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Poeta e Escritor

O NATAL, OS EVANGELHOS E A CRENÇA DE CADA UM

                                                                                      PARA ELIETH TAVARES DE CASTRO

       Aconteceu há 2 mil anos, história mais que conhecida. O mundo ocidental, ferozmente capitalista se regozija com a data. Em nenhuma outra se vende tanto. Porém, abstraindo o lado pragmático e utilitarista com que é comemorada, pode-se perceber notável mudança no clima que permeia as relações entre pessoas: a inclinação para ofertar, doar. Não apenas presentes, bens materiais, mais valioso que isso o presente da presença, do abraço, da palavra esquecida no cotidiano, do incentivo, da disposição para ajudar, levantar, encaminhar. Tornamo-nos mais gregários, afetuosos, amorosos mesmo. Mais humanos, enfim. E por isso, ou só por isso, vale o Natal. Dezembro é mágico.

       O Evangelho mais antigo, o de Marcos, foi escrito cerca de 40 anos depois da morte de Jesus. Os de Mateus e Lucas entre os anos 80 e 90, o de João, último dos canônicos, entre 90 e 100. Os três primeiros, que compartilham uma visão humana de Jesus, são chamados de sinópticos. O de João nos mostra Jesus não como “filho de Deus” ou “messias”, mas como o próprio Deus. Elevou o galardão espiritual de Jesus e passou por consequência a moldar e limitar o dogma cristão da fé.

       Nos primeiros anos do cristianismo aconteceram disputas entre líderes religiosos e seus grupos dogmáticos, cada qual defendendo sua verdade a respeito de Jesus. Em 325, o imperador Constantino, recém-convertido ao cristianismo, visando estabelecer aliança com os principais líderes da nova religião, convocou um concílio internacional na cidade de Nicéia, no litoral da Turquia. Esse concílio estabeleceu as bases para o cânone do Novo Testamento com a inclusão dos evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João e a exclusão de inúmeros outros textos que foram considerados “hereges”.   

       Porém, em 1945, textos contendo relatos, rituais e diálogos atribuídos a Jesus e seus discípulos foram descobertos em um esconderijo perto de Nag Hammadi, no alto Egito. Têm o nome de Evangelho de Tomé e estudos acadêmicos comprovam que foram escritos no século I, na mesma época em que foi escrito o Evangelho de João. Há historiadores que acreditam que aquilo que João escreveu foi para refutar o que Tomé ensinava. E qual é a divergência básica entre os dois?

       Em essência João afirma que Jesus não é apenas um servo de Deus, mas o próprio Deus, revelado em forma humana. Que somente Jesus oferece acesso a Deus, que é preciso crer em Jesus, seguir Jesus, obedecer a Jesus e reconhecer só a ele. Declara o Jesus de João: “morrereis em vossos pecados se não crerdes que eu sou ele”. E ainda:  “Eu sou a luz do mundo” e “quem não me segue andará em trevas”. O Jesus de João (consideração minha) é uma luz exterior, que brilha lá fora sobre a qual devemos firmar a vista e caminhar segundo nos direciona. Talvez com algum laivo de autoritarismo.

       Por outro lado, O Jesus de Tomé é uma luz que brilha em tudo o que vemos e tocamos. Assim fala Jesus, segundo Tomé: “Eu sou a luz que está sobre todas as coisas. Eu sou o todo. De mim surgiu o todo e a mim o todo se estende. Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai uma pedra e me encontrareis lá.” Diz mais: “O reino está dentro de vós e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, sereis conhecidos e compreendereis que sois vós os filhos do Pai vivo. Mas se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza.” Orienta ainda o Jesus de Tomé que os discípulos busquem a luz oculta em cada pessoa: “Há luz no interior do homem de luz, e ilumina o universo inteiro. Se ela não brilha há escuridão.” Ainda mais: “aquele que busca, que continue buscando até encontrar. Quando encontrar, ele se perturbará. Ao se perturbar, ficará maravilhado.” E para finalizar este resumo sobre o Evangelho de Tomé: “Pois quem não conheceu a si mesmo não conhece nada, mas quem se conheceu veio a conhecer simultaneamente a profundidade de todas as coisas.”

       O Jesus de Tomé é uma luz que brilha no universo todo e por consequência dentro de cada ser humano e podemos alcançá-lo pela inspiração, intuição. Seria aquela voz que se faz ouvir no mais recôndito da alma nos direcionando para a atitude correta, para o caminho do bem.

       Estaria o mundo primitivo daqueles primórdios do cristianismo preparado para o Evangelho de Tomé, ou não teria caído como uma luva o de João, mais assertivo e objetivo? Não estaria o mundo contemporâneo preparado para receber as luzes dos ensinamentos de Tomé no exato momento em que findava a segunda guerra mundial?

       Para terminar, lembro que a palavra grega para “fé” é usada da mesma forma como “crença”, mas devemos lembrar que fé geralmente inclui a crença, mas é muito mais que isso: é a confiança total que adquirimos e que nos permite nos comprometer com aquilo que é objeto desse sentimento.

       Minha fé está forjada na premissa básica de meu viver: busco o autoconhecimento e encontrar no âmago do meu ser a divindade que está presente em todo o universo. Disse o Jesus de Tomé: “procura, que encontrarás”. 

 

                                                                                    N.C. GONÇALVES, 06/12/2018, BABPEAPAZ

                                                                                                   Imagem: Google

 

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Comentários

  • Comentarista

    Sr Nilson,

     

    Eu agradeço pela linda reflexão a mim dirigida .,fiquei muito feliz,,de vc ter lembrado, em uma data tão linda.e tão comemorativa ,obrigada amigo

    Por isso amigo. devemos  refletir um instante o que significa Jesus ter vindo até nós..

    Um espírito de incomensurável desenvolvimento moral e intelectual, “guia e modelo da Humanidade”, no ensino dos espíritos superiores, consoante a questão 625 de O Livro dos Espíritos e que deixa as inimagináveis vibrações celestiais para estar conosco, encarnando no planeta que dirige, como Governador Espiritual, nos exemplificando a todo instante Amor, Tolerância, Paciência, Caridade, Perdão..

    Um Feliz Natal !!! que nossos  amigos  de luz abenções vc e sua familia com muita saúde ,paz,alegria e  felicidade.;um abraço fraterno 

  • Artista Digital Adm

    Gostei muito de sua exposição, Nilson.

    Dezembro é mágico e os ensinamentos evangélicos também.

    Creio que o mundo nunca está preparado o suficiente para o entendimento: "Vós sois Deuses."

    A religião ajuda e atrapalha também. Elas não são livres de dogmas.

    Busquemos a evolução própria com aprendizado constante, conhecimentos e abertura de raciocínio.

    Abraços natalinos.

     

  • Poetisa e Escritora

  • Poetisa e Escritora

    Uma dissertação bastante objetiva e esclarecedora, cujos tópicos expostos remetem o leitor uma reflexão através do tempo.

    De facto o mês de Dezembro tem uma magia que até mesmo no mover da natureza podemos constatar.

    Tudo cheira diferente, tudo tem cores e nuanças diferenciadas, penso que o motivo é justamente à junção do lado místico e o efeito em nossa espiritualidade. 

    O nascimento do Mestre foi um divisor d'água, mudando à maneira de estar da humanidade para sempre.

    Um marco iniciado no natalício 

    Desde então para quem acredita ou não sempre está uma saída,  Um colo e ombro amigo à disposição,  ouvidos atentos e um olhar amoroso em qualquer instante para qualquer um que busque e queira.

    Amo o Natal pelo motivo do balanço que faço em minha vida de mais um ano vencido .

    Sinto gratidão até pelas derrotas pois delas me fortaleço.

    Esse é o sentimento mais latente em mim: À gratidão. 

    Desculpe me ter excedido no comentário,  confesso que ficaria horas conversando com você esse tema tão rico e tão bem explanado.

    • Poeta e Escritor

      Caríssima Ronilda, sinto-me feliz e honrado com sua presença e seu precioso comentário. Dezembro traz sempre a mim um inefável sentimento de união e comunhão com as pessoas. Desejo um feliz Natal com muitas alegrias junto aos seus queridos. 

  • Poeta e Escritor

  • Top Comentarista

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