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O Pai (Conto ou Prosa)

 

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O Pai (Conto ou Prosa)

 O Pai acorda precocemente de madrugada mesma posição em que adormeceu, desmaiou. Vira-se na cama de lado esquerdo para direito, direito para esquerdo. O corpo tem tremuras em toda extensão, espontâneas e aparentemente epiléticas.

Retira do rosto a máscara facial que usa juntamente com o CPAP (equipamento para portadores de apneias severas)

Minutos percorrem a agonia e enfim levanta-se e sentado diz “Graças a Deus” embora se defina como Ateu. Não segue e sequer tem fé em religiões. Profere orações próprias improvisadas sem referir-se a algum Deus, como se fosse uma meditação pessoal.

O aparelho de medir pressão está na poltrona ao lado da cama. Mede a pressão, recomendação médica. Caso com pressão alta eventual na faixa de 18x12 absorve 2 comprimidos de Captopril 25 mg sublingual, um SOS. Logo baixa a pressão, o Pai toma medicamentos de uso contínuo: 4 remédios para pressão e coração (7 comprimidos), 2 remédios para depressão e Distúrbio Bipolar (6 comprimidos).

Na cozinha coa um café forte, garrafa térmica cheia para beber até a metade do dia, vício e hábito. Degustou a primeira caneca de café e, e, ainda sente horrores de mal-estar na cabeça, sensação de que pode desmaiar.

Depois de melhoras!!!

O Pai separa os comprimidos do Filho. Clozapina e Sertralina.

 

"Nota do Pai: Clozapina é medicamento Top de Linha prescrito para esquizofrenia"

Na sala recolhe pratos e talheres e embalagens vazias da mesinha de centro usadas por seu Filho que usualmente dorme na poltrona com coberta e ventilador alta velocidade durante todos os dias, esteja frio ou calor. Por toda a sala muitos pedaços de alimentos espalhados pelo piso, agarrados e melados nas cortinas, por sobre os móveis, embaixo das poltronas.

 O Filho não executa nenhum trabalho de limpeza doméstica e, e não é portador de deficiências físicas.

 

“O Pai prende-se ao dever altruísta de cuidador com um mix de frustração e vontade de fugir”

“Um doente cuidar de outro doente são sacrifícios sem adjetivos”

“Perca tudo na vida, menos a cabeça e capacidade de racionar nos limites da vida”

 

"Vive-se sem membros, há proteses 3D, para a cabeça, não"

 

O Filho separa um pedaço de tudo que come e lança, qualquer direção, no ambiente em que está presente, claro. Pedaços de carnes, legumes, doces (chocolate em barra, balas mastigadas, salgadinhos de milho, empada, hamburguer, pão, enfim qualquer alimento).

Os tempos e idades mexem com nossas curiosidades. Bem, o Pai é idoso.

O Filho em crise não fica sozinho em qualquer cômodo da casa. Permanece ao lado do Pai todo o tempo. Pai no banheiro, filho ao lado, Pai cozinhando, o filho junto, Pai no terraço lavando roupas, o filho...também. O Pai dormindo, o filho agarrado ao Pai.

E em ambientes fora do lar. O Pai em consulta médica com o Urologista (Próstata), o filho também ao lado, a sombra, ou em qualquer médico especialista.

“É desgastante um ser humano ter uma sombra ao seu lado”

O Filho tem diagnóstico principal e faz tratamento, mas, sofre também de TOC gravíssimo (Transtorno Obsessivo Compulsivo) a começar por jogar tudo o que ingere com alimentos, lançar um pedaço no chão ou paredes.

Portas, portão, interruptores, gavetas, tomadas, tudo que fecha e abre ou liga e desliga ele, o Filho, repete a operação inúmeras vezes.

Liga e desliga a luz cerca de 15 vezes, abre e fecha a porta da geladeira cerca de 5 vezes, e o, micro-ondas. Chaves de portas, fecha e abre, sabemos lá quantas vezes, mais, são muitas vezes. A Casa e os equipamentos são gastos com males uso e traz prejuízos.

O Filho no comércio de rua, ao lado o Pai, compra inúmeras bugigangas, atitude doentia antes de ser hábito ou hobby.

Coleciona medalhas, relógios de ambulantes, CD’s, anéis masculinos e femininos, cordões, pulseiras. (compra e nada usa, troféu)

De plástico: pratos, canecas, talheres, brinquedos infantis, enfim: bonés, camisas de futebol, cuecas (não usa) meias, grampos, clips, chaves de automóveis, pregos, despertadores com defeito (pela compra nada usa)

Coleciona doces e bolachas arrumados impecavelmente. Caixas de bombom, chocolates de toda sorte sortidas, balas diversas, chicletes, dropes... São caixas cheias de guloseimas.

Quando a validade vence o Pai recolhe e joga no lixo.

O Filho, apesar de, tem preferencias pessoais. Entende as regras de muitos esportes. Até Rúgbi de sete. Houve músicas e decora as letras com facilidade, samba, pagode e sertanejo, os ritmos preferidos, mas, ouve todos os gêneros musicais. Tem um QI acima da média.

O Pai já fora no passado Diretor Financeiro. Classe média alta, família de poder aquisitivo consumista, gozava de excelentes imóveis, bairros luxuosos, carros, hotéis 10 estrelas, jantares, Europa, New York, bom vinho, linda esposa-mulher e título de Miss na juventude, 4 filhas realizadas profissionalmente com cursos superiores, doutorados, viviam como nobre, duque, respeitado. Hobby. Tênis, Xadrez.

A herança lhe saldou com o analfabetismo social e o atual Filho homem dependente virgem.

Aposentado em desgraça perdeu tudo. Bebidas, jogos, bolsa de valores.

Renda beirando a indigência percebe restos de esmolas e, e sobrevive.

Desdentado, o Pai, sente no corpo anestesiado pela desgraça, a falta dos dentes esmaltados brancos, orgulho de outrora em conquistas.

De suas mãos fugiram o computador, tablet, celular e Wi-Fi. Esqueceu-se do básico, planilhas de Excel, Word, Mãe, Pai, irmãos, Mulher, Filhas e TV a cabo. Restou a Televisão TV aberta.

 

“A queda do padrão de vida, um vilão para a depressão e suicídio”

 

Álibi suspeito, o Pai, escreve versos no verso de panfletos acomodados, arrumados por ordem de data cronológica na gaveta de móvel.

O tempo (Poema)

 

“O tempo impiedoso

Velocidade da luz

Em tempos de felicidades

Como raios passam

 

O tempo impiedoso

Velocidade da cruz

Em tempos de inutilidades

Como amebas rasgam”

Fim 

ADFF

 

História real. Atual.

 

“O Pai personagem como pseudônimo do texto”

 

Continua.........as rotinas nas retinas........sem adjetivar...........

Antonio Domingos Ferreira Filho

15 de setembro de 2019

 

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Comentários

  • OURO BABPEAPAZ

    Amigo A.Domingos,

    Deve haver uma boa e explicável razão para sofrermos, perdermos, sermos abandonados, sermos roubados, lesados de qualquer ordem, humilhados, traídos...

    É... eu disse nós.

    Eu acredito na Lei de Causa e Efeito. Acredito na reencarnação.

    Então, não entendemos agora. É muito injusto. É demais... É imerecido...

    Daqui mais um pouco... entenderemos.

    Paciência e resistência. Vai passar. Tudo passa...

    • Resiliente com sua manifestação otimista,mesmo quando dizes,da incompreensão de tais sofrimentos de hoje.Tudo vai passar e amanhã será um dia novo, e orações são os meus mantras.Contente em saber que acreditas na reencarnação.Esteja bem e feliz hoje.

      Obrigado, Abraços , de Antonio

  • 1947023637?profile=RESIZE_710x

    • Muito Grato por ler e comentar. Um incentivo para este Poeta/Escritor amador.

      Prezada amiga Poetisa Francisca

      Esta minha história é verdadeira, tem um pouco de ficção. Sou cuidador de meu filho Fabrício portador de Esquizofrania e TOC com irregular severidade.

      Moramos eu e ele, sozinhos, em Pindamonhangab, Vale do Paraíba. Nascidos no Rio de Janeiro, vez em quando, viajo para lá, onde residem todos os meus familiares.

      Vida que segue um dia de cada vez.

      Abraços

      Antonio Domingos

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