Sobre mim

Género

Masculino


Localização

Lisboa


Aniversário:

Setembro 14


Nome completo e pseudônimo, se houver:

Francisco Raposo Ferreira - Francis


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Por convite


Minicurriculum:

Poeta; Romancista e contista


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O Dia da Minha Morte.
 
O dia da minha morte, ao contrário do que se pudesse pensar, acabou por se revelar um dos mais inesquecíveis que vivi em toda a minha Não digo que tenha sido um dia feliz, pois se a morte de alguém nunca poderá ser motivo de felicidade, muito menos o seria, na parte que me toca, a minha própria morte, como é evidente.
A verdade é que até nem posso dizer que o dia da minha morte, tenha sido um dia triste, antes pelo contrário. Sem conseguir explicar porquê, até porque não acredito em predestinações, aliás, nunca acreditei, o que é certo que, quebrando aquilo que era a minha rotina de sábado, no início daquela fatídica semana, decidi convidar os meus quatro filhos para uma almoçarada, precisamente para aquele que seria o meu último sábado em sua companhia. Quem o poderia imaginar?
Passei a semana a preparar tudo, não queria que nada pudesse falhar, uma mania que sempre me acompanhou, e da qual, mesmo agora do alto deste meu lugar cimeiro, nunca abdiquei. Pouco me importava se era um acontecimento de foro mais pessoal ou não, o que realmente importava era que nada falhasse. Naquele sábado, assim o tinha decidido, tudo ficaria só entre a família, isto é, esposa, quatro filhos, duas noras, visto que uma das três, a do meu segundo filho, o Mijardino, já tinha sido reenviada às origens e o meu Matolas, o terceiro, nunca quisera casar.
Claro que também lá não faltavam os netos, sete rapazes e duas raparigas, É verdade, eramos um total de 17 pessoas, se bem que por minha vontade, seriamos 18, mas consegui controlar o meu desejo de convidar Malvadina, a minha amante de há mais de vinte anos. Se não a convidara, não fora por causa de ela nunca me ter dado filho algum, pois sabia bem que se tal não acontecera, fora somente porque ela não era mulher para estragar o casamento de ninguém, enchendo a vida de um homem casado, chefe de família respeitado e pai dedicado, como eu, de filhos fora do casamento.
O primeiro a chegar foi o meu filho mais novo, o Mirradinho, creio que ainda vos disse, mas todos os meus filhos têm nomes começados por M, pura homenagem à minha própria pessoa, vinha acompanhado da Perdigueira, não por causa da sua inteligência mas sim porque aquela minha nora, tem mais focinho de cão que cara de gente. Acreditem que de tanto a comparar a tão belo animal, até me esqueci do seu verdadeiro nome. Traziam com eles, aqueles que se julgavam meus netos, dois rapazes e duas raparigas, qual delas a mais travessa, ou não saíssem à mãe. Eles bem que me chamavam avô, ignorando, tal como o meu Mirradinho, que o seu verdadeiro pai, era o patrão da mãe. Olhei pata os putos, e pensei para comigo, “Meu triste filho, nunca te soubeste impor e agora tens de criar os filhos do outro.”
Os restantes convivas chegaram quase em simultâneo, e deu logo para ver como todos faziam o possível para evitar a cunhada, afinal não era só eu que não gostava dela, tal como não gostava da flausina que o meu filho mais velho, o Matreco Junior, escolhera para mulher. Só o incorrigível Matolas lhes dedicava alguma atenção. Cheguei a temer que o passado se andasse a repetir, ou seja, que o Matolas não respeitasse os manos e andasse, outra vez, enrolado com as cunhadas.
Tentei não dar importância a tais coisas, afinal de contas, sem saber porquê, sentia que aquele era um dia especial e não queria que coisa alguma o pudesse estragar, afinal de contas, se elas andavam de volta do cunhado, era porque os maridos não as sabiam dominar.
Foi pouco depois de nos termos deliciado com a comida que a minha Mijadirna preparou com todo o amor e carinho, que tudo aconteceu. Confesso que tinha bebido e comido bem. Comecei por sentir uma forte dor no peito e se a princípio não liguei por aí além, já o mesmo não consegui fazer quando senti um novo aperto, este muito mais forte.
Creio que devo ter desmaiado, pois não me consigo lembrar do que se passou no imediato e também não acredito que se morra assim de um momento para o outro, não seria justo não nos darem algum tempo para nos prepararmos.
Foi só ao ouvir o choro, aflito, da minha Mijardina é que me decidi averiguar, bem, o que se passava. Toda a gente, à exclusão da Perdigueira e da flausina, é que não davam a mínima mostra de se sentirem tristes. Bem, pelo menos eram sinceras.
Ouvi a Mijardina pedir a uma das netas para ir arranjar o meu melhor fato, o qual estaria no roupeiro, segundo ela. Senti cá uma vontade de lhe lembrar que o tínhamos mandado limpar, por causa do breve baptizado do neto mais pequenino, pelo que ainda estava na engomadoria, mas optei por não lhes dizer nada. A verdade é que nunca gostara daquele fato. Ah, lembrei-me de repente, quem é que iria avisar a minha Malvadina?
Estava, eu, muito descansado a observar todos os preparativos destinados à minha pessoa, quando vi surgir a Perdigueira, nem sei como é que patrão se conseguiu envolver com ela, é que além de feia, era mais magra que qualquer dos espetos com que a minha Mijardina costumava virar as tripas. Vinha toda sorridente, com uma tigela com água e uma lâmina, a sua cara não enganava, vinha toda feliz para me fazer a barba. Hipócrita, quando eu parti o braço, nunca me ajudou, mas agora, fora a primeira a oferecer-se.
Quando já estava todo barbeado e bem vestido é que reparei como nenhum dos meus bons relógios brilhava no meu pulso, já tinham sido repartidos por aquelas duas aves de rapina, a Perdigueira e a flausina, sendo que esta última, no seu estatuto de nora mais velha, se dera ao direito de escolher os dois melhores, dizendo que seria uma recordação do avô para os dois netos maiores. Hipócrita.
Outros que também não perdiam tempo, eram os abutres dos meus cunhados, deveras ocupados a repartir a minha, boa, roupa que enchia os dois roupeiros existentes no quarto, ainda bem que a MIjardina se contentava com duas ou três blusas e outras tantas saias, pois caso assim não fosse, onde poderia ter guardado tão valiosa colecção de fatos e camisas, para já não falar dos caríssimos casacos que ela, e Malvadina, me ofereciam em ocasiões festivas. Hipócritas, nunca conseguiram aceitar a ideia de Mijardina me ter escolhido para pai dos seus filhos.
Depois, comecei a ver chegar gente e mais gente. Acreditem que nunca me passara pela cabeça, ter tantos amigos, até mesmo aqueles que nunca souberam aceitar as minhas vitórias, e só desejavam que eu tropeçasse para se poderem rir da minha queda, vinham, agora, apresentar os mais sentidos pêsames e chorar a minha morte. Fingiam ser maior, a dor que sentiam, que até mesmo a daqueles que sempre me tinham dado, genuinamente, sua amizade. Hipócritas.
Pudessem eles saber como eu, sem que o imaginassem, os observava, em todo aquele teatro, sim senhor, que grandes artistas eram, e talvez tivessem mais algum recato nas suas falsas manifestações de dor. Hipócritas.
Nem a Perdigueira e a flausina escapavam a toda esta hipocrisia, fingindo-se deveras sentidas com a minha morte, muito sinceramente, preferia-as tão sinceras como se mostraram nos momentos seguintes à constatação da dura realidade, eu morrera mesmo. Hipócritas.
Foi então que me veio à ideia muito do que fizera pela flausina, fora a ela que eu mais ajudara ao longo da dolorosa convivência que me vi obrigado a disfarçar, para não fazer sofrer, ainda mais, o meu Matreco Junior.
É verdade, ainda me lembro de como tive de chamar o meu Matolas á razão e fazer-lhe ver como não lhe admitiria que continuasse com aquela pouca vergonha com a própria cunhada, ameaçando-o que caso não terminasse com tudo, teria de o contar ao irmão. Claro que tal, nunca me passou pela cabeça, já me bastava o desgosto de ter visto o meu Mijardino a desfazer-se de dor pela abalada da mulher, a melhor de todas. Bem bonita que ela era, talvez por isso mesmo não tenha querido viver ao lado de alguém, Deus me perdoe, tão fmal arranjado de cara, e de corpo, como o meu Mijardino.
Não, não admitiria mais divórcio algum na minha família. Em todos os meus anos de casado, sempre soube fazer tudo para que o casamento seguisse em frente, mesmo a história com Malvadina, fora só uma ajuda para o consolidar, portanto, a solução para o casamento do Matreco Junior, não seria seguir os passos do mano, isto é, divorciar-se. Aquele não tinha filhos, enquanto ele, era à média de um por ano, embora tenha dúvidas que todos sejam dele. Arranjasse-se como quisesse, arranjasse as amantes que quisesse, mas divorciar-se é que nem pensar.
Foi assim, a observar como a mais pura das hipocrisias consegue tais milagres, os quais até fizeram de mim, marido exemplar e pai babado dos seus quatro filhos, além de sogro tão querido como os mais queridos à face da terra, que passei o resto do dia da minha morte.
Quando a noite chegou e todos se foram deitar, a maiorias deles já bem bebidos, aí pensei “Matreco, chegou a tua hora de te deliciares com tudo quanto fizeram em tua honra e deixaram em cima da mesa.”
Ah, se vissem a cara deles, principalmente da flausina e da Perdigueira, quando no dia seguinte se levantaram e foram à procura de algo para comerem. Não havia nada, eu devorara tudo, mesmo correndo o risco de voltar a morrer, se tal tivesse de acontecer, antes fosse de congestão que de fome. Afinal, precisava de me prevenir, pois tinha a nítida sensação que com uma família como aquela, iria estar muitos anos sem comer mais nada.
 
Foi inesquecível o dia da minha morte.
 
Francis D’Homem Martinho
18/06/2018

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