deste mundo…
O Inferno pariu-se na ilusão da doutrina
Dos iluminados, no vazio da reflexão…
Tornou-se numa forma de depurar
Os inocentes, os temerosos e demais
Crentes de deuses implacáveis e coléricos,
Enquanto grassam as notáveis vantagens
Dos refugiados em religiões convenientes.
O Inferno acontece assim, como terminal,
Na mente de quem ignora as diferenças
Entre o chamado “mal” e o parco “bem”.
Significa pois que, para lhe aceder
Basta que um vivente se torne mortal
Porque encontrará à sua espera
O desconhecido, muito provavelmente,
Porque, sem pensar, já o teve vivido.
Descendo à Terra, o Inferno, talvez
Sejam os muitos trabalhos e sacrifícios
De quem, apesar de se esforçar,
A vida não lhe sorri, o mundo não acontece.

Joantago

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Qual Prejuizo?!

Não tenho noção do meu prejuízo,
Do tempo em que me perdi…
Sei apenas, que essa perdição...
Teve que ver com a minha vontade;
Se eu não quisesse, não me perdia!
Mas, como gostei de me perder!
Se voltasse atrás, juro que me perderia
Da mesma forma, sem alterar
O que fosse, porque foi essa perda
Que fez de mim quem sou…!
Ainda bem, que ao perder-me me achei
O valor e o sabor do que ganhei;
Sim, porque ninguém perde sem ganhar,
Nem que seja a recordação do passado.
Por isso, não acho o meu prejuízo
Tão mau por mim, ou o meu presente.
Quem puder, perca-se consciente
De um dia concluir que não perdeu!

Joantago

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O (in)fiel da balança.

O homem é incompreensivo sobre o espírito
E concentra-se, por natureza, na matéria...
Porque é visível, palpável e consumível;...
Não é por acaso que todos somos parecidos:
Bons quando nos convém e uma miséria
Assim que nos "calcam os calos", de propósito!
A vida humana, sendo efémera, é ilusória
E torna-nos, muitas vezes, distraídos...
Tanto assim porque achamos que é alheia
A pouca sorte de se adoecer e até morrer!
Porém existe uma coisa, com um nome esquisito,
Chamada DNA, o suposto registo genético,
Que embora seja do âmbito científico e médico,
Traz-no indicadores de maldade e bondade,
que não somos capazes de controlar:
Quando a "tampa salta" e a "panela" ferver,
Não há estímulos angélicos suficientes
Para acalmar a fúria que se veio a acumular!
Agora, doce de fazer "crescer água na boca"
É quando a felicidade faz mostrar os dentes,
De uma alegria que sente o coração pular
E abraçarmo-nos de tão contentes...
Joantago

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Por acaso...

Por acaso gosto de coisas simples,

De pessoas que não sejam complicadas,

Da vida que acontece naturalmente…

Também, por acaso, quando erro...

Gosto de corrigir as minhas faltas

E aprecio a inteligência autêntica

E não a chico-espertice, agora em voga.

Por acaso adoro uma boa música,

Um quadro ainda que abstracto,

Uma escultura que consiga perceber

E um poema genuíno e sentido.

Acredito que o facto de existirmos

Não é por acaso e muito deverá

À mera escusa de qualquer explicação.

Por acaso, se não me apetecesse,

Não criaria, nem exporia esta dissertação,

Só para que me julgassem impertinente.

Joantago

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Fuga.

Fugi da aventura, que tu eras;
Menti-me, na paixão que te dediquei,
Por viver demasiado, a tua aparência,
E magoei-me, no sentimento por ti.

Foste a minha loucura e não sei,
Se era verdadeira, a tua inocência,
Nas palavras que te cria, sinceras!
Despertei, e apenas não insisti.

És só uma longínqua recordação,
Ténue também, de um passado,
Que ficou, como num baú envelhecido,

De um eu, agora mais conformado,
Sem importar, com o que tenha significado,
Depois de tudo ter acontecido…

Joantago

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Asas da Imaginação.

Imagino-me num mundo perfeito

(como se ele existisse e eu lá vivesse),

Onde não fosse preciso magoar

(não gostaria de escrever – lixar),

Onde não tivesse outra preocupação

Que não fosse conviver, sem cuidado.

Imagino-me a acordar sem olhar

Para o relógio ou lembrar-me, com receio,

De algum encargo que tenha que pagar…!

Imagino-me a orientar a minha vida

Em sintonia com o que de melhor possa fazer,

Sem a mínima ambição lucrativa…!

Acham-me doido, não é?! É imaginação!

Imagino-me a amar sem contrapartidas,

Sem o risco desse amor descambar em ódio,

Sem que o ciúme ou a inveja grassem!

Imagino-me a cuidar de um filho “ingrato”,

Ou de um pai “tirano” mas que me criou,

Que me fez homem, pelas dificuldades,

Mas que não o compreendi e mal o julguei!

Imagino-me a não agredir a minha avó

Para lhe tirar a reforma e sustentar o vício,

Porque não aprendi a dar valor ao sacrifício!

Imagino-me a respeitar qualquer professor,

Ou autoridade,como meu dever cívico,

Para a sociedade me reconhecer cidadania!

Imagino-me numa utopia com um só lado,

O bom, naturalmente, onde o céu suave

E sempre azul possa levitar-me e a todos.

Imagino-me a não questionar a razão

E só ter em conta, apenas, a perfeição!

Acham-me doido, não é?! É imaginação!

Joantago

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Os meus Medos.

Quando nasci (penso) tive medo de vir ao mundo,

De olhar com estranheza a vida, em meu redor…

Depois, quando cresci, tive medo do escuro

E de todo o mistério que se me afigurava!

Tive medo de desiludir os meus pais, no respeito

E na compreensão que me mereciam…

Tive medo dos amigos que me rodeavam,

Com dificuldade em saber quais eram os verdadeiros!

Tive medo de amar e fi-lo desconhecendo

O que era o amor e a quem amei…

Tive medo de partir da minha Terra

E de deixar o meu vínculo e a minha raiz.

Tenho medo de um País que anda à deriva

E que me deixa apreensivo quanto ao meu futuro,

Dos meus e de todos os que me são gratos.

Tenho medo da injustiça e da morte,

De vir a sofrer de alzheimer e de não me reconhecer!

E de tantos medos que tenho e que tive,

Fico feliz por não ter medo de sonhar!

Joantago

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