Posts de Jorge Cortás Sader Filho (374)

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De mansinho

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                              De mansinho

 

            Como querendo nada, chegou de mansinho.  Assim ficou, a platéia estava adorando.  Bonita? Não, não. Não era bonita, era simplesmente linda.

            As pessoas têm que tomar cuidado, principalmente quando ganham fama, ficam visadas e na maioria das vezes, ira da inveja deste povo.  Povo de Deus?  Acaso ele existe?  Ora, não interessa. 

            — Posso sentar?

            — À vontade, aqui não tem lugar marcado.

            Linda.  Rosto de linhas macias e sinuosas, voz agradável, corpo incrivelmente bem feito e, por cima de tudo, trabalhado.  Bebia, sozinha e num elegante bar a poucos metros da areia da praia, um líquido de bonita cor.

            — O que é isto?  A bebida.

            — Acaso não conhece a mistura chope branco com o preto?

            — Acaso conheço e esta foi apenas uma maneira de me aproximar.

            — Deu certo.  Acompanha?

            — Não só acompanho, como convido para os complementos.

            — Complementos?

            — Ora, não gosta de um doze anos, acompanhamentos certos, uma bela varanda, tranquilidade e intimidade?

            A marca do uísque, não sei.  Não me contaram. Essa gente é assim.  Não conta nada!  Mas, às vezes, estes encontro casuais acabam virando paixão.  Ou ódio... Coisas da vida, coisas do amor.

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Emoção e paixão

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Dedicou-me a minha querida Sílvia um soneto alexandrino.

Normal; mas o susto foi grande. Jamais julguei-me merecedor de tamanha gentileza, carinho e afeto, dada a carga de emotividade que a minha há muitos anos a querida imprimimiu no soneto alexandrino a mim dedicado.  Confesso, bela Sílvia, foi bem além do que mereço.  Deveria, é claro, transcrever o soneto recebido.  Como foi grande a emoção, passo à autora a responsabiidade.  Está no Facebook de hoje, 31 de agosto de 2019.

Beijo grande com todo o meu carinho, respeito e amor, que sempre me mereceu, querida Sílvia.

 

 

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Sei não!

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Chega de confusões, previdência, desmatamento, agrotóxicos.

Tem um ponto que a gente não aguenta mais!  Questão de respeito, a jovem que ilustra é campeã olímpica de ginástica.  Creio que basta.  Muito trabalho, coisa que não ando vendo no nosso país!

Mas...

"Quando estacionou diante do edifício, na Lagoa, Karin já estava na calçada à sua espera, sapatos de corda, um impermeável por cima da roupa de banho, e, no bolso, um frasco de prata com vodca.

Escandalizou-se ao ver que Mansinho não vinha de calção de banho por baixo da capa.

— Você não vai cair n'água?

— E você? Está querendo me ver, depois desse tempo todo, ou só quer tomar banho de mar?

No apartamento de Karin tinha uísque, vodca, sardinha e pão. Que besteira tomar banho de mar. Foram subindo a Rua Montenegro e, ao chegarem à praia, dobraram à direita. Resignado que estava de andar até o Arpoador, Mansinho se animou, achando que iam parar talvez diante do Country, mas Karin prosseguiu pela calçada. Pelas alturas do Cinema Miramar, Mansinho teve uma dúvida atroz. Será que a Karin queria andar pela Avenida Niemeyer até o Vidigal, a Gávea, a própria Barra? Karin parou no fim do Leblon e obrigou Mansinho a tirar os sapatos para andarem na beira do mar. Entre as pedras achou flores da véspera, três copos-de-leite de talos amarrados com fita branca. Karin declamou para o mar, restituindo as flores às ondas;

Todo coberto de lírios

de velas, fogos e círios

o ano estava estendido     

das areias de Ipanema

aos rochedos do Leblon.

Diante do ano morto

lemanjá dá reveillon.

 

— O que é isso? — disse Mansinho.

— Ora! O poema do Murta. .         -

— Você sabe tudo de cor, hem!

— Claro! Pois o poema foi feito para mim.

Mansinho ficou meio amuado. Karin tomou um trago de vodca. Apesar da ressaca, Mansinho, resignado, bebeu também. Estava se sentindo mofado, úmido.

— Por que é que Murta depois começou a fugir de mim? Eu sempre tive tanta vontade de ser amada por uma poeta.

— Murta é cineasta. Pelo menos é o que ele diz.

— Quem faz versos é poeta. Onde é que ele anda?

— Em caso de dúvida, procure no Don Juan’s. Se formos até lá é quase certo encontrar o Murta.

— Ele me adorou aquela noite na areia, se lembra, de joelhos, e depois deixou a festa e veio me procurar, andou comigo pela praia inteira, recitando os versos que tinha feito. Mas não me propôs nada.

Mansinho deu de ombros. Puseram-se a andar pela beira da praia, Karin apanhando conchas, cantarolando, inventando uma música para cantar com o poema:

 

Dançando no gume fino

da meia-noite lunar!

 

Mansinho foi ficando mais emburrado e Karin cada vez mais alegre e cantadeira. Ao passarem pela frente da Rua General Urquiza ele propôs que fossem para o Bar Don Juan mas Karin, sem responder, enfiou o braço no braço dele andando e cantando. Quando chegaram à desembocadura do canal do Jardim de Alá, sentou-se no paredão que avançava pelas ondas cinzentas. Mansinho já tinha molhado as calças até os joelhos e a garoa lhe pingava dos cabelos. Dois desocupados, no paredão oposto, olhavam em frente, ou vagamente estudavam a grande escavadeira empregada no alargamento do canal. Enquanto os trabalhadores, na areia, enchiam a boca com a comida tirada da marmita, a bocarra de ferro da escavadeira descansava, os dentes imensos imobilizados em torno de uma rocha. Karin passou a mão nos cabelos encharcados de Mansinho e tomou mais vodca.

— Fala alguma coisa

— Você gosta de versos e eu só tenho prosa. De mais a mais você e que deve ter alguma coisa a contar. O que é que fez durante uma semana inteira?

Karin o olhou séria. 

— Aproveitei o pretexto de estudar         a festa do Círio de Nazaré e fui conhecer a tua terra.

Mansinho arregalou os olhos.

— Você foi a Belém do Pará?

Karin fez que sim com a cabeça e tomou as mãos de Mansinho nas suas. Mansinho teve grande desejo dela e vontade de deitá-la ali mesmo, na areia ou até no dorso do paredão, mas ao mesmo tempo sentiu com certa melancolia aquele principio de enjôo que sempre lhe davam as mulheres quando passavam do porre da posse e da boa cegueira física inicial para uma fixação de sentimentos.

Domesticadas e ciscando o chão até as garças viram galinhas.

Da janela do escritório do Bar Don Juan, Aniceto viu Mansinho e Karin que chegavam da praia e ficou pensando na Da Glória. Que estaria fazendo em Pão de Açúcar da beira do São Francisco, ela da voz rouca e que sabia falar longa e misteriosamente —como se tivesse aprendido a falar com o rio — mas que era tão breve de carta e de escrita tão vazia? Tinha medo dos escritos.

“Palavra escrita é feito passarinho na gaiola”, dizia. “Se um dia eu receber um telegrama me mato mas não abro.”

 

O texto entre aspas é de Antonio Callado, meu conterrâneo muito conhecido, e bem mais velho.



 

 

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Francisco Buarque de Holanda

 

                                             Francisco Buarque de Holanda

 

Como não gostar do Chico Buarque?

Como não gostar do Chico, um cara da minha época, temos idades próximas.

Cantor, poeta, compositor e escritor. Amigo dos artistas musicais mais famosos que temos e tivemos. Chico é um homem comum, simples. O político é outra coisa, são idéias. Ele nunca foi nem vereador...

Ganhou muita antipatia por ser amigo de Lula e Dilma. Realmente, do modo de ver político, não recomenda ninguém. Ambos são uns vencidos pela sede de poder e corrupção, não adianta negar, mas o assunto não é esse.

Sua história é outra. Chico tem raízes intelectuais, viveu no meio deles, gente de peso, importância e notoriedade. Não é qualquer um que é parceiro e amigo de Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, Baden Powel e tantos outros. Não é para qualquer um, todos sabem.

Começou moço, bem moço, com letras e músicas ainda não maduras, mas extremamente simpáticas. Mais: maturidade é conhecimento, nunca foi sinônimo de velhice. Das suas músicas, agrada-me sobremodo “Construção”, onde Chico mostrou o que sabe. Todos os versos são alexandrinos, e para completar, todos são proparoxítonos no seu final. Vão se alternando, até o término e a letra é grande.

Parabéns pelo Camões. Ele é concedido a autores da CPLP, Comunidade de Países de Língua Portuguesa, aos literatos que se destacaram pelo conjunto da sua obra. O prêmio maior, bom lembrar. Um milhão de euros, bem mais do que o Nobel, pago em dólares. Claro que a importância não é esta, o dinheiro. É o valor do prêmio intelectual, conquistado pelos tempos.

Só as suas letras, ao longo de anos o justificam, afinal ainda é o maior compositor vivo do Brasil.

 

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A mulher bonita

Afinal, quem é esta famosa bonita mulher?

A que tem belo rosto?  A que tem bas curvas?Esta não vale, está de costas, mas que é linda, é.  A mulher bonita, fisicamente, sempre foi um mito.  Passamos os séculos apresentando ora uma, ora outra.

Em definitivo, nada sobrou.  Brigitte envelheceu, Sophia perdeu as belas formas, Faye não é mais a bela Clayde, da famosa dupla de assaltantes.  Beleza eterna não existe.  Creio mesmo que eterno nada existe, salvo religiosamente.  Nunca morrem na alma do povo, e vão ficar para sempre.  Um mito, um milagre, um fato.

As mulheres belas sempre mexeram com o mundo, e vão continuar encantando.  Basta ver a foto acima...

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"Vila dos Confins"

 

                                               “Vila dos Confins”

 

            Parece difícil alguém começar a escrever sem antes ter passado por um processo que costuma formar quem pratica este tipo de arte.

            O início é a leitura, sempre. Depois as redações, geralmente feitas no colégio. Fui encaminhado pela educação, e naturalmente pelo gosto de contar histórias. Desde pequeno meus pais cuidaram com carinho da leitura, que souberam passar muito bem aos filhos — aprendi a ler e escrever com minha mãe. Comecei com Monteiro Lobato, como a maioria dos pequenos leitores. Mas nada conheço de Dona Benta, Emília ou Pedrinho. Que eu me lembre, o primeiro livro que li foi “Os doze trabalhos de Hércules”, se não me engano, na época, composto por dois volumes. Li, reli e vivia lendo, até hoje conheço as aventuras do herói grego, filho de Zeus e da mortal Alcmena. Digo que me lembre porque tinha o hábito de ler o que me caísse na frente, fora as histórias que me eram contadas.

            O tempo passou, entrei para o ginásio e os professores recomendavam uma serie de livros. “Iracema”, “A Moreninha”, “Meus oito anos”. José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Casimiro de Abreu sempre foram autores obrigatórios no ginásio. As provas eram sempre constituídas de duas partes. A primeira, redação. A segunda, análise de algum trecho e gramática. Jamais tive a menor preocupação com a matéria. Tirava nota máxima, ou perto dela, na redação que sempre valia cinco pontos. Depois, saía catando respostas da segunda parte, e juntava mais uns pontinhos. Enfim, nunca minha nota foi menor do que seis e meio, tudo por causa da leitura que me acompanhou todo o tempo.

            Pouco mais tarde li o primeiro livro ‘mais sério’, se é que esta classificação existe, por recomendação escolar. “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, que me impressionou profundamente. Estava aberto o caminho para uma sucessão que se estende até hoje.

            Mas quando li vorazmente “Vila dos Confins”, de Mário Palmério, pensei comigo mesmo “ainda vou escrever assim”. Vontade tenho até hoje, mas realmente o romance onde é contada a vida política do sertão, as falcatruas eleitorais, a figura do padre Sommer, o matador de onças pretas, zagaiadas sem medo, a vida do interior mineiro com todos os seus pormenores grandes ou pequenos é rica demais e muito difícil de ser simplesmente reduzida a um simples comentário. É impossível, esta é a verdade. O então deputado federal Mário Palmério, duas vezes eleito pelo PTB getulista, que foi educador, político e diplomata esgotou o assunto. Foi prefaciado por Rachel de Queiroz, um passaporte vermelho para qualquer editora, não fosse o fulgurante talento do autor. Veio depois “Chapadão do Bugre”, também excelente, mas sem a força do primeiro.

            Enquanto Guimarães Rosa soube mostrar a vida do sertão com requintes de realidade, Palmério, seu sucessor na Academia, fez o mesmo, mas politicamente. Tempo das eleições onde quem tinha título, honesto ou obtido mediante fraude, comparecia a seção eleitoral com a sua melhor roupa e orgulho, hoje uma chatice onde o traje é a bermuda.

            “Ainda vou escrever um livro assim.” Foi como tudo começou, uma admiração grande e incontida, não passei na época, de contos e crônicas, a vida na farra era bem melhor. Jamais deixei de ler e escrever, mas o primeiro romance, um texto despretensioso, apareceu tarde. O segundo, do qual muito me orgulho, anda preso em concursos, não deve virar livro até que eu escreva coisa melhor, se conseguir. “Casarão”. Nele estão presentes o bem e o mal, a saúde e a doença, a virtude e o vício, o caráter e o cafajestismo.

            Tudo isto por causa do deputado e Acadêmico Mário Palmério, feliz autor de “Vila dos confins”, indelével marca na literatura nacional.

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O fascínio da beleza feminina

 

                                   O fascínio da beleza feminina

 

            Nunca saiu do assunto mundial, tanto dos homens, como das mulheres. São fascinantes mesmo. Eva teria sido amaldiçoada por conquistar o homem. Tantas Evas...

            As artes sempre registraram a beleza da mulher, desde os primórdios do Mundo. Continuam registrando até hoje, quando elas mudaram um pouco. As formas eram arredondadas, os músculos nada proeminentes, tatuagens nem pensar, e não existiam cadeiras no Legislativo, que nem mesmo existia.

            Mudou? Mudou sim. O corpo da mulher, antes sagrado, tornou-se vulgar. Antes dono de belas formas, aparentemente macias, ganhou músculos proeminentes, graças aos trabalhos feitos nas “academias de ginástica”.

            Sou um reacionário. Mulher bonita deve ter corpo limpo de tatuagens, músculos proeminentes, ombros fortes como se fosse lutadora de boxe. Nada disso. Não sou, de forma alguma, partidário da mater família, mas igualmente não posso admitir a vulgarização da mulher.

            Sou homem, sou filho, tenho esposa, ou seja, por mais que tenha convivido, como convivo com homens, a mulher sempre esteve junto ao meu ser. Ao meu e o de todos.

            Mas entendo que hoje a coisa exagerou. Vale a mulher ‘marombada’, a que segue rigorosamente as regras de coxas grossas, bunda arrebitada, cintura fina e olhar insinuante. Ora, esta não é a mulher, é apenas uma regra da moda, que absolutamente está incluída na sociedade lícita atual.

            Ser como a Paolla Oliveira, que ilustra este postagem? Sim, ela é linda! Mas é uma artista, que ninguém se esqueça disso. Uma mulher!  Que ninguém tente diminuir a mulher!

           

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Pode? Depende, depende

 

                             Pode? Depende, depende.

 

            Em entrevista, atriz Deborah Secco, conhecida pelo seu desembaraço em interpretar papéis difíceis, sem que fosse inquirida pelos entrevistadores disparou: “meus namorados? Traí todos”. E criou o alvoroço, sendo que ela não precisa disso para aparecer; basta mostrar o rosto. O corpo, nem se fala.

            Quando apareceu nas novelas de televisão brasileira, tinha um ar infantil e ao mesmo tempo atrevido. Magrinha, nada do tipo das famosas colegas que todas conhecem, mas não vou citar nomes. Falo no da Deborah porque ela já cansou de dizer o que afirmei acima. Ora, a afirmação é inusitada, mas já vi uma entrevista. Sem o menor receio, lá vem o traí todos. E eles não são poucos. Ora, a Secco fez o papel da Bruna, no filme “Bruna Surfistinha”. Corajosa e oportuna: suas colegas, mesmo as mais audaciosas, não tiveram a coragem de interpretar a garota de programa, uma prostituta mesmo, que ficou famosa com a publicação do livro de mesmo nome, de Raquel Pacheco, recorde de vendas quando foi publicado.

            A  Bruna era do tipo exuberante, não combinava com Deborah, que não teve dúvida. Entrou para uma academia, preparou-se sei lá eu como, mas virou uma mulher altamente desejável. A moça não brinca em serviço. Talvez a própria “Surfistinha” ficaria bem abaixo do desejável corpo da atriz. Sucesso! Não é uma peça de valor artístico total, que envolve plástica, cena, cor. É história na dura mesmo. Quarto e cama!

            Deborah deu show. É a vagabundinha mais convincente que já vi nas telas. Uma putinha mesmo, que satisfaz seus clientes, aceita suas exigências e ganha o seu dinheiro. Vi o filme no computador, está disponível.

            O mais interessante: vi também a entrevista do seu atual marido. Os repórteres riram muito, e o cabra ficou na dele. Ele é o pai da Maria Flor, filha deles. Mudou tudo? Ou, ou... Diga, senhora Deborah Secco!

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Melhor não ver

                                                 Melhor não ver

 

            Certas situações são embaraçosas. A de ser ver cena comprometedora, por exemplo. Não, não se trata de ficar caçando isso, fotografar e depois fazer mau uso do resultado. É o acaso mesmo.

            O cara gostava de fotografia. Invariavelmente estava com sua câmera, produto de qualidade. No momento, estava diante de um simpático delegado de polícia, sim, isso existe, porque não? Hábil no seu ofício. Cabelos cortados sem obedecer as normas da época. Nem curtos, nem longos. Barba rente, aparecendo só as pequenas pontas.

            — E que mesmo o senhor viu?

            — Nada, doutor. Eu não vi nada, estava começando o pôr-do-sol e eu não queria perder a oportunidade, o dia estava claro demais, eu estava observando isso, e nada mais.

            ‘— Então não viu a camioneta estacionada?

            — Eu nem sabia direito onde estava, doutor. Não podia perder um segundo olhando coisa que não fosse céu e mar.

            — Mais nada?

            — Mais nada. E com cuidado, já havia tomado uns canecos de chope gelado, deveria ter deixado para depois, quando findasse o trabalho.

            — Pode ser mais claro? Trabalho? Que espécie de trabalho?

            — Não está vendo, doutor? O senhor é policial. Sou fotógrafo, comecei amador, mas ganhei tantos concursos que comecei a participar mais e exposições, o trabalho antes amador acabou virando profissional.

            O homem estava falando a verdade. Vestia-se comumente, camisa de algodão de qualidade, sapatos tipo tênis, mas o que chamava a atenção era a calça jeans, quem conhece identifica de pronto. Inglesa, muitíssimo bem feita, corte fino e de requintada elegância.

            — O senhor não reparou nas duas moças sentadas quase ao seu lado?

            — Como não reparar, doutor? Lindas, as duas. Lindas...

            — Mas o céu estava mais lindo.

            — Não disse isso, doutor, eu não disse isso. Claro que olhei para as duas, que também tomavam chope e conversavam muito amistosamente.

            — Amistosamente? Não diria amorosamente?

            — Amorosamente? Diria que não. Apenas se acarinhavam nas mãos, coisas comuns entre as mulheres.

            — Só isso? Mais nada?

            — Doutor, não tenho o hábito de ficar bisbilhotando a vida dos outros.

            Não foi exatamente assim. É evidente que a câmera fotográfica do homem foi examinada e o conteúdo revelador. As duas lindas jovens, numa grande caminhoneta, seios livres, sem camisas, beijavam-se apaixonadamente, sem o menor receio e com todo o desejo contido, seus cabelos soltos e rostos bem moços, deixavam ver que se tratava de paixão.

O fotógrafo premiado fora contratado pelo marido de uma delas. Sim, ele faria fotos do entardecer em tão lindo lugar, mas não apenas só isso. As duas jovens estavam sob sua acurada mira.

É assim, quando tem de ser; não se pode evitar. Quando há compromisso com homem, como havia, muitas vezes é melhor não ver. Pode acabar em tragédia Sabe? Nem mais sei se pode mesmo. Os fatos, os costumes, andam muito mudados atualmente. Não sei o resultado. No começo, o marido da lourinha quis vingança selvagem.

            Dizem, eu não sei se isto é verdade, que os três convivem harmonicamente entre si. Exemplo de democracia!

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Velejando

                                       Velejando

 

            Dois sentados, tomando chopes em bar famoso e requintado, bebida de alta qualidade, inclusive a bière à la pression, panorama marítimo.

            O Soling, uma classe privilegiada de veleiros, estava em discussão. Alguns, nunca se sabe o motivo exato, eliminaram o mais sofisticado barco a vela da competição olímpica. Interesse? Monetário, naturalmente, dando ligar outra vez ao antiquado, feio e deficiente Star, barco que quebra o mastro facilmente, nada marinheiro e sem o uso da vela balão, aquela que fica inflada quando o vento é de popa e dá muita velocidade ao barco.

            .— Lindo, não? Ainda não entendi o motivo de retirarem da classe olímpica.

            .— Não? Safadeza destes organizadores. Ou você vai me dizer que não sabe que mesmo nos esportes a sacanagem come?

            .— Não, eu sei, eu sempre soube. Mas até onde a baixaria pode chegar?

            .— Até o homem chega.

            Uma verdade. Sob todos os aspectos. A cada dia que passa, a qualidade moral e ética decresce. Estamos descendo muito. Estamos descendo demais. Isso para? Ninguém sabe. Falta de saúde, falta de educação, falta de conhecimento, falta de tudo, como pode? A sociedade mundial caminha uma trilha escura, pedregosa, perigosa. E ninguém se dá conta que o abismo pode estar mais próximo do que a Astronomia espera, cinco bilhões de anos para o Sol gastar todo o seu combustível e causar o fim dele mesmo e do seu sistema.

            Ora, o tempo é distante, ninguém estará vivo para sofrer e testemunhar. E quem estiver? O calor será insuportável, até secar terras, mares, rios. Seria este o Apocalipse, narrado por São João? Pode ser sim, mas quem garante que está tão distante?

            O Soling continuou navegando tranquilamente. O chope continuava maravilhoso, a morena da mesa ao lado cruzara as pernas, o short era mesmo short, curto, as fritas com pequenos torresmos estavam cada vez melhores e o dia seguinte seria sábado!

            Todo o prazer renovado mais uma vez!

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Platão

 

                                     Filosofia platônica

 

           Todos falam em filosofia platônica. O que conhecemos dela?

Vem, em influência forte, de Sócrates, que nada deixou escrito. Seu discípulo Plato (Platão), que significa ombros largos, encerregou-se de transmitir os fundamentos da sua doutrina, até hoje considerada a mais exata, isenta e correta sobre os fatos humanos e os que acontecem sobre a Terra.

           Este é um breve estudo, que não tem, absolutamente, a intenção de dissecar a filosofia platônica, seria atrevimento demais.

            Pretende-se, apenas, prender-se ao fato de Platão deu mais importância: o amor. Entendia o mestre que juntos, homens e mulheres podem construir uma sociedade igualitária, crescendo juntos tanto o homem como a mulher, atingindo metas, conseguindo chegar a objetivos comuns, refinando o amor entre si e os outros, construindo famílias fortes e por conseguinte, Vida e nação forte. Faz sentido, qualquer um é capaz de perceber isso de imediato. Crescem não só o amor, mas a gentileza, a compreensão, a educação, a sabedoria.

            Falou-se na união homem e mulher. Assim é, já que se sabe que na Antiga Grécia, homens jovens, na puberdade, entregavam-se aos mais velhos, sendo o hábito considerado comum. Atingida determinada idade, ou quando os pelos da barba surgiam, o amante era libertado. Sócrates, segundo tudo consta, foi um destes ‘donos’; condenado por “estar corrompendo a juventude grega”. Verdade ou não, é o que consta no “Julgamento de Sócrates”, de Platão.

            Continua-se. A sociedade grega foi considerada perfeita. Havia escravos, mas estes eram prisioneiros de guerra. Pelos relatos, não havia fome, desamparo ou abandono na doença. A sociedade era bastante igualitária e a política muito honesta, sempre sendo resolvida, em casos extremos, pelo plebiscito. Convocado, o povo resolvia qualquer questão, ato de democracia suprema que até hoje é praticado na Suíça.

            Crescer juntos é assim. Os valores positivos caminham na mesma marcha. Em suma, é a principal idéia da filosofia platônica, a filosofia do Amor.

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Tudo e nada

 

                                               Consigo mesmo: diálogo

 

            É possível? Falar horas e mais horas, dias e mais dias, anos consecutivos, enfim, sem data determinada, manter um diálogo consigo mesmo?

            Não só é possível, como muitas vezes necessário. Mas não esconda dos outros; publique, fale, pode auxiliar, confortar, ensinar alguém. Ou levar tudo, de vez, para o buraco que sorrateiro nos espera. Ou você pensa que não? Ou você faz questão de nem pensar no assunto? Ah! Mas ele existe, como existe! Homem, você está sentado, tomando um café forte, delicioso, na hora certa, e vem um maldito AVC, fode sua saúde, se não matar deixar sequelas indigestas. Pensa que você é alguém? E como eu, é nada, um sujo, ou até mesmo santo num dia luminoso. Pior: só o dia. A Vida, algo maravilhoso que carrega, pode fugir a qualquer instante, agora para mim, por exemplo, e não permitir que eu termine esta crônica maldita.

            Vivemos uma grande ilusão realista. Dá para entender? Mas é assim, e quem quiser entender que pense! Estou inteiro no momento. E depois? Viro defunto sem mais nem menos, eu e todos nós, inclusive você que está me lendo. Escritor maldito? Qual! Um homem que sabe ver o que o cerca, a grandiosidade da Vida e ao mesmo tempo a sua transitoriedade. Somos nada!

            “Porra, este cara é um derrotista”. E eu respondo: e você um cego, ainda não percebeu que a Vida de nada vale? Nada, absolutamente nada, não se iluda. Vale o que você faz, o que você prega, o que você vive! Tolice continuar: valem muitas coisas.

            Tantas pessoas nascem, vivem e morrem sem ter acrescentado nada, nem um protesto contra os safados que existem neste mundo, os pregadores do ódio, da mentira, do assalto ao bolso alheio, seja com arma de fogo ou com a caneta, hoje tão mais comum. É problema brasileiro? Piada, isso! Acontece em todos os quadrantes do pequeno planeta que gira em torno do Sol em aproximadamente 365,5 dias, chamado Terra. Uma mediocridade de lugar, se comparado com os grandes corpos celestes. Mas aqui existem as belas mulheres, o sacrossanto uísque, as mais diversas e maravilhosas comidas, o sono, a fantasia, e, enfim, o amor. O que seria destas coisas todas não fosse o Amor?

            Nada! Absolutamente nada!

 

Imagem: "Los borrachos", de Diego Velásquez

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Procura difícil

Procura difícil

Era realmente uma procura difícil. Muitos tentam.
Sentado em frente ao mar aberto, tempo frio, a varanda da sua casa modesta, mas nada pobre em beleza pura, aquela que você encontra nas pessoas simples que sabem planejar sua casa, o homem pensava. Havia trazido para fora, e colocado numa mesa da varanda, um arsenal que não faltava entre suas coisas. Um laptop, seu celular, pois ter que sair dali, naquele entardecer avermelhado para atender a alguma chamada no telefone da casa seria sacrilégio.
Estava sozinho, a mulher não demoraria a chegar, médica chamada às pressas para confirmar ou não um caso de provável pneumonia. Nem sempre isto é possível sem exames complementares.
Sem dizer uma palavra, levantou a gola da velha japona, companheira de muitas jornadas. A outra, já gasta, estava no seu armário, junto da mochila, cordas, mosquetões e outros apetrechos de escaladas e montanhismo. Não, não estamos diante de escalador famoso, montanhista de renome. Gostava de grandes picos da serra dos Órgãos, conhecia todos e o das Agulhas Negras também.
Então, qual o motivo da casa em frente ao mar-oceano, o que não tem fim, o grandioso que domina quase toda a Terra? Não, nem ele mesmo sabia. Ninguém sabe, com toda certeza. Talvez a visão de que nunca acaba, o horizonte encontra-se com o céu, possa ajudar a explicação.
Tinha idade suficiente para procurar a destinação da sua vida, esta curiosidade que afeta todos nós. Você abre os olhos e vê o que cerca, presta atenção ao tempo e escuta o barulho da existência, o farfalhar das folhas, o quebrar das ondas. É presente, aqui e agora, e sonho, do qual a Vida nunca foi apartada. Vivia por qual motivo? O primeiro, evidente, é que era fruto de um parto. O texto, parece, continua sendo mistério. O canto dos pássaros, a beleza das matas, o mistério dos mares, enfim o encantamento de tudo.
O amor. Este é o mais profundo e sentido mistério que nos cerca. Para ele não possui o homem definição exata. Sente-se, é tudo.
E a gente, com uma boa quantidade de incrédula, infantil e desnecessária, continua procurando, procurando...

 

 

 

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Fato comum

                                   Fato comum

 

            Explode como se fosse novidade, dinheiro na conta de um ex-assessor parlamentar na sua conta. Ele não é um qualquer. Pertencia ao gabinete do então deputado da ALERJ Fábio Bolsonaro, eleito senador em 2018 com número recorde de votos. Alguma novidade?

            Nenhuma novidade. Todo parlamentar, além de motorista, secretário e outras benesses particulares, recebe igualmente a verba de gabinete, para contratar quem bem entender funcionários que auxiliarão seu trabalho. A tese é esta e existe desde muito. A Constituição de 1946 já previa estes direitos. A de 1988 manteve. É o grande ralo onde escorre o dinheiro público, que muitos protestam. Um parlamentar custa muito cara aos cofres federais, estaduais e municipais. Tudo rigorosamente dentro da Lei, não é preciso ser tratadista de Direito Constitucional para saber isso.

            A verba de gabinete, polpuda, serve para o pagamento dos assessores dos parlamentares, como já se disse. É legal e empregada há longos e longos anos por todos eleitos do legislativo brasileiro, que a recebem e pagam aos funcionários sem precisar de qualquer comprovação. Contrata e paga quem bem quiser, sendo mal visto hoje o nepotismo.

            Como este pagamento é feito, ninguém sabe. Se estiver dentro da verba que o parlamentar tem direito, ele é legal. Daí saem contribuições partidárias dos beneficiados para os partidos do parlamentar, contribuições de campanha, qualquer outra forma de pagamento pelo recebedor também, desde que esteja dentro da “verba de gabinete”. Estão reclamando de quê?

            O que precisa terminar, isto sim, são estes privilégios dos parlamentares. O povo vive pedindo isso. Eles não votam, é evidente.

            Sendo assim, esqueçam o tal que mantinha um caderno com folha de pagamentos. A Lei Maior, imaginem, permite que eles façam isso, quando dá o direito e não cobra como ele foi usado.

            O Brasil sempre viveu uma farsa. Está na hora de acabar!

 

Imagem: Atravessando a ponte

 

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Que mundo é este?

 

                                           Que mundo é este?

 

            Perece, a gente nunca tem certeza, que nós estamos constantemente nos indagando que mundo é este em que estamos vivendo.

            Até trinta anos atrás, é a média que todos fazem, casais de namorados, com a amada pela mão, passeavam por ruas das cidades sem nenhum temor. Traficantes restringiam-se nas entradas das ruas de acesso aos morros conhecidos por haver tóxico.

            Fuzis de guerra, como o AR 15 e o AK 47, respectivamente norte-americanos e russos, estavam em quartéis. Hoje, andam como nossas antigas carabinas de pressão, capazes de matar um pardal, isola, é maldade, mas pirralhos são dados a experimentar a sua pontaria, aquelas armas andam na mão de menores, os famosos soldados do tráfico. Pequenos, sem formação muscular e óssea definida e forte, sem formação cerebral, tornam-se gigantes com um fuzil semiautomático.

            É tudo de ruim? Não, não é mesmo. Cretinos dirigentes de povos resto do mundo também fazem o mesmo, mas com mísseis de longo alcance, que num futuro bem próximo poderão transportar artefatos nucleares poderosos.

            Ou seja, não parece, o mundo realmente virou de cabeça para baixo. Tudo anda errado. A corrupção campeia, em qualquer atividade, inclusive, e quem poderia imaginar, na esportiva de competição.

            As Olimpíadas do Rio de Janeiro serviram para os dirigentes moleques enriquecerem. Tanto os da área esportiva, como os executivos que ficaram milionários com as obras exigidas pelo Comitê Olímpico Internacional. Foram vendidos ingressos sem controle, as obras superfaturadas, o erário dilapidado.

            A Copa de Futebol não foi diferente. Fraude em cima de fraude. Agrada ao autor estar escrevendo tudo isto, ao invés de estar louvando seu povo? De jeito nenhum, não! Envergonha!

            Então porque escreve, perguntarão muitos?

            Para mostrar que falsos líderes, verdadeiros moleques ladrões, não é preciso citar nomes, todos conhecem, que devem ser extirpados da vida nacional.

            É assim. Mudar, serem punidos, ou até mesmo castigados mais severamente pelo pobre povo brasileiro.

 

Imagem:   O poderoso porta-aviões George Washington,  Marinha dos Estados Unidos.

           

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Resposta a uma mulher misteriosa

 

 

 

                             Resposta a uma mulher misteriosa

 

            Querida, como sempre você apareceu no momento certo e oportuno.

São características suas que nunca vou ser capaz de compreender. Está em diversos lugares, como cigana fosse. Não vale a comparação? Cigana? Creio que é exatamente assim. Alma cigana, não tem lugar determinado para ficar como que plantada nesta Terra nada pequena. Fica onde gosta, conhece, bebe o vinho, experimenta o que interessa e segue em frente. Uma maneira bastante interessante de viver.

            Talvez, eu não tenho certeza, gostasse de também viver assim. Para ter ideia disso, só experimentando. E para isso é preciso de um desprendimento que talvez o tempo me tenha tomado. Não me digo velho ou sem iniciativa, mas tão somente satisfeito com o meu lugar. Às vezes a gente pensa em mudança sim, outro país, cidade grande, alternando com lugar pequeno, com o mar e a praia servindo de área da sua morada. Vida simples, talvez enjoada e cansativa com o tempo.

            Escrever num lugar assim, quem sabe? Deve dar bom resultado. Concluído o trabalho, é melhor não insistir no lugar. Se você insiste em trabalhar sentido a influência do local onde está, melhor desistir. Vai cair em lugar comum, é quase certo.

            Gostaria muito de saber mais sobre você. Como está sentindo a vida nestes momentos, o que vai por dentro desta alma misteriosa e ao mesmo tempo pronta para respostas que não permitam revelar sua privacidade. Simples compreender isso. Talvez sejamos todos assim, uns mais, outros menos.

            Continuo buscando um encontro cada vez mais verdadeiro com minha alma. Não entendo a existência sem isso. Insistindo, parece que você vive num quarto escuro, apertado e com pouco ar. Ora, não é este o lugar para uma vida saudável. Se não estiver correto, por favor, corrija.

            Escrever não é nada fácil, e trabalho concluído requer boa divulgação. Nunca este procedimento pode ser taxado como exibicionista; quem escreve tem o objetivo de transmitir, compartilhar, fazer com que o leitor pense e participe do seu texto. Acabo de firmar contrato com uma editora americana. Talvez ande um bocado, pois o livro fala em correrias, espionagem, mulheres sensuais, atentados, ou seja, tudo bem ao gosto dos norte-americanos. Só deles? Tenho cá minhas dúvidas.

            Os motivos que a trouxeram de volta não são dos mais agradáveis, mas não parecem graves. Devo dizer que acho estranhos, mas esta sempre foi uma marca muito sua. Escreva. Eu também gosto de ler!

            Beijo.

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Sem honestidade

 

                                             Sem honestidade

 

            Contou-me um amigo muito chegado, que foi aluno de Fernando Henrique na Universidade de Paris, mais conhecida no mundo como Sorbonne, que quando os portugueses aqui chegaram endoideceram. Estavam no Paraíso!

            Imaginem. Meses nos conveses das caravelas, Sol impiedoso, bolachas mofadas, vinho de qualidade inferior, água quase podre, avistam terra! Sujos, mal cheirosos, ferram os grandes barcos e caem n’água como bando de meninos. Grande grupo vai a terra. Lá encontra frutos deliciosos, água que coloca em dúvida as melhores do mundo. Sim, tinham alcançado o paraíso!

            Mas os donos, a que tudo assistem, nus, fortes, cheirosos e decididos, assistem ao desembarque pacificamente. Índios, os donos da terra. Não foram agressivos. Nenhuma flecha foi atirada, nenhum arcabuz disparou. Sabia Portugal que terra aqui existia, mas nunca imaginou sua riqueza. Houve confraternização. Índios e brancos festejaram, abraçaram-se, beberam e comeram juntos, e conseguiram entendimento sem nada falar um a língua do outro. Os marinheiros ficaram literalmente tarados pelas mulheres. Eram livres, cheirosas, tomavam banho todos os dias, banho de mar salgado e limpo, e após, antes do escurecer, no rio próximo, quando usavam ervas aromáticas no corpo e nos cabelos.

            Este povo, vendo estragada a comida dos que chegavam, ofereceram pratos com alimentos frescos, colhidos no dia ou no anterior, frutas colhidas no dia, risos, danças e alegria. Sim, sim, era o paraíso! Proibições não existiam, e tudo o que poderia ser feito, foi feito. Sem pecado, sem crime, sem problemas de qualquer espécie.

            É pena! Os índios ainda existem, mas em condições de explorados e furtados da sua terra. São excluídos. Os brancos, maioria absoluta, construíram favelas de concreto, exploram a terra sem o menor respeito à natureza, colocam agrotóxicos nas plantações, hormônios nas criações, tomam água poluída por eles mesmos, têm péssimo valor moral e social e são guiados por malévolas políticas que antes ninguém conhecia.

            Triste destino de um povo!

 

Imagem: "A Primeira Missa", o/s/t , Victor Meirelles, MNBA 

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Casarão

Capítulo 1

 

              Estavam sentados em torno da grande mesa, feita de uma só tábua de madeira nobre.

              Grande a casa, pé direito alto, construção que mostrava bom gosto.  A sala onde alguns beliscavam queijos e grãos oleaginosos, um hábito deles.  Oito homens, mas somente um preferiu beber conhaque, naquela noite.  Os outros estavam tomando uísque, em copos médios, com muito gelo.  Terminada a rodada, a maioria, como de costume, dava boa noite e se retirava.

              Palmas e campainha tocando?  Àquela hora?  Um dos poucos servidores voltou do portão e falou baixo ao mais velho, que acabara de colocar seu copo na mesa.

              — Um tipo estranho, senhor.  Está vestido com uma espécie de túnica branca.  Parece um peregrino e tem ótimo aspecto.

              — E o que ele quer?

              — Pediu pousada.  Só quer dormir e amanhã sai antes do Sol nascer.

              — Estranho.  Traga até a antessala.  E fique por perto, nunca se sabe o seu intento.

              Escolheu uma bengala pesada, ajeitou o robe e aguardou que o visitante estivesse dentro da casa.  A um sinal do empregado, foi ao encontro.

              Realmente, o tipo tinha aspecto excelente, muito limpo e exalando um perfume completamente desconhecido.  Leve e muito discreto, cheiro de homem mesmo.  Estava com uma túnica branca, barba longa e usava uma sandália de couro, o mesmo da bolsa que trazia a tiracolo.

              — A Paz esteja nesta casa, senhor.  Obrigado por atender.

              — É hábito neste lugar.  Meu empregado disse que quer abrigo.

              — Se for concedido, aceito de bom grado.  Venho caminhando há muitos anos.

              — Toma uma bebida conosco, antes de dormir, peregrino?

              — Se for vinho, aceito.

              Estranho.  O homem tinha um andar como se na terra não estivesse.  O olhar inspirava grande confiança.  Ninguém lhe perguntou o nome.  Quando viu os pães redondos feitos na casa, pediu licença, rasgou um pedaço para ele, e fez um gesto que parecia estar convidando a comerem juntos.  Provou o vinho, deu logo após um longo gole, quando um barulho se fez escutar.

              Era um ruído estranho, muitas vezes seguido de um vento frio.  Vez por outra, o fato acontecia no lugar.

              — Fora!  Este lugar não é para você.  Fora!

              Ninguém entendia nada.  Com quem falava?  Súbito, as luzes apagaram.

              — Fora!  Fora!

              E os presentes viram que seu corpo emanava luz, clareando o ambiente.  A energia elétrica retornou. 

              Tranquilo, o homem perguntou se poderia tomar mais um cálice de vinho, logo posto no seu copo pelo mais velho do casarão.

              Na manhã seguinte, como havia falado o peregrino estava de saída.

              — Volte sempre, amigo!  Gostamos de você.

              — Vou em corpo.  Não se incomodem.  Estarei sempre presente.  E desapareceu como se não existisse.

 

              A vida guarda segredos insondáveis.  O que tinha acontecido naquela casa era inexplicável.  De nada adianta ficar indagando; não se tem resposta.

              Manhã clara no casarão, onde as janelas, bem calculadas arquitetonicamente, permitiam a luz de o Sol iluminar com harmonia toda a sala principal.  Os mais velhos conversavam, dominados ainda pelo acontecimento noturno.  O mistério atrai profundamente os homens, e era exatamente o que tinha acontecido.  Afinal, o que teria acontecido, na realidade?  Que significava a visita do estranho e pacífico homem que pediu pousada?  E os acontecimentos sequentes?  As frutas e o chá, consumidos com moderação pelos que haviam testemunhado os fatos, não auxiliavam a compreensão dos mesmos.

              Casa de fazenda grande, produtora de leite e grande plantação de legumes; anacrônica, diziam.

              O tempo havia passado e a construção refeita.  Datava da época da escravidão, mas nenhum traço poderia revelar tal fato.  Nem mesmo a capelinha restaurada com todo rigor que se fazia necessário.  E o pelourinho.

              As diversas casas dos trabalhadores distanciavam-se pouco do casarão.

              Faina começando cedo, cheiro de café, pão caseiro.  Não havia desperdício de alimentos, mas uma fartura que não é notada em casas de trabalhadores.  O tradicional doce de abóbora, a broa de milho com os sabores de quem conhece, cravo, especialmente.

              Dizer que a vida transcorria sem graça era um exagero.  Pois que havia sim, bastante movimento quando não estavam trabalhando.  O rio, manso, em muitos lugares não dava pé, água fria o ano todo, mesmo no verão.

              Raul e mulher, ele excelente carpinteiro, ela doceira de mão cheia, aguardavam a chegada dos padrinhos de batismo do filho mais novo.

 

 

              O lugar era uma mata rasteira, árvores poucas, meio torcidas: vegetação de cerrado.  O riacho fazia a música do lugar, água fria, cristalina que corria em destino a outro bem maior.

              — A água tá fria?

              — Tá uma gostosura.  Lavou até por dentro.

              — Por dentro não lavou foi nada.  Nem bebeu um gole, e ‘inda que tomasse não lavava, bicho ruim.

              Bastião Neném não ouviu bem o comentário da amiga.  Estava enxugando o couro grosso e pelejando com uma garrafa de cachaça.  Couro grosso sim, aquilo não poderia ser chamado de pele.

              Rita já havia tirado toda a roupa, e seu corpo brejeiro foi alvo de elogio do velho companheiro.  Fazia seis anos estavam juntos.

              — Só meu.  Isso tudo é só meu.

              — Dá um beijo.

              — Mulher gosta dum beijo.  Não reclama do cheiro.  Dei uma talagada grande.

              — Depois tomo meu jenipapo também.  E fazemos alguma coisa...

              — Agora não, a barriga tá roncando.

              Iriam batizar o menino Januário, sobrinho deles, filho de uma irmã de Rita.  Mais dois dias de tropel, estariam dormindo em redes velhas, mas coisa de primeira: nem um pouco esgarçadas, limpas e perfumadas de ervas.

              Bastião Neném ouviu barulho na mata.  Não era coiteiro nem metido em bandos.  O que passou, passou.  Correu para um emaranhado de mato, escondeu-se e no maior silêncio engatilhou sua velha mas bem cuidada parabellum, antiga ferramenta de trabalho.

*

Apenas as primeiras linhas do livro de mesmo nome.    Jorge Sader Filho

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Existência

 

                                                   Existência

 

            Um assunto delicado. Tem data.

Data de quando se atinge uma idade onde as grandes paixões não mais são importantes. A gente presta atenção na vida, quase e tão somente nela. Abrimos os olhos e o pensamento e sentimos uma Vida fluindo, a despeito de qualquer outra coisa, salvo o amor.

            Olhamos nosso rosto. Não é mais jovem, mas deve ter viço; sem ele nada se alcança. É quando se começa a ter noção exata do princípio, meio e fim. Triste isso? Não, não é triste. Trata-se apenas do início que o homem tem da sua existência real, não sonhadora. O terreno mudou, o tempo mudou, os hábitos mudaram, embora pareçam serem os mesmos. A escola da Vida mostra-se soberana, absoluta e imutável.

            Talvez, quem sabe, usemos a mesma roupa de outrora, o banho de todos os dias — a alimentação habitual. Somos os mesmos? Naturalmente que não, nunca mais seremos os mesmos, o tempo não permite. Surgem as primeiras certezas e dúvidas. A primeira certeza é do existir, estou vivo, sinto isso, sei e tenho certeza que o fato está acontecendo.  Daí vem o medo. Não se brinca com a Vida, com a existência.

            Sim, tudo está presente, o corpo e a alma. Todos sentimos isso, quando atingimos a idade da compreensão, aquela que não tem data definida, acontece e não se discute. É uma fase dura, que vamos levar até o fim do nosso tempo.

            O corpo fica mais enfraquecido, enquanto as mentes ficam mais aguçadas. Perde-se num, ganha-se em outro. A consciência surge ampliada, querendo ou não a responsabilidade perante a você mesmo aumenta, dispara. E deve ser encarada! É tempo novo, ou talvez só desconhecido, e deste todos nós temos medo.

‘           O que realmente acontece?

            Parece, não temos certeza, que a famosa idade da razão faz-se presente. Os mitos e fantasmas surgem com maior nitidez, e deste modo são melhores identificados. Somos gente, humanos, vivemos num mundo nem sempre acolhedor. Surgem ideias. Ideias da finitude, do relativo, da incerteza e, tantas vezes, da dor. O homem cresceu! Vê com simplicidade que pode crescer, estagnar ou retroceder. Difícil, esta última. ninguém gosta de reconhecer que andou para trás, mas o fato é mais do que comum, e a idade pode ser responsável por isto.

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