Posts de Jaime da Silva Valente (172)

Homem

Homem, não és apenas produto social, programador, engenheiro ou doutor, nem acredita que basta ser uma pessoa simpática; Homem, não és somente experiência profissional, trabalhador braçal, soldado ou general. Solteiro ou casado, bem ou mal amado, és um ser humano recheado de vida e de esperança. Mas, Homem, nunca construas a esperança no ócio da tua barba: leva-a sempre guardada no teu peito e nunca na algibeira de qualquer farda. Depositar a esperança costumeira na onda migratória, nem sempre muda a história nem garante qualquer vitória. Homem, não edifica a tua fé no sonho que não medita o amor entre galáxias, ou entre simples janelas, e nunca lhe dês a paisagem estreita das velhas favelas; não construas a liberdade no desabrochar das flores alheias, nem a manches com as verdades falsas das perversas teias. E acima de tudo, Homem, não constrói nada baseado nas mentiras sociais determinadoras das estações e dos muros matrimoniais; não constrói no buraco urbano da ignorância, que cicatriza a paisagem, e nunca, nunca te amedrontes com os passos trovejantes e pesados e estéreis dos “senhores”. Respeita o ar que te mantém vivo, a água que te dessedenta e a pedra que é teu caminho e não esqueças que é na pedra que talhas a estátua da tua vontade. Fracassa na história, Homem, mas não vás a leilão: ordena-te livre e torna-te totalidade, porque todo o ser vivo só vive se navegar no mar da liberdade.

 

Publicado por Jaime da Silva Valente, no Portal PEAPAZ, em 3 maio 2010 às 23h05

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A felicidade

Aquele que busca a felicidade ao seu redor, poderá travar muitas batalhas inglórias e só a encontrará quando aprender a servir, a se doar. Mas a maioria das pessoas deixa correr o seu tempo de maior vitalidade nessa busca inglória. Aos poucos, esquecemo-nos de cada momento bem vivido, que pode não ter significado plena felicidade, mas que era uma boa recordação. E quando pouco restar do passado e as pernas vacilantes não nos puderem levar ao futuro e o rosto tiver sido conquistado pelo exército das rugas e, antes da chegada do fim, a memória nos trair, não saberemos quem somos e, muito menos, quem fomos. E a felicidade continuará à nossa espera, bem dentro de nós...
 
Minicrônica publicada no Portal PEAPAZ, em 3 de maio de 2010 às 23h12.
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Frustrada viagem

Naquele tempo de olvido

Fiz uma viagem ao nunca

Destino a João Pessoa

Mas quedei-me em Olinda.

Olinda, ó linda!

Bela paisagem

Gentilíssima gente

Sussurra-me ao ouvido

E o murmúrio ressoa

Como miragem

Que de repente

Magoa:

Não segue viagem

Que ninguém te espera

Em João Pessoa!

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Um trem ao entardecer

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Toda a experiência de viver,

tudo o que aprendi,

foi-se como um trem

ao entardecer.

Fiquei na estação, perplexo

como um prato lambido,

a pensar nos problemas,

equações, teoremas,

que, na vida, assimilei

e escorreram pelas malhas

da peneira que me inventei.

Toda a geografia

e histórias decoradas,

todas as viagens

reais ou só sonhadas,

que empreendi,

nunca saíram dos compêndios

ou dos mapas

e, sei hoje, nada entendi.

Todas as montagens

complexas que estudei,

todos os efeitos

corona que evitei,

as ondas harmônicas,

os diagramas austeníticos,

o cálculo da variação

do estado das catenárias,

pensei que fosse uma orquestra

e a sinfonia acabou...

 

Com todos os testes de fadiga,

os radares implantados,

com a proteção da freqüência

e todos os sistemas integrados,

achei que tinha feito uma aeronave

que, na queda,

ao meu sonho se juntou.

 

Rio de Janeiro 25/08/1998

 

Imagem obtida na internet

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Porque escrevo?

Não sei porque escrevo

talvez nunca venha a saber

 

sinto a maresia

quando ainda é arte

 

de resto, a vida flui

desde o primeiro passo.

 

Certos sentimentos

sujeitam-nos às lágrimas

se indigestos...

 

Não sei se me invento

num monte de palavras

sem rimas nem medos

ou se entrego-me

ao tato

na ponta dos dedos

 

...e na “cascadela” da espiga

em meio aos apupos

após a cantiga

escrevo com rima

e não sei porquê!

 

S. J. Campos 20/09/2011

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ERRO

O toque do perfume

Envolveu-me, odor da terra;

Fui do tudo ao nada por ciúme:

Errei com tudo o que o erro encerra!

Agora, aguardo o último minuto

Como quem não erra...

 

S. J. Campos 14/09/2011

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O amor

O amor é um sentimento que se esvai,

Por isso, eu o cultivo no jardim

Como flores vermelhas e alecrim

Num jardim onde ninguém vai.

 

Amei-te e não ouviste os meus apelos,

Não me amaste e fui embora;

Se me amaste não o digas agora,

Rarearam-se-me os cabelos,

Sou diverso do que fui outrora.

 

Porto 18/07/2006

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Pardal existencial

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Imagem Google

 

Pardal existencial

 

Pardal saltitante

revoluteia no ar

o piado constante

mente a tagarelar.

Não é um farsante

o pardal estrangeiro

novo companheiro

fala insensatez

uma língua diferente

daquela que lês.

É bem querer

desejar-te saúde

para trabalhar:

- trabalho dá saúde?

- trabalhem doentes!

A dor de dentes

não leva ao ataúde.

Pardal saltitante

salta aqui e ali

que o bem-te-vi

é desgastante

posto a montante

no ensopado

que digeri.

Teu bico é clava

que desencrava

unhas e rimas

e abre o tesouro

que fecha poemas

com chave de ouro.

Pardal saltitante

que sempre persistes

és tu o amante

que bicas, logo existes?

 

Washington 12/10/2007

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Aura de felicidade

São lindos os olhos a espelhar

A alma recheada de amor...

Oh, o brilho do teu olhar

Põe, por favor,

Na minha face obscura;

Ilumina o sorriso que baila

Nestes lábios sem castidade

E tua risada aberta e pura

Seja-me aura de felicidade.

 

S.J.Campos 08/07/2011

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Veneza

          

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           Veneza

 

Se suspiro por ti, Veneza,

não é porque saí da prisão nova

para o palácio ducal,

mas porque descobri como ser livre

apesar de prisioneiro das circunstâncias;

descobri que preservaste a liberdade,

aprisionada entre canais,

porque vencestes os limites geográficos

com a força da arte,

com a audácia do pensamento

e sei que te preservarás livre

até à chegada do Dodge definitivo.

 

Veneza 09/09/1984

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A safra

Colhi a semente na hora exata

Quando, em silêncio, chegavam as trevas

Longe destas certezas compulsórias.

 

A ciência ensaiou a vã cantata

Destruidora dos sonhos que levas

Na algibeira das vestes ilusórias.

 

E, no gesto invisível do laboro,

Evaporou-se a semente colhida:

Foi, talvez, para a terra onde não moro

Ausente, para sempre, desta vida.

 

S. J. Campos 14/07/2011

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Odes de Viagens (Coimbra 19/06/88)

Ainda és conduzido pelos passos

da ambigüidade:

ouves a canção de Coimbra

no piano das mãos que foram jovens;

ouves o vazio clássico

que chora a contemplação;

espreitas pelo postigo

o sonho turístico do EU-barco

sem tripulação;

ainda riscas no imaginário

o esboço da tua exata perspectiva.

 

Coimbra 19/06/1988

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O banquete

Satisfaz aos olhos o fausto banquete

A preencher desejos como cataclismo;

O meu silêncio é teu imenso sorvete

Lambido na clausura do batismo

Sem óleos nem sais e nenhum lirismo...

 

Temperos exóticos amargam a boca

Já ferida pelos beijos negados

E o habitual prato feito diário

Sem “cassoulet” nem faisões assados

Que assaltam vontades e humilham salário.

 

As toalhas rendadas usurpam o vôo

Das bandeiras que tremulam sem vento

E nunca cobrem mesas descompostas.

... e a tua e a minha e outras bocas toscas

Saciadas em temperado lamento

Jamais saberão todas as respostas!

 

S. J. Campos 12/07/2011

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