Poetisa e Escritora

O Vale e suas histórias

O Vale e suas histórias

O rio que fertilizava o vale, carregava em seu curso segredos e histórias de um povo e de seus muitos amores. A imigração italiana deixou ali suas marcas – homens e mulheres que da terra tiravam seu sustento. O que muito faziam era trabalhar e procriar.

Uma família de caboclos morava num barranco, à margem direita, próxima ao povoado. Sua modesta casa servia de teto a uma velhinha benzedeira, sua filha e seus dois netos.

O trem que fazia o percurso do vale passava todos os dias, com seu apito estridente e os passageiros a acenar,quadro que já fazia parte da paisagem. Quando apitava na curva deixando a montanha para trás, Joana dizia para o filho:
- Vai cortar capim para as vacas, que está na hora.
- O filho mais velho respondia:
- Já vou, mãe.
Enquanto isto, o filho mais novo brincava com o som do trem:
- Jaca-taca, jaca-taca, piuíiiiiiii, piuíiii.

Viviam à maneira deles, porque não tinham ambição nem apegos. A cada dia que Deus colocava no mundo, dava-lhes o que precisavam: tinham um telhado para abrigar-se e comida para matar-lhes a fome. Para eles isto era muito.
Na escola os meninos aprendiam a ler e escrever e fazer contas. Seu mundo se limitava aquelas montanhas que os circundavam, ao pequeno espaço em que viviam.

Eram criaturas que viviam sob o ensinamento da máxima bíblica: «Olhai os lírios do campo, que não tecem nem fiam, no entanto nem Salomão com toda a sua riqueza jamais se vestiu como um deles!

A avó, Dona Rosa, sempre com um rosário na mão a rezar estava. Ela era uma rosa muito desfolhada pelo tempo. Lembro-me quando bem pequena, minha avó me levava pela mão, atravessando os trilhos do trem e umas roças de cana e mandioca, para ser benta de dor de cabeça e de luxações que os brinquedos ocasionavam, como cair de bicicleta ou então de uma árvore de nossa chácara.

Jamais esquecerei das palavras que dizia a anciã:
- Co coso?
E eu tinha que responder:
- Carne rasgada e nervo torto.
Aquele ritual tinha que ser repetido por nove dias seguidos. Impressionava-me o rosto da benzedeira, porque me parecia um terreno cheio de rachaduras, tantas e tão profundas eram suas rugas.

O gato dormia no calorzinho ao lado do fogão a lenha. Joana, a mãe dos meninos, carregava às costas o balaio de roupas. Quando chegava à beira do rio, largava o peso sobre uma pedra. Naquele dia ajoelhou-se diante da Natureza, ou melhor, diante de seu trabalho. Ensaboava devagar peça por peça, cantarolando uma música sertaneja. Os ecos se espalhavam na imensidão. Colocava a roupa ao sol, para clarear.

Sentou-se na pedra e olhou-se no espelho das águas que tremulavam, já conhecia aquela imagem, tinha em casa um espelhinho quebrado, pendurado num prego, no quarto de dormir. Espelhando-se, usava pó de arroz e batom quando ia à domingueira dançar. Lembrou-se de uma história que seu filho leu no livro da escola, sobre um jovem vaidoso chamado Narciso, que virou flor porque admirou sua própria beleza no espelho das águas. Ficou com medo e parou de mirar-se. Recordou-se de um sujeito que lhe disse que ela era bonita, e sorriu.

A cadela vira-lata dormia sob uma moita de carqueja. Tudo era ermo naquele fim de mundo. Apenas se ouvia o piar de uma ave que cortava os ares, e o choc-choc do remo de uma canoa que vinha da outra margem. Um vulto,que quanto mais se aproximava, ia delineando-se um rosto moreno. De onde vinha e o que queria aquele barqueiro? Seria um amor secreto? O palco do encontro era ali, o grande rio por testemunha. Uma jacucaca piava numa árvore, os peixes procriavam, tudo conspirava à fertilidade.

Se fosse no norte brasileiro, certamente este barqueiro seria o Boto cor de rosa encantado em homem.

Arlete Deretti Fernandes

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