A REUNIÃO DOS PÁSSAROS

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A REUNIÃO DOS PÁSSAROS

Mauro Martins Santos - Moji Guaçu-SP

   

Certa vez em um reino - nem perto nem longe, nem passado nem presente - designou-se ao arauto do reino, a missão de convocar os pássaros do lugar a opinarem sobre importante assunto, que, a todos interessava.

    Dada a profusão de espécies de pássaros, o arauto foi orientado a selecionar os que para o castelo deveriam seguir: o tico-tico, o chupim, o pássaro-lira, o pavão, o quero-quero, a gralha e o joão-de-barro, foram os escolhidos.

   O assunto em pauta, colocado pelo rei era sobre a Pasta da Habitação.

O senhor Primeiro Ministro em tom solene disse: - Com a palavra o senhor João-de-barro.

Este, sem mais delongas, como é de sua índole, apresentou ao assunto em pauta o sistema de construção de sua casa e de toda sua família ao longo dos séculos. Tão eficiente e eficaz a ponto de ser cobiçado não só pelos demais pássaros bem como por todos os animais, inclusive o homem.

  Demonstrou de forma simples; no momento em que o Ministro manda um serviçal trazer uma bandeja, contendo uma boa porção de argila da qualidade indicada pelo João-de-barro. Mostrou como escolhia esse tipo de argila, como fazia a bolotinha e como voava com ela no bico assentando-a como hábil construtor, uma ao lado das outras, levantando assim gradativamente e em círculo, primeiro o alicerce. Este, no local escolhido iria dar a forma à sua casa.   A parede era sem arestas, arredondada e dinâmica, para não sofrer com os vendavais. Sólida como barro queimado no forno, com entrada protegida do soprar dos ventos, das chuvas e das agressões, construindo para isso um quarto privativo do casal, dividido por uma paredinha interna, para si e a esposa, fazerem o ninho.

   E observem; ao longo dos séculos, nenhuma Joana-de-barro (considerada uma das mais exigentes esposas de pássaros) recusou o modelo ou pôs defeito na segurança do lar levantado pelo marido.

  Senhores -diz o passarinho de uniforme marrom cor de barro - melhor aval de fiscalização não pode haver mais exigente do que o  de uma esposa de João-de-barro.

   Em seguida o Tico-tico descreveu seu sistema habitacional, confecção etc. queixando-se, claro, do Chupim que bota em seu ninho e deixa os rebentos  aos zelos da Titica - sua mulher...

   O Quero-quero falou de sua liberdade e amizade com os cavalos e o gado, seu voo e pouso demorado - junto a outras aves e animais - e sobre o solo tem  preferência, de alimentação e morada.

   Já a Gralha, falou sobre a sua falta de critério quanto ao uso de materiais, na construção de sua casa.

   O Pavão, ora o Pavão! Mais se exibiu do que falou ou explicou qualquer coisa.

   Disse o Chupim: - Para que construir minha casa? Dá um trabalhão danado! Eu tenho cá o meu sistema: minha mulher vai, bota no ninho da Titica e ela muito bobinha, não só choca nossos ovos junto aos dela, como ainda alimenta, e muito bem, meus filhotes. E mais, seus filhos já estão vivendo sozinhos e os meus, que não são tontos nem nada - puxaram aos pais - ficam grandões, maiores que a atoleimada Titica, e a lerda continua a alimentá-los. Solta uma gargalhada de quebrar bico, e completa: - E claro, nós Chupins e esposas, ficamos no bem-bom gozando da liberdade de não criar filhos!

   A Gralha solta seus grasnidos: - Eu, por mim, não "estou nem aí”, pego daqui e dali o que me passar na frente dos olhos. Sem nenhum pudor. Pois ora, nunca soube o que é isso mesmo! Vou amontoando tudo que é "balangandãs" e outras tranqueiras, depois vejo no que dá. O que importa é se a coisa brilha, refletiu é minha. Ali mesmo boto meu ovo. Se nascer o filhote, muito que bem, se não nascer a gente logo vê.

    O Quero-quero, como faz jus ao som de seu nome, apenas dizia para tudo: - Quero-quero. Eu quero e quero!

    O Pavão, este então, não falava nada só pavoneava, abrindo e fechando sua cauda para se exibir. Mostrava-se. Fazia de tudo para chamar a atenção sobre si. Não sabendo nada de nada, esperava com olhos morteiros, que alguém pusesse palavras em seu bico e... talvez alguma ideia na sua cabeça. Às vezes olhava para seus pés horríveis e entristecia, murchando as penas da cauda. Mas logo, vaidoso, abria de novo as plumas e penas, voltando a se encher de empáfia. Pobre Pavão!

  O rei Plácido I, em sua complacência, aparteava os chilreios, piados, grasnares e toda a onomatopeia da passarada, dizendo: - Calma pessoal, só o que desejo saber e ainda não sei, é como dar mais segurança e evitar a mortandade dos pássaros do reino de uma forma prática e racional, desde a filhotagem.

Eis que o Pássaro-lira, uma fêmea solteirona e sem filhotes - o mais soberbo dos presentes - do alto de sua indisfarçada arrogância plangeu sua voz: - Ora, ora; filhotes já sabem desde que nascem o que fazer; como se defender e os adultos intervindo no curso natural de suas vidas, só vão atrapalhar, pois, a vida é uma grande brincadeira em que todos os filhotes devem participar. Perdas fazem parte do jogo.

   Houve grande cisma, mas não se ouviu nenhum pio. Lira, como queria ser chamada, - fêmea maravilha - importada de outras plagas, chegou ao reino de Plácido I, com um forte "Q.I".

   João - de-barro por pouco não aparteou Lira; mas pensou melhor no que havia dito a Gralha, no que viu do Pavão, no que ouviu do Chupim, na voz do Quero-quero... Meditou: - Não tem jeito aqui no reino de Plácido I. Com estes pássaros em comitê não dá. Não é possível haver consenso, onde não impera o bom senso!

   Já sabia o que fazer. Disse: - Vou começar a transmitir o que penso e aprendi, de bico em bico a todos os filhotes. Do jeito que fiz com os meus, que já estão sabendo fazer suas próprias casas. Aos filhotes eu vou... E disse uma frase lá do bosque: "Nunca mais voltarei pra donde vim". Batendo forte suas asas, rodopiou pelo aposento por sobre os olhares surpresos dos colegas. E saiu por uma janela do castelo recortada contra o azul do céu do reino, desaparecendo no firmamento.

PENSAR BEM É SÁBIO, PLANEJAR BEM É MAIS SÁBIO

E EXECUTAR BEM É O MAIS SÁBIO.

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Respostas

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Querido amigo, como expressei anteriormente, tua fábula é excelente, mas, para o concurso solicitamos, no máximo, 30 linhas...Frown.gifFrown.gifFrown.gif ... Para efeito de classificação temos que respeitar o Edital, ou prejudicaremos os demais concorrentes.

    Beijosssssssssssss

    • 3544343707?profile=original

      Querida Silvia, dedicada e amada amiga.

      Só o prazer de publicar um texto no PEAPAZ, já é um prêmio. Os amigos leem e se manifestam alegremente e a alma da gente fica festiva também. Sou um pouco estrambelhado, confundo e erro um bocado. Mas é por amor à literatura, você me entende!! Não tem o mínimo problema, nem esperava ou me lembrava.Publico e acabo esquecendo.  Sou um pouco como o esquilo caxinguelê ou a gralha azul das araucárias que plantam a semente - o pinhão - depois se esquecem onde plantaram, daí nasce um pezinho de pinheiro que se crescer ficará uma baita araucária. Você é uma grande plantadora de sementes e como crescem bonitas e fortes. Obrigado pelas dicas. Um grande beijo e um abraço fraternos.

    • DIAMANTE BABPEAPAZ

      Agradeço tua compreensão, mas espero que da próxima vez possa oferecer-te um belo prêmio... 41.gif

      Beijossssssssssss3544387869?profile=original

  • BRONZE BABPEAPAZ

    Excelente conto apesar de não ser MINI !!! rsrs mas demasiado bom e importante Fábula, como tão bem disse nossa Mestre! Relembra-me as Fabulas de La Fontaine sempre sempre actuais!!!

    Abraço Poeta e Parabens por tão tão excelente Conto!

    Infelizmente em Portugal não temos Joao-do-barro nem a Joana-do-barro que considero a EXCELENCIA entre todos! Mas temos aqui a andorinha Dórica que faz o ninho com um túnel para entrar! Perfeita obra de engenharia e proteção dos ovos e filhotes!!! não caem do ninho!!!

    olha aqui:  mas o de minha casa faz uma curvinha e tudo!!!

    3543743144?profile=original

    3543743292?profile=original

    • 3544343759?profile=original

      Oh Maria,

      Que lindeza de comentário, meigo e amoroso. Tu és mesmo uma dama da literatura que tive a honra de conhecer, graças ao Peapaz. E mais, acrescentas uma sutil curiosidade apresentando-me a Senhora Dórica, que muito bem se daria com a Senhora Joana-de Barro cá do Brasil.Agora estou é curioso... Se, Dona Dórica é uma parceira ingente e exigente companheira como a sua comadre de cá a Joana!! Meu beijinho e abraço de carinho fraternal.

  • This reply was deleted.
    • 3544343511?profile=original

      Gracias mi gran amigo, 

      É uma honra sempre receber tuas palavras de carinho e incentivo.

      Un gran abrazo.

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Mauro Martins Santos 

    3543712699?profile=original

    Página de Mauro Martins Santos
    Página de Mauro Martins Santos no Poetas e Escritores do Amor e da Paz
    • 3544340094?profile=original

      Senhores -diz o passarinho de uniforme marrom cor de barro - melhor aval de fiscalização não pode haver mais exigente do que o  de uma esposa de João-de-barro.

      ******

      Muito obrigado querida amiga MIL.

      Apenas tua leitura já me seria um ato de apreço e distinta consideração. Mas, faz mais por seus discípulos. Verdadeira mestra, que enfeixa os moldes pedagógicos dos luminares da educação - somos todos eternos discípulos - premia-nos quando "fazemos bem a lição" e nos orienta quando nos enganamos ou estamos confusos, como já me ocorreu nos primeiros dias em que pisei nesta Grande Escola chamada PEAPAZ. Meu muito obrigado; por hoje, por ontem e para o amanhã que bem aprouver nosso Pai Eterno. Um beijo e abraço fraternos.

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Querido amigo, tua fábula é detalhista,

    com enredo fascinante e mensagem especialmente sábia.

    Parabéns!

    Beijossssssss

    3543707256?profile=original

    • QUERIDA MESTRA SILVIA

      QUANTA HONRA EM RECEBER TÃO LINDO "DESTAQUE", ACRESCIDO DA IMPORTÂNCIA DE TER PROCEDIDO DE VOCÊ ESTIMADA AMIGA E MESTRA SÍLVIA MOTA. MUITO OBRIGADO PELO CARINHO E PELAS ORIENTAÇÕES E ACONSELHAMENTOS QUE ME DISPENSA, E A TODOS EM ÂMBITO GERAL.

      MEU ABRAÇO E BEIJO FRATERNOS.  

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