Criadora da BA_Belas

Sadan

 

 

 Sadan

 

Eram 5 h da manhã de um dia de domingo. Sadan acorda, boceja, refrega os olhos. Deita-se por mais um minuto e levanta-se. Segue para a cozinha e nada acha para comer. Por hábito dá uma sacada instantânea para a entrada do pequeno banheiro sujo e fedorento. Percorre a casa parede a parede pelo lado de fora à procura de algo, mas sente na alma que todos os dias é assim. Observa o terreno e as casas vizinhas, mas fica ali estatelado sem saber para onde vai os pensamentos. Não fica tentado pelas casas vizinhas, de que adiantaria. Volta ao seu canto e uma soneca por mais algum tempo.

Definitivamente acorda junto com os demais e cabisbaixo segue para o portão de madeira desgastada e arame farpado. Decide descer pela rua com olhar agora atento para lá e para cá. Volta os olhos para a casa e vê a destruição dos resvalos dos bombardeios.

Chega enfim ao bar de café da manhã. Pessoas apertadas e falantes calorosas lá estão no desjejum.

Sadan insinua vez em quando que deseja participar da comilança, que de fartura não é. Pede com a cabeça um pedaço de pão quem sabe! Um a um diz não, o enxota como um animal qualquer. Sadan, então, busca nas lixeiras algum alimento. Lixeiras vazias.

O dono do bar incomodado dá-lhe um safanão. Sadan dispara descendo ainda mais a rua empoeirada. Ofegante para mais adiante e retorna a sua sina. Agora busca de casa em casa, escondido dentro de si mesmo. Na oportunidade invade um quintal ou outro.

Nem lixo há. Sadan recosta na parede de um comércio de verduras e dorme, parece desmaiado, quase morto. Sabe que o homem das poucas verduras é duro de roer. Chegar perto é quase um suicídio. Sadan dorme fraco. Talvez estivesse dormindo ali, para sentir-se mais perto da comida, sonhar com ela, embebecer-se nos aromas.

Sadan acorda e o sol já se está indo, esvaindo pela tarde quente, que frita almas. Sabe que não pode ir mais longe. Volta para casa e logo cedo ao sabor da luz de lamparinas e de luar retorna ao seu canto e a sua insignificância e dispõe seu esquelético corpo para alimentar-se de mais uma noite de muito sono. É a sua franqueza nua.

Sadan foi adotado pela nova casa depois de fugir da casa de um líder religioso, de uma aldeia próxima, esta atacada e destruída pelas forças militares norte-americanas. Adotado pela nova moradia com suas estruturas sujas, danificadas e de insetos naquela engrenagem chamada nova casa, mas não com a recepção devida que fosse de um simples ser, ainda que, vindo de uma linhagem da elite iraquiana. Passara todo o tempo como um ser estranho, quase despercebido pelos conviventes da moradia.

Passavam-se os dias e a comida que não existia tornava-se mais escassa.

Certo dia Sadan foi mais longe do habitualmente. Caminhando lentamente com uma febre de mais de 40 graus sob o sol escaldante, respirando a poeira seca suspensa pelas bicicletas , pequenos automóveis e transeuntes, arriscou-se em chegar na próxima aldeia. Sua busca era simples, um pouco de comida que fosse. A água barrenta ainda o mantinha vivo.

Chegando à aldeia permitiu-se premeditar de como conseguiria o que comer. Andou como um andarilho de deparou-se com um mercado. Balbuciava de como realizar um sonho simples: Obter um alimento! A alma já resignará-se com a sorte ou azar que a vida lhe reservara, mas o corpo não.

Filosofou por um instante de que quando morresse sentiria lá do céu ou do inferno a falta de comida, porque comer lhe era agora o melhor ato da vida.

Decidido parou nos fundos do mercado por entre caixas de madeiras e bagulhos de toda a sorte. Esperava encontrar sobras de alimentos, o que lhe seria suficiente. Mas nada!

Entrou então por uma estreita porta e deparou-se dentro de um banheiro nojento. Retornou e forçando a porta de ferro debaixo para cima abriu-a o suficiente para entrar no mercado. Ao colocar metade do corpo para dentro, levou pelas ventas uma cacetada do açougueiro. Com a caraça ferida saiu por onde entrou não por vontade própria, mas pela força da pancada. Com sangue escorrendo pelos olhos e mais o susto ficou por instantes, cego e surdo e com muita dor. Não ficou mudo, pois sem ter o que falar não falava e tendo pouco o que pensar quase não pensava. Pensar demais poderia lhe causar um gasto de energia desnecessário.

Rabugento com o estômago colado no outro lado do planeta aos poucos foi voltando a si e para a sua origem. A casa que o acolhia para dormir.

Mais uma noite de sono sob as lamparinas e a luz do luar. Mais fraco do que antes. Seu coração não batia compassado, o gosto mais amargo do estômago na boca. Seu pulmão não absorvia oxigênio, mas sim a fumaça das lamparinas.

Sadan acordou morto para a vida eterna ao frio daquela noite vazia.

Bem cedo de manhã, os estranhos moradores da casa pegaram o cachorro e o enterraram numa cova rasa nos fundos do quintal.

Sem oração e nem lápide Sadan subiu ao céu estando embaixo da terra empoeirada.

 

Publicado no Portal PEAPAZ em 16 julho 2015 às 11:00 

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