Apenas com um tiro de balestra

Apenas com um tiro de balestra

 — J. A. Medeiros da Luz

 

Eis que a seta da besta alveja a besta,

Após riscar — a 70 metros por segundo —

O fino ar montês.

E, distando muito,  a ocidente, de Alcácer-Quibir,

O agigantado líder, inebriado em sonhos de grandeza,

Mostrando seus molares no esgar,

Vê-se poderosíssimo, ao perceber

O lacrimal de sangue, que percorre

Toda a ilharga da vítima,

A arfejar sobre a areia alvinitente

Daquele condado ímpar,

Onde — vejam só! — as rãs crocitam e,

Do alto das frondes rutilantes,

As águias coaxam — rodeadas

De nuvens de moscas de olhos azuis, azuis.

 

Ouro Preto, 15 de janeiro de 2020.

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Comentários

  • 3543773272?profile=RESIZE_710x

    • Obrigado cara Menduiña:

      Devo dizer-lhe que este poemeto, sob as condições normais da coletividade, seria reputado como um tanto estranho — até pelo autor... No substrato atual dos acontecimentos, entretanto, com suas luzes oblíquas, quero crer que adquire umas texturas que normalmente não se revelariam. Abraço. j. a.

  • Pessoal:

    Ao contrário da discrepante convicção de meus ingênuos tempos de juventude, vejo hoje que, muitas vezes, o surrealismo descreve melhor a realidade. Que coisa, não?

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