Posts de Barão da Mata (10)

COXAS NEGRAS

A mulher negra e bela se senta à minha frente,
Cruza ante meus olhos as roliças negras pernas,
Negras como os rios que cantam mansamente
Nas noites sem lua e sem estrelas.
A mulher bonita cruza as negras coxas,
Negras como as onças negras e noturnas
Que caçam pelas selvas do país.
Negras como as cobiçadas cavidades
Do seu desejado corpo negro.
Negras como os belos olhos negros
Impregnados de viveza e de malícia.
Negras como estes meus versos negros
Envolvidos num negror tão claro e luminoso
De desejo, devaneio e de querer.

BARÃO DA MATA

A CASA DO POEMA
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VIZIM DE ZÉ CARDOSO

Vem cá, vizim, desce uma pinga, que eu te conto:
Ninguém no mundo é mais feliz que Zé Cardoso.
É que, cedim, toda manhã, beija a menina
De cabelim assim curtim, sorriso franco,
Bonita assim que nem os campo bem verdim.

Aquele beijo mais parece que alimenta Zé Cardoso,
Que prá labuta sai feliz de inté sartá.
Entra a menina a sorrir por casa a dentro,
E eu fico oiando as coxa grossa, bem clarim,
E sonho vendo o vestidim a balançar.

O dia inteiro aquela potra lava, passa,
Varre, cozinha e canta assim qual passarim.
É tão bonita com zoim assim pretim,
Tão infantis e serenim, cheim de paz.

De tarde chega Zé Cardoso todo prosa,
E ela se agarra, alegre, moça, ao seu pescoço.
Depois, vizim, é um converseriro sem tamanho.
Um tal de "amor", "benzim" pra lá, "benzim" pra cá,
E a casa, assim, meu bom vizim, parece em festa.

Eu imagino, meu amigo, que à noitinha
O meu vizim é mais feliz que um fazendeiro,
Porque a deusinha, se entregando entre sussurros,
É bem capaz de qualquer cristo endoidecer.
E eu te confesso, sou tão só, que sinto inveja
E uma tristeza grande assim de contorcer.

2010
Barão da Mata
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MULHER POEMA

Vem, mulher, pra mim, que eu te faço
Uns versos tão mansinhos e tão cálidos,
Que, mais do que musa, Vênus te sentirás.

Vem pra mim inteiramente, que eu renasço,
Vem, que eu me faço uma fonte de vida
Inesgotável, descomunal.

Vem pra mim sofregamente, que eu te torno
singular em cada verbo
e tão deusa em cada verso,
e tão linda em cada olhar!

Vem comigo viver toda a lindeza
de um passeio pelas ruas,
de um afago em cada esquina,
de promessas ao luar.

Vem, mulher, que eu te faço tão bela,
que eu te quero tão minha, te faço encantada,
que eu te quero tão doce, te faço tão lira!...
Vem, mulher, que eu te quero poema.
Barão da Mata
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MILENA

Vem de algum lugar, Milena, que meu canto te procura
Por todo beco,
Por todo canto
E pelas ruas silenciosas, Milena;
Noites de frio
Que não revelam
A tua imagem.

Surge, Milena, assim de repente como fada;
Nasce de um clarão multicolorido de magia
E então flutua
Bem docemente
Ante meus olhos.
Vem, Milena, chega assim de entre as nuvens;
Vem, que meu poema de ti se alimenta.
Chega antes que meu peito canse,
Antes que meu verso cale,
E eu apenas seja folha seca sem rumo a vagar.

1996


II

(OUTRO CANTO A MILENA)

Vem, Milena, ver a noite e suas luzes,
Fazer planos de um amor que nunca acabe.
Vem, porque jurar amor é qual cantar,
E, Milena, cantar é tão bonito!
É bonito como o encantamento dos teus olhos,
Quando sonhas debruçada na varanda.

Vem arder entre lençóis, quentes carícias,
Nossos corpos, qual vulcões ensandecidos,
Se espremendo numa fúria delirante
E na dança alucinada dos desejos.

Vem, Milena, ver cantar meus sentimentos,
Vem sentir o aconchego dos meus braços,
Vem fazer do meu abraço tua casa.
Tua casa, o teu canto é meu abraço.

2007


III

(ÚLTIMO POEMA A MILENA)


Adeus, Milena, até nunca mais...
Nunca mais um verso te farei.
Até nunca mais, Milena, adeus.

Ainda que eu fosse o mais brilhante orador,
e por todo este mundo retumbasse minha voz,
e, perplexas, as turbas em frenesi me aplaudissem...

Ainda que eu cantasse a canção mais linda,
e cantasse de forma tão doce, tão sentida,
que fizesse prantear as multidões...

Ainda que eu aniquilasse os demônios do universo,
e cruzassem fronteiras minha força e a bravura,
e eu fosse aclamado do planeta o grande herói...

Ainda que eu fosse algo como um vivo deus
e operasse milagres estalando os dedos simplesmente,
e os homens me louvassem em milhões de reverências...

Ainda assim eu teria dos teus olhos o desdém,
a tornar-me nada mais do que um rasteiro verme.
A tua voz, sem calor ou sem doçura, faria ainda assim
De minh'alma nada mais que um monte de escombros.
Adeus, Milena, até nunca mais.
Até nunca mais, Milena, adeus.

2008
Barão da Mata
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A MINHA BELA

A minha bela não é mais bela
Do que as outras belas do mundo,
Mas, quando sorri, eu percebo:
Nenhum riso tem tanta manhã.

A minha bela tem os olhos
Belos como os das outras belas,
Mas, quando me olha, eu vejo:
Não há olhos tão cheios de céu.

Quando o vento lhe bate no rosto,
Imagino um sem-fim de poemas,
Olho o semblante da bela e penso:
Nenhum rosto tem tanta viagem.

Se não é mais tudo, a bela
Assim simplemente parece,
Por ser aquela que amo,
Não haver delírio maior do que amar.

2010
Barão da Mata
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BELA... LINDA...

Bela... bela... bonita...
Bonita... linda... linda...
Bela como a noite quieta
A cantar silenciosa
Aos corações enamorados.


Bela... bela... linda...
Loura como o sol dourado
A ornar as praias, praças
E ruas da cidade.


Seus olhos verdes parecem um mar de águas amenas
Repousando na paisagem,
Encontrando o céu claro
Na linha do horizonte.

1989
Barão da Mata
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A AMANTE DAS ARTES

Um poeta pousou na minha minha vida
E saiu batendo asas logo após.
Ficou tudo cru, tão rude no meu mundo...

Um flautista tocou lindo em meus momentos,
Mas durante um tempo inda menor.
Fez de mim não mais que só silêncio.

Um sambista fez folia nos meus dias
E sumiu com seu pandeiro de repente.
Fez de minha alegria meras cinzas.

Um palhaço trouxe graça à minha vida
E num mês partiu pra sempre com seu circo,
E eu chorei convulsamente por bons dias.

Um ator representou sol renascido,
Mas dois meses foi o tempo que ficou.
Nem consegui dissimular a dor tamanha.

Um pintor me veio e coloriu-me a existência,
Mas partiu com suas telas em seis meses.
Fez minh'alma tão cinzenta e tão sem cores...

Vem chegando um paisagista à minha estrada
E vai fazê-la bela, ornada e floreada,
Tenho esperanças que pra todo, todo o sempre.

2010
Barão da Mata
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ALMA EM LUZ

Eu tenho alma,
E um samba tão bonito, vindo lá da rua
Vem chamar minh'alma a ir sambar.

Eu tenho samba,
E um desejo de viver me acende numa lira
Que se enche de louvor à noite alegre.

Eu tenho lira,
E ela queima como a rua, a noite, o samba,
Vicejada das pessoas e das luzes de artifício.

Eu tenho luzes
Que me brilham n'alma viva, tão vibrante,
Que parece que jamais (a alma) se apagará.

2010
Barão da Mata
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A LADEIRA

A minha casa
fica bem numa ladeira
que a gente sobe
pra namorar
e brincar com as estrelas.

Uma ladeira
que a gente sobe
pra ficar olhando o mundo,
pra falar e ouvir asneira,
pra sentir mais perto a lua,
pra beijar, fazer besteira.

A gente sobe
pra ficar cheirando a brisa,
pra ver as luzes
e ficar longe do mundo,
pra viver num outro mundo
que a gente inventa
e é despido de maldade,
que é tão pequeno
e tão denso de lirismo,
e é de pura poesia.

A minha casa
fica bem numa ladeira
que a gente sobe
pra sentir-se outra pessoa,
pra se ver purificado
e deitar no céu da paz.

2010
Barão da Mata




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CRIAR POESIA

CRIAR POESIA

Lidar co'as palavras,
Brincar co'as palavras como quem monta quebra-cabeças.
Salpicar as palavras nos versos,
Colocar as palavras nas pontas dos dedos
E soprar as palavras pra fazê-las levitar ao vento.
Lapidar os versos como se fossem pedras preciosas,
Retocar os versos como se fossem pinturas,
Arrumar os versos co'a mais zelosa combinação de palavras.
Puxar as palavras de dentro do peito como que arrancando o dorido [coração.
Deixar sair a suave palavra como se ela fluísse com a respiração.
Botar pra fora a odienta palavra como se fosse água fervente...

É assim que um poeta produz poesia,
É assim que se faz um poema daquilo
Que brinca na idéia ou que dentro do peito
Lhe fica a pulsar.

2011
Barão da Mata
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