DIAMANTE BABPEAPAZ

Os Ombros Suportam o Mundo

Os Ombros Suportam o Mundo 

5234450498?profile=RESIZE_400xChega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

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Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

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Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

5234450498?profile=RESIZE_400xCarlos Drummond de Andrade

fonte:https://www.pensador.com/textos_diversos_carlos_drummond/

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Comentários

  • DIAMANTE BABPEAPAZ

    Expressivo poema.

    O uso da figura de linguagem (de construção) denominada Anáfora, enriquece a primeira estrofe, com a repetição proposital de determinadas palavras, no intuito de valorizar o que se pretende expor.

    Na segunda estrofe, o eu-poético dialoga com um interlocutor, e, confesso que nesse momento relembro o poema antológico "E agora, José?"

    O verbo "chegar" abre e encerra o poema. No início, "Chega um tempo", de forma um tanto quanto trágica; e, ao final, o eu-poético rende-se ao fato de que nada se pode fazer depois que "Chegou um tempo". Interessante, muito interessante...

    Grata, pela partilha, querida amiga Patrizia.

  • Drummond passou algum tempo escrevendo poemas desencantados, como: "Meu coração não é maior que o mundo." Depois, o Poeta escreveu coisas muito mais belas.

  • Um dia tomaremos consciência de que nossos ombros suportam mundos, pequenos mundos que pesam menos que uma mão de criança. O que importa é que tomemos consciência. Belo poema de meu poeta preferido, Carlos Drummond de Andrade. 

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