uma prosa poética- talvez crônica

descobri que sou parca de fé.minhas preces desconhecem o caminho do céu, guardo um travo na língua quando rogo misericórdias.descobri que os milagres só acontecem na casa do vizinho.carrego os vazios do mundo, a fome dos desesperados como uma facada no meio do peito.a rigidez da morte carrego cravada em minhas retinas, porque é assim mesmo, algumas realidades mancham nossos olhares como borrão.as cores que existem não me encantam mais.na poltrona da sala,um corpo invisível roga clemência, enquanto segura dores e engole antepassados silêncios. seus dias definham por asfixia selvagem.na secura do tempo suas mãos atadas ao nada, os olhos vendados no medo.impotente, ainda respiro o ar possível no descortinar dessa manhã ventando nas janelas, mas nada disso me conforta, apenas mastigo a dor junto aos insetos assassinados pela noite no meu terraço.o dia me dói nas vértebras, na carne, nos pulmões.no estômago o inatingível oco, vindo da certeza dessa vida fugaz, desse sopro sem chão, onde tudo se esgarça.o cheiro da morte se espalha pelos corredores, pelos vãos da porta, pelos livros assustados na estante, e se agarra nas fendas e margens da casa: - cheiro que arde, de qual nenhum esconderijo é refúgio.tudo já é ausência, no quarto, nas taças de cristal, no cálice de licor, na tez a me fitar em seu instante derradeiro.esse peso não cabe no poema, talvez entre o preto e o branco, talvez no miolo de coisa nenhuma.quando partem,as almas viram horizonte?nanamerij

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Belas Artes Belas.

Join Belas Artes Belas

Enviar-me um email quando as pessoas responderem –