TEM ALGUÉM AÍ?

3542129572?profile=original

- Exatamente zero hora. Esta é a sua FM Solarium, falando diretamente dos seus estúdios situados na cidade de Horizonte. Abrimos mais um programa “Papo da Madrugada”, com o seu apresentador, o seu amigo das noites horizontinas de segunda à Sábado, Julinho Martins, o popular, o inconfundível, o imitado, mas nunca igualado: “Jacaré Madrugador, o que não dorme nunca”. Aqui como sempre, vai rolar muito papo e muita música de primeira, um especial com as canções eternas dos Beatles. Iniciando a nossa programação musical, Let it Be, do quarteto mais fantástico de todos os tempos. The Beeeeaaaaaaaaaatleeeeeees... “Let It Be”, de Lennon e McCartney, a dupla mais dinâmica que a música popular jamais conheceu. Te liga, meu! Me liga, meu!
“When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom let it be
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom let it be.
Let it be, let it be.
Quando os primeiros acordes invadiram o estúdio, Júlio retesou os músculos, olhou ansioso o telefone. Seu pensamento era um só:
- Vê se toca, meu! Eu tô precisando de audiência. Hoje é o último dia da experiência. O dono vai cancelar o programa se você não tocar. Vê se toca, meu!
“And when the broken hearted people
Living in the World agree
There will be an answer, let it be.
Julinho fizera a proposta há três meses atrás. A princípio, Oduvaldo, dono da emissora não acreditou muito, não queria de nenhuma forma fechar com ele.
- Em Horizonte todo o mundo dorme cedo, ninguém fica escutando rádio.
Julinho insistiu, implorou, prometeu...
Foi tamanha a persistência que Oduvaldo acabou cedendo. Por um período de três meses, o horário da zero hora até às cinco da manhã era de Julinho, o “Jacaré que não dorme nunca”.
“And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Na primeira semana, sucesso total. Os amigos de Julinho ligavam, conforme o combinado. Inventavam histórias, contavam casos, pediam conselhos e solicitavam músicas. Só música dos anos sessenta ou setenta.. Era uma espécie de confraria.
Oduvaldo ficou satisfeito com os números apresentados: de doze a quatorze ligações pela madrugada afora. Tratando-se de Horizonte era uma boa média.
Na segunda semana, os amigos de Julinho começaram a desculpar-se. Precisavam dormir, tinham que trabalhar ou estudar no dia seguinte. Uma ou outra ligação de quem sofria de insônia e mais nada. O número de ligações despencava dia a dia.
Após um mês, Oduvaldo começou a questionar a validade do programa. Patrocínio não tinha, ninguém queria bancar um anúncio sequer em horário tão ingrato. Nem a oferta de se pagar apenas dez por cento do preço de tabela atraiu algum comerciante horizontino. Mas como trato era trato, Julinho, o “Jacaré que não dorme nunca” continuou a zoar pela noite de Horizonte.
Let it be, let it be.
Whisper words of wisdom, let it be.”
- Olha aí, galera! Essa é FM Solarium e o “Papo da Madrugada” . E aí, gatinha, não vai ligar para o Jacaré que não dorme nunca? Liga, gata, conte uma história, uma piada, uma desilusão amorosa, qualquer coisa. O Jacaré que não dorme nunca quer bater um papão com você, menina! E o garotão, então? A mina deu o cano? Tá mal na escola? Tá curto de grama? Liga, meu, liga! Vamos rolar um papo legal com o Jacaré que não dorme nunca, o maior amigo de vocês. Enquanto espero, vamos detonar uma das obras primas do quarteto: “A day in the life”. Segura, malandro, malandra, que esse é um sonzão! Não precisa nem dizer, é também deles, Lennon e McCartney...
“I read the News today oh boy
- Toca, telefone, toca! Será que sou o único acordado nesta cidade? Nesta região toda? Toca uma vez, uma vezinha só! Toca, desgraçado! – era o pensamento do Julinho Jacaré.
Os últimos acordes foram ao ar. Era hora de falar. A pior hora. 0:18 PM. O telefone insistia em sua mudez.
- E aí, gatinha? E aí, gatão? Ninguém vai ligar para o Tio Jacaré? Só estão querendo ouvir música? Sem papo? Então, vamos lá! Música da boa, em alto estilo. Música pra você curtir. Curtir a um, a dois, em turma. Do jeito que você quiser. E os Beatles chegam em dose dupla. Dupla nada, tripla. Três músicas deles sem nenhum intervalo comercial, o famoso "non stop". Num fôlego só! Começando com “Across the Universe”. Depois, uma faixa bem louca, bem pirada do álbum branco, “Revolution Number Nine”. E encerrando a seqüência maravilhoooooosa: “Hey Jude”. É mole? Querem mais? Tá de bom tamanho? Então, vamos lá! Som na caixa! Beatles para vocês.
Jacaré preparou o carrossel, com cada disco. Teclou as faixas. Os primeiros acordes de “Across the Universe” soaram no estúdio. O pensamento de Julinho era um só:
- “Eu deveria ter programado o “Help”. Estou precisando mesmo é de um socorro!”
Words are flowing out like endless rain into a paper cup
They slither while they pass; they slip way across the Universe
Os pensamentos de Julinho não eram nada edificantes:
- Tenho quase vinte minutos pra não fazer nada. Aliás, acho que a partir de amanhã não vou fazer nada mesmo. Meu programa já era! Nem meus amigos ouvem mais. Ninguém ouve, só eu mesmo. Dá vontade de programar uns cinco CDs dos Beatles e deixar rolar. Pra que papo na madrugada?
Across the Universe
Jai guru de va om
Nothing’s gonna change my World.”
Julinho tentava acalmar-se. Mas a onda de nervosismo era patente.
- É isso! Vou programar os discos e fim de papo. Chega dessa baboseira!... Mas não! Tenho que manter a dignidade. Comecei esse droga de programa com contrato de três meses. Vou até ao fim, até às cinco da matina... Mas não faria mal uma dormidinha. Afinal, não é o que todo mundo tá fazendo? Só o louco aqui que não!
Across the Universe
Jai guru de va om
Nothing’s gonna change my World.”
- Será que alguém perceberia se eu usasse esse expediente? Acredito que não! Mas eu não ficaria bem com a minha própria consciência... Não! Não é admissível!...Tenho que manter a dignidade. Ir até o fim, nem que essas quatro horas e meia restantes forem as piores da minha vida.
“Number nine! Number nine!”
- Pois é, Jacaré, tua lagoa secou! Acho que vou colocar os discos e fazer isso mesmo. Tirar uma soneca e acordar pelo menos umas quatro horas depois. Não sofreria essa solidão em pleno ar! Se eu fizer isso, ninguém vai sacar, não tem ninguém mesmo me escutando...
Jacaré nem percebeu que a segunda música programada já fazia parte da trilha sonora daquela noite. Quando sentiu que John Lennon tomava conta do som, até deu uma relaxada, espreguiçando-se suavemente.As idéias batiam em sua mente.
- E se eu mudasse um pouco? Jimmy Hendrix? Jannis Joplin? The Doors? Puxa, só estou pensando em mortos!
“Number nine! Number nine!”
- Mortos e mais mortos. Por um momento pensou naquele dia fatídico em que Lennon morreu. Julinho focara baqueado, parecendo que o mundo acabara junto com John. As coisas pareciam não ter muito mais significado. Foi um dos piores dias de sua vida. O mais catastrófico foi quando os Beatles anunciaram o fim do quarteto. Um buraco imenso abriu-se na vida de Julinho. Os Beatles faziam falta e John Lennon mais ainda.
“Number nine! Number nine!”
Examinou uma pilha de discos. Todos seus. Na rádio, nada daquilo tocava e nem na discoteca podiam ser encontrados. Cada um daqueles discos de vinil possuía uma história. Uma história só sua. Pedaços de sua vida. Com quase quarenta anos, sentia-se um velho. Não por seu gosto musical, que muito de seus amigos criticavam. A sensação de ter mais idade do que tinha realmente vinha do fato que olhava a juventude que vinha atrás dele e não via nada de bom ou de aproveitável naqueles jovens inconseqüentes.
“Hey Jude, don’t make it better.
Take a sad song and make it better.
Remember to
Let her into your heart,
Then you can start to make it better.”
- The Who..
“Hey Jude, don’t be afraid.
You were made to go out and get her.
- MC5...
“And anytime you feel the pain, hey Jude refrain,
Don’t carry the World upon your shoulders.
- Sex Pistols...
“Hey Jude, don’t let me down.
You have found her, now go and get her
- King Crimson...
And don’t you know that it’s just you, hey Jude, you’ll do,
The movement you need is on you shoulder.”
Verificou a outra pilha. Desta vez, alguns álbuns da rádio:
- Spice Girls... Argh!
Hey Jude, don’t make it bad
Take a sad song and make it better.
- Celine Dion... - Dá engulho!
Remember to let her under your skin,
Then you’ll begin to make it
Better better better better better better, oh
- Nirvana! Oasis! Cardigans! Definitivamente a música parou nos anos setenta. De lá pra cá, só porcaria e das grandes!
Da da da da da da, da da da, hey Jude.
Esse era o sinal, o preâmbulo de que ele teria de voltar ao ar e continuar na sua atividade extremamente solitária.
O tilintar do telefone assustou-o. Quem seria? O dono da rádio dizendo que o programa devia sair do ar e não precisaria esperar até às cinco da manhã? Ou algum amigo que resolveu dar uma mãozinha? Tirou o fone do gancho e resolveu descobrir o mistério. Atendeu a ligação com o seu tradicional:
- Tem alguém aí?
- Tem sim, Jacaré!
- Quem tá falando?
- É Vilma!
- Dá um tempo, gatinha. A música tá no fim e aí você entra no ar comigo. Um minuto só.
- Tá legal, Jacaré.
Finalmente alguém, que não era seu amigo dando uma força. Um ouvinte! Um ouvinte! Alguém ouvia o “Jacaré que não dorme nunca” e seu “Papo na Madrugada”. Sentiu desejos de cortar os segundos finais de “Hey Jude” e entabular aquela conversa, o papo mais verdadeiro de todos aqueles noventa dias. Resolveu abaixar o volume do som gradativamente até chegar ao silêncio total e anunciar alegremente:
- Tem alguém aí?
- É Vilma.
- Oi, gatinha! Tudo bem com você?
- Tudo legal, Jacaré!
- O que é que rola? Algum problema?
- Tem, Jacaré, tem um pequeno problema...
- E a gente pode saber qual é?
- Claro, Jacaré, claro! Vou te contar uma coisa. Estou acordada por que tenho que estudar. Amanhã tem prova. Um prova de Química e se eu não tirar pelo menos um B, tô frita! Mas eu só consigo estudar ouvindo música. O tape do meu Walkman pifou. Então, apelei pra tua rádio, a única que fica no ar de madrugada. Pelo menos é a única que o rádio pega.
- E tá gostando do programa?
- Sendo muito sincera, não. Essas músicas que você toca já eram. O som que rola hoje é outro, cara. Você precisa se modernizar!
- Você não gosta dos Beatles?
- Jacaré, esses caras têm mais de cinqüenta anos nas costas. Teu programa cheira a mofo! Tem dó, Jacaré, tem dó!
- E o que você gostaria de ouvir?
- Pô, Jacaré, tem o Daniel, Zezé di Camargo. Tem axé, tem pagode, tanta coisa boa!
- Mas isso você ouve o dia todo na rádio. Meu programa é alternativo, não toca o tipo de música que você...
- Sei, mas teu som é muito anos sessenta e setenta. E passado não tá com nada, Jacaré! Te liga, cara! Ninguém tá na sua!
- Mas...
- Não, Jacaré, a música que você curte morreu faz tempo! Tá sabendo?
- Vilma, eu não concordo. A música que eu toco em meu programa, tornou-se clássica. Clássica em matéria de Rock. É a nata do...
- Clássica, na minha opinião é coisa de museu, meu! É coisa de coroa...
- Não diga isso, Vilma!
- Digo sim, cara, digo sim! Qual é? Tem tanta gente boa tocando rock por aí e você fica tocando essa velharia de vinte e tantos anos atrás. Você parece um arqueólogo desenterrando osso de defunto!
- E o que você gostaria de ouvir?
- Já que você não se liga em Música brasileira, por que você não põe um Rick Martin, uma Madonna, um Enrique Iglesias.
- Lá vem você com os caras que tocam o dia todo, de manhã, à tarde e à noite por aqui!
- E você quer coisa melhor? A emissora tem a maior audiência tocando esses caras que eu estou dizendo. No teu caso, deve ter uma meia dúzia de carinhas que curtem esse teu som velho e antiquado! Meia dúzia e olhe lá!
- Puxa, Vilma, você está arrasando comigo e com o meu programa!
- Não me leve a mal, mas eu queria ouvir uma música legal, bem maneira. Estudar Química ouvindo um maluco qualquer gritando... Como é que é mesmo?... Ah! Lembrei.. Number Nine! Number Nine! Jacaré, saco, é muito pra minha cabeça. Não dá, não dá mesmo! Number Nine com fórmula química não se combinam. Quer ver rolar uma química legal, põe Roxette, até um Michael Jackson cai bem, já que axé e sertaneja romântica você não toca mesmo.
- É, gatinha, mas Roxette eu também não toco. Não toco mesmo!
- Tá vendo! Você é muito preconceituoso!
Jacaré começava a perder a paciência. A primeira ouvinte espontânea não passava de uma chata que detestava todas as lindas músicas que ele tocava. Definitivamente não era a sua praia fazer programa nenhum. Não tinha mais saco!
- Mas essa sua intransigência com os Beatles também é preconceito, menina!
- Pode até ser, cara, pode até ser! Mas garanto que muito mais gente pensa como eu. Faça uma pesquisa, pergunte aos seus ouvintes. Posso lançar uma sugestão no ar?
- Claro que pode. Manda ver!
- Então, lá vai! Galera, quero ver todos os ouvintes ligando pro Jacaré e dizendo quem tá certo ou quem tá errado. Valeu? Jacaré, Jacaré, bota Madonna na parada. Bota, Jacaré! Tchau, cara. Boa noite. Galera, não esqueçam de ligar. Beijão, Jacaré!
Jacaré respirou bem fundo. Não esperava que a sua primeira ouvinte fosse tão sarcástica, tão inconveniente, tão “burra”, tão... Resolveu não se incomodar. Olhando a sua pilha de discos, sacou um Raul Seixas. Resolveu abrir um precedente:
- E em homenagem à nossa ouvinte, a gatíssima Vilma. Raul Seixas, em dose tripla: “Mosca da Sopa”, “ Ouro de Tolo” e encerrando o revival do Maluco Beleza, “Gita”. Pela primeira vez, nesse programa, música brasileira e da boa...
“Eu sou a mosca que pousou na sua sopa.
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono...”
- Acho que estou dando uma bela resposta pra aquela cretina! Uma resposta musical.
“Às vezes você me pergunta
Porque é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Não fico sorrindo ao teu lado
Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar...”
Definitivamente era hora de parar. Duas Vilmas que aparecessem naquela noite acabariam com a paciência que teve durante todas aquelas oitenta e tantas noites, a maioria sem uma ligação.
“Eu sou a força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou...”
E se ele desligasse tudo e fosse embora? Alguém iria perceber? Fechava tudo, chamava o vigia e ia dormir na cama um sono mais do que merecido.
“Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo, o nada...
Jacaré chegava à uma triste conclusão. Fora a maior furada produzir aquele programa.
- “Se fosse à tarde, vá lá! No Rio, em São Paulo, Curitiba ou Porto Alegre, tudo bem! Agora, programa de rock dos anos sessenta e setenta em Horizontes! Não, não dá!
Jacaré não sentia a mínima vontade de levar o programa até às cinco da manhã...
“Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim...”
Resolveu que depois do Raul, ficaria alguns minutos no ar em completo silêncio, como se a emissora estivesse fora do ar. Se nesse período de tempo não rolasse nada, desligaria tudo e rumaria para a casa.
“Você pensa em mim toda hora.
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda,
Mas hoje meu vou lhe mostrar...
Amanhã falaria com o Oduvaldo, abrindo mão do horário. Bastava daquele programa. Lembrou-se de uma frase, cujo autor não lhe vinha na memória. Aliás, nem conseguia recordar se era mesmo daquele jeito:
- “Quem está acostumado com arroz e feijão, quando come caviar, se engasga!”
Alguém realmente falara ou escrevera aquela frase? Jacaré não conseguia atinar com o detalhe, apenas sentia vontade de encerrar sua participação na rádio, com essa frase.
“Eu sou o seu sacrifício
A placa de contramão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição...“
Se estivesse na televisão, daria uma “banana” em pleno ar e sairia do estúdio...
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo, o nada...”
- “Mas rádio não tem imagem. O negócio era simplesmente dar um clique nos equipamentos e adeus, Jacaré Madrugador!
“Eu devia estar contente
porque eu tenho um emprego
Eu sou o dito cidadão respeitado
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
- “Será que alguém vai ligar? Será que não tem mais nenhum filho da puta acordado
nesta porra de cidade?
“Eu que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No fundo e calmo do meu olho
Que vê a sombra sonora de um disco voador.
Jacaré iniciaria a greve de silêncio. Um protesto de cinco minutos, quando a voz de Raul Seixas se calasse.
Um zumbido no equipamento deixou-o em alerta, pensando:
- O que está ocorrendo?
Uma voz estranha e metálica ribombou no estúdio:
- Boa noite, Jacaré!
Mais ruídos estáticos encheram o pequeno estúdio de transmissão. Jacaré sentiu um arrepio de medo, mas conseguiu balbuciar:
- Tem alguém aí?
- Tem, Jacaré Madrugador. Sou eu..
- Eu, quem, cara pálida? Por que você não faz como todo o mundo e entra no ar pelo telefone?
- Eu não consegui penetrar na faixa de transmissão telefônica...
- Como não conseguiu entrar na linha do telefone?
- Os telefones funcionam numa faixa de freqüência que eu não posso captar, nem transmitir...
- Cara, quem é você? Uma espécie de hacker?
- Hacker! Não sei o que é isso. Isto deve ser inglês, não é mesmo? Procure falar apenas português, sua língua.
- Cara, o que eu mais falo é inglês! As músicas que eu toco, a maioria é em inglês!
- As últimas não eram! Eu entendi tudo!
- Foi apenas coincidência, meu amigo.
- Mas você não me explicou o que é hacker...!
- Você não sabe, garotão? Então, Titio Jacaré explica! Hacker é o pirata moderno que entra nos sistemas de computação ou de comunicação dos outros, altera dados por farra ou proveito próprio. Entendeu?
- Sim. Pelo que eu entendi, não sou um hacker.
- E o que você é? Alguma FM pirata?
- Também não!
- Não estou muito a fim de adivinhações! Desembucha logo!
- Quando eu falar, você não vai acreditar. É melhor a gente conversar um pouco mais...
- Você sabe que está no ar, não sabe?
- Sei...
- Nossa conversa está sendo ouvida por vários ouvintes...
- Sendo sincero, Jacaré Madrugador, nossa conversa só está sendo captada por nós dois. Ninguém mais está ouvindo o nosso papo!
- Não?! E como é que você sabe?
- Tenho, digamos... alguns poderes...
- Mas quem é você, cara?
- Vamos dizer que eu sou um amigo querendo conversar com um outro amigo.
- E que tipo de papo você quer levar? Tá com algum problema? O Tio Jacaré pode de dar algum conselho?
- Realmente eu tenho um problema, mas você não pode me ajudar!
- Pelo menos, pode contar?
- Posso, claro! Eu não consigo me mexer, nem sair do lugar.
- Você tem algum tipo de paralisia?
- Momentaneamente sim!
- Momentaneamente sim?! Uma resposta misteriosa. Você é o próprio Senhor X.
- Posso ser!
- Então, está bem, vou chamá-lo de Senhor X. E aí, Senhor X, quer ouvir alguma música?
- Até que não seria uma má idéia...
- Tem alguma preferência?
- Não, fica ao teu critério. Gostei de todas as músicas que ouvi até agora...
- Que tal John Lennon?
- Pode ser. É um cantor, não é?
- Que tal “Imagine”?
- Ela é boa? Eu não conheço...
- Cara, pelo visto você não entende muito de rock, não é mesmo?
- Digamos que é a primeira vez que eu vou ouvir essa tal de “Imagine”.
- Não acredito! Onde você se escondeu nos últimos trinta anos?
- Por aí...
- E quantos anos você tem?
- Alguns...
- É! Você é o próprio Senhor X. Bem enigmático, bem misterioso..
- Tenho os meus motivos... Não é assim que se fala? Tenho os meus motivos.
- É assim que se fala, mano! Vamos tocar música, a música. Dedicado ao Senhor X, com o mestre dos mestres, John Lennon, “Imagine”...
“Imagine there’s no heaven
It’s easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today...
A música tomava conta do estúdio, mas Jacaré podia ouvir a respiração pesada do Senhor X, como se ele estivesse ali do seu lado.
-“Como é que ele fazia aquilo? Quem era o cara?“
Resolveu não se incomodar com a situação, abriu o microfone e começou a cantarolar junto com Lennon:
Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace...”
- “Deve ser algum maluco para querer ficar ouvindo meu programa a essa hora da noite. Mas o que ele quis dizer com o fato de não poder se mover? Estranho, muito estranho!"
You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope someday you’ll join us
And the World will be as one
- “Mas, puxa, ele falou, eu ouvi muito bem a referência de... a sua língua! Ele não falou a nossa língua. Bem, ele deve ser um estrangeiro, tem um sotaque diferente, que eu não consigo captar de onde é... Tá tudo muito estranho, muito esquisito! Melhor deixar pra lá e curtir o meu velho John!...
Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the World...
No fundo, a voz do Senhor X aderiu à Lennon e à Jacaré, formando o mais inusitado trio musical de todos os tempos.
- “Até que o Senhor X canta afinadinho!” – pensou Jacaré.
“You may say I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope someday you’ll join us
And the World will live as one.”
Quando a música acabou, Jacaré deu um sonora gargalhada:
- Legal, cara! Senhor X, você é um grande barato! Gostei, cara, gostei!
- É a primeira vez que eu ouço essa música. Aliás, é a primeira vez que eu canto também!
- Sem essa, Senhor X! Sem essa, cara! Você nunca cantou na vida? O que é isso, meu? Conta pra outro!
- Juro! Não estou mentindo! No meu pla..., quer dizer, na minha família, só falamos a verdade!
- Nenhuma mentirinha, nem de vez em quando?
- Nenhuma mentira mesmo!
- X, você não existe! Mas notei que você ia falar uma coisa e aí cortou e falou em família. Qual é, meu?
- Prefiro não comentar a respeito...
- No começo, você disse que sabia que só nós dois estávamos no ar. E agora, mudou alguma coisa?
- Não, Jacaré, continua tudo igual. Somente nós dois!
- Se somos só nós dois, bem que poderia contar quem realmente você é! Ficará só entre nós. Não tem mais ninguém ouvindo mesmo! Quem é você, Senhor X?
- Sou o Senhor X, você mesmo me batizou assim..
- Deixa de onda, cara! Alguém te batizou com um outro nome. Você tem outro nome, uma idade, um endereço, não tem?
- Tenho todos esses três itens...
- E daí? Qual é o seu nome?
- Rayan...
- Rayan do que?
- Somente Rayan...
- Tá! E quantos anos você tem, Rayan?
- Pelo seu tempo, setenta e dois anos...
- Opa! É um cara bem coroa! Um vovô no meu programa! Mas você não tem jeito de ser uma pessoa idosa!
- Obrigado! Mais alguma pergunta?
- Não enrola, cara, não enrola! Falta dizer de onde você é!
- Você quer mesmo saber?
- Claro! Claro! Se eu não quisesse saber, não perguntaria...
- Quando eu falar, você não vai acreditar!
- Diga, depois eu vejo se acredito ou não!
- Sou de Antares. Do Planeta Antares...
- O que? Tá me gozando, cara? Qual é a piada?
- Eu disse que você não acreditaria...
- Mas eu nunca ouvi falar desse planeta! Como posso acreditar num planeta que nem existe? Antares?!
- Existe, Jacaré, existe. Fica distante da Terra, bilhões e bilhões de quilômetros, numa outra galáxia.
- Cara, acho que você anda lendo muita ficção científica!
- Quando eu procurei esconder quem eu era, tinha meus motivos. Um deles era esse. Você não acreditaria que eu sou um alienígena, um extraterrestre, um ser de outro planeta como vocês nos denominam...
- Mas, espera um pouco, cara, espera só um pouco! Agora te peguei! Como é que você fala tão bem a minha língua?
- Na verdade, não sou eu, é o meu tradutor automático...
- Tradutor automático?! Como é que funciona?
- Eu falo na minha língua e o aparelho traduz para a sua. E o vice-versa ocorre quando você fala comigo.
- Te peguei outra vez! No meio do papo que a gente levava, você disse e eu lembro bem: pediu para que eu só falasse em Português. Quer dizer que essa super máquina tradutora não verte para o Inglês? Por que alguém neste vasto universo iria preocupar-se com a nossa pobre língua portuguesa?
- Jacaré, meu amigo, acho que você não compreendeu bem a história. É melhor eu explicar. A minha máquina é capaz de traduzir todos os idiomas da Terra, entender todas as línguas e dialetos locais que vocês falam. Mas apenas um de cada vez. Misturando-as, é complicado. Entendeu?
- Mas você cantou em Inglês!?
- Ora, a máquina estava programada para traduzir e falar em Inglês.
- Digamos que a resposta aceitável. E por que você afirmou que estava paralisado e não podia se mexer? Qual é a sua explicação?
- Estou com um problema na nave. Um grave problema técnico. Não consigo movimentar-me. Estou suspenso no ar. Parado! Parado...
- Se eu sair lá fora, posso vê-lo?
- Não! Não pode. Estou posicionado bem em cima de você, numa altitude de noventa mil quilômetros. Como vocês dizem, apenas um grãozinho de areia na vastidão da praia.
O pensamento de Jacaré era um só:
- “Se for verdade, é a coisa mais fantástica, mais maravilhosa que a Humanidade conheceu. Se não for até que o cara é criativo inventando toda essa parafernália de história!”
- Por que esse silêncio, Jacaré? Houve algum problema?
- Não, nada, cara! Tava pensando uma coisa. Tente mandar uma mensagem, sem o seu tradutor. Na sua própria língua. Tá legal?
- Sim. Vamos lá...
O que se seguiu foi uma barafunda de sons que Jacaré captou mais ou menos assim:
- “QPUP EB UFSSB GHDP GFMJDJTTJNP FN GBMBS DPN UPDFT”
- O que significa isso, Rayan?
- Povo da Terra, fico felicíssimo em falar com vocês!
- Mensagem simpática! Pena que ninguém está nos ouvindo! Dois seres de planetas diferentes batendo o maior papo em pleno ar. Se fosse em outro lugar já estaríamos famosos. Mas aqui em Horizonte? Ninguém faz nada à noite, só dormem. Pelo que você falou, nem a tal da Vilma! Já deve estar cansada de tanta fórmula química! Se fosse em São Paulo, ou no Rio...
- Jacaré, numa outra cidade eu não entraria em contato com você.
- Essa eu não entendi, cara!
- Meu amigo, ainda não é o momento pra nós entrarmos em contato com vocês da Terra definitivamente. A polêmica, a celeuma dos Ovnis continuará ainda por um bom tempo. Vocês deverão estar preparados para o contato decisivo dentro de mais algum tempo. Não agora! Um contato ou outro acontece, mas sem provas definitivas de nossa existência. No futuro, quem sabe?..
- Mas eu tenho uma prova, o gravador do estúdio registrou tudo o que rolou durante o programa.
- Sinto dizer, meu caro Jacaré, mas quando eu entrei em contato com você, minha primeira providência foi neutralizar o gravador, bloqueei o equipamento e nada ficou registrado. E antes que você fique chateado por essa interferência, gostaria de lembrá-lo que poucas pessoas no mundo acreditariam que você falou com um ser de outro planeta. Dirão que é um blefe, uma montagem, uma farsa, enfim. Você nunca poderia provar...
- Tem razão, Rayan! Mas espero que vocês façam o contato logo, logo... Mas explique melhor porque não estamos preparados.
- Usando a franqueza, Jacaré, um povo que vive em constante guerra uns com outros, por motivos fúteis, como conquistar pedaços de chão, por diferenças religiosas ou étnicas. Um povo que dizima suas florestas, sua fauna, sem medir as conseqüências, em nome de um progresso duvidoso. Um povo que prefere investir em melhoria de armamento, ao invés do desenvolvimento da Medicina e da Educação. Um povo que mata, rouba, estupra o seu próprio irmão não pode estar pronto para travar conhecimento com seres mais adiantados. O povo da Terra ainda é muito primitivo. Vocês precisam evoluir mentalmente, buscando outros sentidos na vida e rever seus conceitos. Falta muito para alcançar isso, Jacaré. Muito mesmo!
- Tá coberto de razão, cara!
- Amigo Jacaré, meu socorro chegou. Minha nave vai ser rebocada de volta à Antares. Vou ter que me despedir.
- É uma pena! Gostaria imensamente de continuar a levar esse papo e quem sabe apertar a sua mão num encontro cara a cara!
- Isso vai ter que ficar para outro dia, amigo Jacaré!
- Vou ficar aguardando! Vou ficar aguardando!
- Até breve, amigo!
- Até breve, amigo!
O estúdio ficou em silêncio. Jacaré mergulhou num vazio. Não sabia o que fazer, que atitude tomar. Olhou a pilha de CDs. Pegou “Yellow Submarine”, escolheu “All You Need Is Love”. Programou sua execução cinco vezes em seguida. Era a sua mensagem dirigida ao nada. Ninguém ouviria. Quem sabe alcançaria Rayan em algum ponto do Universo?
Love, love, love.
Love, love, love.
Love, love, love.
Enquanto a música inundava o ar, Jacaré começou a pensar em sua vida. Quase quarenta anos, professor de Inglês em colégio estadual, com um salário de fome. Fracasso na sua mal iniciada carreira de programador na rádio. Sem ouvintes, sem anunciantes, sem nada. Oitenta e nove dias frustrantes. O último dia espetacular, mas quem acreditaria? Descartar a rádio era ponto pacífico. Se ele não tomasse essa atitude, o dono, com certeza, faria. Sem escolha... O rádio já era passado.
All you need is love.
All you need is love.
All you need is love, love.
Love is you need.
E o futuro? E o futuro? Continuar com o salário de fome e agüentar os esnobes da cidade a torcer o nariz ao “pobre professor de Inglês”? O que fazer? O que fazer? Sentiu que não conseguiria atinar sobre a sua vida. A excitação causada pelo encontro com Rayan tomava conta de seu ser.
All you need is love (All together, now!)
All you need is love. (Everybody!)
Tocaria “All You need...” eternamente, se pudesse. Martelaria todas as cabeças. O mundo precisava de amor. Precisava, precisava e precisava...
All you need is love, love.
Love is all you need (love is all you need).
Olhou no relógio: 4:16. Mais um pouco o programa estaria no fim e o Pedro Sertão entraria no estúdio ocupando o horário das cinco às oito da manhã, com o seu “Bom Dia, Sertão!”. She loves you, yeah yeah yeah.
She loves you, yeah yeah yeah.
Quando terminou a quinta apresentação, Jacaré resolveu entrar no ar. A mensagem foi curta e contundente. Jacaré abria a sua cabeça e deixava as palavras fluírem:
- Gatinha, gatão, Jacaré Madrugador falando. O programa via chegando ao final. E o Jacaré também. Este é o último programa que eu faço. Amanhã não tem mais Jacaré. Quem ouviu, ouviu... Muito obrigado a todos que me agüentaram todos esses três meses. Um grande amplexo pra todos os gatos, e um beijo especial nas gatinhas. Fiquem com um pouco mais de “All You Need is Love”. Vocês precisam muito mesmo de amor, gente. Abram os olhos e pensem no seu irmão ao teu lado, no teu vizinho de casa ou de carteira. Pensem naquele cara que cruza com vocês. Não custa dizer “bom dia, cara!” ou só um “Oi!”. Amem, protejam esse mundo tão combalido, tão poluído e tão carente. Esse é o amor que vocês devem dar. Esse é o amor que todo mundo precisa... Tchau, fui...
Jacaré programou mais três bisadas de “All You need is Love”.
Pedro Sertão entrou no estúdio às 04:32 horas.
- Oi, compadre! Vinha no carro e ouvi que você vai parar com o programa. Verdade?
- Verdade, Pedrão! Cansei! Ninguém me ouve. Só estou gastando eletricidade à toa. Resolvi me demitir em pleno ar.
- Chato, né! E o Oduvaldo?
- Eu me entendo com ele. A experiência era por três meses. Hoje termina o período. Duvido que ele vai querer renovar.
- É, você tem razão! Pra falar a verdade, outro dia ele tava comentando que teu programa fugia do padrão da emissora. E sendo muito sincero, acho que ele está coberto de razão. Você já tocou essa música uma porrada de vezes em seguida. O equipamento enguiçou?
Jacaré sentiu que a última frase sai em tom debochado, mas se fez de desentendido.
- Não tá enguiçado não! Estou martelando para ver se as coisas melhoram...
- Não estou entendendo!
- Te explico, Pedrão, te explico! Essa música, traduzida para o Português, quer dizer que todos precisam de amor, sacou?
- Saquei!
Pedro Sertão falou por falar. Na verdade, não entendera nada. Achava Jacaré um cara muito doido, que não falava coisa com coisa. Muito louco para o gosto dele. Consultou o relógio, faltavam ainda quinze minutos para ele entrar no ar e a tal de ”All You Need is Love” tocava pela nona vez. Pedro resolveu dar um basta naquilo.
- Jacaré, tá quase na hora. Você tá com cara de cansado. Deixa que eu assumo o resto. Entro um pouco mais cedo e tudo bem!...
- Legal, cara, legal! Vou me mandar! A rádio é toda sua. Fui!...
Pedro nem acompanhou a saída estabanada de Julinho, o ex-Jacaré Madrugador, concentrado que estava em tirar o volume daquela música que zumbia nos seus ouvidos há tanto tempo que parecia uma eternidade. Introduziu o prefixo do seu programa, “Menino da Porteira”.
Já na rua, Julinho só pensava em chegar em casa, tomar um banho, dormir um pouco, acordar, comer alguma coisa, passar na rádio, dar um adeus ao Oduvaldo e pronto. Hoje não teria que dar aula, a sua única ocupação dali em diante.
Aquele noite cansativa causou-lhe um sono profundo. Ninguém da família ousou acordá-lo. Os ponteiros do relógio marcavam dez horas da noite, quando Julinho abriu os olhos assustados. Dormira mais da conta, porém sentia-se bem. Não estava mais preocupado com a Rádio. O Pedro Sertão já devia ter avisado que ele não voltaria a fazer o programa. O Oduvaldo ficaria até feliz, pois detestava despedir quem quer que fosse.
Julinho vagou pela casa como um zumbi por um longo tempo. Quando se aproximava da meia-noite, resolveu sintonizar a emissora. O locutor, depois de anunciar a música de um conjunto de pagode, avisou que aquela seria a última seleção da noite e que a FM Solarium sairia do ar, e só retornaria no dia seguinte às cinco da manhã com o programa do Pedro Sertão.
Julinho respirou aliviado. O compromisso fora desfeito amigavelmente, sem dores em nenhum dos lados. Saiu ao quintal da casa, fitou o céu por longo tempo, tentando captar alguma coisa, vislumbrar algum ponto de luz no céu, que se deslocasse no infinito. Não viu nada. Teve vontade de gritar, de berrar para que todos ouvissem, mas sua voz soou como se estivesse orando.
- Rayan, um dia nós vamos nos encontrar. Vou dar aquele abraço prometido. Um abraço apertado de amigo. Vamos sair juntos. Vou te ensinar pelo menos umas cem músicas dos Beatles. Faremos uma grande dupla. Rayan, não se esqueça, Rayan, não se esqueça de mim. Um dia nós vamos nos ver. Mesmo que eu esteja bem velhinho. Mesmo que tenha cinqüenta, sessenta anos. Vamos provar a esse mundo aqui que ele pode ser bem melhor do que é. Vamos fazer isso, meu amigo? Vamos? Rayan, venha me ver. Precisamos nos encontrar, cara. Nós vamos nos encontrar. Tá me ouvindo, Rayan? Tá me ouvindo? Tem alguém aí?

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Belas Artes Belas.

Join Belas Artes Belas

Enviar-me um email quando as pessoas responderem –

Respostas

This reply was deleted.