EM BRASÍLIA, 19 HORAS... NUM FUTURO DISTANTE

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Os radares captaram os primeiros sinais. Ninguém ousou pensar em uma invasão. As naves foram consideradas em missão de paz. Quando se deram conta, milhões de espaçonaves, de variados tamanhos, cobriam o céu da Terra em todos os continentes. Era uma invasão alienígena.

A mensagem foi categórica:

- RENDAM-SE OU SERÃO DESTRUÍDOS! VOCÊS TEM O PRAZO DE TRÊS HORAS PARA DECIDIR!

Todos os países da Terra foram cercados, nenhum escapou. O ultimato bem planejado atingia a todos. Os Estados Unidos foram os primeiros a dizerem não. A parafernália do Sistema de Segurança americano sequer foi acionada. Mísseis, foguetes terra-ar e o poderoso arsenal militar foram barbaramente devastados, assim como as pessoas e o "american way of life".

A Rússia nem ficou sabendo do estrago nas terras do Tio Sam. A soberania do ex-Império Soviético nunca admitiria outra resposta que não fosse a negativa. Tiveram o mesmo destino que os ex-inimigos americanos: destruição total.

No Japão, os acontecimentos seriam cômico se não fossem trágicos. Acostumados com os seriados locais em que monstros interplanetários destruíam Tóquio  duas a três vezes por dia, os japoneses confundiram-se pensando que fosse mais uma daquelas filmagens. O resultado foi devastador e não houve National Kid, Ultraman, Ultraseven que salvasse  a nação japonesa. Hiroshima foi café pequeno perto do que ocorreu.

Do outro lado do mundo, no Planalto Central, o Presidente, ao telefone, tentando convocar o Congresso. Em vão. Olhava ansiosa e repetidamente para seu relógio de pulso, presente de um presidente africano. Os ponteiros marcavam 6:30 PM. Num final de sexta-feira, era difícil encontrar alguém em Brasília. Fins de semana na Capital Federal apenas para os que não possuíam dinheiro ou a regalia de uma passagem gratuita de avião, rumo ao Rio ou ao Nordeste.

O Presidente não queria tomar a decisão sozinho. O momento era grave. Ele era responsável pela vida de cento e cinqüenta milhões de brasileiros. Sabia-se que uma negativa redundaria em destruição total. E rendendo-se, qual seria o preço? Os países que assim o fizeram, mergulharam num silêncio total, as comunicações foram prontamente interrompidas. Haveria alguma salvação para a Humanidade? Esperança para os brasileiros?

Os poucos ministros e assessores arrebanhados a duras penas, estavam diante dele. "Malditas sejam as sextas feiras!" - era o pensamento presidencial.

Em tom grave expôs o problema. A situação era ainda um pouco pior. O vice presidente e o Presidente do Câmara provavelmente estariam entre os mortos nos Estados Unidos, pois uma viagem de negócios levou-os para lá. Um verdadeiro caos. Pediu, quase suplicou soluções para o impasse aos participantes daquela reunião. Vasculhou com o olhar a sala à procura de alguma face iluminada que lhe desse uma idéia, uma tábua de salvação para o eminente naufrágio.

Pelo teor do assunto, os primeiros a se manifestarem foram os comandantes militares. O trio formado pela Aeronáutica, Marinha e Exército não arredou o pé de uma unanimidade: guerra total aos invasores, Pátria ultrajada, Soberania Nacional, etc. Enfim, os velhos argumentos que fizeram até o Presidente, quando mais moço, exilar-se do País. Será que alguém vai pensar em cassar os alienígenas? -  pensou o supremo mandatário. Mas ninguém apoiou ou se manifestou sobre a opinião do trio de ferro.

Outro Ministro, num tom que mais parecia ser de blague, pediu a palavra.

O Presidente arrepiou-se, conhecia as tiradas sarcásticas do homem. Não desconhecia os torpedos que ele detonava naqueles que se opunham ao seu caminho. Temeu pelo pior.

- Excelência, nós precisamos de mais tempo para chegar a uma conclusão. Peça mais tempo, peça mais tempo. Uma, duas horas, talvez...

O Presidente surpreendeu-se. Imaginou um sonoro ataque verbal e recebeu, na realidade, uma proposta conciliadora. O Ministro mudara?

- Vamos tentar resolver dentro do prazo. Nada de prorrogações! Senhores, o Brasil precisa de idéias, de vossas idéias! Não de prorrogações! Não de postergações!

O Ministro do Trabalho foi o próximo a falar:

- Não podemos decidir pela maioria. O ideal seria consultar o povo.

- Isso é impossível! Não poderíamos ouvir toda a população. Não há tempo hábil! - respondeu um Presidente já consciente de que daqueles assessores todos não sairia uma idéia que prestasse.

- Não acho que seja uma sugestão tão absurda! - afirmou categórico o porta-voz.

Diante do espanto geral, o porta voz, considerado por todos, um "babaca incompetente", além de outros adjetivos que não ficariam bem ser citados nesta estória, passou a apresentar seu plano:

- Senhores, hoje, as comunicações no país são ótimas. Com algumas ligações, posso requisitar uma cadeia de Rádio e TV. O Presidente falaria à Nação, propondo que os cidadãos pudessem usar duas linhas telefônicas para decidir. Um número telefônico apoiaria a rendição, outro optaria pela  declaração de guerra, que na verdade, seria a de submeter-se à destruição total. E teríamos a Internet também. O que acham?

A reação de todos beirou entre o espanto e a euforia. Espanto, pela lucidez da ideia racional e simples. Euforia, porque tirava dos ombros de todos a terrível decisão. O povo que escolhesse o destino da Nação.

A unanimidade da reunião só foi desfeita, quando alguém sugeriu que fosse cobrada, a exemplo dos milhares  de "telenovecentos", uma quantia pela ligação. O valor não entrou em questão. A confusão foi armada na discussão sobre quais ministérios teriam direito e qual seria a porcentagem destinada a cada ministério.

O Ministro da Economia foi enfático ao afirmar que a taxa  poderia causar um certo mal estar na população, já meio ressabiada com os altos impostos.

O entrevero só se encerrou quando o novo Ministro da Saúde lembrou que, provavelmente, não haveria tempo para gastar o dinheiro arrecadado.

- Temos que dar um brinde, um prêmio qualquer. - sentenciou o Ministro da Educação.

O Presidente pediu a palavra e, solene, anunciou:

- Senhores, o sorteado será Presidente do Brasil por um dia!

Além do puxasaquismo habitual dos ministros, houve certo êxtase pela idéia presidencial.

Ninguém pensou no que a oposição poderia espernear, vilipendiar sobre a decisão. Uma medida provisória seria editada rapidamente. Conforme fosse o caso, o Congresso nem iria opinar a respeito.

- Precisamos pôr a ideia em prática. Não podemos perder mais tempo. Ele também é nosso inimigo. Mãos à obra, senhores! - finalizou o Presidente, encerrando a reunião.

As coisas correram céleres. Aproveitou-se uma equipe de TV que fazia plantão no Palácio. Pouco houve de acerto técnico. Em dez minutos, a imagem e a voz do presidente invadiu todos os lares da nação. Pela primeira vez, uma cadeia de rádio transmitindo "A Voz do Brasil" e  as Tvs que suspenderam novelas e noticiosos para uma fala presidencial não foi boicotada pelo povo, com o desligar dos aparelhos. Nos lares, nos bares, nas lojas, a população ouviu tim por tim, o que ele tinha a dizer.

O porta voz mais uma vez acertara. A Nação acorreu em massa para opinar. Foi dado prazo de uma hora para o resultado final. Um complicado sistema telefônico apto para a demanda foi preparado em minutos.

- Coisa de primeiro mundo! - comentou um orgulhoso Ministro das Comunicações.

Os resultados começaram a chegar. Os números eram substanciais, a adesão era maciça.

Durante os próximos 59 minutos, o Presidente e os ministros acompanharam o desenrolar do plebiscito eletrônico.

No minuto derradeiro, o placar não era muito alentador:

Pelo sim: 42.908.010

Pelo não: 42.908.008

Faltando 30 segundos:

Pelo sim: 42.930.456

Pelo não: 42.930.455

Faltando  1 segundo:

Pelo sim: 43.040.897

Pelo não: 43.040.896

O placar encerrou-se fatídico:

Pelo sim: 43.041.457

Pelo não: 43.041.457

Na sala presidencial, todos sentiram um calafrio. O esforço redundara em nada. O impasse continuava.

O Presidente parecia não se abalar. Acionou o mecanismo, via computador, que permitiria o sorteio, mas com uma ressalva, ele fazia questão que o sorteado fosse de Brasília. Não explicou os motivos, mas em seu olhar, um ar de certa matreirice.

O número de telefone sorteado foi comunicado através de nova cadeia de rádio e TV. Ao novo Presidente da República sobraria a incumbência de revelar o resultado da pesquisa popular.

Ao vivo e em cores, via satélite, o Presidente entrou em contato com o vencedor, João da Silva, um modesto motorista de taxi, morador de uma das inúmeras cidades satélites da Capital Federal.

Um carro oficial, acompanhado de seguranças, batedores, tudo no grande estilo palaciano, foi destacado para buscar aquele que fora escolhido para ser Presidente por um dia.

Simples e comum seriam os adjetivos que mais se encaixariam para descrever João da Silva. Cearense de nascimento, beirando os 50 anos. Ainda moço, viera para Brasília, como um dos milhares de candangos que construíram a Nova Capital. Terminado o serviço, João juntou todas as economias, comprou um taxi e passou a transportar executivos lobistas ou não, políticos em início de carreira e os poucos turistas que circulam por lá. O dinheiro ganho com o táxi foi revertido na compra de um terreno em Ceilândia. Nos fins de semana, construiu sua casinha, modesta, pequena, mas sua, como afirmava com orgulho.

João assustara-se com o aparato. A notícia que fora sorteado espalhara-se pela vizinhança. Na porta de sua casa, formava-se uma longa fila de parentes, conhecidos e de outros que não se encaixavam em nenhum dos itens anteriores. Todos com algum pedido: um empréstimo, um emprego para um parente ou para si próprio. Era o início do jogo do poder. Quem ficava por cima, poderia favorecer o de baixo. João começou a tomar contato com a nova vida. No seu íntimo, uma ideia martelava sua mente: "amanhã, acaba!"

Chegando ao Palácio, a comitiva foi recebida pelo próprio Presidente e seus ministros. Populares acompanhavam a cerimônia e saudavam alegremente o felizardo. A guarda de honra prestava suas homenagens. Pompa e circunstância que incomodaram um pouco o atônito João.

Aquele terno cheirando a mofo, tirado do armário e passado com todo o carinho por sua mulher Guiomar, a camisa social, a gravata e os sapatos eram os principais motivos do desconforto, para quem vivia vestido de camisetas, jeans e sandálias.

O Presidente foi todo sorrisos, usou de toda sua simpatia para deixar João à vontade, quando se reuniu pela primeira vez com ele, longe dos populares, assessores, banda militar, etc. No aconchego de seu gabinete, foi curto e grosso:

- Meu caro João, a partir de agora, você é o novo Presidente da República. Por um período curto, digamos. Mas a importância de sua investidura, os atos, os decretos, tudo será válido. A duração do mandato é ínfima, mínima, mas você tomará algumas decisões importantíssimas. Aliás, uma delas é vital para o destino da Nação. Nada complicado, mas é necessária uma decisão rápida. Meu porta-voz lhe dirá o que terá que decidir. Um bom governo para você e até amanhã...               

- Mas, Presidente... - tentou argumentar João.

- Por enquanto, ex, meu caro João, ex-presidente. O presidente é você. Vossa Excelência decide o que terá que ser decidido. Boa noite e até amanhã.

João estava perplexo e desorientado. Sentia que caíra numa arapuca, numa armadilha. Compadre Maninho tinha razão: "ninguém resolve nada lá no governo!"

- Se é que haverá amanhã! - pensou, mas não falou o ex-mandatário do país, saindo de fininho, para a noite modorrenta de Brasília.

Todo solicito, pela mesma porta em que saiu o ex-mandatário do país, entrou o porta-voz. Carregava nas mãos, dois papéis.

- Meu caro presidente, vossa excelência precisa resolver o impasse. Comunicar à nação que deu empate na votação popular. O voto decisivo será seu.

- Mas, eu já votei. Eu votei pela....

- Não precisa revelar o seu voto, excelência. Aliás, seu voto foi como homem do povo. Foi válido, muito válido. Mas, agora, seu voto é o maior de todos, como o mais alto mandatário desta nação. O senhor vota pela rendição ou pela reação de nosso povo? Vossa Excelência decide!

João encarou o porta-voz e argumentou:

- É decisão pra já?

- Bem, os alienígenas deram um prazo, que vencerá dentro de mais alguns minutos.

- Então, ainda temos um tempinho. Vou pensar. Quem sabe mudo o meu voto como presidente?

- A resposta precisa ser rápida. Pelo que sabemos, os invasores não tem nenhuma paciência.

- Se eu tentasse conversar com eles. Pechinchasse, quem sabe?...

- Acredito que não abrirão nenhum precedente. Não há diálogo. Os ETs são muito fechados.

- Meu caro, como Presidente, penso que devo tentar alguma coisa.

- Mas, excelência, o senhor foi empossado para tomar uma atitude apenas. Render-se ou declarar guerra. Apenas isso. Sua incumbência não prevê tentativas de ações diplomáticas com os alienígenas.

- Meu amigo, se eu tomei posse como Presidente da República, tenho que agir como tal. Quero um contato com os homens e fim de papo! - concluiu um quase irado João a um incrédulo porta-voz.

- Está bem, se vossa excelência quer assim, assim será.

O pedido de uma conversa com os inimigos da Pátria foi solicitado. O diálogo, como assim quis João, sem testemunhas.

- Srs. Alienígenas, eu assumi como presidente. Meu nome é João...

- HUMPFF!

- Eu preciso de mais tempo, não posso tomar uma decisão assim sem mais nem menos. O outro Presidente saiu e me deixou no lugar.

- HUMPFF!

- O que quer dizer "humpff". É sim ou não?

- HUMPFF!

- Mas como eu ia falando, preciso de mais tempo. Por favor, só mais um tempo...

- HUMPFF!

- Mas que raio! Vocês só dizem "humpff", "humpff"! É sim ou não?

-"NOSSO PLANETA JÁ DEU TEMPO SUFICIENTE. QUAL É A DECISÃO: RENDIÇÃO OU DESTRUIÇÃO TOTAL?"

- Meu amigo alienígena, eu entrei numa fria. Não posso decidir isso. Me aprontaram uma boa! Dá mais um tempo, pô! Eu não tenho experiência de Presidente. Faz alguns minutos que eu assumi. Não posso sair decidindo a torto e direito. Dá mais um tempo, cara!

- O PRESIDENTE DE UMA NAÇÃO DEVE SABER O DESTINO QUE ELA DEVE TER!

- Eu até que concordo, mas até hoje a única coisa que eu dirigi na vida foi um taxi!

- HUMPF!

- Eu apenas entrei de gaiato, jogaram a faixa pra mim e disseram: te vira. Não é justo!

- E POR QUE ACEITOU?

- E me deram tempo pra falar? Sortearam, chamaram o carrão, me pegaram, me trouxeram aqui. E o Presidente de verdade saiu de fininho, jogando o pepino na minha mão, meu!

- NÓS JÁ SABÍAMOS QUE TERÍAMOS PROBLEMA COM O SEU PAÍS.

- Aqui ninguém decide nada. Tudo mundo só empurra com a barriga. E daí, mano, como é que vai ser? Eu não tenho peito de decidir nada! Pelo menos agora. Eu vou precisar de tempo. O ideal seria mais vinte e quatro horas, assim eu devolveria o abacaxi pra quem me botou nessa fria.

- VINTE E QUATRO HORAS PARA RESOLVER É IMPOSSÍVEL!

- Se a bomba tem que estourar na minha mão, preciso de mais tempo, meu irmão! Umas vinte horas, então?

- VINTE HORAS PARA RESOLVER É IMPOSSÍVEL!

- Pô, mas assim não dá! Tudo é impossível! Quebra essa, meu! Deixa por doze. Que tal doze, cara?

- DOZE HORAS PARA RESOLVER É IMPOSSÍVEL!

- É, mas eu preciso de tempo pra resolver. Tentar fazer o verdadeiro responsável por essa confusão toda reassuma o seu posto e defina de vez a situação. Doze horas é um bom tempo!

- DOZE HORAS PARA RESOLVER É IMPOSSÍVEL!

- Mas que cara radical, pô! Quebra essa, mano... Oito, então?

- OITO HORAS PARA RESOLVER É IMPOSSÍVEL!

João sentia-se como motorista de táxi brigando pelo preço de uma corrida contratada, sem o taxímetro para atrapalhar. Nisso  ele era bom, freguês nenhum lhe passava a perna. Ele sempre pedia mais e regateava até chegar ao preço correto.

- Meu, pelo menos umas cinco horas. Cinco horas tá de bom tamanho.

- CINCO HORAS PARA RESOLVER É RAZOÁVEL. APÓS ISSO, RENDAM-SE OU SERÃO DESTRUÍDOS! 

A voz soou no intercomunicador, metálica e definitiva. Mas aquelas palavras eram puro mel para os ouvidos de João. Sorria, quando chamou o porta-voz.

- Meu caro, tudo resolvido! Agora, eu gostaria que você mandasse preparar o avião presidencial para uma viagem!

- Mas, Excelência, o senhor vai viajar no meio dessa crise toda?

- Crise, que crise? Os homens lá do espaço deram mais um tempo. Então, vou aproveitar e visitar minha querida Jabutirica, cidade onde nasci e nunca mais voltei. Quero ver a cara dos meus conterrâneos, quando me verem como Presidente da República, como Presidente do Brasil. Vai ser uma festa!

- E quanto tempo temos para a decisão final?

- O tempo necessário para que eu decida essa pinimba. Aliás, nessa minha viagem à Jabutirica, vou aproveitar e consultar minhas bases. Não é assim mesmo que vocês falam? Pois é, agora, meu caro, prepare tudo para a viagem. Jabutirica, lá vou eu!

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