A NOITE DA VOZ DO FOGO

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Naquela noite, acabada de anoitecer, o fogo foi ateado no centro da caravana.

A lua, especada no céu a norte, olhava incrédula as labaredas que se erguiam esguias no ar.

Uma faúlha após outra saltava do âmago do fogo e despencava no chão, como estrela cadente sem nome nem origem definida.

À entrada das tendas, as mulheres afadigavam-se na lavagem dos utensílios da parca refeição acabada de tomar. As panelas de alumínio feliz brilhavam na contraluz das chamas e os rostos indefinidos na imensidão das sombras que se acotevelavam ao redor da fogueira circulavam num alarido silencioso, como formigas em carreiro desgovernado.

Do nada, como do fundo da imensidão, uma voz forte marcou, como ferro em brasa, o torvelinho da azáfama que parecia não terminar.

- Porque esperais para começar a festa?

De dentro das tendas saíram em chusma homens e mulheres, jovens e crianças como se a todos a voz tivesse tocado profundamente, como se cada um tivesse sido beliscado fortemente. E cada um perguntou, num uníssono indesmentível e indecifrável:

- Quem foi que falou? De quem era a voz que ouvimos?

Todos se entreolharam e todos pareceram esperar uma resposta que não aconteceu.

À uma, as mulheres poisaram os aventais, secaram as mãos, ajeitaram os cabelos desalinhados, sacudiram e ajustaram as saias longas, coloridas, e avançaram para o centro da caravana, ao redor da fogueira. Cada uma olhou no olhar a que estava a seu lado e como se uma mola as impulsionasse num momento concreto, levantaram as mãos e iniciaram um bailado de palmas e bater de tacões no chão duro, gerando uma sonora e enérgica onda de sons que podiam ser ouvidos a muitos metros de distância.

Um homem de tez muito morena, quase castanha escura, saiu duma tenda ao fundo e dando-se ares de artista, tomou nas mãos uma guitarra e encetou uma melodia quase guerreira, de timbre muito vivo, intenso, felino mesmo, ritmada, que acompanhava na perfeição o compasso das palmas das mulheres e o sapateado que os tacões obtinham ao calcar o chão duro onde a vegetação tinha dado lugar a um espaço de poeira que agora se unia às labaredas que se erguiam no ar, em uníssono com o fumo branco que adornava a noite, qual incenso raro que adornava a magestade do silêncio e das sombras.

De seguida, veio outro e outro e em poucos segundos a osquestra era composta por quatro guitarras irmanadas numa melodia sinestésica e quatro vozes masculinas mescladas de tons naturais dignos de uma qualquer sinfonia clássica, unidas coerentemente com as palmas, o sapateado, as chamas e a plateia que bebia em perfeita sintonia o fulgor e a vibração daqueles seres fantásticos. A magia acontecia naquele espaço onde o fogo era o magma do cadinho de emoções.

Quando o cansaço se apoderou das mulheres, que suspenderam as palmas e o sapateado, o trinado das guitarras cresceu abruptamente, como se pelas notas que delas se desprendiam, quisessem atingir o supremo infinito dos céus. E as vozes dos homens num ritmo cada vez mais vibrante atingiu um patamar de quase extase, enquanto os jovens e as crianças tomavam o seu lugar ao redor do fogo e iniciavam uma dança ululante de alegria pujante.

Do nada, quando a lua se encontrava suspensa no ponto mais afastado do horizonte, uma coruja voou por sobre o acampamento, sacudindo as asas e agitando as línguas altas do fogo.

Ouviu-se de novo a voz que ninguém identificara, como se tivesse vindo do interior das labaredas. Todos se calaram instantaneamente, quando se percebeu um tremular estranho das chamas. E a voz disse quase gargalhando:

- O fogo arde nas almas, como as chamas na fogueira. Ser cigano é ser chama e fogo. E dançar e cantar sem cansaço até que o dia aconteça em cada novo dia. Dançai! O fogo nunca consome quem é fogo!

Os olhos cruzaram-se uns após outros e todos se penetraram pelo olhar até ao fundo das almas, até que uma voz de mulher emergiu no silêncio e cantou como se fora fogo em brasa.

E todos fizeram silêncio para ouvir a voz fogosa que cantava o fogo que vive nas almas dos ciganos que o são por inteiro.

Ía alta a noite, quando a coruja voltou a cruzar o cume das labaredas e todos perceberam que a noite tinha chegado ao fim.

Foi então que as crianças adormeceram no colo sereno das mães, os jovens se envolveram em beijos apaixonados e os homens e mulheres se aninharam no fofo dos lençóis de lua redonda.

Todos sonharam que era dia de amanhecer feliz.

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Em 17.Ago.2017

Paulo César * Portugal

Imagem Google

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