CAMINHOS PARALELOS (CONTO)

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Era ainda uma menina quando começaram a indicar-lhe o caminho a

seguir na vida e ela tímida e respeitando a opinião dos pais, não ousou rebelar-se. Nem via como o poderia fazer, na mentalidade das jovens daquela época, não havia opções a não ser seguir as orientações dos mais velhos da família.

Foi-lhe sugerido pela professora que devia seguir os estudos e os pais orgulhosos da inteligência da filha seguiram à risca as recomendações da docente. Mas também havia uma certa inveja e competição em relação à família e à filha do irmão. A sua própria filha também tinha que se destacar, para o pai poder provar que também era um pai de família de sucesso.

Foi assim que deixou para trás a infância e a escola primária, incluindo o seu primeiro amor dos primórdios da adolescência, e seguiu o seu próprio caminho.

Não podia desobedecer ao pai, que lhe tinha proibido namoros, enquanto não concluísse o curso, para poder ter uma vida melhor, que a dele próprio, eivada de sacrifícios e carências. Ela compreendia essa posição do pai, mas no seu íntimo rebelava-se e essa revolta surda ia deixando marcas na sua personalidade que de tímida passou a revoltada e a procurar consolo na comida e nos doces que comia às escondidas como forma de consolar a sua carência afetiva.

Engordou e a sua autoestima emagreceu na mesma proporção. Começou a isolar-se de todos e a deixar de acreditar em si própria e em que era merecedora de amor e carinho dos rapazes. Não acreditava que podia ser amada e quando voltou a encontrar o seu amor de infância, que jamais deixara de estar escondido num cantinho secreto do seu coração, quis voltar a acreditar. A medo abriu um pouco as suas defesas, mas voltou a ser desiludida e de novo seguiu o seu caminho.

Casou com o namorado mais conveniente, seguiu a vida que lhe estava destinada pelos pais, com um bom emprego, uma casa própria, dois filhos perfeitos, e um vazio enorme, que só era preenchido pelos doces nas pastelarias da moda. Voltou a engordar durante os anos seguintes, mas nem se importava mais nada com isso. Para quê lutar, se ninguém se importava com ela? Se ninguém a amava, era esse o seu caminho, o vazio, a solidão a falta de amor- próprio.

Às vezes ainda ousava sonhar com o caminho que há muito tinha deixado lá atrás na adolescência, com esse primeiro amor, que tinha seguido também o seu próprio caminho.

Até que um dia ousou procurá-lo…mas era tarde. Os dois já de idade avançada, doentes, solitários, traumatizados pelas experiências falhadas de vidas vazias dos afectos sonhados, para onde poderiam ainda caminhar juntos?

Resolveram mesmo assim tentar reencontrar o caminho do passado. Mas os silvados tinham invadido as veredas daquelas florestas e campos que trilhavam na meninice. As velhas árvores estavam derrubadas. As casas em ruínas, tal como as suas vidas e corpos eram já só as ruínas do passado e dos sonhos de infância.

Agora caminham juntos, rumo à velhice e ao fim da vida, apoiam-se mutuamente na doença e na desilusão, mas mesmo assim, ainda há quem os queira separar com inveja de um velho amor que reencontrou o seu próprio caminho.

Arlete Maria Piedade Louro

Portugal

 

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Respostas

  • Uma estória contada, por quem realmente entende do ofício de escrever... Parabéns e abraços, amiga literata...

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

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    • 3544356404?profile=original

      Queridas MIL e Sílvia Mota, muito grata pela distinção concedida ao meu conto CAMINHOS PARALELOS. Cada uma destas flores representa o desabrochar da inspiração que me concedem ao ler-vos e receber o vosso carinho. Mil beijos, Arlete M. Piedade Louro - Almeirim - Portugal

  • Arlete Maria Piedade Louro Mis mejores deseos de éxitos ...Un abrazo entre alasSmile.gif

  • BRONZE BABPEAPAZ

    Querida Arlete,uma bela e bem contada estória. Abraços carinhosos3543837579?profile=original

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Arlete Maria Piedade Louro

    Uma estória tão bela, encantadora,

    querida Arlete, que maravilha estares de volta,

    parabéns pelo magnifico texto, bjs MIL.

    3543837240?profile=original

    Página de Arlete Maria Piedade Louro
    Página de Arlete Maria Piedade Louro no Poetas e Escritores do Amor e da Paz
    • Querida MIL, venho agradecer todo o carinho! Beijinho, Arlete Louro3544353498?profile=original

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