Posts de Jaime A. (17)

Janela

Ok A janela fechou-se,

um estrondo surdo,
nada busco,
nada há por detrás da janela:
caminho ou atalho,
sorriso ou choro,
vitória ou derrota.
Talvez a janela albergue
alguém,
alguém cujo soluço
desprenda os gonzos,
dilua os férreos óxidos
e ouse caminhar
na direcção
do caos,
duma Babel privada
e seca.

#babel #fugiste #eusei
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olhar

Passeaste os olhos
pelo corredor, 
pelo chão, 
encontraste os meus
e sorriram-se. 
Aproximei-me
do teu precipício, 
espreitei, 
e a vertigem puxou-me:
"Onde estaria o teu olhar?" 
Senti que, contigo, 
sobrevoaria até o mar, 
raso de lágrimas. 
Tentaria, pois, 
o salto. 
Teus olhos riram, 
abraçaram os meus 
e demos as mãos, 
o Tejo indicando o caminho, 
o amanhecer o nosso limite. 


(Foto do autor 
obtida com telemóvel:
Lisboa vista duma das 
suas colinas) 

 

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pôr do s

 

 

O sol baixava
num horizonte equilátero,
espalhava-se,
quase quieto.
As águas,
os montes,
abraçavam-no,
em jeito de cor.
O marulhar,
as folhagens,’
o passaredo,
todos o seduziam
num cair,
tão lento,
tão fugaz,
tão estrepitosamente vermelho,
num azul em fundo.

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De Mente

Só mesmo um louco
içaria as velas da alegria,
as torrentes frescas do amor;
só mesmo um louco
iria à procura dos ventos
que trazem os teus olhos;
só mesmo um louco
escreveria o teu riso
e arquivá-lo-ia
entre as poeiras,
os dísticos quentes
deste vagaroso Outono. 

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espelho

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Há palavras,

expressões até,

que de tão repetidas,

ficam vazias 

como nozes consumidas.

"Ama (...)"

"Amor (...)"

"As crianças são (...)"

"Ah! O por do sol (...)"
(...)

Agora,

atenta em ti:

esvoaça,

até como uma mosca

contra o espelho,

como o pato, talvez, só,

uma bola de escaravelho,

pra tudo isto atenta, atenta só!!

(Até estas palavras estão a desinflar!...)

 

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canto

 
Resultado de imagem para parede alentejana
Não há bosques,
não há relva
no meu pensar;
cristalizou-se-me o sonho,
pingou o tempo entre duas tílias
no regresso de uma barra azul
- fusão numa parede alentejana - .
 
Florestas ridentes,
os mastros entrecortados,
a proa furando paredes
e paredes 
de algas.
 
Então verei
que tudo já foi 
dito,
inventado, 
feito,
e nada sobrou para 
o meu canto 
tão gregoriano, tão vetusto,
tão medieval, tão clássico.
 
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férreo ferrete

Já te peguei,
na minha cabeça,
entre quereres,
entre portas
envoltas em pó,
encontrei-te:
velho carimbo,
estampa,
gravura;
timbraste-me,
levaste-me à
insanidade
da férrea lembrança,
(férreas águas
da mal-saúde),
marcaste os meus dias
e ferraste-me.
Ferro de marcar gado
garanhão
das terras inóspitas
não tem dono,
nem paga tributo;
apenas responde
ao tribunal da insónia,
da corte marcial
da extinção.
(ou julgas, ferrete,
que um galopar louco,
entre insanos crepúsculos,
me leva a consentir o cabresto?)

(publicado originalmente no meu blogue:

www.soprodivino.blogspot.com)

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Marrocos

Nas traseiras
de minha casa
há um cigano,
a quem, à noite,
por vezes,
o vinho ataca
(fantasio-o
encostado
a um candeeiro);
então grita e
uiva e
trina,
e a sua voz trepa e
eleva-se e
a noite estremece;
lembro um Marrocos desconhecido,
uma noite cálida e
ao longe,
o Muezim
chama para a oração,
e grita,
e trina,
e a sua voz trepa e
eleva-se e

a noite estremece; e
o meu cigano vizinho,
sem o saber,
transporta Marrocos
para debaixo da
minha janela,
numa memória ausente
porque de Marrocos
apenas conheço a mesquita
de Lisboa!

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busca

Barco louco,
por que me buscas,
me trazes
tua ferrugem,
talvez ouro
outrora?
Agora apenas um
rasto de águas,
das viagens
de que fugiste,
para te vires acoitar
nestas margens doces
de um sonho
tão esquecido,
tão suavemente
obliterado.

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dedos

Pesarosa,ofereceu-lhe a única flor,a sua única paixão;sentiu-a entre o polegare o indicador,sorriu distante,a flor semi-quebrada, já.A lágrima que chorou,o sonho mauque a assombrou,foi tudo o que aquelaúnica flor levouno seu esquifedeslizandopara onde brotamsementes e bolbos.
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des quite

Os caminhos separam,não unem,levam a lugaresque até os olhos esqueceram.Hoje, contínuo regresso,o espaço funde-senas bagas que o sol roubou;onde pára o ventoque roga as pragassubmersas, negadas,sujas de tanto ódio?
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Lar

Tem a coragemde não alimentares o teu dragão,os teus demóniosou os lobos que em ti habitarem.Sê o teu lugar de acoitamento,teme só a tua própria madrugada.Se, a meio da noite, acordaresdá-te à escuridão e ela te protegerá.Acima de tudo,mantém mal alimentado o horrorque em ti busca descanso!
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lume

Isto,

magoado silêncio
no crepitar funéreo,
a vida na louca tentativa,
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doida serpenteando,
entre "flashes" trazendo a morte,
foi tudo o que sobrou.
Cinzas humanas,
urravando pelo perdão 
celeste,
pelo perdão
terreno.
O terreno vadio,
sem dono,
apagando-se num gesto suicida.
A morte tudo sobrevoava 
num esgar de vitória,
ave horrenda,
não deixando 
caminho,
trilho
ou vereda.
Ruína, por uma 
"alegada mão criminosa"...
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Long Message Service (LMS)

Amiga:A vida é um sussurroque percorre as folhas do calendáriodeixando-me atónito.Cada ocaso é um só,e as colinas escorregando pelas águastornam-se marcos onde o tempo,forçosamente,se imobiliza.Sei que para ti, caríssima,o tempo é um escolho,deve ser esquecidoenterrado, até.Mas ele vulgariza-tenas sombras que antecedem as rugas.Sabes?Foi ontem que nos conhecemos,que brincámos com as palavrasem jardinsescorados por esplanadas e risos.Hoje, a galhofa é outra:o tempo saltou para as nossas cavalitastapando-nos os olhos e a boca,alimentando-se de nós.Hoje, somos espelhos de todos os prazos;somos resquícios de uma alegriatão efémera como as folhas do calendário.Somos pasto do tempo;quebra, pois, os relógiose o sortilégio das horas!Um beijo grande.Jaime
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Lisboa

Sou de uma cidade plena,

e aberta à luz espraiada

que a beija, sorri e acena

e a encontra sempre estremunhada.

 

Sou de uma cidade à janela,

velha bisbilhoteira enrugada

que, sentando-se, se sente nela

abrindo-lhe os braços de madrugada.

 

Sou de uma cidade do sol

que a desperta sorrindo

e a quem se dá lento e mole.

 

Sou desta cidade que soa

a Ulisses e ao Pégaso que voa

que exclama sempre "Bem-vindo!",

sou desta cidade e chamo-lhe Lisboa!

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