DIAMANTE BABPEAPAZ

Entre a Terra e o Olimpo a milenar fogueira das vaidades!


Entre a Terra e o Olimpo

a milenar fogueira das vaidades!

Em determinadas conjunturas, ninguém deseja “perder” nada! E, a situação agrava-se, quando o tema é a intelectualidade. Por este caminho ocorre o desregramento das paixões humanas. Um breve olhar sobre a humanidade de ontem e de hoje, demonstra que o meio social no qual ocorre a maior falta de ética e demonstração de inveja é o que abriga a vaidade intelectual. Nada é pior ao detentor desta vaidade, do que se sentir “ameaçado” pela opulência mental do seu opositor.

Historicamente, Caim matou Abel por ciúmes (não terá sido por inveja?). Por ostentação, mesmo possuíndo diversas mulheres, Davi cobiçou a mulher de Urias, enviando-o para ser morto em combate na guerra. Assassínios. Cicutas. Fogueiras. Decapitações. Guerras se travaram. Sabe-se que, através do tempo e do espaço, o mundo vive mais em guerra do que em paz e, praticamente, todas decorrentes dos delírios insinuados pela vaidade humana. Triste, mas verdadeiro.

A vaidade pelo saber ignora e despreza, oprime e humilha o diferente, hoje traduzido como minoria. É a mais desprezível das vaidades. Eleva o ser humano às grandes alturas da sua (in)competência, mas, inexorável, lança-o à espurca prisão de onde veio: seu próprio interior. O vaidoso dessa estirpe sucumbe frente ao primeiro golpe fatal. Padece de inveja, o mais conhecido vício da Humanidade. Não lhe existe salvação, nem mesmo o direito a um último apelo: apenas, apodrece e morre. Envenena-se, inevitavelmente, à própria picada.

Sobre o tema, Mário Quintana alerta, de forma assustosa: “A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta.” Por tal razão, é prudente resguardar-se quanto aqueles que se anunciam humildes, passivos e omissos, para viverem melhor; e, da mesma forma, quanto aos que permanecem “sobre o muro”, para amealhar discípulos frágeis, com a intenção de manipulá-los a seu favor. Não sem razão, Machado de Assis anunciava a vaidade como o princípio da corrupção. Nas palavras de Francis Bacon: “Os vaidosos são os joguetes desprezados dos homens sábios e discretos, o objeto de admiração dos tolos, os ídolos dos parasitas e os escravos de sua própria vaidade."

Para evitar o exercício do poder arbitrário através de líderes doentios, quando se convive num grupo humano, a mudança de paradigmas exige explicação consistente. O estabelecimento de regras pré-determinadas, que estabeleçam, com base no consenso, o âmbito da liberdade de cada ser atuante, também contribui, em muito, para o bem estar do homem na sociedade. Ao contrário, corre-se o risco de uma convulsão social. Neste estágio, perde o grupo e perde a sociedade, como um todo, porque poderia usufruir do bem em desenvolvimento. A individualidade é coisa do passado... e muito distante mesmo!

No mundo contemporâneo, urge o diálogo. Nada deve ser imposto sem explicação. Neste sentido, a Arte da Argumentação fascina! Existem estudos científicos e literários a respeito. É preciso estudar muito, para depois colocar em prática o que se aprendeu. Não obstante, o mais difícil parece ser a mudança de posicionamento, quando se percebe o erro. Pedir desculpas não dói e nem mata, mas, aos que ostentam a vaidade intelectual, é sofrimento pior do que ser vitimado por cancro.

Os argumentos pretendem fundamentar opiniões, de maneira razoável. Por isto, tão relevantes. Um líder que exerce boa argumentação permite uma explicação clara, concisa e objetiva de uma ou mais ideias. Nesse embate dialógico, alguns pontos de vista prevalecem, em detrimento de outros menos consistentes. Para que haja a aceitação do auditório (expressão de Chaïm Perelman), deve-se apresentar ao interlocutor argumentos cativantes, levando-o a acreditar que os pensamentos oferecidos são aptos à criação de nova ideia. Uma coisa é convencer, outra é persuadir. Nada deve ser imposto, porque não funciona. Até uma frágil criancinha deseja explicações para o que lhe proíbem.

Decididamente, também não é produtivo compactuar com “achismos” eloquentes. Existem indivíduos que defendem ou condenam uma ideia sem ao menos saberem o significado da palavra, objeto do seu discurso. Contradizem-se o tempo todo, mas não se calam. Nesses momentos é necessário que o líder se imponha, mostre quem é e o que sabe. A depender do auditório, modifica-se o discurso, pois é necessário o bom senso de saber que a fala se deve adequar a cada meio. Entretanto, se a arrogância intelectual do auditório é veementemente fundada na ignorância, é perda de tempo insistir, sendo melhor calar. Não obstante, até por questões pedagógicas deve-se anunciar a razão da desistência e pedir ao interlocutor que estude a matéria, antes de nova conversa.

Tanto a ignorância quanto a arrogância intelectual levam à inveja e à arbitrariedade - esta, de há muito ultrapassada, por ser caminho certo para a Injustiça Social.

É necessário apurar os sentimentos, ser vigilante quanto ao próprio interior, ou provocar-se-á sofrimento individual e coletivo desnecessário. Este pensamento encontra respaldo na reflexão dos autores clássicos quando salientam que estão os invejosos condenados a odiar de forma inexterminável, porque o ódio nascido aos efeitos da ira apazigua-se frente à reparação do dano, enquanto o ódio surgido dos sentimentos invejosos nem arrefece e nem se submete a nenhum pedido de retratação. Literalmente, o invejoso ignora o alcance do perdão. Benefícios que se lhe ofereçam somente o irritarão ainda mais. Neste compasso, pergunto-me: sem o perdão, como saber quem sou?

De forma assustadora aos meus ouvidos, Granada (1848) expõe o alcance da inveja: "[...] é um dos pecados mais estendidos [...] Impera em todo o mundo e mora especialmente nas cortes e palácios, nas casas dos senhores e príncipes, nas universidades e cabidos e ainda, nos conventos de religiosos [...] seu objetivo e meta é perseguir aos bons e aos que por suas virtudes são altamente apreciados."

Leio, releio... e constato que o texto em destaque continua, por infelicidade, atual. A exposição diária e global oferecida pela Internet oferece-nos de forma transparente aos sorrateiros invejosos de plantão. Seres sobremaneira inferiores permitem-se dominar pela maldade em epígrafe. Chegam ao extremo de perder a própria identidade, porque o tempo todo vivem o Outro, alvo do seu furor mental. Por desejarem de forma doentia o status do Outro, relegam a segundo (ou terceiro, ou quarto...) plano os próprios dons. Ao tempo e pelo tempo perdido, tornam-se irrelevantes para a sociedade. Descompassados. Alcançado este estágio, tudo se espera, desde o suicídio até o surgimento de um criminoso.

Encerra-se este texto a salientar que o aforismo secular de que a vaidade se extingue com a morte, após a qual todos se igualam, não pode ser considerado absoluto, pois o ser humano afunda-se na desigualdade e transcende a própria essência da finitude humana. É o que se pode observar em Alexandre Dumas Filho, na passional e famosa obra “A Dama das Camélias”, ao expor o diálogo entre um jardineiro e o visitante de um cemitério:

“Quero dizer que existe gente que é orgulhosa até no cemitério. Parece que esta mademoiselle Gautier fazia a vida, desculpe a expressão. Agora ela está morta e é igualzinha às mulheres que nada fizeram de reprovável e das quais regamos as flores todos os dias. Pois bem, quando os parentes das pessoas que estão enterradas ao lado dela souberam a vida que essa moça levava, revoltaram-se por ela ter sido enterrada aqui e disseram que deveria haver um lugar só para esse tipo de mulheres, como há para os pobres. O senhor já viu uma coisa dessas? Eu teria posto essas pessoas no lugar delas! Gente gorducha que vive de rendas, que não vem sequer quatro vezes por ano visitar seus defuntos, que traz pessoalmente as flores... e veja que flores! Eles reclamam dos gastos de conservação das sepulturas daqueles por quem dizem chorar, escrevem nas lápides sobre lágrimas que jamais derramaram e se fazem de difíceis, querendo escolher a vizinhança.”

Sem mais, é preciso refletir: - "Serei um arrogante intelectual?" Afirmativa a resposta, impõem-se outra: - "O que devo fazer, para curar o vício que me aflige?" Rejeitar a possibilidade de realizar estas perguntas é a prova mais eloquente de que o mal, nessa mente, se instalou.

Sílvia Mota a Poeta e Escritora do Amor e da Paz

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