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13 de Janeiro de 2011

Hoje levantei-me cedo, eram seis e um quarto. Agora tenho que me levantar todos os dias cedo. Fazia muito frio e só me apetecia ficar deitado no quente dos meus cobertores macios. Uma aragem entrava pela janela quebrada do lugar onde durmo, que não é um quarto, mas um sítio ao canto da divisão a que chamamos sala, mas que não é sala, nem quarto, nem outra coisa qualquer. Durmo a um canto, sobre uma placa de madeira e um colchão muito velho que o meu pai recolheu junto a um caixote do lixo. Foi o colchão de alguém que entretanto comprou um novo e como eu dormia no chão, em cima daquela tábua dura, o meu pai achou que seria mais fofo se eu dormisse sobre um colchão, mesmo que velho. E eu gostei! O mal estar que sentia, passou e agora posso até dizer que durmo que nem um anjo. Apesar do frio cortante que penetra os cobertores, também velhos, e vem adormecer comigo, como se também o frio quisesse aquecer-se junto à minha pele de criança.

Levantei-me e comi um pedaço de pão seco que restou do jantar de ontem. Não havia leite no frigorífico que está desligado da corrente que não temos em casa. O frigorífico é apenas uma coisa que faz parecer que temos o essencial para vivermos. Comi aquele pedaço de pão seco e vestido com aquelas roupas usadas, que uma senhora me deu há uns meses atrás, lá segui, no meio da semi-escuridão do dia mal amanhecido, para a fábrica. O saco do almoço já estava preparado desde a noite anterior. A minha mãe aviou uma lancheira com sopa, que a associação de apoio da vila nos deu, e colocou também uma maçã muito engelhada. Ia ser o meu alimento da jornada.

Cheguei eram sete e quarenta e oito. Do sítio onde moro até à fábrica são ainda vinte minutos a pé. E o frio era tão grande! Cheguei gelado, não sentia as mãos que meti no fundo dos bolsos rotos das calças e os meus pés mais pareciam dois pedaços de pedra. Não os sentia, tal era o gelo daquela madrugada.

À entrada da fábrica encontrei mais dois rapazes que trabalhavam como eu e que tinham mais ou menos a mesma idade. Eu tenho doze anos!

A fábrica de calçado funciona nas traseiras da casa de família do dono e nós trabalhamos todos os dias, às vezes até aos domingos, das oito da manhã até às oito da noite. Cosemos sapatos e botas, à mão. São sapatos de marca, que eu já vi à venda em lojas finas da cidade por preços que pagariam cinco vezes o ordenado que recebo.

É um trabalho difícil. Apesar de estar sentado todo o dia, doem-me muito as mãos, da força que temos que fazer para apertar bem o fio da cosedura, e as costas, por ter que estar sempre dobrado sobre a bancada baixa onde os sapatos e as botas são colocados para serem cosidos.

São horas e horas seguidas sempre a coser e o patrão sempre em cima de nós, controlando e exigindo mais e mais destreza, para que a produção cresça sem cessar. Só conseguimos falar à hora de almoço, lá pelo meio-dia e meia. E só temos meia hora de almoço! Nem descansamos! Comemos à pressa a comida fria, gelada, e voltamos de novo aos nossos postos, dobrados e esforçados sobre os sapatos e botas finas, que serão vendidas a gente de posses.

O meu pai ficou desempregado há dois anos e tem graves problemas de saúde. Não consegue trabalho. Já tem quase cinquenta anos e ninguém lhe dá trabalho. A minha mãe faz limpezas num grande empresa, mas tem um ordenado muito baixo e trabalha longe. O que ganha não dá sequer para comermos todos durante o mês inteiro. Somos quatro lá em casa. O meu pai, a minha mãe, eu e o meu irmão mais velho, que tem quinze anos e que também está a trabalhar nas obras numa cidade dos arredores e só vem a casa ao fim-de-semana.

A minha mãe chora todos os dias, angustiada pela situação em que nos encontramos. O meu pai está cada vez mais solitário. Isola-se, fala sozinho, maldiz a sorte da vida e quando a minha mãe tenta que ele se anime, apesar da sua própria tristeza, ele grita, barafusta, pragueja e sai porta fora. Vai sentar-se debaixo duma oliveira velha a olhar o horizonte e já o vi a chorar. Quando me aproximei para lhe fazer uma pergunta, percebi que chorava. Voltou a cara para o outro lado e gritou comigo.

- Sai daqui. Raios... Não me venham chatear...

Voltei a casa e também a mim me apeteceu chorar, mas consegui conter-me. A miséria apanhou-nos sem misericórdia e a nossa vida deu uma volta de cento e oitenta graus.

Deixei a escola, pois o dinheiro que consigo na fábrica sempre ajuda a minorar as dificuldades. O meu pai não queria, mas não restou alternativa. E eu lá fui trabalhar.

Não tenho protecção social de nenhum tipo. O trabalho é ilegal, eu sei, mas é a única maneira de ajudar a enfrentar os problemas da minha família. Gostava de poder continuar na escola, mas...

Aqui há uns tempos apareceu uma equipa da inspecção do trabalho na porta de casa do dono da fábrica e, tal como está combinado desde início, nós saímos todos pela porta das traseiras e fomos para o campo, para um lugar combinado, até que os fiscais saíram da fábrica. Depois o patrão chamou-nos e voltámos ao trabalho. Naquela semana descontou-nos uma hora de trabalho, que foi o tempo em que os fiscais estiveram na fábrica.

Há dias em que estou no trabalho e me apetece fugir. Fugir dali e ir queixar-me à polícia, à câmara municipal, aos serviços da segurança social. Mas depois penso... Que vai ser da minha família e de mim, sem a ajuda deste dinheiro que levo daqui? E continuo a trabalhar, com um nó preso na garganta e uma revolta surda a bailar no meu pensamento.

Talvez um dia eu consiga libertar-me desta escravidão e arranjar maneira de acabar com esta exploração.

Mas enquanto não consigo isso, vou continuar a levantar-me muito cedo, a comer mal, a regressar tarde e a dormir pouco para ajudar os meus pais e a mim mesmo.

Voltarei amanhã, diário. Para registar mais um dia. Igual. Repetitivo. Irrelevante.

3542215954?profile=originalPaulo César * Portugal

Em 21.Nov.2014

 

3542216060?profile=originalImagem Google

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