Posts de Eliane Accioly (27)

Poetisa e Escritora

Aos poetas do blog


Não tenho escrito, mas visito constantemente o blog,
leio poemas publicados e tenho saudades.
Estou no memento da "folha em branco"...
Estou lendo muito.
O livro que leio no momento é "O estrageiro", de Cammus.
Lindo!
Uma fala tão coloquial, o narrador,
personagem patético que não sabe bemo que está fazendo na vida,
mas faz coisas, trabalha, faz amor e provavelmente até vai se casar.
Ando mais ou menos como ele.
Para dar notícias.

Bjs e Namastê!

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Poetisa e Escritora

Viver e ser estrangeiro _ imprecisões

 

Albert Camus _ "O estrangeiro"
Resenha de Eliane Accioly
Edição Livros do Brasil - Lisboa.
Introdução de Jean-Paul SartreTradução de Rogério fernandes
Sem a data

Li "O Estrangeiro", de Albert Camus, da Edição Livros do Brasil/Lisboa. Tradução do Francês para o Português de Portugal. Segundo Sartre, que nesta edição tem a introdução, "foi considerado como o melhor livro desde o armistício". Ou seja, foi lançado logo após a Segunda Guerra, e fez um considerável sucesso, tornando-se um clássico da literatura. Diria eu, um dos melhores livros que cairam em minhas mãos.

A trama se passa em Argel, capital da Argélia. O narrador é Meursault, homem jovem e sem idade precisa, que vivia seu cotidiano trabalhando durante a semana entre colegas e rotinas, almoços, risadas, e uma observação acurada dos acontecimentos e das pessoas ao seu redor. Nos fins de semana fazia amor com uma mulher a quem desejava, mas não sabia se amava. Uma profunda relação com o mar e o sol, com a vida. Não se preocupava com as expectativas dos outros acerca dele. Escapava da moralidade humana, que cataloga o que é bom e o que é mal. O
narrador/personagem em torno do qual a trama se desenrola me pareceu de fato um estrangeiro.
No sentido de se colocar à margem das expectativas das pessoas com as quais convivia. E também por não se preocupar em procurar o sentido de suas escolhas; saía com Maria porque ela o procurava, como poderia sair com outra mulher. Com os amigos também se encontrava de maneira errática. Como se dissesse, ou mesmo dizendo: "Tanto se me dá".

O livro começa com um telegrama avisando Meursault da morte de sua mãe, e do enterro. E sem que o leitor se dê conta, a trama se desenvolve no eixo de sua relação com a mãe _ Por que a colocou num asilo? Por que não sofreu manifestamente com a morte da mãe? Quando Meursault vem a cometer um assassinato, a engrenagem da justiça _ advogados, juizes, promotores _ vincula o assassinato, disparatadamente, ao que parecia ao sistema uma falta de afetividade do personagem com a mãe, e com a morte desta, cuja conclusão seria a perversidade do personagem, sua falta de humanidade. Somando a isto, Meursault não acreditava em Deus. E ainda, dizia o que pensava, sem desejar criar efeitos. Não se defendia com palavras ou racicínios, as palavras usava para exprimir o que considerava verdadeiro.

Meursault é arguto e percebe sutilezas como a relação de amor e ódio de um homem com seu cão,
ou as relações ambíguas entre Raimundo, uma namorada árabe e os parentes desta mulher. O fantástico no personagem é que ele não emite juizos ou julgamentos. Sartre chama isto de "absurdo". A sensação do leitor é realmente de absurdo, tanto estamos acostumados a julgar, avaliar, pesar. E a viver em um mundo que vive de juízos e julgamentos. Diz Sartre: "O que é (...) o absurdo como estado de fato, como dado original? Nada menos que a relação do homem com o mundo". (pg 6)

O ser humano vive entre o dito e o não dito, "entre suas aspirações à unidade e o dualismo intransponível do espírito e da natureza, entre o impulso do homem em direção ao eterno (o sagrado) e o carater finito de sua existência, entre a preocupação que é sua própria essência e a inutilidade de seus esforços". (idem) O lugar do ser humano é aquele dos intervalos.

Meursault vivia intensamente sua vida, embora lhe fosse indiferente trabalhar em Argel ou em Paris, casar-se com Maria, ou uma outra mulher, embora provavelmente se casasse com Maria, pois era ela que estava com ele. Quando é preso, tem a consciência de que se um homem viver apenas um dia, poderá morrer.

Mas não é apenas assim que se passa com Meursault, que se vê entre desejar viver, desejar Maria, e retomar sua vida, o mar e o sol; e se dar conta de que prefere estar no lugar onde "caiu", do que estar do lado de lá, onde julgam e condenam homens à morte. Mostra-se estupefato com as certezas dos homens, pois ele não as tem, se pergunta como podem se confundir e criar realidades absurdas que os retiram da vida, os fazem mortos em vida, além de se sentirem no direito sobre a vida e a morte de uns e de outros. Não vê diferença entre os que matam e os que são mortos. Não queria matar e matou alguém que nada tinha a ver com ele. E mais do que por matar _ poderia ser alegada a legítima defesa _ foimorto por ter sidojulgado pelos seus supostos sentimentos, ou suposta ausência desses, em relação à morte da mãe.

Acredito que temos muito a aprender com Meursault e Camus. Aprender a ser estrageiro, para escapar à perversão das certezas estabelecidas. Somente como estrangeiros frequentaremos os intervalos, o entre _ o lugar que nos cabe neste latifundio que chamamos vida.

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Inquietações de Helena Armond

 


havia ouvir os clássicos de um rádio
havia o cultivar bom gosto
no perceber sutíl o uso dos sensores

há um vidro a que chamamos tela
a sangrar entre confrontos
e...mau gosto oposto

na mesma tela há nove/los/las
conflitos familiares
guerras santas...neuras

há um sangrar mesmo sem dilemas
há o dilacerar de carnes tenras
não há como compor ternos poemas

dos sinais televisivos
a infartar a tela/net
há um gritar realidades...sem lirismo...

o que fazer com o mau gosto
deste desconforto nivelado ?
em impossíveis parcerias?

emudecer? atrelada na realidade
nada fazer?
enxugar discursos publicar verborragias

não componho líricos poemas
havia no antigamente elegias
e havia ...porque eu não ...havia...

sigo a imitar a china que determina
Uheij = crise
perigo e oportunidade...

Uso meus sensores...
leio nas entrelinha...sei ouvir e ver
sem peçonha perita no
ofício ofídeo de entender as c/obra/s

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Minha Mãe Mariinha

 

Fui ao hospital encontrar minha mãe.
92 anos, fraturou a bacia.
A cirurgia foi boa.
Está na UTI.
Fui visitá-la duas vezes hoje.
Na primeira, ela que muitas vezes não me reconhece falou:

_ Que bom você estar aqui comigo, minha filha.

Lances de lucidez, e este me deu muita alegria.

Voltei mais tarde no mesmo dia. Ela dormia. Meditei junto ao seu leito. "Vi" luz no espaço inteiro em que nos encontrávamos. Fiquei com ela sentindo-nos próximas. Minha mãe. Agradeci a ela o tanto que me legou, me deu, me amou, recebi um pouco mais suas heranças. Conversei com ela. Agradeci a mãe boa que foi. E continua sendo, mesmo no sono dos anos em que mergulhou.

Gratidão a ela e à vida, pelo instante de de minha mãe me ver e contar:

_ Vejo você, minha filha.

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Gregos

 

Apararam os cabelos do menino de dois anos, e no lugar da festa a tragédia: esgoelou de sufocar. Espantada a mãe viu o sangue correr dos fios cortados, e em cada fio, uma pequena serpente que, rabo de lagartixa podado, voltava a crescer. Viviam no reino de Medusa, e a família se apavorou. A deusa malévola certamente não admitiria outro igual em seu universo. Enviado por precaução ao Templo de Apolo. Cabelos ofídicos faziam dele um ser das sombras. Protegido, porém, por Apolo, o deus solar, a aparência de malvado não desmentia seu generoso coração. Amado pelos que o cercavam. Nenhum homem, mulher ou bicho que olhasse direto sua face ou olhos jamais se petrificou, muito ao contrário, dançava como bambu. Ao crescer tornou-se namorador e fez grandes amigos, entre esses, um tal de Teseu. Paradoxalmente, a única a se queixar dele foi Medusa. Correria o risco de provar de seu próprio veneno? Encontrá-lo a petrificaria? Ela assim acreditava. Acusava-o de roubo de direitos autorais. Pensava nele com tal arroubo odiento, que o fantasma daquele jovem povoou seus dias e suas noites, foi sua inconteste e grande paixão; sua imagem masculina e especular; seu avesso; o pior veneno de sua existência _ sempre à distância. Nem Freud explica. \uacenter>\ua \ua
\ua/center> GREGOS, de Eliane Accioly - Menção Honrosa no Concurso Mulheres Emergentes. A psicóloga, artista plástica e escritora Eliane Accioly, foi uma das Menções Honrosas do Concurso Mulheres emergentes - de minicontos e poemas. Texto enxuto, oriundo de quem entende a mente humana - e dos deuses da mitologia, conferindo-lhe um sabor singular.

Clevane Pessoa
(jurada)

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Inquietações de Helena Armond

 
havia ouvir os clássicos de um rádio
havia o cultivar bom gosto
no perceber sutíl o uso dos sensores

há um vidro a que chamamos tela
a sangrar entre confrontos
e...mau gosto oposto

na mesma tela há nove/los/las
conflitos familiares
guerras santas...neuras

há um sangrar mesmo sem dilemas
há o dilacerar de carnes tenras
não há como compor ternos poemas

dos sinais televisivos
a infartar a tela/net
há um gritar realidades...sem lirismo...

o que fazer com o mau gosto
deste desconforto nivelado ?
em impossíveis parcerias?

emudecer? atrelada na realidade
nada fazer?
enxugar discursos publicar verborragias

não componho líricos poemas
havia no antigamente elegias
e havia ...porque eu não ...havia...

sigo a imitar a china que determina
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perigo e oportunidade...

Uso meus sensores...
leio nas entrelinha...sei ouvir e ver
sem peçonha perita no
ofício ofídeo de entender as c/obra/s
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GERAÇÕES

 

I – 1321 A.C.

No princípio, amanheci deserto.
Um homem -metade sol, metade lua - escalando dunas, descobriu-me os seios. Oculto no remanso de um abraço infindo fecundou-me. Ao conceber os gêmeos renasci oásis, uádi, poço, palmas, tamareiras.
Desde então, os frutos que de mim brotam alimentam pássaros, camelos, cabras, cobras, lagartos, as caravanas dos tuaregues, a luz e as sombras do meu homem. E os meninos: o Negro e o Dourado.
II – Terceiro Milênio
A cama de espaldar alto e dossel de filó, não protegiam meu sono de menina das areias, do calor, da comida, da língua e musica árabe, ou dos murmúrios do Nilo, que, renegados pela cultura de minha gente, apesar de vivermos no Cairo, entravam sorrateiros e caudalosos pelas conversas proibidas nas sombras da cozinha.
As tias, avós, primas mocinhas, minha bela mãe, vestidas de sedas e rendas de Chantilly, preenchiam salas luminosas de risos e vozes musicais. Os homens desmanchavam-se na fumaça dos charutos, embriagados com a promessa dos lucros nos negócios. As crianças corriam por varandas, caramanchões, jardins. Vivíamos nas bordas do Sahara, e falávamos o francês.
Atravessamos o mar, e, agora, já avó, em meus sonhos, permaneço jovem e loira. Visto leves e transparentes véus, cavalgo camelos enluarados, quando, os cheiros, sons, e ritmos vivos, torneados e sacrílegos me possuem, em tempos e verbos de língua brasileira.
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Prisão

 

Ia ao Pacaembu. Um espaço desconhecido a arrebata, cidade arcos praia mar,  um mundo terracota; é Lages, conta alguém; à beira mar um sentimento, Por favor, quero retonar, Vá até o metrô, lhe dizem, Em Lages o metrô é um barco, e atravessa a Gruta Azul, Como chego, Fica na quebrada da rua, uma mão aponta, e o mar terracora murmura _ Lages é sua crença, existimos porque você nos crê; semicerra os olhos para olhar ao longe e o horizonte falta; ou se oculta.

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Contradições

 
 
“Ela” habita a casa em que moro,
e ali não sou senhora.
Se desejo galinha à cabidela
“Ela” cozinha caranguejos,
e eu os devorarei alegremente.
 
Aprontou versões perigosas de mim,
traduções estranhas nas quais me espantei,
sofri e morri muitas mortes
mas agradeço, pois, me fizeram ampla.
 
De uma vida juntas,
comendo sal na mesma gamela,
mútuas descobertas,
de nós duas quem envelhece sou eu,
“Ela” permanece uma menina.
 
Agora, fluindo em mim torna-se pintora,
aprecia minhas mãos, me sopra aos ouvidos:
 
_ Mãos que fazem coisas,
manejam pincéis, desenham esboços
e palavras, plantam orquídeas,
e penteiam crianças,
cozinham e tiram a poeira dos móveis,
de quando em quando.
 
Quem trabalha sou eu,
“Ela” brilha em meus olhos
faz leve ou pesado meu coração
e eu que tanto me assustei
já quase não me assusto.
 
“Ela” chega a me fazer rir de mim e dela,
quando a percebo independente,
dizendo ou fazendo
o que nem pensei.
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Duas poetas traduzem poemas _ DIÁRIO DE VIAGEM: 2003

 

Publicado por Norma Segades-Manias em:

 

http://gacetaliterariavirtual.blogspot.com

 

 

 

PÁGINA 10 – ENSAYO  de ELIANE ACCIOLY FONSECA
(San Paulo-Brasil)

 

 

DIÁRIO DE VIAGEM: 2003

 

Quando estive no México para o XI° encontro de“Mujeres poetas em el Pais e las Nubes”, acreditava que as pessoas de lá, os nativos, pudessem compreender meus poemas, quando eu os lesse nos encontros, em Português. Foi um dos maiores engodos que me aprontei. A língua espanhola me parecia “parecida” com a língua portuguesa, afinal são neolatinas. No entanto, são profundamente diferentes e misteriosas em suas diferenças. Assim, tinha meus poemas inúteis, que em português não me serviriam, e toda uma semana pela frente, para me desesperar. Ou retornar antes ao Brasil, com o rabo entre as pernas.

 

A poeta Norma Segades-Manias me salvou. Os poemas que levei em grande parte, estavam publicados em dois livros. E não seriam necessários mais que seis ou oito poemas, pois eles seriam lidos em pueblos diferentes e para diferentes públicos. Norma não me deixou ler nenhum poema em português, me convencendo que não seria compreendida. Ela tinha razão. Bendita amiga! Á noite nos reuníamos todas as quarenta poetas em um bar simples e simpático onde comíamos nossos lanches.

 

Foi neste bar, no Pueblo de Emílio Fuego, que Norma e eu nos debruçamos sobre os poemas. E ela os traduziu incansavelmente. Um trabalho inesquecível em quatro mãos, quatro olhos, dois corações, e a presença de duas mulheres se aventurando entre dois idiomas diferentes. Na primeira noite praticamente ficamos acordadas, e varamos a madrugada. Trabalhamos em outras noites também, trabalho extra, pois por essas horas estávamos exaustas.

Trabalhávamos de manhã ao fim da tarde, o que adorávamos, pois nossos trabalhos era levar poesia ao povo do lugar.

 

Ao começaram as apresentações dos poemas pelas poetas, com as traduções de Norma Segades-Maniás em minhas mãos, sentindo-me abençoada e salva! Então eu lia o poema na língua portuguesa, e uma poeta de língua hispânica o lia por sua vez, em espanhol. Experiência única, para cada uma de nós, e para o público. A língua desconhecida, para nós, é pura musicalidade, tratando-se de poemas. Bons poemas, por sinal. Escutei poemas em mixteca, hebreu, danês, inglês e espanhol.

 

Foi por esta ocasião que me dei conta do quanto os idiomas português e espanhol são distintos entre si. E como foi possível encontrar uma irmã de alma, na poesia, em Norma.

 

Quando minha filha mais nova foi viver em Madrid, onde se casou e teve uma filha, compreendi ainda melhor a diferença entre os idiomas. Fora do âmbito familiar ali me compreendem no absolutamente trivial, mas não posso conversar profundamentecom quase ninguém. Uma das exceções sempre foi Norma, com quem, nem sei como, pude avançar as fronteiras dos sentimentos e emoções.

 

Um desses mistérios.

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Para Arnaldo Jabor, na crônica: A mulher não existe

 

 
 
Jabor,
Gosto de crônicas enquanto gênero literário. Aprecio cronistas, e me admiro dos que escrevem semanalmente, para mim, tarefa da ordem do impossível. E cronistas escrevem. Como a mulher, o/a cronista não existe, mas os cronistas; e cada qual tem seu dia. Concordo com você em gênero número e grau, a mulher não existe, felizmente, existem mulheres. E sou entre as mulheres.
Também acredito que não existe o homem, mas homens. Infelizmente o homem teima em existir, e isto faz a vida dele mais sem graça. Muitas vezes, um inferno. Colocaria você no território feminino, não como veado, como um entre os homens femininos. Poucos e bem vindos. É um elogio.
Adorei a crônica, me senti compreendida. O homem tal como se faz pregar é a forma homem branco, o devir homem de Fèlix Guattari e Gilles Deleuse. Os dois filósofos parceiros consideravam o devir mulher muito mais interessante; este seria devir menor. Estou com os dois, que se pretendiam devir menor; não sei se conseguiram em suas vidas pessoais, mas sinto uma profunda gradidão por suas contribuições.
Persigo o devir menor, estar na vida sem garantias. E gosto de ser entre as mulheres. realmente, a mulher não existe, só no plural.
Um grande abraço feliz,
Eliane Accioly
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Mistérios de acalentar a mãe Mariinha

 

_ Senhora dona Sancha

feita de ouro e prata

na infância da língua

eras uma rainha



_ Que anjos me rodam?


Ando velha e medrosa

não mais toco o piano

sinfonias não componho


_ Senhora dona Sancha, 

silhuetas, sombras

vestidas de branco

guardiões de vossos sonhos,

dispensamos ouro e prata

mal nunca vos faremos


_ Estou velha

bem velhinha

tenho medo de morrer


_ Medo? Pois pois,

por que medo?

por que medo?


Se no vosso coração

canta uma menina 

com quem brincamos 

de roda?


Dona Sancha

nossa senhora, 

vos espantastes a morte

como se espanta

galinhas, 

shô morte, shô



_ É verdade, é verdade,

shô morte, shô


Para os prados partirei

cavalgando meu cavalo


Sobre a cama da fazenda

me aguarda o vestido 

feito na minha medida


Anjos meus 

por onde andais?


Senti algum calafrio


_ Sombras vestidas de branco

somos a infância da língua

somos vossos guardiões


Vosso medo espantamos

com histórias

que contamos 


_ Anjos, brancas silhuetas

segurem a minha mão

e dormirei sossegada

para acordar na fazenda

onde me aguarda azul 

o vestido, nos braços 

de meu namorado


Segurem a minha mão

como minha mãe segurava

quando eu ia ao dentista


Shô, morte shô

montada no meu cavalo

espanto muitas galinhas
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O invisível palpavel _ resenha de Eliane Accioly

 

De Yasunari Kawabata, País das Neves, romance.

Prêmio Nobel de 1968

 

      Na página título do livro escrevi meu nome e a data de setembro de 1969, quando o encontrei. Na primeira leitura não entrei na trama do autor, como agora, embora o tenha lido. O guardei, e ele me desafiava, a capa branca, ideogramas desenhados em cor bordeaux. A trama do livro, um Chijimi, tecido artesanal tratado com neve e na neve, por tecelãs que vêm de geração a geração, destino traçado antes de nascer. O personagem Shimamura, escrevendo um livro, diz que o Chijimi não é um produto lucrativo, o processo é a própria continuação de uma tradição milenar, e poucos o conhecem.  Chijimi s,  fios de seda, exigindo o cultivo do  bicho da seda, casulos orgânicos, e seus fios como que tirados da neve. Shimamura homem requintado e ocioso usava quimonos Chijimi, tecido delicioso para o verão, cujos fios finos como o pelo de animais, tramados a bem dizer, na neve. 

      Intuitivamente este livro me acompanha desde então, não me desfiz dele, como de outros.  Há uma semana retirei o livro da estante e o li, não digo reli, porque foi outra primeira vez. Anda me acontecendo diferentes primeira vez, Clarice Lispector e Kafka, por exemplo .  Os benefícios da idade. Em 1968 eu era uma jovem mãe, uma filha de três anos que carregava comigo por onde ia e passava, talvez até na leitura de livros.

A edição que possuo: Editora Nova Fronteira, tradução de Marina Colassanti, que por sua vez o traduziu do alemão. O título da edição alemã: Schneeland.

      A tradução é primordial, e se precisa orgânica como Chijimi, de cuja trama Kawabata se aproveitou em sua arte. Como dizia Haroldo de Campos não há tradução possível da obra poética, mas trans-criação. O que significa trazer para outra língua a frescura criada pelo poeta. A novidade que o poeta nos traz. A transcriação de Marina Colassanti permite o adensamento saturado de uma leitura poética. O livro é poesia, teatro, romance. Arte.  Estou impactada.

      Um jovem esteta deixa Tóquio e parte a turismo ao País das Neves, região do Japão, no livro, muito especial.  (As regiões de todos os países de nosso planeta são especiais). Ali encontra uma mulher que lhe revela outras formas de vidas, outros jeitos de viver além dos que conhecia, apesar de sua cultura cultivada. A mulher, aspirante à gueixa, ao longo dos poucos anos que se conhecem, entre chegadas e partidas, torna-se uma.  Vivem seu encontro precário entre a neve e o fogo, não apenas metafóricos, como literais, o frio e o fogo, o congelamento e o incêndio, o amor e a indiferença, o vazio e a plenitude.  A precariedade e a força vital do Chijimi,que pode durar várias existências.

       O que o livro me revela o ser humano tão diferente em suas distintas culturas e formas de subjetivação, e a essência, sem omitir a singularidade que marca cada um de nós, é tão reconhecível nas camadas tectônicas.  Somos camadas e eras, cada um de nós.  Quando preciso compreender um pouco mais de ser humana,  o que me chama e incendeia é a literatura, não livros teóricos e/ou empíricos.  Na literatura me encontro e encontro o outro.

Este livro é um poema, haicais de Bachô. Sinto-me privilegiada por tê-lo descoberto nos acasos da vida. É uma marca que permanecerá, parte do tecido do qual sou feita.

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Ainda o País das Neves

 

 

       O nome da mulher  personagem central da trama do livro, Komako, estranhamente deixei de mencionar na resenha récem publicada. País das Neves, de Kawabata, gira em torno de mulheres, suas alegrias, encontros, desencontros, e a paixão em viver a vida em plena intensidade. A mulher e o homem, pois são mulheres que vivem em função do homem, as gueixas, embora uma gueixa tenha o direito de recusar qualquer homem, assim como elegê-lo.

Lendo a orelha do livro, escrita por Marina Colassanti descubro, alegremente surpreendida, que o escritor japonez, apoiando-se sempre em pessoas históricas, para escrever seu romance  ao longo de 14 anos, revelou ser Komako, que na vida seria a senhora Kiku Kotaka, casada com um alfaiate, gueixa por ele conhecida quando ainda rapaz.

     Ao saber do remio Nobel concedido a Kawabata, teria dito a senhora Kotako: "Agora nossas conversas e seu trabalho se tornarão conhecidos no mundo inteiro." 

     Na contra capa há a foto de alguém que a princípio tive como homem, delicado e frágil, envelhecido, testa grande e um cabelo que me parece curto e grisalho. Mas a foto poderia ser a de uma mulher magra e ossuda, olhos expressivos, mãos grandes, não propriamente bela, caso da gueixa Komako. Se Kawabata cria uma identidade feminina e desmancha a sua, ou se seria realmente uma mulher não importa, pelo contrário, é a sutileza e o mistério que se encontra na obra do grande escritor da Língua Portuguesa, mestre criador de heterônimos, Fernando Pessoa.

     Um brinde à Literatura.

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Resenha: As lindas pessoas do Irã

 

 Filme: A Separação

 de Jodaelye Nader az Simin, Irã,  2010.           

 

 

O filme trata de uma família, a mulher o marido e a filha de onze anos, com visto para emigração do Irã para um país mais livre, onde pudessem criar a filha, segundo eles, em melhores condições sociais. O marido, no entanto, sente-se preso ao constatar a demência do pai _ Alzheimer. A família moderna que deseja sair do país se dissolve no conflito do marido/pai e a esposa, que insiste no plano original. O marido contrata uma mulher para cuidar do pai, enquanto trabalha. Nas falhas do plano, entram em pauta os conflitos religiosos _ a impossibilidade, para uma mulher casada tocar no corpo de outro homem, mesmo sendo este um doente e ancião.   

Não se trata de um divórcio à iraniana. Mas antes de dramas e de pessoas. De seres humanos. Um filme no qual podemos nos ver apesar de tão diferentes, ou de tamanhas diferenças culturais e subjetivas.  Atravessando as diferenças podemos nos ver diferentes e semelhantes no ontológico do ser humano, marcado pela singularidade

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CISNE NEGRO _ FILME

 

EUA/ 2010/ 108 minutos/drama
Direção _ Darren Aronofsky/
elenco _ Mila Kunis e outros.


Não chega a surpreender ou a emocionar.
Lutas com a sombra vivemos todos os dias.
Dramas entre mãe e filha (s) também.
Gostei de assistir ao filme, mas este não me eletrizou,
nem surpreendeu. Uma cisão entre a doce menina e
a mulher que poderia vir a ser.
E que não foi.

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