Posts de Ema Moura (126)

Surrealidade

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Surrealista realidade,

eu ter feito mais pelas suas palavras,

do que estas por mim fizeram

Eram como pedras preciosas guardadas no cofre da mão

[se fosse apenas aí que as tivesse guardado,

não seria tão difícil aceitar]

 

A natureza humana é o que é,

cheia de palavras, mas de gestos vazios,

que quando mais importam,

quando mais se justificam,

falham.

 

Surrealista

ter eu feito tanto pelas suas palavras,

não olhando ao tamanho dano

do que me fazia:

 

Sangrei ao querer segurar o seu significado,

rosa veludo de espinhos cravados

que num abraço de punhais.

traíram a minha fé.

 

Surrealista realidade

vestida de palavras vazias,

que me deixaram órfã de casa,

entregue a um abandono

que embora doloroso

me fez crescer tanto.

 

Surrealista

uma ausência punida,

estando eu tão presente.

 

Mas o que fiz por meras palavras

tão facilmente influenciadas,

eu agradeço, de coração aberto

[doloroso processo o de rasgar

com os dentes o próprio cordão umbilical]

 

Agora estou livre, de asas reforçadas,

para o que vier a seguir...

Por mais surrealista que seja

viver numa realidade

que não reveste de Verbo,

as palavras que nos oferecem.

 

Publicado no meu blog principal: https://emoura-brokenwings.blogspot.com/

22/06/2019

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Apenas uma viagem

Imagina uma viagem de apenas alguns degraus.

Paredes brancas.

Fim da linha.

Último andar para um céu estrelado.

Imagina um silêncio que pesa em cada batida do coração.

Dedos entrelaçados, palavras dispersas

Brilho de uma noite escura,

na qual da pedra se fez leito .

Imagina um olhar hesitante...

Olhos devotos que se deitam com os teus,

Enquanto as palavras se perdem

nas extremidades que nos despem.

Imagina a suavidade de um abraço em câmara lenta.

O céu contido num sorriso rasgado,

entre paredes brancas,

numa cama de mármore...

Imagina apenas uma viagem de alguns degraus.

O tremor dos primeiros acordes do desejo...

O princípio da Vida.

O topo do mundo.

Se conseguires lembrar,

do que foi tão intenso caminho,

Sente o meu eterno carinho,

mas esquece que existo.

Imagina-me só...

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Saiba mais…

Além da confissão

Insistes numa história que não passa de uma narrativa

e o que da minha parte acrescento e conto,

creio que não queres ouvir:

_Há verdade na mentira.

 

A história pesada, cravada em cada passo que dou,

é verdade e realmente aconteceu

[Reforço para que não duvides]

É bagagem minha que carrego no coração.

 

Quando parti, deveria a ter perdido ou jogado fora.

Levei-a comigo por onde fui e aonde cheguei...

Não te vou dizer porque ficou...

Creio que nem eu mesma sei.

 

Ao longo de décadas, trocámos silêncios de circunstância

Por vezes, até consegui ignorar a tua presença…

Mas sempre houve algo no ar... Insolente afecto,

que eu, constrangida, refugiei-me na segurança da indiferença.

 

Não era somente de ti que fugia

e indiferente, na verdade, eu não fiquei

Mas como e para quê o dizer-te?

O juízo que me toma já não é completo

e brincar com o fogo não me faria bem…

 

Contigo, tanto ardi, que me queimei

- foi difícil viver perdida  -

e não curando essas primeiras feridas,

tornei a dor numa velha conhecida.

 

Não falemos mais… Deixa que me recolha

A ti, a quem amei com puro ardor,

[tu que habitas nos ecos da minha mente]

eu peço, mais do que me confesso:

 _Amor, promessa de vida, não te faças presente...

 

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Fotografia de Fábio Martins (contém hiperligação para a página do Autor)


Inspirado no poema "Ainda é infinito" de Geraldo Coelho Zacarias, PEAPAZ

Publicado no meu blog principal.

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Ainda que seja infinito

Sim, uma vez amado, o amor perdura no infinito,

ainda que acabe e entre nós, acabou.

Não há porta aberta ou entreaberta

que o desengano bateu e a mágoa fechou.

 

Verdade: o céu era pouco para o que eu sentia

Não precisa evocar, não o esqueci…

… Esse fogo que em mim ardia…

[Que eu tanto… sempre… Céus! Eu queria…]

 

Sim, o teu veneno, esse orgulho de predador

Devorar o que era ainda inocente

Jogar, como se não te importasses,

Crês que esqueci? Que estou demente?

 

As bocas que beijastes, eu limpei ao olhar no teu rosto

As camas onde te deitastes, até tu esqueceste…

Chamaste-me de embriaguez carnal, fome dos sentidos

E foi real e foi intenso, e eu perdi e tu perdeste…

 

Tu me querias… Verdade, tu me tiveste…

Tivesse sido nosso segredo

Preferiste que fosse história de jogador

Trunfo ou troféu, jogo sem glória.

 

Não, não te concedo e nem concebo

Não me fales de amor!

Era nosso e… acabou…

[Ainda que seja infinito]

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                                                            Imagem de autor desconhecido 

Inspirado no poema "Vê como penso", de Geraldo Coelho Zacarias, publicado na PEAPAZ 

 

Publicado no meu blog principal.

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Encontro com o destino, numa rua que se desce...

Ele sorriu, enigmático... Desafiou o tempo e desceu a rua.

Apostava num reencontro que não tinha lugar ou hora marcada e ganhou... Decorridos poucos metros,  a encontrou e em curta distância, seguiu-a de longe. 

A marcar o passo, um caminhar paciente... As possibilidades, ainda que remotas, eram provocadoras... E de tal forma o provocavam que, volta e meia, tropeçava absorto em pensamentos.

[O destino o favorecia] - pensou, ainda que ela não o visse, como tantas outras vezes não o viu...

Ela sorriu, misteriosa... Desafiou o tempo e desceu à rua.

Caminhava ao acaso, sem lugar definido e sem hora a marcar o passo. Algo a impelia a ir... Sair, sem razão... Não apostava (tem aversão a apostas)... No entanto, a estrada é feita de reencontros e esta ideia de tal forma a provocava que, volta e meia, tropeçava absorta em pensamentos.

[O destino... Tu e eu...] - pensou, ainda que sabendo que se o encontrasse, voltaria a fingir que o não tinha visto.

Desafiavam o tempo, numa rua que tantas vezes desceram juntos e outras tantas subiram afastados. No somatório, perderam para as vezes que apenas caminharam por ali, completamente sós e em busca um do outro. Sorriam para si, até que... [o destino os tentava, colocando-os num frente-a-frente que não poderiam desmentir e por reflexo ou instinto...] Ela parou e ele susteve a respiração. Rindo, de peito aberto, ela olhou para trás e o viu... Olhos nos olhos, respiravam, finalmente...

[O destino o favorecia] - pensou, enquanto a seguia, como tantas vezes o fez, acelerando o passo... Ela caminhava apressada, porque lhe fugia, como sempre fugiu. Ainda assim, esperava-o... Uma vida e noutra vida... Um jogo de amantes... Um preliminar intemporal... A adrenalina de tão pura empurrava o coração do peito. Ele tremeu, ela tremia.

Caminhavam lado, a lado. Era um caminhar expectante... As possibilidades, ainda que remotas, eram tão provocadoras... E de tal forma os provocava, que volta e meia, ambos tropeçavam absortos em pensamentos... 

Ele esticou a mão, como se os dedos fossem ímanes, na esperança que ela a agarrasse. Ela sorriu, como se fosse o sol do meio-dia, e sem uma palavra, segurou-lhe a mão.

[O destino os favorecia] - pensaram, ao sentir as primeiras gotas de chuva. A rua deserta, o céu a abrir o caminho, um prédio a oferecer abrigo... Uma corrida, sem aposta, onde se perde a roupa e se ganha tudo o resto... Convite mudo, que não se recusa, quando nas mãos se segura o amor de uma vida.

O amor... Sem lugar, sem hora marcada... Ganhou.

O Tempo... Alaga, enquanto espera... Numa rua que se desce...

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Fotografia de Fábio Martins (parceiro no meu blog) 

 

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Equívoco

Vê como penso:

Ontem, perdeste-me. Nem sabes quando ou porquê.

Ainda assim, amei-te num amor magoado

que o tempo marcou mais na alma do que no rosto,

[como um fogo que não morre e que não pode ser apagado].

Na tua ausência, afastei as melodias que nos tocaram,

condenando as suas letras ao degredo

[Os sentidos privei do que pudesse potenciar a memória.

Ás palavras acedo apenas em silêncio e em segredo].

Fugi de mim como se pudesse esquecer o desejo ardente sob o qual tremi

Concentrei-me no momento em descobri toda a trama:

Ardil. Traição. Enredo que roubou mais que a inocência...

A verdade que absorvi como veneno: não te ama, não te ama...

Ser feliz...  O meu corpo como cálice que levaste aos lábios...

Um altar de carne e cetim erguido entre paredes brancas,

Desejos que se transformaram em loucura e fatalidade,

levaram à morte do arrepio e do suspiro, no movimento das ancas.

Não... É tarde e de tão tardia hora, o meu peito não contém a dúvida:

Ainda que não acreditando numa felicidade que tarda...

Por que razão, te equaciono hoje, se ontem me perdeste?

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                            Parceiro no meu blog: Fotografia de Fábio Martins 

 

Inspirado no poema Renascer, de Geraldo Coelho Zacarias, autor em PEAPAZ

Publicado no meu blog principal

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Viagem introspectiva

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         Imagem - da web, autor desconhecido

 

Os dias vão sucedendo a novas noites e a outros dias, imitando o movimento das ondas que grava no meu rosto as marcas das marés. A caminhada deixa marcas, o caminho é marcante e o Tempo não se ilude, ainda que eu o faça.

Estou na praia… Procuro a ilusão que o mar me oferece de todas as vezes que o visito. Ilude-me ao apagar os vestígios da nossa existência. Olhamos para trás e o movimento erosivo das ondas dissolveu cada passo que demos. Um novo passo, uma primeira marca, um começar mais do que recomeçar. Prefiro inícios a recomeços. Não há bagagens, a mala de mão não pesa tanto e a esperança preenche todos os brancos.

Sempre que necessito de um reforço de esperança, vou para a praia andar. Sempre que desejo olhar para trás, vou para a praia observar o mar. As ondas hipnóticas, que se cheiram de olhos fechados, fazem parar o Tempo. Os dedos que enterro na areia sorriem ao largar o cabelo à sua sorte… Uns são cabo, outros a antena, mas é a pele que me devolve a cada raio do sol.

Mantenho os olhos fechados até ouvir a música que anuncia a sua passagem, fala-me de amores, de partida e de outros mundos. Os lábios relaxam sorridentes, reconhecem a viagem.

Inspiro, procurando condicionar os sentidos. Sinto… Sinto a cidade pulsar como em outros tempos, ouço a brisa no tecido das barracas de rua, o arrulhar dos pombos na dança pelo pão… Recordo… Sei que estou a chegar, de que lado venho e para onde vou.

Preparo-me para o reencontro. Sei que vou querer ir atrás de mim. Concentro-me em me ausentar. Quero-me tanto que me abandono.

Apelo a todos os sentidos. Aperto a areia entre os dedos enterrados. Viro a cabeça no sentido do vento para que os cabelos esvoacem e dou o corpo ao sol. Os lábios sorriem recetivos, reconhecem a viagem.

Ali estou, a caminho (caminhando como se flutuasse e crendo num eternamente) … Revejo-me enternecida pela esperança que reluz nos seus olhos. Sei para onde olha e o que deseja. Invejo-lhe a felicidade da ignorância. Em breve tudo estará terminado, mesmo que sob a pele perdure e lhe pese os passos.

Ela desce até à praia e entra no mar como se não pudesse conter um fogo que a consome. Mergulha e vem à superfície ainda trémula. É demasiado. A pele que queima, os dedos que agarram e apertam, os lábios que respiram entreabertos, aflitos… A febre toma o lugar da esperança. Ainda assim, se pudesse, tomaria o lugar daquele Eu.

Ela saiu da água, decidida. Nada posso fazer para a avisar. Vejo-a afastar-se, sem hesitar a cada passo que dá. Em breve fará o oposto do que escolheu e tentará ser quem nunca quis. Naquele momento a fuga pareceu-lhe inevitável, uma questão de vida ou de morte.  Passará a vida a fugir.

Vejo-a ir e não a sigo, sei para onde vai e o que a espera. Não pretendo recriar os seus passos. Não quero recomeçar. Olho para trás, vejo de onde vim. Anseio ver, antes que o mar apague os meus passos, o calor a pintar paredes brancas, os degraus que o meu desejo conhece de cor, a cabana a que chamo de casa.

A noite está quase a cair, sucedendo-se novos dias e outras noites. A ilusão que o mar oferece impõe que procure a esperança. Olho para trás e o movimento erosivo das ondas dissolveu cada passo que dei… Dou novos passos. A cada passo, uma nova marca, um começar. Prefiro inícios a recomeços, mas a caminhada deixa marcas, o caminho é marcante e o Tempo não se ilude, ainda que eu o faça.

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A tua alma e eu somos...

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A minha mão no teu rosto pálido,

eu toco com o coração na ponta dos dedos

Só assim sei quem tu és

Só assim sei do que tenho medo

A tua alma e eu somos...

Minha pele suave contra a tua, abrasiva,

movimento que se afunda nas minhas pernas

só o teu cabelo me segura neste mundo

quando ao amar-te mal respiro

 

A tua alma e eu somos...

Nos meus lábios o teu nome nasce

perdido num gemido rústico

eu não posso prever o curso deste rio

nem o momento em que transbordará

A tua alma e eu somos...

Mapas de desejo eu sigo,

com a minha saliva a teu pedido

Só assim sei quem tu és

Só assim sei do que tenho medo

A tua alma e eu somos...

(versão original sonhada em inglês, Your soul and i are...)

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Your soul and I are ...

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My hand in your pale face

Plays with my heart at my fingertips

Only then do i know who you are

Just so I know of whom I'm afraid

Your soul and I are ...

My soft skin against yours, unshaved,

Abrasive movement  that sinks in my legs

Your hair strings me to this world

When loving you, i'm barely breathing

Your soul and I are ...

In my lips your name is born

Lost in a rustic moan

I can not predict the course of this river

Nor when it'll overflow

Your soul and I are ...

A map of wishes i follow

With my saliva to your request

Only then i know who you are

Just so I know of whom I'm afraid

Your soul and I are...

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Uma vez na rua...

 

Leva-me para a rua,

Mesmo que sob protesto,

E ainda que chova,

Deixa-nos ficar sem abrigo.

 

Expostos e em abraço forçado,

Respiremos juntos, somente,

Até que o peito acerte o compasso

E o silêncio tome conta dos lábios.

 

Palavra alguma deverá interpor-se

Entre os meus olhos e os teus,

E se me esquivar, como faço sempre,

Está nas tuas mãos, deter-me.

 

Não te zangues, nem desesperes

Tu sabes que serei como uma enguia,

A escapar-se por entre dedos,

Mas com igual desejo de ficar.

 

É uma luta shakespeariana

Entre o querer e o pensar.

É um medo de tocar e estragar,

Como faço sempre…

 

Pudesse eu evitar ser tão escorregadia

Pudesses tu evitar ser assim tão meu desejo

Voltasse eu a sonhar o nosso sonho

Serias, mesmo, só meu?

 

Basta que me faças sorrir, uma vez mais…

Um sorriso, que irrompe involuntário

Tem um efeito endiabrado,

É a ruina de qualquer protesto!

 

Direi: - Detesto-te!

Mas não arredarei pé,

Deixarei que tomes o meu pulso,

me sintas com o coração na boca…

 

É um plano arriscado,

mas uma vez na rua,

Todas as escolhas são caminhos,

E todos os caminhos convergem para ti!

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Imagem retirada da web, autor desconhecido

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Rumo ao esquecimento

Ecos da mente que mente

Ilusões que alimenta para preservar

A luz solar que me move

[Os raios tendem a enfraquecer

e eu não aceito menos que a Luz.]

Não tenho qualquer pretensão

Tão pouco peço para que compreendas

Os passos que dou, o caminho que escolho

Não é de ânimo leve, nunca o foi e ainda assim...

Acreditas tão facilmente que és nuvem negra

Tu que foste o Inferno, mas também o Céu.

Existem músicas dentro de mim

Ecos da mente que não mente

Impressões que deixo nas ruas por onde passo

Como um caminho de pedras brancas,

Ansiosas pelas estórias prometidas.

Não me vês e eu não te vejo,

estamos cegos e isolados...

Abraço a ténue luminosidade

e segredo-lhe ao ouvido:

_Os raios tendem a enfraquecer

E eu não aceito menos que a Luz...

Soltas-me do laço rumo ao esquecimento,

A tua dor carrega o cheiro de antigo fingimento,

A minha dor mente ao partir sorridente.

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Creio...

Certo dia, descias a minha rua, alvo e sorridente, como se por mero acaso não fosses tu quem és e eu quem tu conhecias…

 

Em resposta ao teu fingimento, uma resposta fisiológica imediata:  o bloqueio da memória. Negado o acesso ao conhecimento e em negação absoluta, o meu instinto manteve-me suspensa. Creio que me procurava impedir de aceder ao campo onde se semeiam experiências e onde estas germinam e dão frutos.

 

Hoje, sei. Recordo que sacudi a cabeça, como se o gesto sacudisse o alerta que me sacudiu a espinha. Tu sorriste e eu registei, ainda que naquele momento e por inúmeras luas, desse facto não tivesse conhecimento.

 

Não sei que destino traçavas quando te desenhaste para mim. Apenas sei que agarrei firme no apagador e desenhei um círculo à minha volta. Ainda que sob forte escudo, creio que não fui a tempo de impedir a mente de te lançar um olhar atento e tantos ciclos lunares depois, dei por mim a recuperar uma memória que não sabia que tinha e a interrogar-me acerca do rapaz que, certo do seu destino, à minha rua desceu e me sorriu...

 

Ironicamente, desde que colidimos de forma quase trágica, passámos a cair acidentalmente na vida um do outro... Creio que tal aconteça sem que um de nós estenda a perna para o outro cair. Verdade ou não, certo é que estes tropeções acabam sempre da mesma forma: encarceramento automatizado, recolhimento à velocidade da luz na protecção da minha concha. Não te deixo entrar e não consigo sair.

 

Não sorrias. Não é medo de ti, nem medo de mim. É receio de infringir uma proibição tão antiga e tão profundamente escavada que criou raízes. Uma proibição enraizada que se manifesta em ondas de atrapalhação e eu não sei nadar. Afogo-me como uma descoordenada a tentar agarrar algo delicado.

Creio que me atrapalho, sinto o desastre e não o impeço. E quanto mais próximos estamos, mais perto da verdade do que somos e do que sentimos, mais dificuldades tenho.... Creio que existimos e ainda que me obriguem a negá-lo, ainda que o negue, a verdade é que existem outros lugares onde uma mulher pode guardar as suas percepções e não ser incomodada por isso.

 

Imagino e através desse secreto poder, elevo-me além das coordenadas pré-estabelecidas, insatisfeita e exigente, traçando tangentes aos afectos. No horizonte sou tudo, mas na realidade, uma intersecção verdadeira e sou um quase qualquer coisa: Um quase a chegar, um quase a partir, um quase a ficar e um quase a fugir. Colho os frutos amargos que sangrei.

 

Creio que quanto mais tempo passo em pousio, mais dificuldade terei em espreguiçar as minhas asas. Entretanto, o Tempo rouba-me as penas.

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Pensamentos

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Caminho descalça por estas ruas repletas de ruído surdo, percorro suas montras, espreito em janelas vizinhas,  não paro, não fico.

As pedras da calçada ferem-me os pés, o sol obriga-me a fechar os olhos e sigo em frente confiando em outros sentidos. Não tenho medo desde que possa olhar para trás.

O som das esplanadas mistura-se com uma palete de odores, essências da vida nem sempre fáceis de decifrar. Inspiro profundamente, não porque estou aborrecida, mas porque quero captar as fragrâncias singulares e a que procuro aguça-me o espírito, tanto quanto o atormenta.

Prossigo no meu caminhar, aparentemente, alienado e sem rumo. Distancio-me dos olhares que não observam mais do que uma superfície. Um nível abaixo da pele e tudo em mim se mistura, combina e intensifica. E o que faço confunde-se com o que fiz, assim como o que sinto me deixa alerta, suspensa e hesitante...

O ruído intensifica-se, assim como o verde da camisa esquecida no estendal. Roubaram-na e eu assisti, com o coração perto da boca e a martelar-me o ouvido. Absorvi o aroma, captei a excitação, tomei-a para mim e corri, descalça, ferida, mas feliz.

Caminho descalça pela rua, olhando em todas as direcções, tentando registar o mais possível as emoções sentidas a cada passo. Procuro confundir os sentidos, na esperança que a memória fique envolta numa névoa que se adensa com o passar dos anos, mas nem as pedras da calçada que me ferem os pés, nem a palete de odores que me deixa inebriada ou o nevoeiro cerrado que me envolve, repelem o sonho que me atormenta o espírito.

Sonho, disse eu, não pesadelo!

Um sonho perigoso que não obedece ao ciclo que alterna entre a lua e o sol. Vivo enquanto sonho e o que sonho são memórias de uma vida, esperanças que não se concretizaram, desejos que a realidade não alimenta, não sacia e não aniquila. Exasperante como as perguntas impertinentes que se insinuam e advogam a minha atenção: Recordas-te? É verdadeiro? O que pensas? O que queres? O que sentes?

Sinto e acuso a pressão.  Não há alívio quando acordo, apenas consciência e uma vez desperta, sigo o rastro de mim mesma.

Ando descalça e enterro os dedos na areia, sinto-a quente. Ouço o som do riso que ri contra vontade. Ouço a voz quente e o suspiro que transpira e se agita na pele. Não paro, não fico.

Caminho depressa, como quando era fera e me zangava, criando distâncias do comprimento de um abraço e a dois passos do céu da boca. Essa tonta que nos divertia, enterrei-a sob pilhas de desilusão e ainda assim, respira.

Escuto seus pensamentos:

"Enquanto não puder existir, continuarei

                                                                 a olhar para trás para que não tenha medo,

                                                                 a andar descalça para que sinta o caminho,

                                                                 ao alcance de um abraço,

                                                                 absorta no céu da tua boca."

Saiba mais…

Frágil atrevimento

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No bater das asas de uma ave menor

coração a mil pela saudade que se esquece ter,

longo é o caminho que percorro,

movida por este meu querer,

de te querer,

sempre!

Mas o meu atrevimento é como uma bola de sabão

Dura, ainda que com intensidade, apenas um instante

Honesto e vibrante nas suas cores e transparências,

Frágil e acorrentado nos seus ses e no que deve ser,

Evapora-se, sem nunca tocar no chão.

Tu, acreditas tão facilmente, enquanto desato

nós e laços desta estranha rede que nos une e prende,

razão pela qual não fico, ainda que nunca parta

Ainda que o bater das asas me afaste,

no coração reside a saudade que não se esquece.

No bater das asas de uma ave menor,

caço as palavras que larguei no vento,

como se ao desfazer tudo o que vivi,

possa pretender não te querer,

como te quero,

sempre.

Saiba mais…

Depois no Vazio (Décima quinta carta)

Despi-me de todos os adereços e protecções,

Pelo chão larguei todos os desejos e pretensões,

Entreguei-me à corrente tépida que me lavou o corpo,

desejando que me levasse também os pensamentos.

Engulo em seco debaixo da torrente de salpicos

Em vão, dispo-me de ti incessantemente.

Não quero, mas sinto-me flutuar contigo ao meu lado

Depois do vazio, estás tu, novamente.

Eu que te vedo entrada nos meus sonhos

e que por ti deixei todas as músicas do meu Ser,

Tenho-te como uma conjugação sempre Presente,

sobretudo nas palavras que ficam por dizer...

É tão fácil afastar-te, é tão penoso ir embora

Mas não posso mais viver neste desamor

Nem calar o que não está certo,

Nem deixar crescer quem Sou.

Toda a minha vida és tu 

e ainda que não entendas

porque mais não te posso dizer,

eu vou deixar que faças o que estás fazer...

[Partir o que já está quebrado,

Quebrar o que não terá conserto,

Eu parto! Eu vou. Prometo.]

Quando tudo estiver perdido,

Depois no Vazio, 

estarás tu, novamente.

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Não sabia...

Eu recordo o riso ecoando nas ruas desertas

Eu sinto a pressão dos teus dedos entrelaçados

Eu revejo as ruas que percorremos:

Juntos, sorridentes e enamorados!

E se o dia era calor, a noite era…

Cetim, renda e lençóis…

O teu sorrir, as tuas palavras,

Do meu sentir, anzóis….

E nas tuas mãos depositei inocência

E no meu corpo recebi teu estremecer

Julguei, amor…

Julguei, saber…

Um dia chegou e com a noite manchou a pureza

Era prémio e não sabia,

Era vítima e não queria,

Ser atraiçoada assim…

E na dor, ruí

E no sofrimento, repeti

Pensei, que o amor não era para mim

E o amor não quis!

Hoje, revejo o riso ecoando nas ruas desertas,

Sinto a pressão dos teus dedos entrelaçados

Sobretudo, nas ruas que percorremos

Juntos, sorridentes e enamorados!

Se sucumbi ao desejo, porque te merecia,

Cedo rastejei na armadilha!

Era prémio e não sabia…

Não sabia…

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Não sou Inês! (Vigésima segunda carta)

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Não é meu ensejo ver-te subjugado

Temo que ainda tenhas o poder de me domar

Reconheci-o no primeiro contacto que tivemos

Repudiei-o de imediato!

 

Mas a mente prega-nos partidas e o coração rasteiras

Enquanto fugia, um desejo secreto cresceu

Uma vontade expressa de não ser senhora de mim

Um estado embriagado pelo inebriante prazer.

 

As pernas a tremer, o frio no ventre,

a vontade de ceder a uma vontade igual à minha,

Cresceram em mim como ervas daninhas

Plantaram sementes em cada pensamento que tinha.

 

Sem espaço para mais nada

Abri a janela deixei entrar o calor

Entreabri os lábios para um beijo demorado

Deixei-os suspensos, em infinito ardor.

 

Desejos secretos tecidos na pele

Devaneios da mente

O perigo não reside no nome que lhe damos

Flutua na densa sombra do que se sente.

 

Não vendo ilusões, não sou a tal Inês da história

Não procuro prisão dourada

Não procuro posição de poder

Sou um fio invisível, consciente da nossa jornada.

Saiba mais…

Concluo...

Concluo:

Por ti, amei a lua

«Amo-a, ainda.»

Crescente no meu peito,

mingua os meus receios.

Por ti, amei o sol

«Amo-o, ainda.»

Aprendi a ver as tuas cores

Absorvi as tuas formas.

 

No eclipse do sol,

ou na lua nova,

foste brilho e eu amei.

«Amo-te, ainda»

Sob um manto que se dizia negro,

Desejo, iluminou os teus contornos.

 

Breve carícia,

um momento,

calorosa ansiedade,

toque subtil do vento,

Amor escrito nos Elementos.

«Leio-o, ainda»

 

Onde quer que esteja,

num Quando que é sempre,

tua, a vida inteira.

«Ainda que não queira»

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Inspirado no poema "Onde..." de Geraldo Coelho Zacarias, PEAPAZ

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Elo (Décima segunda carta)

A lembrança que carrego atraiçoa as tuas letras

Vibrações das profundezas dizem-me para não acreditar.

Sim, conheço o ditado e sei que sofro dessa cegueira

Tomo consciência e vejo tudo em que acredito desabar.

 

A morte do sonho que se recusa a finar é possível?

Existirá alguma forma de o expurgar?

Que me rompam a mente e que me profanem as memórias

Que me retirem todo o sangue e o filtrem antes de injectar…

 

Pudesse eu esquecer, não desejaria recordar

Sim, dediquei-me à vida que escolhi como se remasse contra a maré

Quantas vezes as ondas me devolveram ao ponto de partida?

Vivo no centro do redemoinho, na mão um fio tecido pela fé…

 

Não, não é com crueldade que desatas o laço que outrora teci

Que culpa tens de acreditar que o possas fazer…

Não foi nesta vida que o fiz, não pode ser quebrado.

É uma bússola estelar na Passagem das Almas, entre a Morte e o Viver!

 

Sim, vivo num jardim suspenso no Tempo e no Espaço

Apenas conheço uma noite e uma lua…

Sempre que fecho os olhos revivo a tortura…

[Um dia é só um dia se não estiver preso a uma promessa!]

 

No meu castelo de ar, a noite é eterna

O Tempo molda-se nas palavras que escrevo

Deixo que o Vento as leve para o céu estrelado

São recados, fios, cabos…

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