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Poeta e Escritor

RESOLVIDO... (Conto)

Macio e liso como um animal, o mar oferecia relâmpagos longínquos e silenciosos naquela noite dos primeiros frios. O ruído de seus passos parecia-lhe familiar. Obtivera o que buscara e sentia-se indiferente. Sua exigência de felicidade continuava intacta como as árvores do pequeno bosque que acabara de atravessar. Tudo diante dela seguia pulsando vida, sem novidades, vivendo. O mais profundo lhe era razoável. Não carregava remorsos em seu embornal psíquico. Consciente, mas alheia, era melhor. Admitia a beleza da tragédia que proporcionaria vida à nova vida e a paixão morfética calara. Não deixava e nem deixara rastros. O pequeno esgar aflitivo manifesto no momento do tiro, ainda lhe doía nos lábios atacados por uma mordida de seus dentes pontiagudos. Tudo que havia à sua frente era conhecido e estranhamente claro na solidão da noite que lhe devolvia a face do mundo e o sal duma existência inexplorada. Ele quis. Lhe era melhor. E ela o atendera. Todos nos suicidamos. A morte programada está inserida nos cromossomos. Escrevem-se leis que tentam evita-la, inutilmente. Súbita lufada de vento mais frio, obrigou-a parar. Estava, de novo, à beira mar. Este, como todos os caminhos que sempre escolhera, a traziam para perto do mar. Das surpresas do mar, das profilaxias do mar. Os primeiros claros da manhã já toldavam o negror do céu quando abriu a janela de seu apartamento. O cheiro do dia penetrou-lhe às narinas, familiar. Fez um chá na panela suja que não teve saco de limpar, deixada sobre o fogão há dias. Ao tirar os sapatos reparou sua mão executora da sentença, procurando vestígios. Sorriu. Não haviam. Os cremara juntamente com a luva logo após o ato. Marcas incriminatórias do passado não diziam respeito as possíveis investigações. Dores ausentes, arrependimentos nenhum. Apenas fortes recordações do olhar de despedida, afixado nos segundos séculos do som abafado pelo silenciador que Roberto comprara havia mais de um mês e só recebera na véspera. Mônica ergueu a cabeça e exercitou-a em círculos com a mão na nuca. Lembrou parte dos últimos versos que ele balbuciou um pouco antes da execução com voz cancerosa, terminal e um olhar brilhante de certeza e agradecimento. Murmurou uma velha canção italiana – “Sapore di sale, sapore di mare”... – e sem olhar-se no espelho, arrumou os cabelos agradecendo aos céus por ter tido um grande amor infeliz, na vida. Precisava dormir para ser acordada pela realidade burocrática que a esperava quando o corpo fosse encontrado. A luminosidade tornara-se por demais intensa para seus olhos insones. Dirigiu-se ao patamar de entrada do prédio e, de pé nos degraus, inspirou o ar puro que encheu seus pulmões como anestésico para o dia em que agora ia mergulhar. De relance observou o apagar duma das últimas estrelas que, já fraquinha, insistia em brilhar entre os telhados da rua. Pairava sobre ela uma suavidade amarga. Cumprira o pacto. Mesmo sem ter chovido, o chão úmido exibia algumas poças com arco-íris. Como num lapso de razão e realidade, lembrou que amanhã teria que comparecer e responder questionamentos durante a apresentação final de sua tese na universidade. Preocupou-se. Passava das três da tarde daquele mesmo dia quando a campainha soou nervosa como era previsto e vizinhos acompanhados de policiais soturnos, lhe deram a notícia: - “Temos o doloroso dever de lhe comunicar que seu noivo Roberto, ao que tudo indica, cometeu suicídio”!   

                                                                                                                                                             Paolo Lim 

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