PRATA BABPEAPAZ

Chiareta

Algumas referências reais desta história de vida é de um dos livros de meu falecido pai, "Apiúna nos Meus Apontamentos". Meu pai era historiador e pesquisava sobre A Colonização Italiana, alemã, polonesa e portuguesa no Vale do Itajaí, onde viveu muitos anos de sua vida.

Recordo-me, que ainda criança, quando Chiareta chegava na cidade e perambulava falando sozinha, as crianças sentiam medo e corriam a esconder-se.

No início do século passado, em muitas localidades catarinenses havia aldeias indígenas em plena mata.

Alguns colonizadores, muitas vezes ao embrenharem-se na selva, encontravam-se com os índios e os atacavam violentamente, provocando verdadeiras chacinas. Em contrapartida, os indígenas esperavam a ocasião propícia para revidarem com a mesma violência.

Chiareta, era uma senhora conhecida por todos na região. Em determinadas épocas, saia a perambular pelas estradas, com um saco às costas, e a falar sozinha com seus personagens imaginários. Muitos, principalmente as crianças, temiam-na, porque ela andava o dia todo em círculo vicioso. Ela ouvia vozes, discutia em italiano com vultos ocultos que lhe pareciam estar dentro das moitas, pastos e matas.

Certa ocasião, aproveitando-se os índios da ausência do chefe da família, um grupo de mais de cinquenta botocudos, na divisa entre Guaricanas e Apiúna, atacaram a casa, mataram a mãe de Chiareta, aos trinta e seis anos de idade, e duas filhas, com dez e doze anos respectivamente. Dois filhos pequenos, de seis e três anos de idade, escaparam da morte escondendo-se dentro de um bueiro.

No mesmo dia, no mesmo lugar, os índios atacaram outra família, com flechas e gritos de guerra. Dois filhos tentaram fugir, porém o pai não deixou, e usando uma espingarda calibre 16, que era carregada pelos dois rapazes, trocou tiros com flechadas, caindo morto um índio. Seus companheiros carregaram o cadáver aos ombros, desistindo da luta.

Ao se afastarem, admirou-se este chefe de família ao ouvir falar por um deles, em português, esta frase: - «Essa vocês me pagam»! Descobriu-se, depois, que quando os índios foram aldeados em José Boiteaux, que lá se encontrava o autor da ameaça. Era conhecido com a alcunha de «João Trovoada». Confessou que ajudou a atacar as duas casas. Não era índio.

Chiareta, na tenra idade de seis anos presenciou cenas de grande violência. Estas fortes impressões abalaram-lhe o juízo, manifestando desde então, sintomas de loucura. Casou-se aos vinte anos e teve filhos. Sempre vacilante e um pouco transtornada, mesmo assim trabalhava com eficiência em sua própria casa. Outra desventura contudo, penetrou em seu humilde lar, o marido estuprou a própria filha.

Abatida com o relato, foi possuída de sintomas agudos de loucura. Quando sua demência não era tão pronunciada, voltava para casa e cuidava dos filhos. Os vizinhos ajudavam-na.

Algumas vezes saía sem rumo, levando consigo os filhos. Estes frequentavam a escola, com dificuldades. Não obstante sua debilidade mental, tinha um instinto maternal extraordinário, dispensava aos filhos os maiores cuidados. Naquela época não existiam remédios para doenças mentais.

Lúcida ou não, era de grande retidão moral. Se as galinhas dos vizinhos botavam ovos em seu terreiro, prontamente devolvia-os. Tinha os maiores cuidados com sua limpeza corporal. Quando chegava a alguma casa, e vendo que não havia asseio, perguntava se não tinha areia ou cinza e ia limpando tudo. As panelas ficavam brilhantes.

Em idade avançada, vivia com uma filha, acariciando os netinhos, mas sempre com a aparência de doente.

Como Dom Quixote, Chiareta saía de seu pequeno mundo. O personagem de Cervantes nos seus delírios lutava contra os moinhos de vento, vendo-os como gigantes cruéis.

Chiareta lutava contra um mundo distorcido dentro de sua alma, de sua mente, muito mais cruéis os fantasmas, e maiores que os moinhos de vento.
Em sua imaginação via os monstros por onde andava. Os monstros que assolaram violentamente sua vida, desde a inocente idade de seis anos.

 

REFERÊNCIA

DERETTI, Miguel. Apiuna nos meus apontamentos. Porto Alegre: Editora Gráfica Dom Bosco, 1970.

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