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Carta aberta aos poetas brasileiros por Alexei Bueno

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2002

 

Intróito

Há um mal-estar generalizado entre os poetas brasileiros, atirados, há um bom tempo, a uma terra de ninguém crítica e ideológica, à incompetência normativa e à pura mistificação. Como tenho 38 anos, certa experiência na área e não sou burro, entrego essas rápidas reflexões aos meus companheiros de arte, sobretudo aos mais jovens. 

O Brasil não é um país sério 

É preciso sempre recordar esta frase atribuída ao general De Gaulle. Num país onde falsificam remédios para câncer e fazem hemodiálise com água contaminada, deve-se desconfiar de tudo, ainda mais de crítica de poesia. Não acreditem que a poesia brasileira começou em 1922, como parecem julgar certos senhores. É como um francês que julgasse que a poesia francesa começou com Apollinaire. Não acreditem que letra de música é poesia. Basta ouvi-la sem música para ver que não é. É como um francês misturar Gilbert Bécaud com Rimbaud ou Baudelaire. [...]

Não acreditem em críticos que não tenham a mais vasta cultura literária. Como é impossível que um crítico de cinema que não conheça exaustivamente Griffith, Eisenstein, Godard, etc etc seja um crítico de cinema. O crítico de poesia que só conhece ''vanguardeiros'' e ''marginais'' não pode criticar poesia nenhuma. Vá ler Camões, vagabundo! Essa gente pode ter gostos ou opiniões, como todos temos, mas o gosto é para a estética o que a opinião é para a filosofia, nada. Como nada disso é crítica. 

As mistificações 

Quem inaugurou a mistificação crítica, inicialmente por revisionismo, no Brasil, foram, como sempre, os famigerados concretistas, com o abominável Sousa Andrade, ou Sousândrade, e depois com as indefensáveis traduções de Homero e Virgílio de Odorico Mendes, espírito quantitativo para quem o maior mérito era traduzir os dois clássicos com menor número de versos que os originais grego e latino. Quem tem o menor conhecimento do que é um hexâmetro grego e latino sabe o que significa isso ao se falar de decassílabos portugueses. Um caso de hospício. Não deixem de ler, no entanto, Sousândrade e Odorico. O segundo tem uma ótima métrica e interessante sintaxe, o primeiro, às vezes - muito raramente - consegue escrever um trecho que preste. Mas leiam antes, pelo amor de Deus, o nosso grande Gonçalves Dias do I-juca-pirama e as traduções magistrais de Carlos Alberto Nunes. Todos são maranhenses, ninguém poderá me acusar de bairrismo. Só que os últimos não serviram aos interesses da camorra. 

A atualização das mistificações 

No princípio, o embuste era feito no passado, mas ele foi se atualizando. Entre seus aggiornamenti mais notórios contamos os casos de Ana Cristina César e Paulo Leminski, até chegar à plena atualidade. 

O fetichismo da objetividade 

O Brasil continua, até hoje, atolado na Escola do Recife e no Positivismo. É o fetichismo da objetividade, que serve de base para as maiores sandices críticas entre nós. [...] Há subjetividades muito mais exatas e diretas que mil objetividades. Falarão também contra a ''metafísica''. Mas se há algum problema com a metafísica, A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, que é tão puramente metafísica que às vezes não parece literatura, deveria ser jogado ao lixo. Depois falarão que a obra literária deve ser racional e concisa. Concisa no país que deu Os sertões e Grande sertão: veredas! Depois virão com a ''escadinha'' das escolas, as genealogias literárias, todo esse lixo oriundo da ideologia do progresso, a coisa mais espúria em arte, criada no século retrasado. Para o diabo! Toda a grande literatura é continuidade e sobretudo ruptura. [...] 

Os rótulos 

Nesse caminho, sem a menor dúvida, os que não fazem parte da máfia serão rotulados. [...] O sr. Carlito Azevedo, serviçal mais aplicado da máfia concretista-marginalóide, disse que eu era ''conservador''. Há quase 50 anos, todos os que não se apresentam como discípulos fiéis do sr. Haroldo de Campos nesse país são tachados de ''conservadores''. Ou agora, palavra umamente ridícula, ''neoconservadores''. Em relação a o quê, ou a quem? Há muito tempo sou um dos únicos poetas a reagir aos dados da imediata atualidade nesse país, já que, como homem normal, não me sinto à vontade nesse shopping center compulsório gerido pelos mísseis e bombas da ditadura militar planetária norte-americana. 

A idolatria cabralina 

João Cabral de Mello Neto, o admirável poeta que todos conhecemos, foi cooptado por esse povo para criar genealogia literária. Estão fazendo com ele o mesmo que fizeram com Bilac após a sua morte em 1918. A ''verdadeira'' poesia brasileira sairia de Bilac etc. Saiu? Agora João Cabral é a bola da vez. Como agravante, aproveitam-se dos inúmeros equívocos sobre poesia e arte por ele falados. Grande idiossincrático e grande mal-humorado, sempre falou os maiores absurdos sobre poesia. [...] Leiamos todos a grande poesia de João Cabral, sobretudo a anterior a Agrestes, e mandemos a ''genealogia'' e os idiotas que a pregam para o inferno. De João Cabral não sairá nada para a poesia brasileira, como não saiu nada de Castro Alves, de Euclides da Cunha ou de Drummond, só pastiches ou epígonos. A ''verdadeira'' poesia brasileira será a de quem a escrever grande, e João Cabral não merece ser avô dos pigmeus que por aí invocam o seu nome. 

A morte da liberdade 

Após uma luta feroz para se estabelecer uma liberdade criadora no Brasil empreendida pelos modernistas na vigência do lamentável Neoparnasianismo, acabaram por criar outra camisa-de-força, pior, na nossa literatura, que nega aos que não se filiam a ela todos os territórios expressivos conquistados após o Modernismo. E esse establishment, e essa deplorável intelligentsia universitária que o sustenta, ainda se dizem ''modernos''. Os parnasianos se entocaram na Academia. Os novos parnasianos, os da máfia concretista, se entocaram nas universidades. O Parnasianismo foi o Concretismo da República Velha positivista. O Concretismo foi o Parnasianismo da ditadura militar. Todos grandes defensores do ''rigor formal'', da ''clareza'' e da ''razão''! Todos muito ''modernos'', essa palavra que não quer dizer absolutamente mais nada! Ora, a Modernidade acabou, e vá feder bem longe. A Modernidade morreu, viva a arte e a literatura! Que os seus fósseis ladrem a sua ladainha decrépita à vontade. Basta de múmias marqueteiras. [...] Fernando Pessoa morreu outro dia, Borges (provavelmente um neoconservador) morreu ontem, e agora a ''verdadeira'' poesia é a dos srs. Bonvicino, Azevedo, Ascher, ou outras covardias pasteurizadas semelhantes, acolitadas pelos srs. Costa Lima, Silviano, Moriconi, Buarque de Hollanda, Sussekind et caterva? Para o inferno! 

Basta! 

Em resumo, basta! Cabe a todos os poetas desse país, especialmente aqueles esquecidos fora das metrópoles, mas sobretudo aqueles que têm algo a dizer, aqueles que sentem a imperiosa necessidade de dizer algo, pois daí nasceu sempre toda a literatura, e não de ludismos formais, mandar todo esse lixo ao espaço, e iniciar com o novo milênio uma nova poesia, que não será nem ''moderna'', nem ''verdadeira'', nem ''legítima'', nem coisa nenhuma, será grande quando o for, e moderna e verdadeira e legítima porque o foi. O espírito sopra quando e onde quer, e para nós há três milênios de riqueza poética às nossas costas, um fabuloso desprezo ao nosso lado e o ilimitado da História à nossa frente! 

Sobre Alexei Bueno 

Alexei Bueno nasceu no Rio de Janeiro em 1963. Publicou, entre outros livros, As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livro de haicais (1989), A decomposição de J. S. Bach (1989), Lucernário (1993 - Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional, e Prêmio da APCA), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Poemas reunidos (1998 - Prêmio Fernando Pessoa), Em sonho (1999), Os resistentes (2001), Gamboa (2002), para a coleção Cantos do Rio, O patrimônio construído (2002, com Augusto Carlos da Silva Teles e Lauro Cavalcanti – Prêmio Jabuti), Glauber Rocha, mais fortes são os poderes do povo! (2003), Poesia reunida (2003 - Prêmio Jabuti, Prêmio da Academia Brasileira de Letras), O século XIX brasileiro na Coleção Fadel (2004), Antologia pornográfica (2004), e A árvore seca (2006). 

Como editor organizou, para a Nova Aguilar, a Obra completa de Augusto dos Anjos (1994), a Obra completa de Mário de Sá-Carneiro (1995), a atualização da Obra completa de Cruz e Sousa (1995), a Obra reunida de Olavo Bilac (1996), a Poesia completa de Jorge de Lima e a Obra completa de Almada Negreiros (1997), a Poesia e prosa completas de Gonçalves Dias (1998), além da nova edição da Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes, no mesmo ano. Publicou, pela Nova Fronteira, uma edição comentada de Os Lusíadas (1993) e Grandes poemas do Romantismo brasileiro (1994). 

Traduziu para o português As quimeras, de Gérard de Nerval, editado pela Topbooks, também com edição portuguesa. Traduziu igualmente poemas de Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros. Em 1998 publicou, pela Lacerda Editores, a primeira edição brasileira, prefaciada e anotada, da História trágico-marítima e uma edição dos Sonetos de Camões, além do ensaio introdutório e fixação do texto da Jerusalém libertada, de Torquato Tasso, pela Topbooks. Em 1999 organizou, com Alberto da Costa e Silva, a Antologia da poesia portuguesa contemporânea _ um panorama, para a Lacerda Editores, e no ano seguinte publicou a edição remodelada e definitiva da História das ruas do Rio, de Brasil Gerson. No ano de 2002 organizou, a convite da UNESCO, a Anthologie de la poésie romantique brésilienne, editada em Paris, e a Correspondência de Alphonsus de Guimaraens, para a Academia Brasileira de Letras. Em 2004 organizou a antologia Poesía brasileira hoxe, para a Editorial Danú, de Santiago de Compostela. Em 2006 organizou e publicou, junto com George Ermakoff, Duelos no serpentário, uma antologia da polêmica intelectual no Brasil. 

Colabora em diversos órgãos de imprensa no Brasil e no exterior, é membro do PEN Clube do Brasil, e foi, de 1999 a 2002, Diretor do INEPAC, Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento. 

"Alexei Bueno é um dos nomes consagrados da literatura brasileira, e da poesia em particular. Polêmico. Suas invectivas contra algumas vanguardas renitentes, poderiam passar a idéia de ser um conservador. Não é. Mesmo cultivando as formas mais tradicionais da poesia, como é o caso do soneto (que se renova ou se repete há séculos), consegue ser contemporâneo.  Ainda que mantenha até as rimas, mas sem pompa e sem afetação. Como no soneto que se destaca na contracapa de AS DESAPARIÇÕES, da G. Ermakoff Casa Editorial (ISBN 978-85-98815-15-2), de 2009, já nas livrarias." A. M. 

"De uma forma ou de outra, com sarcasmo ou ironia, indignação ou humor, violência ou suavidade, e às vezes com ternura extrema — como em "Amor, ainda", por exemplo —, o autor liberta-nos da opacidade cotidiana, oscilando entre a realidade mais chã e o misticismo mais imponderável." Ruy Espinheira Filho 

A Biografia de Alexei Bueno foi capturada em: Antonio Miranda

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