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No dia seguinte ao dia que fui estuprada, fui a escola e aconteceu o inesperado. O professor fazia a sua caminhada normal entre as carteiras da sala. Ia se aproximando de mim e de repente, nem sei porquê comecei a gritar e a pedir-lhe por favor para não aproximar-se de mim. A turma toda focou paralisada e ele também.  Ele mandou chamar a directora da escola e esta à minha mãe.

Um dos meus colegas foi a correr chamar a minha mãe que chegou cerca de uma hora depois. Ela vinha chateada e não deu-me tempo de falar e nem deu a directora tempo de poderem conversar. Ela disse a directora que eu estava com mania e que ela sabia como me tratar. Pegou-me na mão e saiu disparatada para a casa.

Entramos, ela a frente e eu atrás arrastada por ela. Já dentro da casa recebi a sentença. Eu podia ir a escola se quisesse mas teria que comprar os cadernos, a bata, a caneta e os lápis com os meus próprios meios. Que eu sempre podia recorrer-me ao Senhor Advogado Court Lawyer. Soube neste momento que a minha mãe queria de mim.

Eu não lhe podia satisfazer o desejo, eu estava com medo de homens. Se um homem se aproximasse de mim, via nele o violador e punha-me a tremer e fugia a quatro pés. Resolvi procurar emprego. Eu tinha um corpo volumoso e parecia muita mais velha do que realmente era. Fiz de tudo, lavandeira, cozinheira, empregada doméstica… Passei a estudar de noite. Durante o dia era empregada. Recebia tão pouco que nem dava para comprar tudo que precisava para estudar. A escola era de graça. E o pior foi quando comecei a receber…. Minto, o pior foi o trabalho.

No primeiro dia tive que lavar roupa na tina, isto não foi nada, carreguei quase vinte quilos de roupa suja até a lavandaria que situa-se perto de Lém Ferreira no caminho do aeroporto e do Porto da Praia, cerca de dois quilómetros. Quanto mais andava mais pesada era a carga.

Cheguei literalmente quase morta e tive que brigar por um tanque com duas outras concorrentes. Não percebo até hoje, como consegui chegar ao fim do dia viva e com toda a roupa à casa da minha patroa por um dia. Estava com tanta fome que a comida esquentada que ela me deu, me pareceu um manjar divino, embora soubesse que já devia estar no frigorífico quase uma semana.

Recebi o combinado e fui para a casa. Mal cheguei a minha tomou metade do que havia ganho. Já que eu estava a ganhar algum, tinha que contribuir para as despesas da casa. Foi assim durante três longos anos, que tive de fazer de tudo um pouco para sobreviver longe de qualquer homem, até que encontrei uma amiga que me tirou o medo que antes tinha.

Mas este é outro capítulo da minha vida, eu Laurentina Maria Lara da Silva juro que fui a empregada doméstica para quase todos os serviços dos 13 aos 16 anos de idade!

 

João Furtado

Praia, 25 de Novembro de 2014

http://joaopcfurtado.blogspot.com

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