A posse é o túmulo do desejo

A posse é o túmulo do desejo

É incontestável o excitante sabor do desejo, do desafio de se conquistar alguém. Mas por que digo isso? Por que eu a vi, de novo, na rua e mais uma vez não pude deixar de observa-la atentamente. Tórridos olhares, fulminantes e que me deixam extasiado. Ela deve ter o que falta em mim. Falta algo em mim que não sei exatamente o quê. A falta é o motor do desejo, dizem os entendidos, impelindo-nos a continuar vivendo. Enquanto houver esta falta continuamos buscando algo mais, como faço neste momento, ávido por conhecê-la, tomá-la em meus braços. Quem sabe está nela o que me falta? Esta falta me congela, me absorve. Corro o risco de sofrer, é verdade, mas acho que o que traz dor não é o amor - é a falta dele. Você agora deve estar pensando, "isso é carência afetiva". Talvez. Acho que é mais que isso. Deve ser uma neurose obsessiva, querer projetar-me a ti, digo; a ela. Simples paixão, carnal, dirá você também, que está lendo estas linhas. Não. É algo mais. Já dura algumas semanas. Acho que é amor, misturado com curiosidade, mistério, atração pelo desconhecido, neste caso - desconhecida.

Não creio em processos químicos cerebrais, deve ser algo mais profundo, superior... Partindo desta premissa às vezes chego a uma conclusão precipitada; de que ela tem o que me falta, embora eu não saiba exatamente o que é. Mas se ela é alguém tão imprevisível por que a desejo? Saio na rua a sua procura e quando não a vejo volto pra casa amargurado. Às vezes penso que ela é tão selvagem! Assim vou colecionando fantasias na minha mente, de como ela é ou deve ser, o que pensa, seus desejos, suas aspirações, suas razões. Gostaria de conhecê-la melhor antes de me apaixonar, mas... Por mais terrível que possa parecer já estou apaixonado. Terrível porque eu deveria me apaixonar por suas características reais e não fantasiosas, delírios que vagueiam na minha cabeça. Algo nela atiça a minha fantasia, deliberadamente. Que sofrimento! Talvez eu tenha uma grande decepção quando tomar coragem de abordá-la e essa paixão (que muitos chamariam de tola) e todas as minhas fantasias caírem por terra. No outro dia quando acordar sentirei um vazio; a paixão acabou. Por que ela mudou? Ou melhor, o que mudou em mim?

Busco nela uma chama que na realidade é apenas um reflexo daquilo que ela projeta em mim. Encontrar-me nela, é realmente o que eu quero? Mas qual é o seu nome? Sinceramente eu não sei. Seja Maria, Ana ou Teresa, o que importa isso? Esta mulher, até então desconhecida, é uma necessidade imaginária. Andei refletindo que se eu não a tenho não corro o risco de perdê-la. Olha que coisa maluca! Mas que não deixa de ser um raciocínio lógico.

Afinal, a posse é mesmo o túmulo do desejo? Na análise freudiana o desejo sempre acaba quando tomamos posse daquilo que desejamos. Isso faz todo o sentido, sobretudo quando ardentemente, eu acrescentaria. Com sofreguidão, como é o meu caso. Na verdade, é isso mesmo. O desejo pode até durar para sempre, o que desaparece é aquele propósito, a paixão por aquilo que se busca alcançar. E esse sentimento é que aflige, decepciona, nos derruba. Entendemos assim o que é esse mistério, o mistério do desejo, que nos transforma em pessoas indiscutivelmente predestinadas a correr sempre atrás de algo novo, um novo desejo, uma nova razão para pulsar, viver.

Como diria Oscar Wilde "a melhor maneira de se livrar de uma tentação é ceder à ela." É isso aí! Pegar logo essa guria! Sapecar-lhe alguns beijos molhados. Agarrá-la com firmeza e depois de um mês de volúpia certamente verei que o paraíso não era bem o paraíso.

Concluindo este raciocínio, a posse, sendo o túmulo do desejo, este ao morrer, elimina o prazer. Mas enfim, eu não estou sozinho nesta. As pessoas canalizam seus esforços para o prazer, de forma hedonista, buscando assim, de maneira confusa, e irrefletidamente, o alvo do prazer, o insensato desejo, a sedução, o delírio, a conquista, enfim... Vícios, na verdade. Ansiamos avidamente por algo até que o consigamos. Agimos assim com as coisas, agimos assim com as pessoas, infelizmente.

Estou quase tomando uma decisão, acho que a mais sensata. Tê-la apenas na minha imaginação, e a imaginação, convenhamos, é algo insofismável. Sim, não se deve por em dúvida, o imaginário é mágico, milagroso, não há explicação racional. Assim, preservarei o objeto da minha adoração. Representá-la em minha mente da maneira que me aprouver. Cultuá-la no meu silêncio mudo. Vê-la e senti-la em gostosas imagens, excitantes visões, beijos ardentes, excitantes carícias, sussurros, juras de amor, numa multiplicidade de sentidos, sexual também - especialmente - se é isto que você pensou. Tê-la todinha só pra mim, que beleza! Ainda que seja só no plano mental, mas e daí? Recorrendo à Sartre, segundo sua concepção; "o imaginário é uma resposta à angustia existencial negativa da passagem do tempo." Agora atentem para esta citação de Víctor Hugo: "A imaginação é a inteligência em ereção, enquanto que a razão é a inteligência em exercício.” Já sabem qual é a minha opção? Claro que fico com a imaginação. Além do que, temo que toda essa magia perca o encanto ao conhecê-la. Assim evitaria muitas coisas desagradáveis, quais sejam; amargura, decepções, e vai por aí afora...

Quanto a esta minha exposição os conservadores talvez dirão: “Não há nada que se compare ao objeto real, o que existe somente na imaginação nunca prevalece, é imponderável”, enquanto os ultramodernos por sua vez: “Nada se compara ao objeto imaginário, tudo aquilo que pertence ao mundo da imaginação é o que conta”. Então, com qual dessas proposições você fica? Quanto a mim, decerto que fico com os ultramodernos.

Mas você já parou pra pensar que muitas vezes certas pessoas são interessantes apenas na nossa imaginação, e que a partir do momento que elas passam a ter vida própria tornam-se aos nossos olhos insignificantes?
Na minha imaginação ela é perfeita! E ponto final.

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Edir Araujo, poeta (marginal, pois não segue nenhum padrão pré-estabelecido) e escritor independente, sem vínculo com qualquer editora. Autor dos romances psicológicos "A Passagem dos Cometas" (2ª edição revisada), "Fulana", "Boneca de Pano" e "Risos e Lágrimas" Escrevendo mais 2 livros (na gaveta, "amadurecendo"). Eclético, tem grande diversidade de poemas, crônicas, artigos, resenhas, dispersos em jornais, blogs e sites pela internet.

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