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Repto

Repto

 J. A. Medeiros da Luz

 

Disseram-me: — basta

De escrever tolices, de aí ficar

A suspirar em versos.

Coisas que — sem nexo —

Só se dizem quando se nos foge

O cogitar correto,

Naqueles longos e fuscos e desfinitos

Corredores de hospital de loucos!

 

Disseram-me: — basta

Ó seu grande tonto,

A remirar o colorido basto

Dumas borboletas a lamber camélias;

Basta de forçar, não raro,

A prosódia casta em prol do metro.

Ou, ir ao contrário daquele batráquio

— Exímio parnasiano, cururu embora —

Do senhor Bandeira, o qual assaz soía

Deglutir hiatos, fecundar o charco

Com sonantes versos (já de oiro e jade),

Plenos a valer e de

Mil cavalgamentos e de

Rutilantes cesuras e de rimas raras!

 

Disseram-me cruamente: — basta!

Vá cuidar da vida, fazer coisa útil;

Vá ganhar dinheiro, vá ver se consegue

— Lá no pasto vasto —

Plantar um roçado e enchê-lo ao menos

De talos de palmo, de mudinhas mil

De amoreiras, de pés de mandioca!

— Basta: vá plantar batatas;

Chega de tolices, vá ganhar a vida

E (num paroxismo) investir na bolsa.

 

Vá, deixe o miocárdio trabalhar com gosto,

Agregando ao mundo muitas vezes mais

Que ficar assim a palpitar solene

Isso de mil afetos e de mais amores...

 

Disseram-me, mesmo: — basta!

E quem não mo disse assim francamente

Pensou lá com os seus botões da alma:

— Meu chapa, meu tolinho: basta!

 

Ouro Preto, 17 de maio de 2019.

Do livro: Vielas Enoitecidas, a sair pela Jornada Lúcida Editora.

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Comentários

  • OURO BABPEAPAZ

    Palavrinhas como Chega! Basta! são interjeições animadoras para mim.

    Creio que seja para qualquer Poeta também.

    Afinal cada um é dotado de diferentes talentos para que todos sejam úteis e necessários nessa terra.

    Adorável poema.

    • Cara amiga Margarida:

      Você tem razão: a interposição de obstáculos pelo "main stream" sempre acaba nos motivando, até pelo gosto de pormos a ortodoxia obtusa  em seu devido lugar. Mas há perigos em arrostamento tão assimétrico, e não é necessário encadear exemplos.

      Aliás, esse "deslocamento" foi limpidamente mostrado pelo velho Alexandre Herculano,  quando diz do estranhamento do povo ao comportamento de seu "Eurico, o Presbítero" : 

      "O povo rude de Carteia não podia entender esta vida de exceção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites." 

      E, eu e outros, cá do chão-de-fábrica, não precisamos ser efetivamente poetas para batermos com o peito contra as cordas e arames farpados dessa mesquinharia de limites.

       

      Abraço e obrigado pela felicitação;

      j. a.

    • OURO BABPEAPAZ

      Sou eu quem agradece tão belo e elucidativo comentário.

      Um grande abraço.

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