O invisível palpavel _ resenha de Eliane Accioly

 

De Yasunari Kawabata, País das Neves, romance.

Prêmio Nobel de 1968

 

      Na página título do livro escrevi meu nome e a data de setembro de 1969, quando o encontrei. Na primeira leitura não entrei na trama do autor, como agora, embora o tenha lido. O guardei, e ele me desafiava, a capa branca, ideogramas desenhados em cor bordeaux. A trama do livro, um Chijimi, tecido artesanal tratado com neve e na neve, por tecelãs que vêm de geração a geração, destino traçado antes de nascer. O personagem Shimamura, escrevendo um livro, diz que o Chijimi não é um produto lucrativo, o processo é a própria continuação de uma tradição milenar, e poucos o conhecem.  Chijimi s,  fios de seda, exigindo o cultivo do  bicho da seda, casulos orgânicos, e seus fios como que tirados da neve. Shimamura homem requintado e ocioso usava quimonos Chijimi, tecido delicioso para o verão, cujos fios finos como o pelo de animais, tramados a bem dizer, na neve. 

      Intuitivamente este livro me acompanha desde então, não me desfiz dele, como de outros.  Há uma semana retirei o livro da estante e o li, não digo reli, porque foi outra primeira vez. Anda me acontecendo diferentes primeira vez, Clarice Lispector e Kafka, por exemplo .  Os benefícios da idade. Em 1968 eu era uma jovem mãe, uma filha de três anos que carregava comigo por onde ia e passava, talvez até na leitura de livros.

A edição que possuo: Editora Nova Fronteira, tradução de Marina Colassanti, que por sua vez o traduziu do alemão. O título da edição alemã: Schneeland.

      A tradução é primordial, e se precisa orgânica como Chijimi, de cuja trama Kawabata se aproveitou em sua arte. Como dizia Haroldo de Campos não há tradução possível da obra poética, mas trans-criação. O que significa trazer para outra língua a frescura criada pelo poeta. A novidade que o poeta nos traz. A transcriação de Marina Colassanti permite o adensamento saturado de uma leitura poética. O livro é poesia, teatro, romance. Arte.  Estou impactada.

      Um jovem esteta deixa Tóquio e parte a turismo ao País das Neves, região do Japão, no livro, muito especial.  (As regiões de todos os países de nosso planeta são especiais). Ali encontra uma mulher que lhe revela outras formas de vidas, outros jeitos de viver além dos que conhecia, apesar de sua cultura cultivada. A mulher, aspirante à gueixa, ao longo dos poucos anos que se conhecem, entre chegadas e partidas, torna-se uma.  Vivem seu encontro precário entre a neve e o fogo, não apenas metafóricos, como literais, o frio e o fogo, o congelamento e o incêndio, o amor e a indiferença, o vazio e a plenitude.  A precariedade e a força vital do Chijimi,que pode durar várias existências.

       O que o livro me revela o ser humano tão diferente em suas distintas culturas e formas de subjetivação, e a essência, sem omitir a singularidade que marca cada um de nós, é tão reconhecível nas camadas tectônicas.  Somos camadas e eras, cada um de nós.  Quando preciso compreender um pouco mais de ser humana,  o que me chama e incendeia é a literatura, não livros teóricos e/ou empíricos.  Na literatura me encontro e encontro o outro.

Este livro é um poema, haicais de Bachô. Sinto-me privilegiada por tê-lo descoberto nos acasos da vida. É uma marca que permanecerá, parte do tecido do qual sou feita.

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