UM HOMEM BOM

          Vivia ele no centro do conflito entre o ser e o ter. Amanheceu aquele dia, lavou-se, vestiu-se, saiu de casa com aquela questão no pensamento. Dirigia-se para a redação do jornal onde conseguira uma colocação como jornalista. Ocupava uma das vagas de redator. Um formador de opinião, pois veja. Chegou até lá e sentou-se à sua mesa, estava disposto e lhe era permitido escrever sobre o tema que escolhesse. Tinha esse privilégio, o direito de fazê-lo ele o conseguira depois de muito tempo de trabalho. O teclado aceitava o que ele escrevesse. Aí, pensou, nem tudo me é permitido. Lembrou-se então de sua esposa e de seus filhos. Começou a redigir."O ser é quem dá permissão ao indivíduo de ter." Releu a frase, pensou mais uma vez, não viu opção melhor. Imaginou então que a sua esposa e os seus filhos o esperavam em casa, com o que ele pudesse lhes dar que fosse fruto de seu esforço. Nesse sentido a sociedade tinha avançado muito. Hoje é permitido aos homens serem para terem. Um  é médico, outro é pintor. Pensou em outra frase, alguma que fosse ao menos mais original. Estaria sendo muito exigente consigo mesmo? Estaria querendo ultrapassar-se, passar por cima de si mesmo? Não soube se responder. Melhor escrever o que lhe viesse ao pensamento, desde que fosse sensato. Ficou ali redigindo aquela matéria, não poderia deixar de fazê-lo, quando chegasse ao fim poderia exibir o resultado ao chefe e ouvir suas palavras.

           Agora pensemos nós, esta questão que se resume em decidir entre o eu tenho ou o eu sou é realmente muito difícil. Exige algum saber, exige que se tenha sentimento do mundo, exige conhecimentos objetivos. E mais algumas coisas. Enfim, escreveu o artigo. Do seu computador podia mandar o escrito direto para o computador do seu chefe, que era um homem muito ocupado. E o chefe ao ler o que ele escrevera, ergueu-se e veio até onde ele estava e apertou-lhe a mão, elogiando-o. Ele sorriu, agradecido.

          Passou os dias daquele mês persenguindo a sua questão e escrevendo na redação do jornal as suas matérias com variações. E as cartas do leitores chegaram até lá, algumas reclamando dele e a maioria aplaudindo-o. O chefe chamou-o para conversar:

        - Meu caro, vou ter que lhe dar novas orientações.

        Ele, ouvindo aquilo, replicou:

        - Houve alguma coisa a mais que as cartas dos leitores?

        - Você não acha que é o suficiente? São eles que sustentam você, o jornal.

        Então, ele  pensou novamente na esposa e nos filhos que o esperavam. Era ele de quem eles dependiam. E disse:

        - Pode deixar chefe, vou variar mais minhas matérias.

        - Eu acredito em você, sempre foi um bom profissional.

        No fim daquele dia, ele tinnha resolvido, quando se despediu dos colegas e se dirigiu para casa passou diante de um mendigo a quem auxiliava com esmolas. Chamou-o, Deu-lhe uns trocados e se foi. O mendigo andou até a igreja, aproveitou que não tinha ninguém lá dentro e entrou para orar. O mendigo pensou: "Ele é um homem bom."

ARISTIDES DORNAS JÚNIOR 

        

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Belas Artes Belas.

Join Belas Artes Belas

Enviar-me um email quando as pessoas responderem –