VISÃO AO AMANHECER

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Manuel tinha 70 anos e vivia em Macau, na costa sul da China, de frente para Hong-Kong cidade que foi até há 16 anos atrás, a última colónia portuguesa e europeia na Ásia. Ele tinha sido um marinheiro português e nessa qualidade viajou para aquelas paragens a serviço, há mais de cinquenta anos. Para trás deixou o seu Alentejo, a província que o viu nascer ao sul de Portugal, a sua mãe e família e em especial, a sua noiva Amélia.

Como foi difícil aquela separação! Mas naquele tempo era assim, como ainda hoje continua a ser imperativa a separação dos casais que se amam, por motivos de trabalho ou de compromissos com a pátria ou outros. Como todas as noivas, Amélia prometeu esperá-lo, para se casarem, como era o sonho dos dois. Pelo menos, Manuel assim acreditava. E numa madrugada, lá zarpou ele, com os seus camaradas, no navio Gonçalves Zarco, que viria a ser o último navio da Armada Portuguesa a prestar serviço em permanência em Macau.

Naqueles tempos para comunicações de longa distância, apenas se usavam as cartas e no caso especial dos militares e marinheiros, os aerogramas, pois os telefonemas para tão grandes distâncias, eram caros e difíceis de estabelecer ligação. Por isso a chegada do correio, era ansiosamente aguardada pelos homens ao serviço da Pátria em longínquas paragens e suas famílias. Primeiro Amélia escrevia e respondia às suas missivas com regularidade, depois começou a demorar. A preocupação foi-se instalando, mas a demora era atribuída às dificuldades na comunicação, até que um dia chegou uma carta da mãe, com a confirmação do pior que poderia imaginar. Amélia tinha partido para Lisboa para casa da madrinha e dizia-se na vila, que namorava com o primo engenheiro. Desesperado e incrédulo, Manuel escrevia cartas e aerogramas sem resposta, até que um dia perdeu o amor ao dinheiro e conseguiu uma ligação telefónica intercontinental para a sua mãe. Teve o maior choque da sua vida. Amélia tinha casado com o filho da madrinha e estavam a viver em Lisboa.

A partir desse dia a sua vida mudou. Resolveu não voltar mais á pátria amada e ficar para sempre no oriente. Tal como Luís Vaz de Camões antes dele, teve a sua paixão por uma bela chinesa, com quem veio a casar e constituir família. Estabeleceu-se em Macau, fez carreira na Marinha até que se reformou e com mais tempo livre, continuou a viajar e conhecer os países vizinhos, em especial a Tailândia, o Laos, a China e outros, dos quais publica com regularidade fotografias no seu blog, bem como poemas ao seu amor perdido.

Agora naturalizado chinês, morador em Macau há meio século, todas as madrugadas, abre a sua janela debruçada sobre o mar da China e contempla a chegada de mais um amanhecer sobre a mítica cidade, palco de tantas aventuras lusas. No seu íntimo, agora e sempre, uma mágoa, um sonho e uma visão: Amélia, a sua noiva que traiu as suas promessas e ditou o seu destino, afastando-o para sempre da sua pátria distante!

 

Arlete Maria Piedade Louro

PORTUGAL

(Baseado numa história verídica. Os nomes foram alterados para proteção dos intervenientes)

Vejam um vídeo e histórias e factos da Macau antiga, a seguir;

http://macauantigo.blogspot.pt/2012_03_01_archive.html

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