DIAMANTE BABPEAPAZ

Meus versos na madrugada fria...

Meus versos na madrugada fria...

Aquele friozinho gostoso... modorra gostosa... um soninho gostoso, interrompido por um barulho ou um desejo qualquer. Acordada, então, ou "quase acordada", permaneci enrodilhada ao meu edredon de oncinha, vestida num babydoll vermelho, quietinha, a pensar na vida... Os lábios, ainda marcados de ermo baton, mordiscavam de leve o braço esquerdo, a comer o perfume que rescendia do meu corpo, pelo lado do coração... Mas, com aquele frio, enfiada num babydoll?.. Sim, intimidade; o quê fazer? Eu-mulher subjugo o frio com edredon e, se necessário, envolvo-me num cobertor, ou dois, ou três, ou mais. Mas, Eu-fêmea, ainda que seja para entregar-me aos braços de um sonho sem sexo, conquanto sensual, mimoseio-me com lingerie bonita e rendada. Sou assim e não me quero diferente...

Naquele momento, estava só. Algumas palavrinhas poéticas iniciaram uma brincadeira no meu pensamento. Lindas! Inocentes! Soltas! Graciosas! Serelepes! Precisava registrar tamanha beleza! Mas, logo naquele momento? Sairia dali, não. Frio. Muito frio e muita lassidão! 

Minha preguiça resmungou, aconchegando-se ainda mais ao edredon: - Ahnnn! Amanhã escreverei este poema... 

Uma voz suave, alertou-me: - Amanhã, terás esquecido... 

Mas, a preguiça preguiçosa retrucou: - Claro que não! Muito bonito, para esquecer! Amanhã, agora não... 

- Lembra-te daquela noite, na estrada? Não me destes ouvidos, preferindo cochilar, preguiçosa, ao balanço do carro. Viste no que deu! Nem do primeiro verso te lembravas mais, quando chegaste ao destino!!! E, castiguei-te, escondendo aquela maravilha! 

- Mas está frio... e tenho sono... amanhã... 

Reclamei baixinho, com a língua enrolada, a rebolar o corpo mais para o centro da cama.

Impaciente e quase raivosa, a consciência poética (não sei por qual razão, mantinha-se acordada até aquela hora!) vaticinou: - Tudo bem... Talvez percas, mais uma vez, um pedaço de ti, ou, quem sabe... um pedaço de alguém... 

Foi o que bastou! Afinal, tanto perdera na vida, por fazer ouvido mouco à minha consciência! Afastei o edredon, devagar... Levantei-me. Pés langorosos arrastados, torpor entorpecido pelo sono... acendi a luz do escritório. Apanhei o primeiro pedaço de papel que vi na minha frente (vi, mesmo?), segurei a caneta lasciva e rabisquei meus versos, que escorreram libertos... Li. Reli aqueles garranchos, rapidamente, porque urgia abraçar a cama. E, reli e gostei e repeti tudo em voz alta. Só mais uma vez... depois iria para a cama... Não é que eu melhorava a cada êxtase poético? Então, na ânsia incontida de alcançar ouvidos inexistentes, declamei com ardor... e perdi o sono por entre aquele sonho todo... 

A madrugada sorridente acolheu-me de braços abertos. Encontrara outra solidão, para dividir a sua. E, ao enlevo do luar, escrevemos muitos versos de amor. Rompemos o dia. Ingressamos no dia. A madrugada, nua. Eu, naquele frio, de babydoll vermelho. O edredon de oncinha? Abandonado, na cama vazia e desfeita.


Cabo Frio, 29 de julho de 2009 - 9h05min.
Reeditado em 5 de abril de 2010 - 5h23min

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Comentários

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    COMENTÁRIOS REALIZADOS NO PORTAL PEAPAZ

    COMENTÁRIO DE JAIME DA SILVA VALENTE EM 15 ABRIL 2010 ÀS 1:02

    Reli com gosto, quem sabe não sonho com esse babydoll?!...
    Obrigado! Beijos.

    COMENTÁRIO DE EDUARDO EUGÊNIO BATISTA EM 23 MARÇO 2014 ÀS 14:38

    Ainda bem que tu manteve a teimosia de escrever, porque tudo pode escapar e ser esquecido depois do insistente sono. Perdi muitas poesias assim, dormindo acordado e acordado dormindo, as deixei escapar... Hoje, uso um truque muito bom, na minha insistente preguiça e com o notebook desligado, ligo o celular e gravo os meus versos então depois sim, durmo bem tranquilo. Abraços

    COMENTÁRIO DE LOUBAH SOFIA EM 12 ABRIL 2014 ÀS 21:16

    Consegui imaginar tão vivamente tua descritiva do frio do edredon de oncinha, do baton que até estremeci com frio também (risos)
    És uma maga quando disparas a narrar tuas fantasias poéticas prendeu-me encantada e já e li e reli e olha que graças aos céus que tua consciência poética é bem cheia de atitude e não deixou-te passar para o dia seguinte, senão correria cá o risco de não ter usufruído desse dialogo/monologo tão belo.
    Que delícia... Edredon macio, perfume sonolento, aquele calorzinho de sono sonhado, é bom demais e confesso-te que também para mim é uma tortura quando vejo-me obrigada a sair do ninho. Mas depois valeu a pena... O poder da criação sempre fala mais alto e é ecompensador.
    Amo ler-te, pois toca-me o espírito e leva-me as raias de tantos tipos de emoções que as vezes fico cá a cismar, o quanto sois única e mágica.
    Linda obra, deliciosa partilha, bisousssssss todos e muitos com carinho, uma madrugada tão bonita quanto essa eternizada em tua escrita.

    COMENTÁRIO DE HELDER GONÇALVES EM 12 ABRIL 2014 ÀS 21:38

    Alguém abriu o baú das recordações e sacou este maravilhoso texto poético, porventura esquecido, esperando que, um dia, viesse outra vez à luz do dia. Ao lermos este poema de um momento de intimidade em que os pensamentos se esgueiram num qualquer papel, numa noite fria, não podemos deixar de focalizarmos nossos olhos e acompanharmos todos os movimentos desses monólogos silenciosos do pensamento. Nessa madrugada fria, sem o aconchego do edredon largado na fofa cama, foi dada prioridade ao poema que estava a germinar na solitária intimidade poética no pensamento, com doces laivos de uma suave sensualidade de mulher.
    Simplesmente maravilhoso
    Hélder Gonçalves

    COMENTÁRIO DE PAOLO LIM EM 12 ABRIL 2014 ÀS 21:57

    Saborosíssimo! Bravo!

    COMENTÁRIO DE LAIS MARIA MULLER MOREIRA EM 13 ABRIL 2014 ÀS 10:29

    Pelas madrugadas ou em determinadas horas desejo premente de transcrever algo é verso que sente verso que acrescente o viver.
    Belo texto inspirado num momento criativo!
    Parabéns!
    Beijo

    COMENTÁRIO DE LÚCIA CLÁUDIA GAMA OLIVEIRA EM 13 ABRIL 2014 ÀS 12:43

    Belíssimo!!!
    Beijossssss

    COMENTÁRIO DE MARCIA PORTELLA EM 13 ABRIL 2014 ÀS 18:44

    Belo,sensual,e instigante...Te abraço

    COMENTÁRIO DE WAULENA D'OLIVEIRA SILVA EM 14 ABRIL 2014 ÀS 20:46

    Adorei Silvia!!!! Vamos lendo e a cada linha se delineia ante os olhos as cenas...
    Com a maestria de sempre, nos conta sensualmente os encantos desses poemas que nos batem à porta e não desistem até brotarem em folhas brancas.
    Bjs Querida!!
    Wau

    COMENTÁRIO DE MÔNICA DO S NUNES PAMPLONA EM 15 ABRIL 2014 ÀS 18:10

    Uauuuuu Sílvia. Adorei!!
    Danada dessa preguiça que por vezes nos faz esquecer um poema inteirinho! rsrsrrs
    Quase pude ver a cena ao sair da cama... Parece até que se carrega toneladas nos ombros.
    Parabéns por mais essa pérola.
    Bjsssss

    COMENTÁRIO DE ENIDE SANTOS EM 16 ABRIL 2014 ÀS 16:01

    Suas letras te acordaram elas são bem assim mesmo!

    COMENTÁRIO DE SELDA MOREIRA KALIL EM 16 ABRIL 2014 ÀS 22:08

    Quanta imaginação hemm Silvia
    Belo sensual e gostoso de ler-se
    Parabéns querida... Gde beijo

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