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UM DOCE CONTO DE COLHEITA

 

Miguel trabalhara desde menino na Fazenda Cafezal Brasil  situada na região de Alta Mogiana que abarca cerca de 15 municípios Paulistas e 8 municípios Mineiros.Nesta alta região de clima apropriado produz-se café de alta qualidade tipo exportação e onde concentra cerca de 53% da produção nacional do café.

A cidade de nascença de Miguel é Altinópolis, estado de São Paulo, e onde a fazenda grandiosa e eloquente com a vasta plantação de café fez parte de sua adolescência.

 

Seus Pais, empregados da fazenda, vestiam a terceira geração daquela família de trabalhadores rurais por aquelas paragens de Mogiana, descendentes de Portugueses, Índios e Africanos , mestiços de cor, todos de cor morena e cabelos frisados, pretos e espessos. O Pai na lavoura e a Mãe na cozinha, e como cozinhava bem, aprendizado de seus antepassados e como Dona Joana era requisitada para esta tarefa, e quantas vezes fora emprestada as outras fazendas vizinhas.

José, seu Pai, trabalhava duro no cafezal, não era um trabalho escravo, mas extremamente pesado e árduo nos tempos de colheita, manual e precária.

Miguel, criança, estudava na única escola da região, esta mantida com recursos dos próprios fazendeiros, ricos, da região. Estudava-se o equivalente ao primeiro grau atual. A partir do segundo Grau, os filhos dos fazendeiros eram deslocados para estudar ao equivalente 2º grau atual em cidades próximas, longe, e caro. Os dependentes dos trabalhadores da lavoura, poucos tinham condições de enviar seus filhos para completar o primeiro ciclo dos estudos essenciais antes da Universidade.

Miguel foi um dos que, filho de trabalhadores da terra, foi agraciado em estudar o 2º grau, graças ao esforço, empurrão e influência de sua Mãe Dona Joana junto aos patrões. Que fazendeiro teria a coragem de negar um pedido dela por mais delicado, medroso e tímido, todos derrotados pelo estômago, a cozinheira não somente exemplar em suas habilidades culinárias, mas uma pessoa simples,de postura elevada,de confiança, e conhecida nas habilidades das compotas de frutas em plena fazenda de grãos, café, o café de consumo da casa, ela colhia, secava,torrava e moía,homenageada de Rainha Maior (*1) que não gostava de ter e receber. Dona Joana, antes de tudo, zelava a atitude servil de quem recebe um salário por digno trabalho.

No dia da formatura, longe da fazenda, quase todos da região de Mogiana presentes,após a cerimônia de entrega dos diplomas antecedidos por discursos, os Srs. José e Joana  perguntavam-se, e agora José, e então Joana. O que o filho decidiria de seu próprio futuro?

 Terminada a festança no Clube, hora de retornar ao Hotel, Miguel sumira, e o desespero chorou alto e lágrimas jorraram cidade abaixo.Todas as medidas cabíveis foram tomadas, e Miguel não aparecera.

De volta a fazenda, no dia seguinte, os patrões do café tentavam buscar um conforto aos seus empregados. Passaram-se cinco anos de sofrimento e uma carta de Miguel chega aos Pais.

“ Meus amados Pais,

Benção. Estou bem,terminei a Faculdade de Nutrição. Estou mudando para uma nova região do País.Perdão Pai, perdão Mainha pelo sofrimento que estou lhes causando Continuem a rezar por mim. Um dia voltarei...

Seu único e sagrado filho

Miguel ”

Os Pais, a tristeza assombrosa, um misto de sofrer e prazer, um sentimento estranho em que os Pais sofreram o desconhecimento da perda, do sumiço total irreparável, com a parcial  perda e sumiço desvendada por uma carta sem pé nem cabeça. Abençoar ou excomungar.

Passaram-se mais 9 anos e chega uma nova carta a 2ª de Miguel.

“ Meus amados Pais,

Benção. Estou morando no Ceará , na cidade de Quixeré. Tenho uma fazenda que produz frutas o ano inteiro. Tem melão, banana, mamão e muitas outras. Vendo frutas até para a Alemanha, acredita Pai, sabe Mãe. Pai, aprendi a lidar com plantações de frutas, é uma sabedoria do povo de Israel que  trouxemos para o Brasil .A fábrica de Doces em Compota está pronta. Mãe, a Senhora vai inaugurar a fábrica, cortar as fitas. Mãe, trás as receitas de compotas, todas elas. As receitas  que tens de cor, por favor, escreva no caderno.

Façam as malas. Peguem as passagens que lhes envio e venham morar comigo. Depressa, o tempo não espera, e o esperado morreu no espaço.

Preciso de vocês aqui olhando e vivendo tudo isto junto de mim”

Seu único e sagrado filho

Miguel ”

Festança comedida na Fazenda, Seu João e Dona Joana de partida, de despedida

Chegaram a Quixeré e se apaixonaram pela linda fazenda de frutas do filho. Acolhidos em casa própria dada pelo filho, muito luxo para um fiapo de família fruto de várias gerações de servis.

A modernidade dos equipamentos não lhes assustaram tanto, pois assistiram aos mesmos avanços tecnológicos na fazenda de café, produtividade que tirava o emprego de muitos dos seus pares de luta. O clima sim, mais quente e árido, mas de áreas de muita irrigação.

Depois de 10 meses  ali no Nordeste, estavam felizes e adaptados a nova vida. José e Joana não acreditavam às vezes, de como aquele filho franzino, quieto, inocente e pueril de criança até a adolescência tornara-se um homem de negócios, atarefado, um viajante de negócios, e os conselhos vinham, descanse um pouco filho, você trabalha demais.

 Com um  ano ali empossados e felizes, Miguel lhes dera um aviso de que iria mudar-se para o Vale do São Francisco, acabara de comprar uma participação em um novo negócio, uma enorme Fazenda de Plantação de Uvas e fabricação de vinhos, e Miguel disse.

-Acredita Pai e Mãe. Aqui no Nordeste temos Uvas e Vinho e vendemos para outros Países  e quem nos trouxe a tecnologia , bem a tecnologia é Israelense”

Miguel , em seu jatinho particular, partiu para o Vale do São Francisco, solteiro e sem filhos com a promessa de levar os Pais para visitar a nova fazenda e fábrica e que viria visitá-los de três em três meses.

Seis meses antes, sua mãe, Dona Joana, sentimento natural em ser uma segunda mãe, Avó, lhe perguntara se tinha namorada, se  tinha vontade de constituir família e ter filhos. Miguel respondeu que não havia pensado nesta possibilidade e que deixasse tudo como  está, ainda prefiro o aroma e o doce das frutas e sua compota de sobremesa.

FIM

Antonio Domingos Ferreira Filho

 

Rainha Maior (*1) - o autor não descreveu o correto nome pelo qual Dona Joana era chamada com louvor, já que esta detestava tal deferência...

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Respostas

  • BRONZE BABPEAPAZ

    Vencedor  na batalha da vida

     Sempre é tempo de plantar e colher

     Abraços 

    3543883731?profile=original

    • Olá estimada amiga Dione. Obrigado por ter lido e comentado. É sempre um estímulo de grande valia.

  • BRONZE BABPEAPAZ

    Estimado Escritor Antonio Domingos

    3543878668?profile=original

    Muito interessante esta historia e que deixa pensando muito na Colheita que fazemos da Vida, do que vamos semeando.

    Em 14 anos 2 contactos... um risco muito grande uma opção de vida que por sinal deu frutos! Na minha forma capricorniana de pisar chão sólido e seguro ...deixou-me pensando em filhos. Os ausentes os presentes os fugidos......

    Ao ler este conto sobre Miguel e seus Pais e Miguel ele próprio ... ocorria-me a canção tão vossa conhecida "Tocando em Frente"

    3543878819?profile=original

    às vezes na vida É necessario PAUSAR....outras a Vida nos Pára............

    GOSTEI desta leitura...! GRATA Escritor Antonio Domingos.

    beijossssss de poesiaaaaa

    Chantal

    • Obrigado amiga Chantal por colorir este conto com seu comentário e  com esta linda música composição de Renato Teixeira e Almir Sato, dois ícones das canções de Viola Renato Teixeira é o compositor de Romaria, um dos maiores sucessos de música brasileira. Moro na cidade vizinha de Taubaté, cidade natal de Renato Teixeira.Tocando em frente é demais de linda música.

  • 3543877658?profile=original

    • Muchas gracias estimada amiga de la Poesia por leer mis publicacciones

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    O destino de alguém narrado, em vias prósperas, com obstruções que se fizeram mediante o laque de comunicações com a família, não deixa de ser uma marca intransigente a todos aqueles que confiaram no rapaz,  que lhes devolveu ingratidão, por longos anos.

    A apreensão se fez presente , e não poderia deixar de ser , por aqueles que com ele se importavem.

    A fartura , ricamente repassada pela produção de vegetais, que se multiplicavam, à olhos vistos, com grande abundância.

    Outra vez é premiado com a prodigalidade, mas preferiu , outra vez, mudar-se para outras plagas, buscando agora a fartura nos vinhedos.

    Parece-me, que este rapaz, dá pouco valor àqueles que o cercam, como também não gosta de criar raízes, ou de fixar-se em algo ou alguém.

    Um conto que contém uma mensagem dizendo , que quantos iguais ao rapaz, não se apegam fortemente, aos laços afetivos e estão sempre em busca de algo maior.

    Assim o compreendi!

    Não sei se interpretei à contento!

    beijos

    • Olá estimada Lais,

      Obrigado por ler e comentar.

      Seus comentários estão corretos. O conto é aberto a múltiplas interpretações. Não tive a intenção de passar mensagens acerca dos personagens, eles existem na ficção do conto e  são factíveis na vida real.

      Escrevi uma história quase sem correções e revisões, a não ser os lugares do Café e das Frutas que pesquisei e estes lugares existem como no Conto.

      A personagem Miguel , totalmente uma ficção , é o único que tem comportamento atípico as regras e está sujeito a muitas avaliações. Fugiu dos Pais sem motivação explicita/// Lutou sozinho por mais conhecimento e instrução/// Venceu batalhas em sua vida não detalhadas/// Permaneceu solteiro /// Nunca foi insinuado que tivera um relacionamento amoroso/// Aproximou-se sempre dos Pais  mantendo uma distância não esclarecida /// Venceu na vida e deu conforto aos Pais/// Tem , talvez uma pista, de que era franzino e muito tímido em criança e adolescência//// Mas, teve coragem de ir a luta...

      Gostaria de conhecer um pouco mais de Miguel.

      Quando a gente escreve, muitas vezes, transmitimos algo que nem imaginávamos escrever ou ter a intenção.Já usei vocabulário que me veio a cabeça e depois fui ao dicionário para  ver se tinha algum sentido para o texto.

      Mais, uma vez, obrigado amiga. Amanhã começo a ler as publicações dos colegas neste tema da Antologia 83.

      abs

      antonio

      Em Tempo: Eu iria lhe dar as razões do meu terceto em VANIA, mas como ficou tudo bem, desisti. Ficou muito linda a homenagem a Vania no TRÍVIOLETRA.

      O meu terceto entrelaçava o significado da palavra Vania, com o Mapa astral dos signos. O resultado era um amor romântico tipo o de Romeu e Julieta quando Vênus sofria influências de Peixe.

  • BRONZE BABPEAPAZ

    Amigo Antonio, uma bela e bem contada obra.Abraços carinhosos.

    • Olá estimada Regina

      Obrigado por sua preciosa leitura e comentário

      Já sei que tens um texto para este tema, logo,logo, lerei e farei meus comentários

      abs

      antonio

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