Posts de Edir Pina de Barros (373)

Nosso Senhor do Bom Jesus de Cuiabá

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Está tudo tão mudado

nunca vi isso por cá

está triste o Cuiabá

e mais triste o meu cerrado

assim tão seco e queimado,

não tem chuva do caju,

piracema de pacu,

enchente de São José,

e grita triste o pinhé

no galho seco e quebrado.

 

O rio está definhado

está triste o pescador

na terra do Bom Senhor

porque não tem mais pescado

(só tem peixe congelado,

criado em tanque, e tão caro

mas, se tiver, eu preparo),

não se vê peraputanga

assada na pedra canga,

o dourado está tão raro.

 

Não se vê mais o jacá

na Vereda ou Bom Sucesso

(esse é o preço do progresso,

que canto aqui nesta loa)

e não se vê mais canoa,

levando seus pescadores,

antes, do rio, os senhores,

alegres, sempre a cantar,

pescando ao sol e ao luar

saudosos de seus amores.

 

Tudo agora está cercado,

tem diques no pantanal

que muda o ciclo anual

antes todo regulado,

(garantia do pescado):

no tempo do ipê em flor

a piracema, um esplendor,

poesia da natureza,

prenhe de encanto e beleza,

milagre do Criador.

 

Já não tem pacu assado

na mesa do camponês,

nem florejam os ipês

no tempo que era esperado:

tudo, tudo está mudado.

Seguem as águas tão ligeiras

beijando os sarãs das beiras

cortando matas, cerrado,

buscando o colo encantado

das planícies pantaneiras.

 

 

 

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Doce encanto

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Tens a ternura das tardes langorosas

a desmaiar no horizonte purpurino,

iluminando teu  corpo de menino,

de onde se exalam essências perfumosas.

 

Tens  a beleza das aves majestosas

a procurar, no remanso cristalino,

o lambari, tão arisco e pequenino,

de carnes tenras, macias, saborosas.

 

Tens a leveza das plumas de japus,

de jaçanãs, colhereiros, dos anus,

dos jaburus, a ostentar rubras coleiras

 

Nos teus olhinhos, na íris, tens guardado

todo o mistério dos rios represados

na vastidão das planícies pantaneiras.

 

 

Brasília, 13 de agosto de 2012.

 

 

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Brisa

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Oh! Noite! Que suave brisa olente,

Que, em meio aos fios de prata do luar,

encrespa as verdes ondas sobre o mar,

o tenebroso mar, sempre imponente;

 

A brisa, delicada, que se sente

nas pétalas da rosa a balançar,

nas gotas de sereno, a tremular,

ainda que pareça tão ausente.

 

Oh! Noite! Oh! Suave e doce brisa,

que sobre a verde relva se desliza,

beijando cada folha longa e fina:

 

por que me trazes tanta nostalgia,

em meio aos finos véus da poesia

feitos de sonho e seda purpurina?

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Tesouro

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Tesouro que ninguém garimpa, explora,

é o céu, seus diamantes estelares,

constelações sem fim, a bela Antares,

a Estrela Dalva, no raiar da Aurora;

 

a lua que, andejando o espaço afora,

envolta, muitas vezes, por colares,

asperge fios de prata pelos ares,

e usa um véu de nuvens, se o céu chora.

 

Tesouro: mil pepitas, diamantes,

a lua com seus véus, belos turbantes

que, no sidéreo espaço, vai e vem.

 

O manto azul de anil – esse tesouro –

ninguém pode roubar, comprar com ouro,

é bem de todos nós, e de ninguém.

 

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Vincent Van Gogh (homenagem)

3541739186?profile=original Vinha encarnada V. van Gogh

"Após a experiência dos ataques repetidos, convém-me a humildade. Assim pois: paciência. Sofrer sem se queixar é a única lição que se deve aprender nesta vida."

— Vincent Van Gogh

 

Pintou a noite bela e estrelejada,

e um perfumado campo de heliantos,

com tintas da poesia, dos encantos,

e lágrimas sem fim, da alma arada;

 

o quarto de dormir, vinha encarnada,

os lírios, os trigais, terraços, cantos,

co’as tintas preparadas com seus prantos,

nos tons da mente triste e alucinada.

 

Inimitáveis tons de dor, tristeza,

e de alucinações, febris delírios,

na solidão maior (de si ausente),

 

E transmutou a dor em luz, beleza,

em campos de heliantos, trigos, lírios,

gestados nos porões da insana mente.

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Olhos pantaneiros

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Nos teus olhos pantaneiros

vi lambaris em cardumes,

brilhando quais vagalumes,

nadando alegres, faceiros.

 

Nos camalotes, batumes,

- de tanta vida, os celeiros -

vi araras, colhereiros

a cantar os seus queixumes.

 

Nos teus olhos vi ninhais

onde dormem passarinhos

até o dia  amanhecer.

 

Eu vi muito, muito mais

no espelho desses olhinhos:

vi tu’alma, vi teu ser.

 

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CÉU DE AGOSTO

3541737382?profile=originalNos céus do Mato Grosso, em pleno agosto,
o sol parece um olho avermelhado
chorando de tristeza o malfadado
destino do cerrado, ao fogo exposto.

As aves cantam tristes, por desgosto,
ao ver os filhos seus no chão crestado,
e o fogo se espalhando no cerrado
a destruir mais vidas, por suposto.

No plúmbeo céu de tarde, esfumaçado,
o sol se põe em dor, chorando sangue,
ao ver tanta beleza amortalhada.

E a noite caí tristonha, ajoelhada
ao ver a natureza mais que exangue
morrendo sob o fogo da queimada.

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Como calar?

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“Ainda que nos prendam, ainda que nos matem, mesmo assim voltaremos e seremos milhões” (Honestino Guimarães) - In memoriam
 
Como calar a voz que não se cala
pois viva está no povo, em sua história,
presente em cada canto da memória
que nunca se destrói ou se avassala.
 
Os gritos de tortura em grande escala
 - morrer sem delatar era a vitória -
(mas para alguns inútil morte inglória)
no mar jogado o corpo, ou funda vala.

Há vozes que jamais serão caladas
dos que sobreviveram à tortura
nas salas e porões da ditadura.
 
Como calar as mães sempre enlutadas
Buscando por seus filhos, seus rebentos,
Clamando por seus corpos, contra os ventos?

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MIMETISMO

3541728663?profile=originalEu sou a outra, se me tocas, se te vejo
pois me transformo, num instante, num segundo,
se em tuas águas eu mergulho bem profundo,
se tu me inundas com carícias, sem ter pejo.

Eu me transmuto quando eu sinto o teu latejo,
num mimetismo nunca visto neste mundo,
com a pele tua, num instante, eu me confundo,
e a minha cor se torna a cor do teu desejo.

Nesse momento a ti me entrego, não reluto,
e os teus carinhos, sem pudor, também aceito,
os beijos teus, o teu abraço terno e lasso.

E nos teus braços, pouco a pouco, eu me transmuto
num hibridismo sem igual, do mais perfeito,
que em ti me perco, em ti me morro e em ti renasço!

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CICLOS (X) - VIDA E MORTE


3541721650?profile=originalSilente a  noite está dormindo agora

Na rede aconchegante e purpurina

D’estrelas –  que a  acarinha, embala e nina  –

Até que venha e a acorde a luz da aurora.

 

Dormita enquanto a lua peregrina,

Andeja, solitária,  céu afora

E, exausta de  andejar se  vai embora ,

Cumprindo o seu destino, a sua sina.

 

E a noite então desperta e segue a lua

Enquanto nasce o sol, alegre e forte,

Trazendo atrás de si a passarada.

 

Assim é  nossa vida, a minha e a tua

- Um ciclo que contém em si a morte –

Um etéreo vir a ser, fugaz jornada.

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O BEIJO QUE NÃO TE DEI

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Tantas bocas eu beijei,
Tantos prazeres eu tive,
E o beijo que não te dei
É o que mais sobrevive!

Mudo, tristonho, calado
Persiste nos lábios meus,
Tão cálido e enamorado
Desses olhos que são teus.

Esconde-se pelos cantos
No disfarce do sorriso,
No pranto que eu não chorei!

Guarda todos os encantos,
Ainda é teu e indiviso,
O beijo que eu não te dei.

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