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O que é o haikai?

O que é o haikai?
Sílvia M L Mota

 
Origem do haikai

Quando a escrita chinesa chegou ao Japão, aproximadamente no século VIII da nossa Era, em pleno esplendor da dinastia Tang, assentava-se em mais de 20 séculos de história. Nesse momento, o Japão saiu da pré-história e iniciou a produção da sua rica literatura. A poesia chinesa clássica teve grande influência na literatura japonesa e o estilo dos poetas chineses foi deveras imitado.

As origens do Haiku estão no Haikai, forma poética marcada, pois que geralmente seu conteúdo se baseava no cômico e no divertido. Com o passar do tempo, o Haikai associou-se a outro estilo de composição poética denominado Renga, formando-se assim uma derivação do Renga - o Haikai-no-Renga – uma sucessão de poemas Haikai, que mantinha seu estilo. O primeiro poema que iniciava essa sucessão se denominava Hokku.
 
Matsuó Bashô, maior nome da origem do gênero, separou o primeiro poema do Haikai-no-Renga - o Hokku - libertando-o do Renga e oferecendo-lhe uma personalização estética e expressiva. No entanto, Bashô também chamava de Haiku o Hokku e isso fez com que no início, o Hokku fosse o mesmo Haiku. Com o passar do tempo, poetas como Masaoka Shiki separaram substancialmente o Haiku do Hokku, conservando o último a veia cômica, enquanto o Haiku adquiria um caráter espiritual.
 
Haikai - Haijin - Haiga
 
O Haikai é uma das formas de poesia tradicional japonesa mais difundidas.
 
Haijin é o nome que se dá ao autor de um Haikai. São Haijin importantes da história do Japão: Matsuó Bashô, anteriormente referido, assim como Yosa Buson, Kobayashi Issa, Usuda Arô, Masaoka Shiki, Uejima Onitsura, Ritsurin Issekiro, Arakida Morikate, Yamasaki Sokan, Ihara Saikaku (também chamado Ibara Saikaku), entre outros.
 
Para acompanhar o Haikai, muitos poetas realizam uma pintura - Haiga - geralmente, sem muita perfeição. Matsuo Basho foi o primeiro poeta a adotar essa forma, que hoje domina as grandes esferas desse gênero poético.
 
Estrutura do haikai

O Haikai tradicional consta de 17 moras (unidade linguística de menor classificação do que a sílaba) dispostas em três versos de 5, 7 e 5 moras, sem rima. O Haikai apresenta-se sem título e não deve conter mais do que um sinal de pontuação. Exibe uma palavra chave denominada kigo - forte indício sobre uma determinada época do ano e que, segundo Edson Kenji Iura (2000), é a alma do haikai tradicional. Além disso, apresenta uma cesura, ou pausa verbal, conhecida como kire, que separa o Haikai em duas imagens contrastantes. Nesse pormenor, construído em parte única torna-se explicativo e óbvio, e aquele realizado em três partes consome-se em típico Haikai prateleira,
 
Características e requisitos do haikai

Muito influenciado pela filosofia e a estética do zen, seu estilo caracteriza-se pela naturalidade, a simplicidade (não o simplismo), a sutileza, a austeridade, a aparente simetria que sugere a liberdade e com essa a eternidade.
 
Um bom Haikai é aquele cujo autor, situando o transitório (kigo) como eixo do poema, é capaz de transmitir as diversas nuanças da sensação ou emoção produzidas por esses elementos transitórios em 17 sílabas métricas, de forma harmoniosa, leve e sutil; de tal modo que o conjunto assim apresentado, possibilita a quem o lê, o reacontecer do transitório. Sendo um poema que descreve e registra a cena vivenciada pelo autor, será sempre simples e direto. O tempo verbal será o presente e não o gerúndio.
 
Quanto à sonoridade, diferente do Haikai difundido no Brasil (como o de Guilherme de Almeida, por exemplo), o Haikai japonês não apresenta rima como a coincidência obrigatória dos sons no final dos versos, mas sim um jogo intenso de “[...] mini-harmonias acústicas sutis, com inversões, espelhismos, aliterações, repercussões, harmonias imitativas, onomatopeias, ecos” (LEMINSKI, 1983, p. 35).
 
No concernente ao plano gráfico, o Haikai japonês não é apresentado isolado numa página e dividido em três linhas horizontais, como ficou mais caracterizado no Brasil. Escrito a pincel, o poema consiste num “misto de ideograma chinês com silabário, sempre parte integrante de um diário ou de uma pintura” (LEMINSKI, 1983, p. 31). O exemplo abaixo é um dos Haikais mais conhecidos de Matsuó Bashô:

Haikai - Bashô (1686)
Fonte: BASHÔ, 2002
 
O velho tanque
Uma rã mergulha,
Barulho de água.
Tradução de Paulo Franchetti e Elza Doi
 
São requisitos do Haikai: a ausência do eu - onde o poeta procura não transparecer sua individualidade e nem suas emoções; a não moralidade - pois questões morais configuram prosa e não poesia; a solidão - enlevo de estar só consigo mesmo; a grata aceitação - o que nos torna mais felizes, independente das coisas que nos aconteçam; a não intelectualidade - com o uso de palavras simples e a prevalência de mais substantivos do que adjetivos; a contradição - por influência do espírito zen, à semelhança dos koan (anedotas), que servem para o mestre treinar seus discípulos; a concretude - alusão às coisas concretas - sem abstrações, metáforas, comparações ou personificações de animais ou seres inanimados; e a impessoalidade - não referir pessoas, a não ser que permitido expressamente em uma competição.
 
Temática abordada pelo haikai
 
A temática do Haikai gira em torno dos fenômenos naturais e cotidianos, da passagem do tempo e os seus efeitos nos seres humanos, da exposição de momentos ou movimentos simples da natureza – primavera ou verão, outono ou inverno, amanhecer, meio-dia, entardecer ou anoitecer, uma montanha ou um rochedo, a Lua ou o Sol, os cometas ou os planetas, as estrelas ou as nuvens, as águas do rio ou do mar, as fogueiras no quintal ou as chamas de um vulcão, uma flor ou um pássaro – elementos esses que fazem parte daquilo que se denomina kigo.
 
Objetivos do haikai

A arte do Haikai objetiva produzir emoção através do simples; dizer o mínimo, mostrar o mínimo e sugerir algo.
 
O haikai no Brasil

Durante o século XX, o Haikai entrou para a literatura brasileira. Foi estudado e praticado de forma intensa, sendo divulgado primeiramente por Afrânio Peixoto, em 1919, no prefácio do seu livro "Trovas populares brasileiras", em que dizia: “Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encantamento intraduzível.” (GOGA, 1988).
 
Na segunda metade do século, diversos livros, ensaios, artigos, dissertações, teses, traduções, além de uma ampla divulgação via web, tratavam de traçar o histórico e as características, tanto do Haikai quanto da sua cultura original, a japonesa. Dentre as publicações, destacam-se os ensaios “Haicai: homenagem à síntese” e “Visualidade e concisão na poesia japonesa” (1977), de Haroldo de Campos; “Matsuó Bashô: a lágrima do peixe” (1983), de Paulo Leminski; “O haicai no Brasil” (1988), de Hidekazu Masuda Goga; As traduções dos ensaios de Octavio Paz: “A poesia de Matsuó Bashô” e “A tradição do haiku”, feitas por Olga Savary (segunda edição de 1986). Quanto aos primeiros poetas haikaístas do Brasil, encontram-se, entre outros, Waldomiro Siqueira Júnior, o primeiro a publicar um livro exclusivo de Haikais, “Hai-kais”, de 1933 (NOVAIS, 1996, p. 9); o poeta paulista Jorge Fonseca Jr., com seu livro de haikais “Roteiro lírico”, de 1939 (IURA, 2000); e o modernista Luís Aranha, com seu livro “Cocktails”, escrito em 1921, porém inédito até 1984 (IURA, 2010). Mas, o poeta que se destaca no cenário brasileiro como praticante do Haikai é o também modernista Guilherme de Almeida, que lançou em 1947 o livro “Poesia vária”, com 43 Haikais, dentre os quais segue o exemplo:
 
Chuva de primavera
 
Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.
(ALMEIDA, 2010)
 
Guilherme de Almeida e o haikai brasileiro

Guilherme de Almeida, é, nas palavras de Manuel Bandeira: “[...] o maior artista do verso em língua portuguesa.” Destaca-se no seu meio por transitar, sempre com desenvoltura, pelos meandros das diferentes formas poéticas. Inaugura, ainda, as primeiras trocas de informações sobre o Haiku e o Haikai entre os primeiros imigrantes e seus descendentes e os poetas nativos.
 
Três versos de dezessete sílabas métricas: o primeiro com cinco, o segundo com sete e o terceiro com cinco sílabas, além de uma rima interna no segundo verso, entre a segunda e a sétima sílabas, e outra ligando o primeiro ao terceiro verso, constituem a estrutura do Haikai lançado por Guilherme de Almeida e que ficou conhecido entre nós como haikai guilhermino ou haikai guilhermiano.
 
Eis o diagrama que o representa:
­_ _ _ _ X
_ O _ _ _ _ O
_ _ _ _ X
 
Haikai de Guilherme de Almeida:
 
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se: "Agora"
 
A partir da sua autoridade pela seara da Literatura, Guilherme de Almeida recebe o cognome de Príncipe dos Poetas e diversos poetas assumem, com galhardia, o novo formato poético.


Referências
 
ALMEIDA, Guilherme de. Haicais completos. Disponível em: http://www.terebess.hu/english/haiku/almeida.html>;. Acesso em: 12 jun. 2016.
 
BASHÔ, Matsuó. O velho tanque (haicai). Caqui: Revista Brasileira de Haicai, 11 ago. 2002. Tradução: Paulo Franchetti e Elza Doi. Disponível em: http://www.kakinet.com/caqui/umhaiku.shtml>;. Acesso em: 12 jun. 2016.

NOVAIS, Carlos Augusto. O rigor da vida e o vigor do verso: o haikai na poética de Paulo Leminski. 1996. 179 f. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
 
ODA, Teruko. Haicai: a poesia do Kigo. In: Hai-kais ao sol. CASTRO, Débora Novaes de (Coord.). São Paulo: Livro Arte, 1995.

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