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Vens perguntar-me pela escola?

Fala meu olhar de fundas olheiras...

 

A minha escola é não ter escola nenhuma...

A minha escola fica nas traseiras da minha fome,

na fronteira, minada e farpada, da minha miséria,

nos arrabaldes da sorte que é minha madrasta

e me chama todos os dias, bem cedo,

para tirar descanso ao meu sono

e me fazer homem.

 

Sim, homem... menino- homem...

 

Estás a pensar que não tenho brinquedos...

Engano teu! Eu brinco de ser gente grande!

E sou maior que tu, que te engrandeces com o meu trabalho

e pisas o chão que eu piso, descalço,

com os sapatos que eu coso...

Vestes a camisa branca, que te dá status,

enquanto eu, nu, ensopo o espaço com o meu desejo febril

de ter uma t-shirt usada com uma estampa colorida

onde alguém escreveu “i am free”...

 

“I am free”... que quer isso dizer?

 

Doem-me as mãos, os pés, a pele, a alma...

Se eu tenho alma? Que é um homem sem alma?

Sim, eu tenho alma... uma alma grande de menino-homem!

E é com ela que trabalho sem cessar

para receber algumas poucas moedas

daqueles trinta dinheiros com que queres comprar

a minha liberdade de ser gente com futuro.

 

Não, eu não vou à escola...

Não há tempo na minha miséria para coisas triviais

como ir à escola.

A fome, a doença, o abandono, a exclusão

são mais urgentes do que aprender a ler, a escrever e a contar!

 

E quando a fome aperta e o cansaço me vence

eu esqueço que sou menino-homem

e sonho que sou apenas criança...

Sim, eu tenho sonhos que trago cosidos à minha pele

do lado de dentro dos meus olhos fundos,

no sítio onde ainda bate o coração.

 

Não sonho ter esses devaneios de gente de status...

O meu sonho é tão pequeno como eu

e mora comigo no casebre de entulho

que construí para me abrigar da fome, da miséria, da exclusão,

que campeiam nos lugares todos onde o meu sonho acontece.

 

Que sonho eu?

Ah, se tu pudesses viver o meu sonho...

Certamente virias comigo aprender a ler, escrever e contar,

sob um telhado de colmo com lugares sentados no chão

e um quadro negro, como a minha existência,

onde alguém escreveria: data, sumário...

A minha escola!  

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Paulo César * Portugal

Em 14.Nov.2014

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Uma escola... em África. (Imagem Google)

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