Posts de Edir Araujo (4)

Boneca de Pano (resenha)

 

Tive o privilegio de expor meu livro Boneca de Pano ao olhar crítico de Fernanda R Rodrigues (uma amiga leal cuja principal afinidade é a literatura). Leiam o seu depoimento sobre a obra abaixo, que foi publicado no seu blog Juntando Espigas:

 

" "Atraída por uma atitude um pouco rebelde no dia em que fazia quinze anos, Samantha perdeu-se na curva da sua aventura e encontrou a mão pesada da demência. Enquanto empurrada para dentro de uma casa velha, escutou o ferrolho da porta que a fechou num pantanal habitado por um tosco e repugnante ser de cinquenta anos que colecionava bonecas de pano a quem dava nomes de meninas. Certamente meninas obrigadas a obedecer e a chama-lo de papai, assim como lhe foi ordenado, após ter descido à categoria de escrava sexual.
Inesperadamente, após oitenta e dois dias, o ferrolho da porta dera-se à liberdade. Devolveu-a ao mundo, o súbito destino fatal do carrasco. Destino construído por ele. Pois quem poderá viver tranquilo, procurando o sofrimento dos outros? O prazer buscado em tão sórdida façanha tem sempre como resultado o desassossego pessoal, ainda que o criminoso não o reconheça.
Voltando à vitima, a curva da estrada que contornara transformou-a em outra pessoa. Desde uma gravidez indesejada a um internamento num hospital psiquiátrico como contornaria ela os acontecimentos inesperados? Edir trabalhou a história com uma realidade notável. Não me refiro apenas ao realismo existente em toda a narração, mas à sensibilidade que o acompanhou ao colocar-se como narrador feminino. Não que eu considere as mulheres mais sensíveis do que os homens, pois não divido o ser humano em categorias, uma vez que a vida mostrou-me que o indivíduo vem antes da diferença do sexo, mas porque ele, como homem, não conhece a dor das entranhas femininas quando violadas. Apenas um escritor com uma imaginação fértil, competência, dedicação e paixão pela sua profissão pode ser autor de tal façanha. Outro fato a salientar, o autor construiu a jovem Samantha com sentimentos autênticos. Sem floreados ou enganos ela é sincera na forma como revela até aquilo que poderíamos julgar como vergonhoso.
Infelizmente, esta história escrita por Edir Araujo, sempre teve e tem razão para existir. Não importa o quão avançado seja o país ou o povo em referência... Vivo num país, onde, se o nosso olhar tivesse o poder de um raio x poderíamos perceber homens artilhados de asas negras obrigando jovens a viver experiências que, pela vergonha e medo, as aninham num silêncio que lhes destrói a paz e a liberdade. E quantos deles são familiares desumanos, talhados para violar o respeito!

Grata Edir, pela leitura oferecida. Continue apostando no seu talento como escritor. " "

Fernanda R-Mesquita

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Mataram os passarinhos de Deus

* Por Edir Araujo
(Resenha literária em versos, inspirada no livro
Corpo Vivo, de Adonias Filho)

A morte, naqueles confins do sul da Bahia,
penetra as matas e os corações de pedra.
Como numa arena dos tempos romanos,
as feras devoram os inocentes...
para ambição feroz dos poderosos,
numa furiosa cegueira por mais e mais terras
(cujo ouro maldito é o cacau).
Ouvem-se gritos horrorizados pelas selvas;
é Hebe, anunciando, aterrorizada:
“Mataram os passarinhos de Deus.”

Padrinho Abílio é quem encontra os mortos.
Sobre o sangue derramado florescerá o cacau;
ouro que provoca ambição e desgraça.
Hebe profetizou o fim... e agora corre alardeando
por aqueles rincões, pelas entranhas daquele mundo selvagem:
“Mataram os passarinhos de Deus."

Compadre Januário e família, mortos.
Da chacina só escapa o menino Cajango.
Nosso fabuloso herói, que parece personificar
tão bem uma tragédia grega, tamanha a sua grandeza.
E ei-lo já crescido, a vingança nos olhos,
o bugre, a cara de pedra, cuja rebeldia,
transcende toda a amargura do seu peito.
Tendo por único objetivo; vingar a bruxa doida;
é Hebe, bradando aos quatro ventos:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Há também um tal de João Caio, com sua pulseira de ferro.
Dico Gaspar, com seu calção de couro de carneiro;
chefe de um dos bandos de Cajango, que castigará
severamente caboclo Juca, o traidor,
sendo devorado pelos cães famintos.
É o selvagem tagarela nas roças de cacau.
É temido, e seu nome está em todas as bocas,
em todos os caminhos, por onde também passa
Hebe, que grita, célere:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Entre os seios de Malva,
a cruz de arame do negro Setembro;
morto heroicamente num combate.
Mas a presença desta mulher foi reclamada
pois que poria em risco a vida de Cajango,
caído de amores por ela, e um deles dirá:
“Hebe, a bruxa doida, avisou muitas vezes
que esta mulher chegaria...”
E chegou. E com ela a discórdia...
Mas um deles também teria dito:
- "Cajango deveria ter matado Hebe".
Cujos gritos ecoam pela selva sombria:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Qual uma entidade fantástica, vivente das sombras,
dela falam as bocas, os ouvidos ouvem, aqui e acolá;
É Hebe, a velha bruxa, berrando,
como uma alma penada, pelas veredas:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Cajango é caçado, implacavelmente.
E todos querem a sua cabeça.
Sua cabeça está a prêmio, vale ouro!
Talvez tanto quanto a desenfreada
cobiça dos fazendeiros de cacau.
Mas no que tange ao amor, com seus encantos,
só uma mulher faria o milagre.
Assim Malva entraria em cena,
conquistando seu coração de pedra;
rude, vingativo e selvagem...
Pela qual nosso herói mata Inuri, seu tio e tutor,
num duelo épico, lírico, sangrento.
E corre o casal, numa fuga incansável.
Deixando para trás a terra banhada de sangue.
O ouro dos cacaueiros, a ferocidade, a morte.
A velha bruxa, com seus cabelos de algodão;
gritando loucamente, espavorida:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Dizem que ela tem cem anos.
A primeira mulher branca a endoidecer
naquelas terras, cujo cacau é o deus supremo.
Viu o Sangrador matar os meninos, e enlouqueceu.
Agora corre, doidivanas, por entre as árvores,
que parecem dormir sob um céu de chumbo.
ouvem-se seus gritos, numa voz esganiçada:
“Mataram os passarinhos de Deus.”

Cajango e Malva, o homem e a mulher.
Seguirão, determinados, numa fuga sem igual.
Nunca houve em tempo algum um amor tão selvagem!
É Cajango com seu facão, desafiador,
abrindo caminho entre o capinzal,
puxando a mulher pela mão. O amor de um bugre!
Cujo penhor custou-lhe a fúria, suor e sangue.
Parecem ainda ouvir atrás de si os gritos de Hebe:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Mais a frente; a serra, o chapadão.
Lá encontrarão o ninho, extasiados.
Mão na mão, olho no olho, ali se amarão.
Decerto terão filhos, decerto a paz reinará,
e não mais pisarão o sangue humano.
Mas quem ousaria chegar lá onde estão?
Eles chegaram. O solo é úmido.
Febril é o seu coração pela amada.
Uma muralha de pedra, medonha, dobra-se
entre eles e aquele mundo sanguinário e tenebroso.
Talvez nem o vento chegue lá,
onde estão, onde nenhum humano pisou.
E ali construirão o ninho e gozarão a vida.
Mas jamais esquecerão de Hebe.
A velha bruxa e os seus gritos insanos:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

Cobre eles agora um novo céu.
Fitarão as estrelas, radiantes...
E não terão saudades daqueles dias infaustos.
E o homem dirá a mulher que o inferno ficou para trás.
Uma terra inóspita e beligerante,
onde o ouro do cacau provoca tanta tirania,
tanta amargura e tanta morte...
E seus ouvidos, durante a tempestade,
parecerão ouvir entre os trovões,
de muito longe, o eco de um grito longínquo.
Será Hebe? (dirá o homem) a velha bruxa?
Sim... que ainda vive naquele inferno.
Ela profetizou o fim, já é uma lenda.
Correndo, desvairada...
Uivando como um cão danado:
“Mataram os passarinhos de Deus”.

 

Extraído do livro Gritos e Gemidos, pág. 30.
Reservados Direitos Autorais. Registro ISBN - 978-85-913565-2-2

* Poeta e escritor, autor dos livros: A Passagem dos Cometas, Boneca de Pano, Risos e Lágrimas e Fulana (este inédito).

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A posse é o túmulo do desejo

É incontestável o excitante sabor do desejo, do desafio de se conquistar alguém. Mas por que digo isso? Por que eu a vi, de novo, na rua e mais uma vez não pude deixar de observa-la atentamente. Tórridos olhares, fulminantes e que me deixam extasiado. Ela deve ter o que falta em mim. Falta algo em mim que não sei exatamente o quê. A falta é o motor do desejo, dizem os entendidos, impelindo-nos a continuar vivendo. Enquanto houver esta falta continuamos buscando algo mais, como faço neste momento, ávido por conhecê-la, tomá-la em meus braços. Quem sabe está nela o que me falta? Esta falta me congela, me absorve. Corro o risco de sofrer, é verdade, mas acho que o que traz dor não é o amor - é a falta dele. Você agora deve estar pensando, "isso é carência afetiva". Talvez. Acho que é mais que isso. Deve ser uma neurose obsessiva, querer projetar-me a ti, digo; a ela. Simples paixão, carnal, dirá você também, que está lendo estas linhas. Não. É algo mais. Já dura algumas semanas. Acho que é amor, misturado com curiosidade, mistério, atração pelo desconhecido, neste caso - desconhecida.

Não creio em processos químicos cerebrais, deve ser algo mais profundo, superior... Partindo desta premissa às vezes chego a uma conclusão precipitada; de que ela tem o que me falta, embora eu não saiba exatamente o que é. Mas se ela é alguém tão imprevisível por que a desejo? Saio na rua a sua procura e quando não a vejo volto pra casa amargurado. Às vezes penso que ela é tão selvagem! Assim vou colecionando fantasias na minha mente, de como ela é ou deve ser, o que pensa, seus desejos, suas aspirações, suas razões. Gostaria de conhecê-la melhor antes de me apaixonar, mas... Por mais terrível que possa parecer já estou apaixonado. Terrível porque eu deveria me apaixonar por suas características reais e não fantasiosas, delírios que vagueiam na minha cabeça. Algo nela atiça a minha fantasia, deliberadamente. Que sofrimento! Talvez eu tenha uma grande decepção quando tomar coragem de abordá-la e essa paixão (que muitos chamariam de tola) e todas as minhas fantasias caírem por terra. No outro dia quando acordar sentirei um vazio; a paixão acabou. Por que ela mudou? Ou melhor, o que mudou em mim?

Busco nela uma chama que na realidade é apenas um reflexo daquilo que ela projeta em mim. Encontrar-me nela, é realmente o que eu quero? Mas qual é o seu nome? Sinceramente eu não sei. Seja Maria, Ana ou Teresa, o que importa isso? Esta mulher, até então desconhecida, é uma necessidade imaginária. Andei refletindo que se eu não a tenho não corro o risco de perdê-la. Olha que coisa maluca! Mas que não deixa de ser um raciocínio lógico.

Afinal, a posse é mesmo o túmulo do desejo? Na análise freudiana o desejo sempre acaba quando tomamos posse daquilo que desejamos. Isso faz todo o sentido, sobretudo quando ardentemente, eu acrescentaria. Com sofreguidão, como é o meu caso. Na verdade, é isso mesmo. O desejo pode até durar para sempre, o que desaparece é aquele propósito, a paixão por aquilo que se busca alcançar. E esse sentimento é que aflige, decepciona, nos derruba. Entendemos assim o que é esse mistério, o mistério do desejo, que nos transforma em pessoas indiscutivelmente predestinadas a correr sempre atrás de algo novo, um novo desejo, uma nova razão para pulsar, viver.

Como diria Oscar Wilde "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é ceder à ela." É isso aí! Pegar logo essa guria! Sapecar-lhe alguns beijos molhados. Agarrá-la com firmeza e depois de um mês de volúpia certamente verei que o paraíso não era bem o paraíso.

Concluindo este raciocínio, a posse, sendo o túmulo do desejo, este ao morrer, elimina o prazer. Mas enfim, eu não estou sozinho nesta. As pessoas canalizam seus esforços para o prazer, de forma hedonista, buscando assim, de maneira confusa, e irrefletidamente, o alvo do prazer, o insensato desejo, a sedução, o delírio, a conquista, enfim... Vícios, na verdade. Ansiamos avidamente por algo até que o consigamos. Agimos assim com as coisas, agimos assim com as pessoas, infelizmente.

Estou quase tomando uma decisão, acho que a mais sensata. Tê-la apenas na minha imaginação, e a imaginação, convenhamos, é algo insofismável. Sim, não se deve por em dúvida, o imaginário é mágico, milagroso, não há explicação racional. Assim, preservarei o objeto da minha adoração. Representá-la em minha mente da maneira que me aprouver. Cultuá-la no meu silêncio mudo. Vê-la e senti-la em gostosas imagens, excitantes visões, beijos ardentes, excitantes carícias, sussurros, juras de amor, numa multiplicidade de sentidos, sexual também - especialmente - se é isto que você pensou. Tê-la todinha só pra mim, que beleza! Ainda que seja só no plano mental, mas e daí? Recorrendo à Sartre, segundo sua concepção; "o imaginário é uma resposta à angustia existencial negativa da passagem do tempo." Agora atentem para esta citação de Víctor Hugo: "A imaginação é a inteligência em ereção, enquanto que a razão é a inteligência em exercício.” Já sabem qual é a minha opção? Claro que fico com a imaginação. Além do que, temo que toda essa magia perca o encanto ao conhecê-la. Assim evitaria muitas coisas desagradáveis, quais sejam; amargura, decepções, e vai por aí afora...

Quanto a esta minha exposição os conservadores talvez dirão: “Não há nada que se compare ao objeto real, o que existe somente na imaginação nunca prevalece, é imponderável”, enquanto os ultramodernos por sua vez: “Nada se compara ao objeto imaginário, tudo aquilo que pertence ao mundo da imaginação é o que conta”. Então, com qual dessas proposições você fica? Quanto a mim, decerto que fico com os ultramodernos.

Mas você já parou pra pensar que muitas vezes certas pessoas são interessantes apenas na nossa imaginação, e que a partir do momento que elas passam a ter vida própria tornam-se aos nossos olhos insignificantes?
Na minha imaginação ela é perfeita! E ponto final.

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Edir Araujo, poeta (marginal, pois não segue nenhum padrão pré-estabelecido) e escritor independente, sem vínculo com qualquer editora. Autor dos romances psicológicos "A Passagem dos Cometas" (2ª edição revisada), "Fulana", "Boneca de Pano" e "Risos e Lágrimas" Escrevendo mais 2 livros (na gaveta, "amadurecendo"). Eclético, tem grande diversidade de poemas, crônicas, artigos, resenhas, dispersos em jornais, blogs e sites pela internet.

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A posse é o túmulo do desejo

É incontestável o excitante sabor do desejo, do desafio de se conquistar alguém. Mas por que digo isso? Por que eu a vi, de novo, na rua e mais uma vez não pude deixar de observa-la atentamente. Tórridos olhares, fulminantes e que me deixam extasiado. Ela deve ter o que falta em mim. Falta algo em mim que não sei exatamente o quê. A falta é o motor do desejo, dizem os entendidos, impelindo-nos a continuar vivendo. Enquanto houver esta falta continuamos buscando algo mais, como faço neste momento, ávido por conhecê-la, tomá-la em meus braços. Quem sabe está nela o que me falta? Esta falta me congela, me absorve. Corro o risco de sofrer, é verdade, mas acho que o que traz dor não é o amor - é a falta dele. Você agora deve estar pensando, "isso é carência afetiva". Talvez. Acho que é mais que isso. Deve ser uma neurose obsessiva, querer projetar-me a ti, digo; a ela. Simples paixão, carnal, dirá você também, que está lendo estas linhas. Não. É algo mais. Já dura algumas semanas. Acho que é amor, misturado com curiosidade, mistério, atração pelo desconhecido, neste caso - desconhecida.

Não creio em processos químicos cerebrais, deve ser algo mais profundo, superior... Partindo desta premissa às vezes chego a uma conclusão precipitada; de que ela tem o que me falta, embora eu não saiba exatamente o que é. Mas se ela é alguém tão imprevisível por que a desejo? Saio na rua a sua procura e quando não a vejo volto pra casa amargurado. Às vezes penso que ela é tão selvagem! Assim vou colecionando fantasias na minha mente, de como ela é ou deve ser, o que pensa, seus desejos, suas aspirações, suas razões. Gostaria de conhecê-la melhor antes de me apaixonar, mas... Por mais terrível que possa parecer já estou apaixonado. Terrível porque eu deveria me apaixonar por suas características reais e não fantasiosas, delírios que vagueiam na minha cabeça. Algo nela atiça a minha fantasia, deliberadamente. Que sofrimento! Talvez eu tenha uma grande decepção quando tomar coragem de abordá-la e essa paixão (que muitos chamariam de tola) e todas as minhas fantasias caírem por terra. No outro dia quando acordar sentirei um vazio; a paixão acabou. Por que ela mudou? Ou melhor, o que mudou em mim?

Busco nela uma chama que na realidade é apenas um reflexo daquilo que ela projeta em mim. Encontrar-me nela, é realmente o que eu quero? Mas qual é o seu nome? Sinceramente eu não sei. Seja Maria, Ana ou Teresa, o que importa isso? Esta mulher, até então desconhecida, é uma necessidade imaginária. Andei refletindo que se eu não a tenho não corro o risco de perdê-la. Olha que coisa maluca! Mas que não deixa de ser um raciocínio lógico.

Afinal, a posse é mesmo o túmulo do desejo? Na análise freudiana o desejo sempre acaba quando tomamos posse daquilo que desejamos. Isso faz todo o sentido, sobretudo quando ardentemente, eu acrescentaria. Com sofreguidão, como é o meu caso. Na verdade, é isso mesmo. O desejo pode até durar para sempre, o que desaparece é aquele propósito, a paixão por aquilo que se busca alcançar. E esse sentimento é que aflige, decepciona, nos derruba. Entendemos assim o que é esse mistério, o mistério do desejo, que nos transforma em pessoas indiscutivelmente predestinadas a correr sempre atrás de algo novo, um novo desejo, uma nova razão para pulsar, viver.

Como diria Oscar Wilde "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é ceder à ela." É isso aí! Pegar logo essa guria! Sapecar-lhe alguns beijos molhados. Agarrá-la com firmeza e depois de um mês de volúpia certamente verei que o paraíso não era bem o paraíso.

Concluindo este raciocínio, a posse, sendo o túmulo do desejo, este ao morrer, elimina o prazer. Mas enfim, eu não estou sozinho nesta. As pessoas canalizam seus esforços para o prazer, de forma hedonista, buscando assim, de maneira confusa, e irrefletidamente, o alvo do prazer, o insensato desejo, a sedução, o delírio, a conquista, enfim... Vícios, na verdade. Ansiamos avidamente por algo até que o consigamos. Agimos assim com as coisas, agimos assim com as pessoas, infelizmente.

Estou quase tomando uma decisão, acho que a mais sensata. Tê-la apenas na minha imaginação, e a imaginação, convenhamos, é algo insofismável. Sim, não se deve por em dúvida, o imaginário é mágico, milagroso, não há explicação racional. Assim, preservarei o objeto da minha adoração. Representá-la em minha mente da maneira que me aprouver. Cultuá-la no meu silêncio mudo. Vê-la e senti-la em gostosas imagens, excitantes visões, beijos ardentes, excitantes carícias, sussurros, juras de amor, numa multiplicidade de sentidos, sexual também - especialmente - se é isto que você pensou. Tê-la todinha só pra mim, que beleza! Ainda que seja só no plano mental, mas e daí? Recorrendo à Sartre, segundo sua concepção; "o imaginário é uma resposta à angustia existencial negativa da passagem do tempo." Agora atentem para esta citação de Víctor Hugo: "A imaginação é a inteligência em ereção, enquanto que a razão é a inteligência em exercício.” Já sabem qual é a minha opção? Claro que fico com a imaginação. Além do que, temo que toda essa magia perca o encanto ao conhecê-la. Assim evitaria muitas coisas desagradáveis, quais sejam; amargura, decepções, e vai por aí afora...

Quanto a esta minha exposição os conservadores talvez dirão: “Não há nada que se compare ao objeto real, o que existe somente na imaginação nunca prevalece, é imponderável”, enquanto os ultramodernos por sua vez: “Nada se compara ao objeto imaginário, tudo aquilo que pertence ao mundo da imaginação é o que conta”. Então, com qual dessas proposições você fica? Quanto a mim, decerto que fico com os ultramodernos.

Mas você já parou pra pensar que muitas vezes certas pessoas são interessantes apenas na nossa imaginação, e que a partir do momento que elas passam a ter vida própria tornam-se aos nossos olhos insignificantes?
Na minha imaginação ela é perfeita! E ponto final.

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Edir Araujo, poeta (marginal, pois não segue nenhum padrão pré-estabelecido) e escritor independente, sem vínculo com qualquer editora. Autor dos romances psicológicos "A Passagem dos Cometas" (2ª edição revisada), "Fulana", "Boneca de Pano" e "Risos e Lágrimas" Escrevendo mais 2 livros (na gaveta, "amadurecendo"). Eclético, tem grande diversidade de poemas, crônicas, artigos, resenhas, dispersos em jornais, blogs e sites pela internet.

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